===== OBJETIVIDADE HISTÓRICA ===== O historiador pertence ao [[lexico:d:devir|devir]] que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma [[lexico:e:evolucao|evolução]]. A [[lexico:c:ciencia-historica|ciência histórica]] é uma [[lexico:f:forma|forma]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]] que uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] toma de si mesma, um [[lexico:e:elemento|elemento]] da [[lexico:v:vida|vida]] coletiva, como o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de si um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da consciência [[lexico:p:pessoal|pessoal]], um dos fatores do [[lexico:d:destino|destino]] individual. [[lexico:n:nao|Não]] é ela [[lexico:f:funcao|função]] simultaneamente da [[lexico:s:situacao|situação]] [[lexico:a:atual|atual]], que por [[lexico:d:definicao|definição]] muda com o [[lexico:t:tempo|tempo]], e da [[lexico:v:vontade|vontade]] que [[lexico:a:anima|anima]] o [[lexico:s:sabio|sábio]], incapaz de se destacar de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e do seu [[lexico:o:objeto|objeto]]? Mas, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, ao contrário, o historiador busca penetrar a consciência de outrem. É, em [[lexico:r:relacao|relação]] ao [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:h:historico|histórico]], o outro. Psicólogo, estratega ou [[lexico:f:filosofo|filósofo]], observa sempre do [[lexico:e:exterior|exterior]]. Não pode nem [[lexico:p:pensar|pensar]] o seu [[lexico:h:heroi|herói]], como este se pensa a si mesmo, nem [[lexico:v:ver|ver]] a batalha como o general a viu ou viveu, nem [[lexico:c:compreender|compreender]] uma doutrina do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que o criador. Finalmente, quer se trate de interpretar um [[lexico:a:ato|ato]] ou uma [[lexico:o:obra|obra]], devemos reconstruí-los conceitualmente. Ora nós temos sempre de escolher entre múltiplos sistemas, pois a [[lexico:i:ideia|ideia]] é ao mesmo tempo [[lexico:i:imanente|imanente]] e [[lexico:t:transcendente|transcendente]] à vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num [[lexico:u:universo|universo]] espiritual, a [[lexico:l:logica|lógica]] jurídica e [[lexico:e:economica|econômica]] é interna à [[lexico:r:realidade-social|realidade social]] e [[lexico:s:superior|superior]] à consciência individual. [...] Toda [[lexico:a:atividade|atividade]] espiritual se insere numa [[lexico:t:tradicao|tradição]] na qual e pela qual o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] se define. Não há sábio nem [[lexico:a:artista|artista]] que não parta de qualquer [[lexico:c:coisa|coisa]] adquirida, nem transmissão que não corresponda a uma [[lexico:e:especie|espécie]] de recriação. Mesmo na [[lexico:o:ordem|ordem]] da [[lexico:c:ciencia|ciência]] positiva, a prossecução do [[lexico:s:saber|saber]] supõe, não a submissão, mas o poder do [[lexico:e:espirito|espírito]], capaz de demonstrar e, por assim dizer, de inventar de novo. Quando se trata de obras nas quais o [[lexico:h:homem|homem]] se empenha sem se vergar a normas constantes, manifesta-se a mesma [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. Cada [[lexico:e:epoca|época]] escolhe-se um passado, que vai buscar ao tesouro coletivo; cada nova [[lexico:e:existencia|existência]] transfigura a herança que recebeu, conferindo-lhe um outro porvir e emprestando-lhe uma outra [[lexico:s:significacao|significação]]. [...] Julgamos nós que uma ideia fundamental se destaca das análises precedentes: a dissolução do objeto. Não existe uma [[lexico:r:realidade|realidade]] histórica, já feita antes da ciência, que conviesse simplesmente reproduzir com [[lexico:f:fidelidade|fidelidade]]. A realidade histórica, por ser humana, é equívoca e inesgotável. São equívocas a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] dos universos espirituais através dos quais se desenrola a existência humana, a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] dos conjuntos nos quais vêm situar-se as [[lexico:i:ideias|ideias]] e os atos elementares. É inesgotável a significação do homem para o homem, da obra para os intérpretes, do passado para os presentes sucessivos.