===== OBJETIVO ===== (in. Objective; fr. Objectif; al. Objektiv; it. Obbiettivó). 1. O mesmo que [[lexico:o:objeto|objeto]], quando a [[lexico:p:palavra|palavra]] é adotada no [[lexico:s:sentido|sentido]] de [[lexico:f:fim|fim]] ou meta. 2. No sentido específico proposto por [[lexico:m:meinong|Meinong]], é p objeto do [[lexico:j:juizo|juízo]], distinto do objeto da [[lexico:r:representacao|representação]]. P. ex., quando se diz: "É [[lexico:v:verdade|verdade]] que existem antípodas", o objetivo é constituído por "que existem antípodas". O objetivo [[lexico:n:nao|não]] é necessariamente existente. Se A não é, o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] de A é um objetivo tanto quanto o [[lexico:s:ser|ser]] de A (Über Annahmen, 1902, pp. 142 ss.). (in. Objective; fr. Objectif; al. Objektiv; it. Oggettivó). O que existe como objeto, tem um objeto ou pertence a um objeto. Este [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] tem, à primeira vista, mais significados que o substantivo correspondente, visto que, [[lexico:a:alem|além]] dos significados ligados a este [[lexico:u:ultimo|último]], serviu para significar: [[lexico:o:o-que-e|o que é]] válido para todos, o que é [[lexico:e:externo|externo]] em [[lexico:r:relacao|relação]] à [[lexico:c:consciencia|consciência]] ou ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]], o que é [[lexico:i:independente|independente]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]], o que está em conformidade com certos métodos ou regras, etc. Tais significados surgiram principalmente da [[lexico:d:determinacao|determinação]] kantiana do objeto de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] como objeto [[lexico:r:real|real]] ou empiricamente [[lexico:d:dado|dado]]. É [[lexico:p:possivel|possível]] enumerar três significados fundamentais desse [[lexico:t:termo|termo]]: 1) o que existe como objeto; 2) o que tem objeto; 3) o que é válido para todos. Os dois últimos estão intimamente ligados entre si e com os outros significados arrolados. 1) O primeiro [[lexico:s:significado|significado]] corresponde ao significado fundamental de objeto: objetivo é aquilo que existe como termo ou [[lexico:l:limite|limite]] de uma [[lexico:o:operacao|operação]] ativa ou passiva. A essa [[lexico:d:definicao|definição]] corresponde em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] o [[lexico:u:uso|uso]] desse termo na última fase da [[lexico:e:escolastica|escolástica]], a partir de Duns Scot, quando foi entendido como o que existe como objeto do [[lexico:i:intelecto|intelecto]], enquanto pensado ou imaginado, sem que isso implique sua [[lexico:e:existencia|existência]] fora do intelecto, na [[lexico:r:realidade|realidade]]. Neste sentido [[lexico:e:esse|esse]] termo era empregado por Scot (De an., 17, 14), por Antônio Andréa (Super artem veterem, 1517, f. 87 r.), por F. Mayron (In Sent., I, d. 47, q. 4) e por Durand de S. Pourçain (In Sent., I, d. 19, q. 5, 7). Walter Burleigh diz: "Embora o [[lexico:u:universal|universal]] não tenha existência fora da [[lexico:a:alma|alma]], como dizem os modernos, não há [[lexico:d:duvida|dúvida]] de que, segundo o parecer de todos, o universal tem existência objetivo no intelecto, visto que o intelecto pode entender o leão universalmente sem entender este leão" (Super artem veterem, 1485, f. 59 r.). "[[lexico:e:existir|existir]] objetivamente" significa, neste caso, existir em [[lexico:f:forma|forma]] de representação ou de [[lexico:i:ideia|ideia]], ou seja, como objeto do pensamento ou da [[lexico:p:percepcao|percepção]]: esse significado reaparece com forma idêntica em [[lexico:d:descartes|Descartes]] (Méd., III, 11), em [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] (Et., I, 30; II, 8 cor., etc.) e em [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] (Siris, § 292). Em todos esses casos, o objetivo não designa o que é real nem o que é [[lexico:i:irreal|irreal]], mas simplesmente o que é objeto do intelecto e pode, numa segunda consideração, revelar-se real ou irreal. 2) Em [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] com a [[lexico:l:limitacao|limitação]] imposta por [[lexico:k:kant|Kant]] ao objeto de conhecimento como objeto "real", há um segundo significado de objetivo, como o que tem por objeto uma realidade empiricamente dada. Neste sentido, Kant afirma que o conhecimento é "objetivo" ou "objetivamente válido". Já em suas distinções terminológicas Kant inclui esse significado: "Uma percepção que se refira unicamente ao sujeito, como modificação de seu [[lexico:e:estado|Estado]], é [[lexico:s:sensacao|sensação]]; uma percepção objetivo é conhecimento. Esta ou é uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] ou um [[lexico:c:conceito|conceito]]. Aquela se refere imediatamente ao objeto e é [[lexico:s:singular|singular]]; este lhe diz [[lexico:r:respeito|respeito]] de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:m:mediato|mediato]], por [[lexico:m:meio|meio]] de uma marca, que pode ser comum a várias [[lexico:c:coisas|coisas]]" (Crít. R. Pura, [[lexico:d:dialetica|Dialética]], livro I, seção I). Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, "[[lexico:v:validade|validade]] objetivo" e "realidade" coincidem. Kant diz: "Nossas considerações ensinam a realidade, ou seja, a validade objetivo do [[lexico:e:espaco|espaço]] em relação a tudo o que podemos defrontar no [[lexico:m:mundo|mundo]] externo como objeto" (Ibid., § 3); e diz analogamente sobre o [[lexico:t:tempo|tempo]]: "Nossas considerações demonstram a realidade empírica do tempo, ou seja, sua validade objetivo em relação a todos os objetos que podem [[lexico:e:estar|estar]] ligados aos nossos sentidos" (Ibid., § 6). Assim, objetivo é o empiricamente real, e para Kant o empiricamente real é [[lexico:p:produto|produto]] de uma [[lexico:s:sintese|síntese]] que, para ser efetuada na consciência comum ou genérica, vale para todos os sujeitos pensantes, e não para um só deles (Prol, § 22). Kant diz: "Os juízos são subjetivos quando as representações se referem apenas a uma consciência em um sujeito e nele se unificam; ou são objetivo quando estão interligados em uma consciência de modo genérico, ou seja, [[lexico:n:necessario|necessário]]" (Ibid., § 22). Essas considerações servem de transição à definição de objetivo feita por Kant no domínio [[lexico:p:pratico|prático]] e [[lexico:s:sentimental|sentimental]], ao chamar de objetivo as leis práticas "que podem ser reconhecidas como válidas pela [[lexico:v:vontade|vontade]] de cada ser [[lexico:r:racional|racional]]" (Crít. R. Prát., § 1), e de "[[lexico:p:principio|princípio]] objetivo" o [[lexico:a:acordo|acordo]] universal no juízo estético (Crít. do Juízo, § 22). 3) Essas considerações de Kant possibilitam uma transição para o [[lexico:t:terceiro|terceiro]] significado fundamental de objetivo, o de "válido para todos". Este significado, muito difundido nas escolas cri-ticistas e idealistas contemporâneas, foi [[lexico:b:bem|Bem]] expresso por Poincaré: "Uma realidade completamente independente do [[lexico:e:espirito|espírito]] que a concebe, a vê ou a sente, é uma [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]]. Se existisse um mundo externo nesse sentido, ele nos seria inacessível. Mas o que chamamos de realidade objetivo é, em última [[lexico:a:analise|análise]], aquilo que é comum a vários seres pensantes e poderia ser comum a todos" (La valeur de la science, 1905, p. 9). Poincaré fazia essas considerações com [[lexico:r:referencia|referência]] à [[lexico:m:matematica|matemática]], mas quase simultaneamente Max [[lexico:w:weber|Weber]] impunha esse mesmo conceito de [[lexico:o:objetividade|objetividade]] à [[lexico:m:metodologia|metodologia]] das [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]], observando que "a verdade científica é válida para todos os que procuram a verdade" e que mesmo nas ciências sociais há resultados que não são subjetivos no sentido de serem válidos para uma só [[lexico:p:pessoa|pessoa]] e não para as outras ("A objetividade nas ciências sociais e na [[lexico:p:politica|política]] [[lexico:s:social|social]]", 1904, em The Methodology of the Social Sciences, 1949, p. 84). Esse [[lexico:t:tipo|tipo]] de objetividade chama-se hoje [[lexico:i:intersubjetividade|intersubjetividade]], e suas condições fundamentais são reconhecidas na [[lexico:p:posse|posse]] e no uso de técnicas especiais que, em dado [[lexico:c:campo|campo]], garantam a comprovação e a aferição dos resultados de uma [[lexico:i:investigacao|investigação]]. Portanto, "válido para todos" significa também "intersubjetivamente válido", ou "em conformidade com um [[lexico:m:metodo|método]] qualificado". A esse mesmo conceito de objetivo ligam-se os significados de "independente do sujeito" e "externo à consciência". O que é objetivo no sentido de ser válido para todos é de [[lexico:f:fato|fato]] independente deste ou daquele sujeito, de suas preferências ou avaliações particulares; por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o [[lexico:u:unico|único]] meio de que o sujeito dispõe para disciplinar ou frear suas preferências e avaliações é recorrer a procedimentos metodológicos qualificados. Finalmente, a [[lexico:e:equivalencia|equivalência]] entre objetivo e [[lexico:e:exterior|exterior]] é a [[lexico:t:transposicao|transposição]] desses mesmos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] para o [[lexico:p:plano|plano]] da [[lexico:l:linguagem|linguagem]] consciencialista em que o uso das [[lexico:p:palavras|palavras]] "externo" e "interno" se justifique de alguma maneira (v. [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]]; realidade). É, literalmente, o que implica relação com o objeto. Em quase todas as suas acepções opõe-se a [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]. Uma vez que "objeto" não é, de maneira nenhuma, sinônimo de "[[lexico:e:ente|ente]] real", também o emprego do termo "objetivo" na acepção de "real" em [[lexico:o:oposicao|oposição]] a "subjetivo" = irreal, só pensado ou representado — apesar de seu uso generalizado — deve ser descartado numa linguagem filosófica que se empenhe em distinguir com [[lexico:p:precisao|precisão]] os conceitos; do mesmo modo, devemos estar de sobreaviso contra o uso excessivo e impensado dos termos "objetivo" e "subjetivo". Pode justificadamente chamar-se objetivo (1) o que é [[lexico:p:proprio|próprio]] do objeto (enquanto tal), o que está no objeto, em oposição ao subjetivo, ao que é próprio do sujeito, ao que está no sujeito (cf. a oposição entre [[lexico:e:evidencia|evidência]] objetiva e evidência subjetiva). O significado filosófico mais importante do termo "objetivo" (2) é: determinado a partir do objeto, fundado no objeto em oposição a "subjetivo" = não fundado no objeto, mas determinado somente por sentimentos ou afirmações arbitrárias do sujeito (cf. a oposição entre [[lexico:c:certeza|certeza]] objetiva e certeza puramente subjetiva). Neste sentido exige-se objetividade para a [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Sem dúvida, esta exigência não deve ser [[lexico:m:mal|mal]] compreendida, [[lexico:c:como-se|como se]] a ciência devesse prescindir de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:v:valor|valor]] do objeto e considerá-lo quase como se ele não nos dissesse respeito; [[lexico:s:semelhante|semelhante]] pretensão brota do [[lexico:f:falso|falso]] [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] de que o valor é algo irreal, atribuído ao objeto unicamente em [[lexico:v:virtude|virtude]] do [[lexico:s:sentimento|sentimento]]. Por isso, objetividade não designa também um [[lexico:p:pensar|pensar]] ou investigar destituído de [[lexico:i:interesse|interesse]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]]. Outro sentido de "objetivo" (3) aparece quando são denominados objetivos os atos intencionais, na [[lexico:m:medida|medida]] em que se referem ao objeto; subjetivos, pelo contrário, na medida em que são atos (acidentes) do sujeito. Assim, o conceito objetivo (melhor: o conceito objetivamente considerado) é o conceito enquanto [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de um objeto pelo conteúdo mental nele incluído; o conceito subjetivo (conceito subjetivamente considerado) é o conceito como [[lexico:a:ato|ato]] real do pensamento do sujeito. Se já aqui o subjetivo é o real, em oposição ao objetivo como representação referida ao objeto, com maior [[lexico:r:razao|razão]] isto ocorre na acepção antiga dos termos "objetivo" (4) e "subjetivo" dentro da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] escolástica, acepção esta baseada em que não só se denomina sujeito o portador de atos intencionais, como também todo ente em si existente. Sendo assim, existir subjetivamente quer dizer existir realmente em si; existir objetivamente (só objetivamente) quer dizer existir (só) como objeto pensado (mas não em si); assim, p. ex., o [[lexico:e:ente-de-razao|ente de razão]] é definido como o que só tem existência objetiva na [[lexico:m:mente|mente]]. Este significado contrapõe-se abertamente ao sentido abusivo a que ao princípio aludimos. — Uma vez que no [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] epistemológico (p. ex., no [[lexico:c:criticismo|criticismo]] de Kant) o objeto não pode contrapor-se aos conteúdos do pensamento, só é possível manter-se uma [[lexico:d:distincao|distinção]] entre "objetivo" e "subjetivo", equiparando o objetivo (5), entendido como o que é informado pelas [[lexico:c:categorias|categorias]] do sujeito [[lexico:t:transcendental|transcendental]], ao universalmente válido (válido para todo ser pensante), em oposição ao subjetivo considerado como o existente só para os indivíduos. De Vries.