===== OBJETO E IDEOLOGIA ===== "[[lexico:i:ideologia|ideologia]]" significa: a estruturação do que existe na [[lexico:a:aparencia|aparência]]. O [[lexico:o:objeto|objeto]], como pura aparência, é o que nos "une" ao [[lexico:s:sistema|sistema]] ideológico fundamentador do quotidiano. Um detalhamento da [[lexico:c:constituicao|constituição]] do sistema de objetos do quotidiano pode [[lexico:s:ser|ser]] visto no artigo já citado; passemos, no entanto, por cima desta [[lexico:a:analise|análise]] e consideremos rapidamente a [[lexico:q:questao|questão]] da [[lexico:h:historicidade|historicidade]] do sistema de objetos. Conforme foi visto (em [[lexico:l:logica|lógica]] e [[lexico:l:linguagem|linguagem]]), a [[lexico:n:nocao|noção]] de "[[lexico:s:sentido|sentido]]" equivale à noção de "[[lexico:c:comunicacao|comunicação]]", desde que o sentido só é revelável através da linguagem. A ideologia é uma certa [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]] que "herdamos", e cujo sentido nos é [[lexico:d:dado|dado]] através da linguagem. A linguagem nos abre a [[lexico:e:experiencia|experiência]] do [[lexico:h:historico|histórico]], da coisa-feita-por-outros-que-não-eu. Com maior detalhe: uma [[lexico:t:teoria|teoria]] da [[lexico:h:historia|história]] pretende "reconstruir" o passado, para compará-lo ao presente e desenvolver análises em [[lexico:c:consequencia|consequência]]. "Reconstruir" o passado significa reconstruir o [[lexico:m:mundo|mundo]] dentro do qual viviam os homens "daquele [[lexico:t:tempo|tempo]]". É preciso, portanto, encontrar um "sentido comum" entre o tempo passado e nosso tempo. Este sentido comum existe dentro da linguagem, que compartilhamos com o passado enquanto homens. [[lexico:p:parte|parte]] de nossa "herança" do passado será o sistema ideológico dentro do qual vivemos. E que se manifesta em nosso quotidiano através dos objetos. De que maneira é esta [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do ideológico em nosso mundo? Morre o marido de minha tia, que foi [[lexico:p:pessoa|pessoa]] de certa [[lexico:p:projecao|projeção]]. Ela proíbe que toquem ou mexam nos seus papéis e livros; "fica tudo como ele deixou". Com este gesto, minha tia pretende sustentar a "lembrança" dos "tempos felizes" de seu [[lexico:c:casamento|casamento]]. Mas por que foi feliz o casamento de minha tia? Porque, ao lado de meu tio, ela "foi pessoa de projeção; "conservou o nível de seu nascimento" e transmitiu este nível "através de [[lexico:e:educacao|educação]] adequada" a seus filhos. O escritório que [[lexico:a:agora|agora]] ela pretende conservar intacto é a [[lexico:p:presenca|presença]] concreta, intramundana, da ideologia que deu e dá sentido à sua [[lexico:v:vida|vida]]. Destruí-lo significa destruir este sentido. A "exterioridade" da ideologia está, portanto, relacionada à sua historicidade: se pergunto pelo [[lexico:m:motivo|motivo]] da [[lexico:d:devocao|devoção]] que minha tia mantém pelo marido morto, ela me respondera — indiretamente revelando o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] historial de seu gesto — "porque é assim que sempre foi, e assim que deve ser". Outros problemas. Analíticas do objeto podem servir para o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] de uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]] para a [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]] (como está [[lexico:i:implicito|implícito]] nas presentes considerações), mas também podem fundamentar uma [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]]. Uma "[[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:n:natural|natural]]" teria seu início no gesto [[lexico:a:apofantico|apofântico]] que destrói a [[lexico:u:utilidade|utilidade]] de um [[lexico:i:instrumento|instrumento]], e o revela como [[lexico:c:coisa|coisa]], como [[lexico:e:ente|ente]], como "[[lexico:m:materia|matéria]]" ou "[[lexico:f:forma|forma]]". No entanto, ainda é cedo para expormos aqui as [[lexico:i:ideias|ideias]] a [[lexico:r:respeito|respeito]]. Basta que se assinale que, nesta epistemologia, as "[[lexico:c:ciencias-humanas|ciências humanas]]" são teorias do objeto, isto é, descrições de ontologias regionais do sistema ideológico, enquanto as "ciências naturais" são teorias da coisa. (Francisco Doria - [[lexico:d:dcc|DCC]])