===== NATUREZA ===== (gr. [[lexico:p:physis|physis]]; lat. natura; in. Nature; fr. Nature; al. Natur; it. Natura). Para definir este [[lexico:t:termo|termo]], lançou-se mão de uma [[lexico:s:serie|série]] de [[lexico:c:conceitos|conceitos]], entre os quais há alguns pontos em comum. Os principais são os seguintes: 1) [[lexico:p:principio|princípio]] do [[lexico:m:movimento|movimento]] ou [[lexico:s:substancia|substância]]; 2) [[lexico:o:ordem|ordem]] necessária ou conexão causal; 3) [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]], contraposta à [[lexico:i:interioridade|interioridade]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]]; 4) [[lexico:c:campo|campo]] de encontro ou de unificação de certas técnicas de [[lexico:i:investigacao|investigação]]. 1) A [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] da natureza como princípio de [[lexico:v:vida|vida]] e de movimento de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] existentes é a mais antiga e venerável, tendo condicionado o [[lexico:u:uso|uso]] corrente do termo. "Permitir a [[lexico:a:acao|ação]] da natureza", "Entregar-se à natureza", "Seguir a natureza", e assim por diante, são expressões sugeridas pelo [[lexico:c:conceito|conceito]] de que a natureza é um princípio de vida que cuida [[lexico:b:bem|Bem]] dos seres em que se manifesta. Foi nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] definiu explicitamente a natureza: "A natureza é o princípio e a [[lexico:c:causa|causa]] do movimento e do repouso da [[lexico:c:coisa|coisa]] à qual ela inere primariamente e [[lexico:p:por-si|por si]], e [[lexico:n:nao|não]] [[lexico:p:por-acidente|por acidente]]" (Fís., II, 1, 192 b 20). Como explica o [[lexico:p:proprio|próprio]] Aristóteles, a exclusão da acidentalidade serve para distinguir a [[lexico:o:obra|obra]] da natureza da obra do [[lexico:h:homem|homem]]. A. natureza também pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:m:materia|matéria]], a admitir-se, como faziam os [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]], que a matéria tem em si própria um princípio de movimento e de [[lexico:m:mutacao|mutação]]; mas é realmente [[lexico:e:esse|esse]] mesmo princípio, portanto a [[lexico:f:forma|forma]] ou a substância em [[lexico:v:virtude|virtude]] da qual a coisa se desenvolve e torna-se [[lexico:o:o-que-e|o que é]] (Fís., II, 1, 193 a 28 ss.). Por esse [[lexico:m:motivo|motivo]] a natureza assume o [[lexico:s:significado|significado]] de forma, substância ou [[lexico:e:essencia|essência]] necessária: uma coisa possui sua natureza quando alcançou sua forma, quando é perfeita em sua substância. Em conclusão, segundo Aristóteles, a melhor [[lexico:d:definicao|definição]] da natureza é a seguinte: "A substância das coisas que têm o princípio do movimento em si próprias": nesta definição podem ser incluídos todos os significados do termo (Met., V, 4,1015 a 13). Nesse sentido, a natureza é não somente causa, mas causa final (Fís., II, 8,199 b 32). A [[lexico:t:tese|tese]] do [[lexico:f:finalismo|finalismo]] da natureza costuma [[lexico:e:estar|estar]] ligada a esse conceito da natureza. Tal conceito, que é a [[lexico:s:sintese|síntese]] dos dois conceitos fundamentais da [[lexico:m:metafisica-aristotelica|metafísica aristotélica]] (substância e causa), dominou por muito [[lexico:t:tempo|tempo]] a [[lexico:e:especulacao|especulação]] ocidental e nunca foi completamente obliterado por conceitos diferentes e concorrentes. Por sua [[lexico:c:causalidade|causalidade]], a natureza é o próprio poder criador de [[lexico:d:deus|Deus]]: é natureza naturante. Mas como tal causalidade é inerente às coisas que produz, a natureza é a própria [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dessas coisas, é natureza naturada. Essa [[lexico:d:distincao|distinção]], que se encontra em [[lexico:s:scotus-erigena|Scotus Erigena]], mas sem os termos [[lexico:r:relativos|relativos]] (De divis. nat., III, 1), foi introduzida na [[lexico:e:escolastica|escolástica]] latina por Averróis (De coei., I, 1), sendo amplamente aceita (cf. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] de Aquino, S. Th., II. 1, q. 85, a. 6). [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] [[lexico:n:nada|nada]] mais fez que reexpô-la quase nos mesmos termos (Et., I, 29, schol.). A essa distinção, mais precisamente ao conceito de natureza naturada, liga-se o [[lexico:o:outro|outro]] significado subordinado, de natureza como [[lexico:u:universo|universo]] ou conjunto das coisas naturais: conceito que coexiste com o de natureza como princípio de movimento, por ser seu resultado, e — como veremos — com o de natureza como ordem, por designar, neste segundo caso, a natureza "material" (materialiter spectatá). A exaltação especulativa da natureza por [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:n:naturalismo|naturalismo]] renascentista recorre ao conceito de natureza criadora ou [[lexico:u:universal|universal]]. [[lexico:n:nicolau-de-cusa|Nicolau de Cusa]] dizia: "É o [[lexico:e:espirito|Espírito]] difuso e contraído por [[lexico:t:todo|todo]] o universo e por cada uma de suas partes que se chama de natureza Portanto, de algum [[lexico:m:modo|modo]] a natureza é a reunião (complicatió) de todas as coisas geradas através do movimento" (Dedocta ignor., II, 10). E Giordano [[lexico:b:bruno|Bruno]] afirmava: "A natureza ou é Deus mesmo, ou a virtude divina que se manifesta nas coisas" (Summa terminorum, em Op. latine, IV, 101). No mesmo sentido Spinoza identificava a natureza com Deus (Et., I, 29, schol.). Esse conceito da natureza atravessou o séc. XVIII e foi reafirmado por [[lexico:w:wolff|Wolff]] (Cosm., §§ 503-506) e por Baumgarten (Met., § 430). Quando, naquele mesmo século, começou-se a contrapor a natureza ao homem e a proclamar-se a "volta à natureza", a natureza à qual se recorreu continuava sendo a do antigo conceito aristotélico: princípio diretivo [[lexico:i:inato|inato]] no homem sob forma de [[lexico:i:instinto|instinto]]; tal foi o conceito de [[lexico:r:rousseau|Rousseau]] (De l’inégalité parmi les hommes. I). Essa [[lexico:n:nocao|noção]] já entrou no patrimônio das crenças comuns de nosso [[lexico:m:mundo|mundo]], e por isso está presente, mesmo sem se fazer notar, nas mais elaboradas concepções filosóficas. [[lexico:c:como-se|como se]] viu, compreende três conceitos coordenados ou equipolentes: a) a natureza como causa (eficiente e final); b) a natureza como substância ou essência necessária; c) a natureza como totalidade das coisas. 2) A segunda concepção fundamental de natureza considera-a como ordem e [[lexico:n:necessidade|necessidade]]. A [[lexico:o:origem|origem]] dessa concepção está nos estoicos, para os quais "a natureza é a [[lexico:d:disposicao|disposição]] a mover-se por si segundo as [[lexico:r:razoes-seminais|razões seminais]], disposição que leva a cabo e mantém unidas todas as coisas que dela nascem em tempos determinados e coincide com as próprias coisas das quais se distingue" (Diógenes Laércio, VII, 1, 148). Nesta definição é acentuada a [[lexico:r:regularidade|regularidade]] e a ordem do [[lexico:d:devir|devir]] à qual a natureza preside. A este conceito de natureza está ligada a noção de [[lexico:l:lei-natural|lei natural]], que, da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] ao séc. XIX, teve grande importância na [[lexico:m:moral|moral]] e no [[lexico:d:direito|direito]] . De [[lexico:f:fato|fato]], a [[lexico:l:lei|lei]] [[lexico:n:natural|natural]] é a [[lexico:r:regra|regra]] de [[lexico:c:comportamento|comportamento]] que a ordem do mundo exige que seja respeitada pelos seres vivos, regra cuja realização, segundo os estoicos, era confiada ao instinto (nos animais) ou à [[lexico:r:razao|razão]] (no homem) (Diógenes Laércio, VII, I, 85). O [[lexico:a:aristotelismo|aristotelismo]] do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] retoma o conceito de natureza como ordem. Em De fato (séc. XVI), Pietro Pomponazzi defendia explicitamente o [[lexico:f:fado|fado]] estoico, que é a necessidade absoluta da ordem cósmica estabelecida por Deus. E o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] que fundamenta as primeiras manifestações da [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:m:moderna|moderna]], na obra de Leonardo, Copérnico, Kepler e Galilei, é o de ordem necessária e de [[lexico:c:carater|caráter]] matemático, que a ciência deve descobrir e descrever. Segundo Leonardo da Vinci: "A necessidade é [[lexico:t:tema|tema]] e inventora da natureza, freio e regra eterna" (Works, ed. Richter, n. 1135). Para Galilei, a natureza é a ordem do universo, ordem única que nunca foi nem será diferente (Op., VII, p. 700). A insistência na natureza como ordem e necessidade é acompanhada pela [[lexico:n:negacao|negação]] do finalismo da natureza, [[lexico:c:caracteristico|característico]] da primeira concepção. Esse conceito da natureza permaneceu como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da ciência moderna em todo seu período [[lexico:c:classico|clássico]]. "A natureza é bastante consonante e concordante consigo mesma", dizia Newton (Optiks, 1704, III, 1, q. 31), mas foi Boyle [[lexico:q:quem|quem]] teve as [[lexico:i:ideias|ideias]] mais claras sobre isso, afirmando explicitamente: "A natureza não deve ser considerada como um [[lexico:a:agente|agente]] distinto e separado, mas como uma regra, ou antes como um [[lexico:s:sistema|sistema]] de regras, segundo as quais os agentes naturais e os corpos sobre os quais eles agem são determinados pelo Grande Autor das coisas a agir e sofrer ação." Foi esta a concepção da natureza aceita por [[lexico:k:kant|Kant]]. "Pela [[lexico:e:expressao|expressão]] ‘natureza’ (em sentido [[lexico:e:empirico|empírico]]) entendemos a conexão dos fenômenos para sua [[lexico:e:existencia|existência]] segundo regras necessárias ou leis. Existem, portanto, certas leis apriori que tornam [[lexico:p:possivel|possível]] uma natureza; as leis empíricas podem estar presentes e ser descobertas apenas através da [[lexico:e:experiencia|experiência]], portanto depois das leis originárias graças às quais começa a ser possível a própria experiência" (Crít. R. Pura, Anal. dos princ, cap II, seç. 3, Terceira [[lexico:a:analogia|analogia]]). Em outro [[lexico:l:lugar|lugar]] Kant distingue a natureza materialiter spectata da natureza formaliter spectata: a primeira seria "o conjunto de todos os fenômenos"; a segunda seria "a regularidade dos fenômenos no [[lexico:e:espaco|espaço]] e no tempo" (Ibid., § 26). Mas a primeira nada mais é que o material a que se aplica a segunda, e o conceito da natureza continua sendo o de regularidade devida a leis (Prol, § 14). Esta doutrina foi repetida numerosas vezes na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea. Entre os últimos que a repetem pode-se lembrar Whitehead, para quem natureza é "um [[lexico:c:complexo|complexo]] de entes em [[lexico:r:relacao|relação]]", em que a ênfase é posta na relação, atribuindo-se à [[lexico:f:filosofia-natural|filosofia natural]] a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de "estudar como se interligam os vários [[lexico:e:elementos|elementos]] da natureza (The Concept of Nature, 1920, caps. I-II; trad. it., pp. 13, 28). 3) Para a terceira concepção, natureza é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do espírito, ou um espírito diminuído ou imperfeito, que se tornou "[[lexico:e:exterior|exterior]]", "acidental" ou "[[lexico:m:mecanico|mecânico]]", ou seja, foi degradado de seus verdadeiros [[lexico:c:caracteres|caracteres]]. Essa concepção encontra-se claramente expressa em [[lexico:p:plotino|Plotino]]: "A [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] é o primeiro termo; a natureza é o [[lexico:u:ultimo|último]]. A natureza é a [[lexico:i:imagem|imagem]] da sabedoria e é a última parte da [[lexico:a:alma|alma]]; como tal, só tem em si os últimos [[lexico:r:reflexos|reflexos]] da razão. (...) A [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] tem em si tudo; a alma do universo recebe as coisas eternamente, sendo a vida a eterna manifestação do [[lexico:i:intelecto|intelecto]], mas a natureza é o [[lexico:r:reflexo|reflexo]] da alma na matéria. A [[lexico:r:realidade|realidade]] termina nela, ou até antes dela, pois ela é o termo do mundo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]; [[lexico:a:alem|além]] dela, só há imitações" (Enn., IV, 4, 13). O conceito de natureza como manifestação, no sentido de "[[lexico:e:exteriorizacao|exteriorização]]", com tudo o que a exterioridade tem de diminuído ou degradado em relação à interioridade e à consciência, foi compartilhado (e continua sendo) por todas as metafísicas espiritualistas. É retomado pela [[lexico:t:teosofia|teosofia]] renascentista e encontra-se, p. ex., em Jakob Boehme (De signatura rerum, IX). Mas foi o [[lexico:r:romantismo|Romantismo]] que o amplificou e difundiu. Novalis dizia: "O que é a natureza senão o [[lexico:i:indice|índice]] enciclopédico [[lexico:s:sistematico|sistemático]] ou o [[lexico:p:plano|plano]] de nosso espírito?" (Fragmente, nQ 1384). Foi [[lexico:h:hegel|Hegel]] quem expressou do modo mais rigoroso e completo esse conceito: "A natureza é a [[lexico:i:ideia|ideia]] na forma de ser outro", isto é, da "exterioridade" (Enc., § 247). Como tal, não mostra, em sua existência, [[lexico:l:liberdade|liberdade]] alguma, mas apenas necessidade e acidentalidade. Portanto, "na natureza, não só a inter-relação das formas está à mercê de uma acidentalidade desregrada e desenfreada, como também nenhuma forma tem, por si, o conceito de si mesma". Hegel reconhece que a natureza está sujeita a "leis eternas", mas isso não a salva: a natureza é pior que o [[lexico:m:mal|mal]]. "Quando a acidentalidade espiritual, o arbítrio, chega ao mal, até o mal é algo infinitamente [[lexico:s:superior|superior]] aos movimentos dos astros e à inocência das plantas; porque quem assim erra, ainda é espírito, apesar de tudo" (Ibid., § 248). É bem [[lexico:v:verdade|verdade]] que nem toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] romântica compartilhou a condenação hegeliana da natureza [[lexico:s:schelling|Schelling]] exaltou a natureza, considerando-a como parte ou [[lexico:e:elemento|elemento]] da vida divina. Numa obra de 1806, censurava [[lexico:f:fichte|Fichte]] por encarar a natureza ora com um [[lexico:a:ascetismo|ascetismo]] grosseiro e insensato, considerando-a [[lexico:p:puro|puro]] nada, ora de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista puramente mecânico e utilitarista, considerando-a um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de que o [[lexico:e:eu|eu]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] lança mão para realizar-se (Werke, I, VII, pp. 94,103)-Na realidade, ao considerar a natureza como manifestação do Absoluto, Schelling não insistia tanto na inferioridade da manifestação em relação ao Princípio que se manifesta, mas sobretudo na estreita relação entre os dois. Esta é a outra [[lexico:a:alternativa|alternativa]] oferecida pela concepção da natureza de que tratamos. Por um lado pode-se insistir nos aspectos que distinguem a natureza do espírito e que, de algum modo, os contrapõem, quais sejam, exterioridade, acidentalidade e [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]], mas, por outro lado, pode-se também ressaltar que a natureza, como manifestação do espírito, tem em comum com ele seus caracteres substanciais. Foi o que fez Schelling, mas a primeira alternativa costuma prevalecer. O [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]] francês do séc. XIX compartilhou quase unanimemente a tese expressa por Ravaisson no [[lexico:f:fim|fim]] de Rapport sur la philosophie en France au XIXe siècle (1868)": a natureza é a degradação, em [[lexico:m:mecanicismo|mecanicismo]] e necessidade, de um Princípio Espiritual que é [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] e liberdade. Essa concepção também prevaleceu no espiritualismo do séc. XX graças a [[lexico:b:bergson|Bergson]]. A natureza, como exterioridade ou espacialidade, é uma degradação do espírito. É assim que Bergson expõe o [[lexico:p:projeto|projeto]] de uma [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] da natureza: "Seria preciso, com um [[lexico:e:esforco|esforço]] [[lexico:s:sui-generis|sui generis]] do espírito, seguir a progressão, ou melhor, a [[lexico:r:regressao|regressão]] do extra-espacial que se degrada em espacialidade. Se nos situarmos primeiramente no ponto mais alto de nossa própria consciência para em seguida deixarmo-nos cair pouco a pouco, teremos a [[lexico:s:sensacao|sensação]] de que nosso eu se estende em recordações inertes, exteriorizadas umas em relação às outras, em vez de propender a um querer indivisível e agente. Mas isso é apenas o início, etc. (Évol. créatr., 11a ed., 1911, p. 226). O mesmo sentido de degradação é atribuído à natureza na filosofia de Gentile, para quem ela é o "passado do espírito", sendo, pois, um [[lexico:l:limite|limite]] [[lexico:a:abstrato|abstrato]] que o espírito recompreende em si e "domina" ([[lexico:t:teoria|teoria]] generale dello spirito, XVI, 18). 4) A quarta concepção de natureza pode ser discernida de modo [[lexico:i:implicito|implícito]] ou na forma de [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] na prática efetiva da [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] científica e em algumas análises da [[lexico:m:metodologia|metodologia]] científica contemporânea. Para esta, a natureza é definida em termos de campo , mais precisamente o campo ao qual fazem [[lexico:r:referencia|referência]] e em que se encontram (ou algumas vezes se desencontram) as técnicas perceptivas e de [[lexico:o:observacao|observação]] de que o homem dispõe: as primeiras não são menos complexas que as segundas, apesar de se mostrarem como "naturais", ou seja, passíveis de serem postas em prática sem o concurso de projetos deliberados. A [[lexico:a:arte|arte]] faz constante referência às técnicas perceptivas, pois sempre oferece [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] a ser "vista" ou "sentida", mesmo quando pretende ser "abstrata" e prescindir das formas comumente oferecidas pela [[lexico:p:percepcao|percepção]] comum. A [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]] faz referência às técnicas de observação, pois, mesmo iniciando seu [[lexico:t:trabalho|trabalho]] com a percepção, afasta-se desta rapidamente tanto no que se refere aos instrumentos de observação quanto no que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] aos objetos que consegue identificar (p. ex., "[[lexico:m:massa|massa]]", [[lexico:e:energia|energia]]", "elétrons", "fótons", etc), alguns dos quais se comportam de modo muito diferente das "coisas" que são [[lexico:o:objeto|objeto]] da percepção comum. Hoje, pode-se entender como natureza o campo [[lexico:o:objetivo|objetivo]] ao qual fazem referência os vários modos da percepção comum e os vários modos da observação científica, do modo como esta é entendida e praticada nos vários ramos da ciência natural. Nesse sentido a natureza não se identifica com um princípio ou com uma [[lexico:a:aparencia|aparência]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]], nem com determinado sistema de conexões necessárias, mas pode ser determinada, em cada fase do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] cultural da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], como a [[lexico:e:esfera|esfera]] dos possíveis objetos de referência das técnicas de observação que a humanidade possui. Trata-se, como é óbvio, de uma concepção não dogmática, mas [[lexico:f:funcional|funcional]], pois ainda não foram feitas indagações metodológicas suficientes para esclarecê-la-, contudo, afigura-se como uma exigência da [[lexico:a:atual|atual]] fase da metodologia científica. (do gr. physis, do verbo phyô, produzir, crescer) O universo [[lexico:f:fisico|físico]]. — A. Lallande denunciou com razão o sentido [[lexico:e:equivoco|equívoco]] da [[lexico:p:palavra|palavra]], que pode designar: 1.° o conjunto dos caracteres que definem um ser, uma coisa (a "natureza [[lexico:a:animal|animal]], humana"); 2.° o mundo material, especificando-se se considerado do ponto de vista científico como universo físico (conjunto de [[lexico:r:relacoes|relações]] ou de leis), ou do ponto de vista metafísico como totalidade orgânica (a "natureza naturante" em Spinoza, como energia criadora, [[lexico:p:presenca|presença]] de Deus no mundo, oposta à "natureza naturada", objeto da ciência humana; a Natureza no sentido romântico — Novalis, Schelling —, como mediadora entre o homem e a divindade; ou no sentido vitalista — Bergson —, como "[[lexico:e:evolucao-criadora|evolução criadora]]" etc); 3.° o que não provém da arte ou da indústria do homem. Nesse sentido, emprega-se principalmente o termo ‘natural": uma "[[lexico:b:beleza|beleza]] natural"; 4.° conjunto de tendências, ou [[lexico:t:temperamento|temperamento]], que constituem o natural de um [[lexico:i:individuo|indivíduo]], por [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao que pode lhe adicionar a arte, a [[lexico:c:civilizacao|civilização]] ou sua própria [[lexico:v:vontade|vontade]] (caráter que se dá a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]). Deve-se distinguir as ciências da natureza ([[lexico:f:fisica|física]], química etc.) e as filosofias da natureza: essas últimas não nos entretém, como as ciências, com os objetos que estão na natureza; partem do [[lexico:s:sentimento|sentimento]] originário do homem de participar da natureza como uma totalidade que nos engloba. Esse sentimento da natureza exprimiu-se, inicialmente, na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], nas teorias pré-socráticas dos jônicos, que consideravam a natureza como uma [[lexico:f:forca|força]] vital: este sentimento era o da ordem do mundo (os antigos denominavam o mundo cosmos: "ordem") e, por isso mesmo, o da [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] das coisas (o cosmos era a expressão do [[lexico:l:logos|Logos]]); a [[lexico:m:meditacao|meditação]] dos antigos sobre a natureza partia principalmente da [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] do [[lexico:c:ceu|céu]] estrelado. Com a metafísica de Aristóteles, a [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]] tornou-se um "[[lexico:v:vitalismo|vitalismo]]", relacionando todos os movimentos dos objetos no mundo a uma força interior, a uma [[lexico:t:tendencia|tendência]] que os animaria: se os corpos caem em direção ao solo, é, segundo Aristóteles, porque "desejam" ou "aspiram" reencontrar seu "próprio lugar" (ficticiamente localizado no centro da [[lexico:t:terra|Terra]]). Com o Renascimento e o desenvolvimento das ciências modernas, a natureza tornou-se o objeto da ciência física: esta designou então o conjunto dos objetos do mundo material ([[lexico:d:descartes|Descartes]], Kant); para Kant, a "natureza" correspondia exatamente ao universo de Newton. Nesse contexto, a filosofia da natureza tem sido uma investigação dos [[lexico:p:principios|princípios]] racionais (das "leis do espírito") que tornam possíveis as leis mais gerais da ciência física. A metafísica da natureza de Kant apresenta-se como uma [[lexico:d:deducao|dedução]] das leis fundamentais da física newtoniana, a partir das "[[lexico:c:categorias|categorias]]" do espírito descobertas pela [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica. — A [[lexico:o:ontologia|ontologia]] moderna substituiu a noção de "natureza" pela do "ser" como presença e [[lexico:l:luz|luz]] ([[lexico:h:heidegger|Heidegger]]). Em resumo, a [[lexico:h:historia|história]] das "filosofias da natureza" revela uma oscilação entre as teorias vitalistas, que focalizam o ser da natureza, e as teorias racionalistas, que se baseiam no [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da natureza (teoria das ciências, [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]]). A palavra, bem como os seus equivalentes, conservaram e aumentaram a variedade de significados. Essa consideração filosófica merece ser tomada como ponto de partida, porque conduz diretamente a uma definição do termo, que é a base para todos os empregos da palavra, e que vê no conceito de natureza a ideia de uma existência que se produz, ou pelo menos se determina a si mesma, em sua totalidade, ou só em parte, sem [[lexico:t:ter|ter]] necessidade de uma causa externa. As principais acepções do termo podem ser obtidas, conforme J. [[lexico:l:lachelier|Lachelier]], pela aplicação à definição acima dada de três diferentes distinções, segundo se atribua essa ideia: 1) a um ser [[lexico:p:particular|particular]] ou ao conjunto das coisas; 2) ao princípio [[lexico:i:intrinseco|intrínseco]] de produção e de [[lexico:d:determinacao|determinação]] ou à coisa produzida e determinada; 3) a todos estes, considerando, ou a sua [[lexico:c:constituicao|constituição]] material e [[lexico:m:mecanica|mecânica]] ou a sua constituição [[lexico:f:formal|formal]] e teleológica. a) O que caracteriza essa palavra, particularmente, é o fato de em todos os empregos que tem, conservar sempre em segunda plana toda essa [[lexico:u:unidade|unidade]] de [[lexico:s:significacao|significação]], que corresponde à definição acima, formando, cada, um sentido particular, apenas pela atenuação de certos traços, pondo em relevo outros que de [[lexico:m:momento|momento]] são atualizados. b) Partindo do primeiro termo da primeira distinção, nos deparamos diante da natureza concebida como "[[lexico:p:principio-vital|princípio vital]]" que [[lexico:e:estrutura|estrutura]] e conserva a constituição de um ser particular. É o que temos em [[lexico:m:mente|mente]] quando se [[lexico:f:fala|fala]] na "Vis medicatrix naturae’, força medicadora da natureza. É este sentido uma combinação do primeiro termo da primeira e do primeiro termo da segunda distinção. c) Combinando o 1° termo da 1a distinção com o 2° da 2a, a natureza aparece como a própria essência das coisas, produzida por aquele princípio vital. Assim natureza de uma legislação, natureza de uma ciência, natureza específica de uma coisa, etc. d) Tomando a [[lexico:r:representacao|representação]] da constância da essência em oposição à mutação dos caracteres acidentais, como base de uma nova acepção da natureza, natural é tudo o que tem uma [[lexico:e:especie|espécie]], e particularmente na humanidade, esse caráter constante, isto é, tudo o que é inato, congênito, instintivo: o [[lexico:e:estado|Estado]] em que nascem os homens. Este sentido reflete a concepção teológica da natureza corrompida do homem como oposta àquele que sofreu a [[lexico:t:transformacao|transformação]] [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]] pela [[lexico:g:graca|graça]]. e) Da mesma maneira significa a estado natural que caracteriza o homem que não o experimentou a transformação, que se processa em virtude da civilização, da arte, da reflexão, quer se trate de um [[lexico:g:grupo|grupo]] de primitivos, quer de uma criança que ainda não foi educada. (Cf. Rousseau: A desigualdade, que é quase nula no [[lexico:e:estado-de-natureza|estado de natureza]], tira a sua força e a sua base do desenvolvimento das nossas [[lexico:f:faculdades|faculdades]] e do [[lexico:p:progresso|progresso]] do espírito [[lexico:h:humano|humano]]). Essa natureza empírica, enquanto própria a um indivíduo, constitui mais uma modificação [[lexico:s:semantica|semântica]] do nosso termo que equivale, então, ao caráter ou ao temperamento. Neste sentido fala-se de uma natureza ambiciosa ou natureza conciliante de uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]]. f) Passando a considerar o segundo termo da primeira distinção e aplicando-lhe simultaneamente a segunda distinção, natureza significa ou a totalidade das coisas que apresentam uma ordem, realizam tipos, acusam a existência de certas leis ou o termo expressa o [[lexico:p:principio-ativo|princípio ativo]] e vital, a vontade de ordem, que se manifesta nessa regularidade. (Aristóteles opôs neste sentido a natureza ao [[lexico:a:azar|azar]], [[lexico:a:acaso|acaso]]). No mesmo sentido Linneu chama a sua obra : Systhema Naturae. A natureza assim compreendida é muitas vezes personificada, como o faz Rousseau quando diz: "A natureza trata todos os animais abandonadas ao seu cuidado com uma predileção que parece mostrar quanto ela é ciosa desse direito". A natureza, representando assim uma ordem de índole e de [[lexico:d:dignidade|dignidade]] muito especial, muitas vezes se opõe à ordem sobrenatural. O [[lexico:m:milagre|milagre]] parcialmente destrói a ordem natural. A natureza manifesta uma própria [[lexico:e:etica|ética]]; revela a existência de leis que, senão por sua [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] ética, pelo menos por sua constância, podem servir de normas fixas para o homem. O fato de ser contra a natureza é, no setor moral, o que torna tão odiosas as coisas que chamamos perversas. g) Se consideramos a terceira distinção, que se prende ao fato de que ela revela uma [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] de valores evidentemente hierarquizados, que se movem entre os extremos de matéria e razão, deparamos com o [[lexico:p:problema|problema]] mais [[lexico:p:profundo|profundo]] e mais intrincado da natureza, porque a todo o espaço que separa estes dois extremos, matéria e espírito, é repleto daquele [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] misterioso que chamamos vida, nas suas mais variadas manifestações. Nem a matéria nem o espírito estão geralmente incluídos no conceito da natureza, assim como a índole desse problema o exige. J. Lachelier diz que o mundo puramente natural e mecânico representa até a negação da ideia da physis, que implica crescimento, e que igualmente na vida humana, o mais alto [[lexico:g:grau|grau]] de natureza revela algo que já não é natureza, o elemento espiritual, que ele chama liberdade. A oposição entre liberdade e natureza foi estabelecida habilmente por Kant: "A causalidade incondicional do fenômeno se chama liberdade, a causalidade condicional, ao contrário, se chama em sentido restrito, [[lexico:c:causalidade-natural|causalidade natural]]". Toda a realidade que fica dentro destes extremos de mecanicismo e de liberdade é, nesta acepção, a natureza. Vide [[lexico:l:livre-arbitrio|livre arbítrio]]. h) O que se oferece à primeira vista é o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] que temos da [[lexico:r:riqueza|riqueza]] e da beleza da natureza, e que também foi a primeira realidade da qual partiram os filósofos gregos especialmente os da [[lexico:e:escola|escola]] jônica. Diz Baldwin que ainda não foi feita nenhuma distinção clara entre matéria e espírito; a natureza foi concebida como viva, ou pelo menos, como animada (psychical). Esta concepção, em uma palavra, foi [[lexico:h:hilozoismo|hilozoísmo]], não [[lexico:m:materialismo|materialismo]]. [[lexico:p:platao|Platão]] introduziu a distinção entre físico e metafísico, dando origem à tendência de usar o termo natureza em um sentido restrito, que o distinguiu do espiritual. Era o mundo do devir, distinto do mundo do ser. i) Em Aristóteles, a natureza é o sistema das coisas cambiantes que tendem a um fim ou, em sua totalidade, ao fim: o bem absoluto. Ele aceita, não a independência [[lexico:e:existencial|existencial]] das formas no sentido de Platão, mas a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] das formas com respeito à matéria. Quanto mais alto, mais [[lexico:p:perfeito|perfeito]], mais espiritual é o princípio informante, tanto mais fortemente se manifesta essa transcendência. Deus, que deu a ordem teleológica ao universo, é ao mesmo tempo o que mais transcende a natureza. j) Não parecia assim aos estoicos, que consideraram a natureza movida por si mesma, causal e teleologicamente. Era o seu fim em si, era Deus mesmo, e [[lexico:v:viver|viver]] de [[lexico:a:acordo|acordo]] com ela era a virtude perfeita. k) Os epicureus eliminaram o ponto de vista [[lexico:t:teleologico|teleológico]] e, com isto, todo elemento [[lexico:r:racional|racional]] e espiritual da natureza, e chegaram a um [[lexico:a:atomismo|atomismo]] mecanicista, que encontrou a sua mais perfeita expressão no poema de Lucrécio De rerum natura, que muito contribuiu para limitar o termo natureza ao sentido preferentemente físico. Também entre os estoicos, o termo possuía, ao lado da acepção mais integral acima aludida, um sentido mais restrito que coloca a physis como princípio animador do mundo vegetativo, acima dos corpos inorgânicos e abaixo dos animais e do homem. l) Na Idade Média, além da [[lexico:t:tradicao|tradição]] aristotélica, observa-se uma outra concepção [[lexico:m:mistica|mística]] da natureza, que desenvolve elementos platônicos e neoplatônicos em uma direção panteísta, tomando-a como a misteriosa e vital energia criadora de Deus. m) Uma terceira corrente parte da interpretação que Averróis deu a Aristóteles, imputando-lhe que negava existência de um [[lexico:t:transcendente|transcendente]] e considerava a forma e as finalidades completamente [[lexico:i:imanente|imanente]] à natureza. Assim Averróis chega a uma distinção, que avidamente adotada pela [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]], se expressa nos termos escolásticos de [[lexico:n:natura-naturans|natura naturans]], a forma materializada no mundo, o [[lexico:e:efeito|efeito]] da força divina. n) Com isto o termo se estendeu novamente para o lado [[lexico:i:ideal|ideal]], extraindo do materialismo de um Lucrécio um uso que, porém, nunca de todo esteve esquecido, em virtude do emprego que os autores escolásticos fizeram da palavra; foi Spinoza quem mais decididamente definiu este sentido, dizendo que "a natureza de uma coisa é a sua ideia". o) O pensamento [[lexico:m:moderno|moderno]], aliás muito [[lexico:d:dado|dado]] à exploração das forças e lei mecânicas e a descrever as formas do mundo biológico, nunca deixou por completo de reconhecer um elemento teleológico na natureza, pelo menos quando considerada em sua totalidade. O próprio [[lexico:e:evolucionismo|evolucionismo]] contribuiu a reforçar este ponto de vista e o princípio da [[lexico:s:selecao|seleção]] natural (indireta) é perfeitamente compatível com o mesmo e até aprofundou a concepção de uma ordem teleológica. Ademais, em [[lexico:g:geral|geral]], não se ergue a [[lexico:q:questao|questão]] se essa ordem teleológica acusa a existência de uma inteligência transcendente. O termo natureza tende, modernamente, não só a perder o setor ideal, como também o campo puramente material e mecanicista de sua aplicação. Ainda falamos em ciências naturais opondo-as às [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]]. Contudo o naturalista para nós já é um homem que deixou de ser um recluso de um laboratório, como o físico ou químico, e vai para junto da natureza para estudá-la, como o zoólogo, o botânico, o geólogo. Depois da [[lexico:e:exposicao|exposição]] da tríplice distinção [[lexico:s:sistematica|sistemática]] é conveniente resumir a totalidade de todos aqueles fenômenos que designamos como naturais, por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] dos termos, aos quais a palavra natural se opõe em suas várias acepções. Natural, segundo Lalande, pode ser oposto a: [[lexico:a:adquirido|adquirido]], refletido, constrangido, artificial, afetado, humano, [[lexico:d:divino|divino]], espiritual, revelado, regenerado, sobrenatural, surpreendente, monstruoso (biologicamente), perverso (moralmente), [[lexico:p:positivo|positivo]] ([[lexico:d:direito-natural|direito natural]]), legítimo ([[lexico:f:filho|filho]] natural). p) Na [[lexico:e:estetica|estética]] há um emprego muito [[lexico:v:vago|vago]] do termo e dos seus derivados, de maneira a reduzi-lo à completa imprecisão de sentido. Quase todos proclamam a volta à natureza. Mas uns entendem a [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] no que ela possui de especificamente humano: a razão. Outros, no que ela tem de individual: a [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], a [[lexico:i:impressao|impressão]] subjetiva. Outros se referem à natureza externa, porque é abundante, pitoresca e romântica; outros, porque é saudável e forte. A palavra naturalismo, pelo contrário, tomou um sentido muito especial ao cingir-se com preferência aos aspectos inferiores da natureza. O vocábulo "natureza" deriva etimologicamente do latim "natura", [[lexico:t:traducao|tradução]] exata do [[lexico:g:grego|grego]] physis. Ambos os termos dizem relação ao nascimento, à origem, significando (1), em primeiro lugar, a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] natural, isto é, nativa, procedente ou oriunda do nascimento, de um ser vivo. Em sentido lato, chama-se natureza (2) o modo de ser de "cada" [[lexico:e:ente|ente]], tal como lhe compete por sua origem.. Embora muitas vezes não se faça distinção entre natureza e "essência", contudo, em rigor de expressão, a natureza acrescenta à essência um momento [[lexico:d:dinamico|dinâmico]]; ou seja, a essência é denominada "natureza" enquanto princípio de desenvolvimento do ente, enquanto fundamento interno de seu operar e padecer (de sua ação e [[lexico:p:paixao|paixão]]). Sob este aspecto, todo ente possui sua natureza, incluindo o homem e o próprio Deus (com exclusão de qualquer imperfeição e devir). Esta natureza (3) é o plano construtivo entranhado em todo ente e, por isso mesmo, também a [[lexico:n:norma|norma]] determinante de seu operar; por outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a lei natural lança raízes na natureza. As coisas inferiores ao homem seguem as leis naturais sem inteligência e, portanto, de maneira necessária; pelo contrário, a lei natural correspondente à vida espiritual do homem adquire caráter moral porque ele a conhece como um "[[lexico:d:dever|dever]]" ético que convida sua liberdade. Consequentemente, aparece como contrário à natureza tudo o que pugna com as leis naturais, especialmente com a [[lexico:l:lei-moral|lei moral]] natural. — Tendo em conta quanto fica [[lexico:d:dito|dito]], denomina-se natureza, como todo completo, a totalidade dos seres que possuem uma natureza sujeita ao devir. Segundo o danteísmo, esta totalidade é a de todo ente em geral (p. ex., em Spinoza: "Deus sive natura"); de ordinário, porém, representa a totalidade dos seres tópico-temporais, na [[lexico:m:medida|medida]] em que eles, mercê de sua peculiar natureza (3), se produzem, desenvolvem e unem para constituir uma ordem: a ordem da natureza (1). Encarada deste modo, a natureza (4), como vontade ordenadora que tudo envolve, é muitas vezes personificada (a "mãe" natureza); diz-se então que ela não age em vão, que não dá saltos (natura no facit saltus). Esta vontade ordenadora, a que também o homem está [[lexico:s:sujeito|sujeito]], fundamenta-se, em última [[lexico:i:instancia|instância]], em Deus, em sua [[lexico:p:potencia|potência]] criadora e conservadora. Para mais acurada determinação do que deixamos exposto, são necessárias ainda ulteriores delimitações. Em primeiro lugar, importa distinguir entre natureza (5) e espírito. Pertencem à natureza (5) todos os seres que se desenvolvem de maneira [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]] e impulsivo-instintiva, e, em primeira linha, a esfera da vida biológica. Embora, o homem, por muitos estratos de seu ser, mergulhe nesta natureza (5) inferior, todavia opõe-se-lhe primariamente enquanto portador do espírito, ou seja, da [[lexico:v:vida-consciente|vida consciente]]. Desconhece ao homem aquele naturalismo, que se propusesse convertê-lo num pedaço de natureza (5) ([[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]], [[lexico:k:klages|Klages]]); contudo, esta [[lexico:o:opiniao|opinião]] encerra o legítimo [[lexico:d:desejo|desejo]] de vencer o capricho e a consciência morbidamente exagerada de um espírito degenerado, o qual exige do homem que retorne à natureza (5), unindo-se a ela de maneira profunda. Em segundo lugar, importa distinguir entre natureza e [[lexico:c:cultura|cultura]]. Natureza (6) designa o estado do homem e de todas as coisas visíveis, tal como espontaneamente resulta das leis naturais e se renova de modo não-histórico no [[lexico:e:eterno|eterno]] ciclo do nascer e do perecer. Cultura, pelo contrário, é aquilo que o homem, por sua intervenção planejadora e plasmadora desenvolve partindo de si e das coisas e onde se realiza como ser [[lexico:h:historico|histórico]], lutando por seu constante e superior desenvolvimento. Como o homem necessariamente cria cultura, também neste sentido (essencialmente diferente do antes mencionado) não há nenhum estado puro de natureza (1); o que sucede é que os povos naturais (selvagens) estão mais próximos dele do que os povos de cultura. Se a cultura se afasta demasiadamente da natureza, então justifica-se plenamente o [[lexico:l:lema|lema]] "volta à natureza" (Rousseau). Em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] lugar, importa distinguir entre a natureza e o sobrenatural. Natureza (7) ou natural compreende tudo o que pertence a um ser criado, quer como elemento [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] (alma, [[lexico:c:corpo|corpo]], membros íntegros), quer como propriedade, disposição, força operativa ([[lexico:e:entendimento|entendimento]], vontade) dimanante daquele, quer, finalmente, como meio [[lexico:n:necessario|necessário]], para que possa [[lexico:e:existir|existir]], desenvolver-se e alcançar seu fim (alimentação, [[lexico:e:educacao|educação]]). Sob este aspecto, a expressão ordem da natureza (2) designa o conjunto dos seres criados (incluindo os [[lexico:e:espiritos|espíritos]] puros) com tudo quanto pertence à sua natureza (3) como criaturas de Deus. Em oposição a esta ordem, denomina-se sobrenatural a [[lexico:p:participacao|participação]] das naturezas espirituais criadas na natureza divina (3) ou vida de Deus pela graça da filiação; esta, segundo a [[lexico:r:revelacao|revelação]] cristã, foi concedida ao homem desde o início, de maneira que (mesmo neste sentido essencialmente distinto do anteriormente mencionado ) o homem nunca se encontrou em puro estado de natureza (2). — Qualifica-se de extranatural uma perfeição que supera as forças de uma determinada natureza criada, não porém a de todas. Deve também incluir-se aqui o milagre, que em casos excepcionais pode ser produzido pela [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] divina em [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de sua revelação. Lotz. Trataremos deste conceito pelo menos em dois sentidos, nem sempre independentes entre si: no sentido de natureza principalmente como a chamada “natureza de um ser” e no sentido de natureza como “a natureza”. O contraste entre “aquilo que é por natureza” e “aquilo que é por convenção” foi tratado principalmente pelos [[lexico:s:sofistas|sofistas]] para distinguir entre aquilo que tem um modo de ser que lhe é próprio e que há que conhecer tal como efetiva e naturalmente é, e aquilo cujo ser, ou modo de ser, foi determinado de acordo com um propósito humano. Também se discutiu - e tem vindo a discutir-se até hoje - se as leis enquanto leis de uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] derivam de um modo, ou modos, de ser, ou são resultado de um pato ou “[[lexico:c:contrato-social|Contrato Social]]”. Em todas estas discussões, a noção de “ser por natureza” aproximava-se da noção de “ter algo próprio de si e por si”. Esta última noção não é alheia ao modo como Aristóteles propôs as suas influentes definições de natureza. Distinguiu, com efeito, vários sentidos de natureza: a [[lexico:g:geracao|geração]] daquilo que cresce; o elemento primeiro donde emerge aquilo que cresce; o princípio do primeiro movimento imanente a cada um dos seres naturais em virtude da sua própria índole; o elemento primeiro de que é feito um objeto ou do qual provém; a realidade primeira das coisas (Metafísica). Todas estas definições têm em comum que a natureza é “a essência dos seres que possuem em si mesmos e enquanto tais o princípio do seu movimento”. Por isso se pode chamar natureza à matéria, mas só enquanto é capaz de receber esse princípio do seu próprio movimento; ou também à [[lexico:m:mudanca|mudança]] e ao crescimento, mas só enquanto são movimentos procedentes desse princípio. natureza é, pois, “um princípio e uma causa de movimento e de repouso para a coisa na qual reside imediatamente por si e não por [[lexico:a:acidente|acidente]]” (Física). De tudo isto se depreende que aquilo que existe por natureza se contrapõe àquilo que existe por outras, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], pela arte. Uma coisa que não possua o princípio do movimento que a faz atuar de acordo com o que é, não tem essa substância que se chamar natureza. A natureza é, pois, ao mesmo tempo, substância e causa. Ora, dentro daquilo a que chamamos “mundo natural” ou simplesmente natureza, há conhecimentos que n~ão produzidos pela arte e, todavia, são de certo modo “contrários à natureza”. Isso acontece com os chamados “movimentos violentos”, ao contrário dos “movimentos naturais”. O [[lexico:e:estudo|estudo]] da [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre estes dois tipos de movimentos foi muito importante especialmente na idade média e nos começos da [[lexico:e:epoca|época]] moderna, quando se estabeleceram os fundamentos da chamada física clássica. Quando nos referimos à “unidade da natureza” como um todo, apontamos para ideias acerca da natureza mais próximas das modernas, nas quais, como depois, veremos se entendeu natureza como o “conjunto das coisas naturais”. Em alguns casos, o conceito de natureza como “um todo” foi explicado usando nomes tais como cosmos, universo, o todo, “a realidade sublunar”, etc. Importa destacar, no [[lexico:c:comeco|começo]] da idade média, a concepção de natureza de João [[lexico:e:escoto-erigena|Escoto Erígena]], para o qual Deus é a natureza criadora e incriada, d’Ele procede a natureza criadora e criada, isto é, as ideias, o inteligível. Segue-se-lhe a natureza incriada e incapaz de [[lexico:c:criacao|criação]], representada pelo mundo [[lexico:s:sensivel|sensível]]. O último elemento desta é a natureza que não foi criada nem tão pouco é criadora, esta natureza é no entanto Deus, como ponto final de um desenvolvimento no qual foi princípio e que se cumpre na [[lexico:a:aspiracao|aspiração]] de todo o ser a identificar-se de novo com a natureza divina. A natureza, em sentido lato, constitui uma unidade onde a [[lexico:s:separacao|separação]] não é mais do que o afastamento do primeiro princípio e onde a [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]] do mundo é manifestação da [[lexico:e:eternidade|Eternidade]]. Os escolásticos usaram o termo em sentidos parecidos ao de Aristóteles, mas acrescentaram-lhe novas [[lexico:s:significacoes|significações]]. Assim, em S. Tomás há três significações predominantes: como princípio intrínseco de movimento; como essência, forma, índole de uma coisa e como aquilo a que se chamou “a totalidade de todas as [[lexico:s:substancias|substâncias]]”. No primeiro caso, trata-se de um modo de ser próprio de certas entidades; no segundo, é aquilo que constitui o todo ou uma parte de certas entidades. Cada um destes significados se entende melhor se o confrontarmos com alguns dos outros. Assim, por exemplo, se tomarmos o conceito de natureza na sua segunda significação, podemos [[lexico:v:ver|ver]] melhor o que se entendeu por natureza em relação ao que se entendeu por pessoa. A natureza equivale aqui ao quê de uma coisa, aquilo que uma coisa é, enquanto a pessoa equivale ao quem, seja qual for o [[lexico:s:suposto|suposto]] que o constitui. O suposto é o que tem natureza e a natureza é aquilo pelo qual o suposto se constitui na sua espécie. alem da [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] de natureza e arte, foram muito importantes a de natureza, como aquilo que foi criado, e Deus. Outra, de certo modo derivada da anterior, é a contraposição de natureza e graça, que foi particularmente importante na filosofia e na especulação teológica de [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]]. Enquanto criada por Deus, a natureza é, para Santo Agostinho, fundamentalmente boa. Não é uma potência má que se oporia a uma potência boa. O mal na natureza surge como [[lexico:c:consequencia|consequência]] do [[lexico:p:pecado|pecado]], o qual pode ser interpretado, metafisicamente, como um “movimento de afastamento da [[lexico:f:fonte|fonte]] criadora”. Para redimir a natureza assim corrompida, é necessária a graça. Daí que a graça não elimine a natureza, mas que a aperfeiçoe. Própria da época moderna e, mais especificamente da contemporânea, é a contraposição entre natureza e cultura. Mencionaremos muito ao de leve algumas das posições tomadas. Segundo alguns, são ilegítimas todas as contraposições, visto que “o que há” é simplesmente “a natureza”, à qual deve reduzir-se tudo. Segundo outros, a natureza está subordinada à liberdade, à cultura ou ao espírito, cada um dos quais, ou todos ao mesmo tempo, acabarão por absorver a natureza. Segundo outros, cada um dos termos de qualquer destas contraposições exclui o outro só enquanto não se tem em conta a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de um terceiro termo, que seria como que uma síntese. Esta última [[lexico:l:localizacao|localização]] foi muito comum desde o [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]], que, em grande parte, pode caraterizar-se como uma tentativa para resolver a contraposição natureza-espírito. Finalmente, outros preferem [[lexico:f:falar|falar]] de uma complementarização recíproca, segundo a qual, e de modo [[lexico:a:analogo|análogo]] ao que se tinha dito relativamente à natureza e à graça, á liberdade e à cultura, ao espírito, etc, não se opõem propriamente à natureza, mas complementam-na ou completam-na.