===== OBRA ===== gr. ἔργον ([[lexico:e:ergon:start|ergon]]); v. [[lexico:e:erga:start|erga]] Pela [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] específica, cada [[lexico:c:coisa:start|coisa]] produz [[lexico:b:bem:start|Bem]] os seus produtos. Quando infectados pela perversão (κακία) desvirtuadora, esses produtos são [[lexico:m:mal:start|mal]] [República, 353c] produzidos. O [[lexico:s:sentido:start|sentido]] do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] (ἔργον ) é [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao que nós entendemos por [[lexico:f:funcao:start|função]]. É por qualquer coisa [[lexico:t:ter:start|ter]] uma determinada função que ela pode [[lexico:e:estar:start|estar]] ou [[lexico:n:nao:start|não]] em funcionamento, que pode estar a funcionar bem ou mal, ou de [[lexico:t:todo:start|todo]] em todo fora de funcionamento. Esta [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] de facto resulta da [[lexico:p:presenca:start|presença]] eficaz e efetiva da excelência (ἀρετή ) ou da perversão (κακία ) num determinado [[lexico:e:ente:start|ente]], do [[lexico:e:efeito:start|efeito]] que ambas fazem surtir sobre o ente a que dizem [[lexico:r:respeito:start|respeito]]. Uma permite a qualquer coisa o [[lexico:b:bom:start|Bom]] desempenho das funções que lhe competem. A outra, pela sua [[lexico:a:acao:start|ação]], estraga, desfaz, desvirtua e perverte o trabalho (ἔργον) de cada ente . A «[[lexico:p:privacao:start|privação]] da excelência» [Rep., 353c9 e 353e2] não acaba com um determinado ente. Não faz que ele deixe, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], de estar disponível aí no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. O que acontece é que o seu trabalho específico é levado a cabo de uma [[lexico:f:forma:start|forma]] deficiente [Rep., 353c9-10]. O trabalho (ἔργον) continua a produzir-se, mas não segundo um desempenho competente das linhas de produção ou de uma colaboração optimizada dos coeficientes de produção. Não as desempenhando bem, ou até, na pior das [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]], deteriorando-se com o seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] funcionamento [v. erga]. Pode acontecer que um [[lexico:p:produto:start|produto]] danifique os próprios fatores de produção. Quando não se perde de vista este εἶδος do trabalho (ἔργον) específico de qualquer coisa, podemos dar [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do que nele se manifesta estruturalmente: «o trabalho de cada coisa é o que produz algo somente, ou o que o produz o melhor [[lexico:p:possivel:start|possível]]». Podemos obter assim uma maior [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] sobre o sentido procurado da excelência (ἀρετή). «Há uma excelência para cada coisa à qual se prescreve uma determinada função.» [Rep., 353b] A excelência é a realização plena de uma determinada potencialidade que pode ficar para sempre inativa. A concretização dessa [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] leva a um completo e [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] desdobramento e a uma [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do [[lexico:s:ser:start|ser]] em que cada coisa se encontra desde sempre implicada e do qual depende para ser aquilo mesmo que é. Há, assim, por exemplo, uma possibilidade que os olhos realizam [Rep., 353b4], isto é, um determinado trabalho. Essa função pode ser realizada de forma excelente. [[lexico:v:ver:start|ver]] bem é a forma como os olhos desenvolvem a sua excelência (ἀρετή). Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] os ouvidos detêm uma determinada função e um modo de a executar excelentemente. Ouvir e ouvir bem são duas situações de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] ao [[lexico:c:campo:start|campo]] acústico completa e radicalmente diferentes. A excelência (ἀρετή) é, por conseguinte, a realização [[lexico:m:maxima:start|máxima]] e excelente da possibilidade que todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] detêm para executar um determinado trabalho (ἔργον). Mas pode também dar-se o caso de o trabalho (ἔργον) de cada coisa não ser produzido, o que sucede quando as coisas não dispõem da sua «excelência peculiar» (οἰκεῖα ἀρετή ). O trabalho (ἔργον) dos olhos ou dos ouvidos pode não ser bem produzido se, em vez da sua excelência (ἀρετή), for a perversão (κακία) a estar presente neles. Nessa altura, haveria uma má [[lexico:v:visao:start|visão]] ou [[lexico:a:audicao:start|audição]] ou, no caso [[lexico:e:extremo:start|extremo]], respectivamente, as mais completas cegueira [Rep., 353c3] e surdez. O mesmo se passando com todos os entes tomados em consideração [Rep., 353d1 e 353b12. Os instrumentos de corte podem não cortar, as casas podem não ser habitáveis, os cavalos podem, consoante o caso, não correr velozmente e os cães podem não ser bons para a caça ou para a guarda da casa, etc.]. Tudo pode realizar a sua possibilidade extrema. Tudo, no entanto, pode também ficar sem ela. [CaeiroArete:36-38] A obra é a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] correspondente à não-naturalidade da [[lexico:e:existencia:start|existência]] humana, que não está engastada no sempre-recorrente ciclo vital da [[lexico:e:especie:start|espécie]] e cuja mortalidade não é compensada por este [[lexico:u:ultimo:start|último]]. A obra proporciona um mundo “artificial” de coisas, nitidamente diferente de qualquer [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] [[lexico:n:natural:start|natural]]. Dentro de suas fronteiras é abrigada cada [[lexico:v:vida:start|vida]] individual, embora [[lexico:e:esse:start|esse]] mundo se destine a sobreviver e a transcender todas elas. A [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]] da obra é a mundanidade . A [[lexico:l:lingua:start|língua]] grega não faz [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre “obras” e “feitos”, mas chama-os de erga quando são duráveis o bastante para subsistirem e grandiosos o bastante para serem lembrados. Foi somente quando os filósofos, ou melhor, os [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]], começaram a fazer suas “distinções intermináveis” e a distinguir fazer de agir ([[lexico:p:poiein:start|poiein]] e prattein) que os substantivos poimata e [[lexico:p:pragmata:start|pragmata]] passaram a ser usados mais largamente (Cf. [[lexico:p:platao:start|Platão]], [[lexico:c:carmides:start|Cármides]], 163). Homero ainda não conhece a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] pragmata, que em Platão (ta ton anthropon pragmata) é mais bem traduzida como “negócios humanos” e tem a [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] de inquietação e futilidade. Em Heródoto, pragmata pode ter a mesma conotação (cf., por exemplo, i. 155). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}