===== NOMINALISMO ===== (in. Nominalism; fr. Nominalisme; al. Nominalismus; it. Nominalismó). Doutrina dos filósofos nominales ou nominalistas, que constituíram uma das grandes correntes da [[lexico:e:escolastica|escolástica]]. Os termos nominalista (nominalis) ou terminista (terminista) foram usados somente no [[lexico:p:principio|princípio]] do séc. XV (v. [[lexico:t:terminismo|terminismo]]), mas Oton de Freising, em sua crônica Gesta Friderici imperatoris (I, 47), afirmava que Roscelin fora "o primeiro em nossos tempos a propor em [[lexico:l:logica|lógica]] a doutrina das [[lexico:p:palavras|palavras]] (sententiam vocurri)". No princípio do séc. XII o nominalismo era defendido por [[lexico:a:abelardo|Abelardo]] (v. [[lexico:u:universais|universais]]), mas seu triunfo na escolástica foi devido à [[lexico:o:obra|obra]] de Guilherme de Ockham (c. 1280-C.1349), que com [[lexico:r:razao|razão]] foi [[lexico:c:chamado|chamado]] de Princeps Nominalium. Assim exprimia Ockham sua [[lexico:c:conviccao|convicção]] sobre o assunto: "[[lexico:n:nada|nada]] fora da [[lexico:a:alma|alma]], nem [[lexico:p:por-si|por si]] nem por algo de [[lexico:r:real|real]] ou de [[lexico:r:racional|racional]] que lhe seja acrescentado, de qualquer [[lexico:m:modo|modo]] que seja considerado e entendido, é [[lexico:u:universal|universal]], pois é tão [[lexico:i:impossivel|impossível]] que algo fora da alma seja de qualquer modo universal (a menos que isso se dê por convenção, como quando se considera universal a [[lexico:p:palavra|palavra]] ‘[[lexico:h:homem|homem]]’, que é [[lexico:p:particular|particular]]), quanto é impossível que o homem, segundo qualquer consideração ou qualquer [[lexico:s:ser|ser]], seja o asno" (In Sent., I, d. II, q. 7 S-T). Do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista [[lexico:p:positivo|positivo]], o nominalismo admite que o universal ou [[lexico:c:conceito|conceito]] é um [[lexico:s:signo|signo]] dotado da [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de ser [[lexico:p:predicado|predicado]] de várias [[lexico:c:coisas|coisas]]. O conceito já fora assim definido por Abelardo (v. [[lexico:d:disputa-dos-universais|disputa dos universais]]). Ao traçar uma breve [[lexico:h:historia|história]] do nominalismo, a propósito de Nizólio [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] dizia que "são nominalistas todos os que acreditam que, [[lexico:a:alem|além]] das [[lexico:s:substancias|substâncias]] singulares, só existem os nomes puros e, portanto, eliminam a [[lexico:r:realidade|realidade]] das coisas abstratas e universais"; para ele, o nominalismo assim entendido começava com Roscelin, e entre os nominalistas, além do [[lexico:p:proprio|próprio]] Nizólio, estava também Thomas [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] (De stilo philosophico Nizolii, 1670, Op., ed. Erdmann, p. 69). Essas observações e inclusões de Leibniz foram aceitas pelos historiadores da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]. Em [[lexico:e:epoca|época]] mais recente, [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] designou a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] convencionalista da [[lexico:f:fisica|física]]: p. ex., Poincaré empregou em [[lexico:r:relacao|relação]] a [[lexico:l:le-roy|Le Roy]] (La science et l’hypothèse, p. 3). Algumas vezes os lógicos modernos usam esse termo para indicar a doutrina segundo a qual a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] das ciências contém apenas variáveis individuais, cujos valores são objetos concretos, e [[lexico:n:nao|não]] classes, propriedades e similares (Quine, From a Logical Point of View, VI, 4 ss.; Carnap, Meaning and Necessity, § 10). É a doutrina que não admite a [[lexico:e:existencia|existência]] do universal nem no [[lexico:m:mundo|mundo]] das coisas, nem no [[lexico:p:pensamento|pensamento]]. O nominalismo aparece em sua [[lexico:f:forma|forma]] mais radical no século XI com Roscelino de Compiègne, que atribui universalidade só aos nomes (donde, o termo "nominalismo"). Esta [[lexico:o:opiniao|opinião]] contradiz o claro depoimento da [[lexico:c:consciencia|consciência]], que, além de nomes comuns, mostra, outrossim, conteúdos universais de pensamento. Importa distinguir entre a forma medieval do nominalismo e o nominalismo dos tempos modernos, também denominado [[lexico:s:sensismo|sensismo]]. Os filósofos ingleses [[lexico:b:berkeley|Berkeley]], [[lexico:l:locke|Locke]], [[lexico:h:hume|Hume]], [[lexico:s:stuart-mill|Stuart Mill]] e [[lexico:s:spencer|Spencer]], e os alemães [[lexico:w:wundt|Wundt]], Ziehen e [[lexico:m:mach|Mach]], sob o [[lexico:i:influxo|influxo]] de uma defeituosa [[lexico:a:analise|análise]] da consciência, tomam os esquemas sensoriais como sucedâneo dos verdadeiros [[lexico:c:conceitos|conceitos]] universais ([[lexico:c:conceito-universal|conceito universal]]). O [[lexico:m:motivo|motivo]] disso reside no desconhecimento da [[lexico:a:abstracao|abstração]] intelectual, única [[lexico:e:explicacao|explicação]] da maneira como na [[lexico:f:formacao|formação]] dos conceitos dependemos da [[lexico:e:experiencia|experiência]] e como, apesar disso, os conceitos universais superam a experiência. Comumente, denomina-se também nominalismo o [[lexico:c:conceptualismo|conceptualismo]] do final da Idade Média, principalmente de [[lexico:o:occam|Occam]]; até certo ponto há razão para isso, visto como os conceitos universais, da maneira que o conceptualismo os entende, não são mais adequados do que os esquemas sensoriais do nominalismo para a construção das ciências. — Santeler. Durante a idade média, o nominalismo afirmou nas discussões sobre os universais que as espécies e os gêneros e, em [[lexico:g:geral|geral]], os universais, não são realidades exteriores às coisas, como defendia o [[lexico:r:realismo|realismo]], nem realidades nas coisas, como o conceptualismo, mas são apenas nomes, termos ou vocábulos, por [[lexico:m:meio|meio]] dos quais se designam coleções de indivíduos. Segundo o nominalismo, só existem pois entidades individuais, os universais não são entidades existentes, mas unicamente termos na linguagem. Ocam argumentou que admitir universais na [[lexico:m:mente|mente]] de [[lexico:d:deus|Deus]] era, de certo modo, limitar a omnipotência divina, e admitir universais nas coisas era supor que as coisas têm ou podem [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:i:ideias|ideias]] ou modelos próprios, limitando-se também assim a omnipotência divina. Aos nominalistas opuseram-se sobretudo os realistas, como [[lexico:s:santo|santo]] Anselmo, que qualificava os primeiros de “dialécticos da nossa época”. Os realistas não podiam admitir que o universal fosse só um vocábulo e que este se pudesse definir como um “som de percussão [[lexico:s:sensivel|sensível]] do [[lexico:a:ar|ar]]”. Não podiam admitir que um universal fosse só um [[lexico:s:sopro|sopro]] da [[lexico:v:voz|voz]], um som proferido. Se o universal consistisse nisso, seria uma realidade física. Nesse caso, os nomes seriam algo, uma [[lexico:c:coisa|coisa]], e, como tal, dever-se-ia dizer algo dela e isto lavar-se-ia a cabo mediante o universal. Desde os gregos discutiu-se se os termos eram meras palavras, voces, ou significavam coisas, res, mas a [[lexico:d:disputa|disputa]] em torno destas duas compreensões assumiu grandes proporções no séc. XI. Chamou-se de nominalista a [[lexico:p:posicao|posição]] que aceitava que a [[lexico:i:ideia|ideia]] geral era apenas uma palavra. Ela distingue-se da realista, pois para estes a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] é uma realidade e, para o nominalista, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] real são os indivíduos humanos. O homem é apenas um flatus vocis, uma emissão de voz. Atrás das palavras, nada há de real. Contudo estas palavras oferecem um [[lexico:s:sentido|sentido]] ao pensamento, e se nada tivessem de real não poderiam oferecer esse sentido. doutrina que, na Idade Média, afirmava serem as ideias gerais apenas palavras, às quais não corresponderia nenhuma realidade no [[lexico:e:espirito|espírito]]. — Desde a [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], combatendo a [[lexico:t:teoria-platonica-das-ideias|teoria platônica das ideias]], o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] cínico [[lexico:a:antistenes|Antístenes]] exclamava: "Vejo o cavalo, não vejo a equinidade." O nominalismo opunha-se então ao realismo platônico segundo o qual as "ideias" possuem uma existência e uma realidade própria, [[lexico:i:independente|independente]] do espírito que as pensa. É na Idade Média, entretanto, que o nominalismo teve um considerável [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] com Roscelin ([[lexico:f:fim|fim]] do século XI), que teve a audácia de aplicá-lo à [[lexico:t:teologia|teologia]] e de opor-se assim à verdadeira [[lexico:t:trindade|trindade]], que, segundo êle, teria conduzido a um [[lexico:t:triteismo|triteísmo]]. O nominalismo foi retomado no século XIV por Guilherme de Occam, que criticou o "realismo" das ideias gerais ou "universais". Atualmente, a [[lexico:o:oposicao|oposição]] tornou-se a do [[lexico:e:empirismo|empirismo]] (Hume) e do [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] ([[lexico:k:kant|Kant]]); o primeiro retoma os temas do nominalismo e pretende basear nosso [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] unicamente na experiência (sempre particular); o segundo, ao contrário, pretende baseá-lo na razão.