===== MUNDO DA VIDA ===== VIDE [[lexico:l:lebenswelt|Lebenswelt]] (al. Lebenswelt). [[lexico:t:termo|termo]] introduzido por [[lexico:h:husserl|Husserl]] em [[lexico:k:krisis|krisis]], para designar "o [[lexico:m:mundo|mundo]] em que vivemos intuitivamente, com suas realidades, do [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:c:como-se|como se]] dão, primeiramente na [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:s:simples|simples]] e depois também nos modos em que sua [[lexico:v:validade|validade]] se torna oscilante (oscilante entre [[lexico:s:ser|ser]] e [[lexico:a:aparencia|aparência]], etc.)" (Krisis, § 44). Husserl contrapõe [[lexico:e:esse|esse]] mundo ao mundo da [[lexico:c:ciencia|ciência]], considerado como um "[[lexico:h:habito|hábito]] [[lexico:s:simbolico|simbólico]]" que "representa" o [[lexico:m:mundo-da-vida|mundo da vida]], mas encontra [[lexico:l:lugar|lugar]] nele, que é "um mundo para todos" (Ibid., Beilage, XIX). É na elaboração da grande [[lexico:q:questao|questão]] suscitada desde as Recherches logiques, a de [[lexico:s:saber|saber]] o que se entende por [[lexico:v:verdade|verdade]], que se desenvolve principalmente a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da Lebenswelt. É claro que a verdade [[lexico:n:nao|não]] pode ser definida aqui pela [[lexico:a:adequacao|adequação]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] a seu [[lexico:o:objeto|objeto]], pois tal [[lexico:d:definicao|definição]] implicaria na [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] que define contempla primeiro [[lexico:t:todo|todo]] o pensamento e, segundo, todo objeto na sua [[lexico:r:relacao|relação]] de [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]] total: a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] nos ensinou que tal exterioridade é impensável. A verdade não pode também se definir somente como um conjunto de condições [[lexico:a:a-priori|a priori]], pois esse conjunto (ou [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] à maneira kantiana) não pode dizer [[lexico:e:eu|eu]], ele não é radical, ele é apenas um [[lexico:m:momento|momento]] da [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]]. A verdade só pode ser definida como experiência vivida da verdade: é a [[lexico:e:evidencia|evidência]]. Mas essa [[lexico:v:vivencia|vivência]] não é um [[lexico:s:sentimento|sentimento]], pois é claro que o sentimento não garante [[lexico:n:nada|nada]] contra o [[lexico:e:erro|erro]]; a evidência é o modo originário da [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]], isto é, o momento da [[lexico:c:consciencia|consciência]] em que a própria [[lexico:c:coisa|coisa]] de que se [[lexico:f:fala|fala]] dá-se em [[lexico:c:carne|carne]] e osso, em [[lexico:p:pessoa|pessoa]], à consciência, em que a [[lexico:i:intuicao|intuição]] "se preenche". Para poder responder a [[lexico:p:pergunta|pergunta]] "é a parede amarela?" ou eu entro no quarto e olho para ela (é, no nível perceptivo, uma evidência originária a que Husserl denomina frequentemente "experiência") ou então eu tento lembrar-me dela, ou então eu interrogo outrem a esse [[lexico:r:respeito|respeito]]; nos dois últimos casos, [[lexico:e:experimento|experimento]] se existe em mim ou em outrem uma "experiência", ainda presente, da cor da parede. Toda [[lexico:j:justificacao|justificação]] [[lexico:p:possivel|possível]] do [[lexico:j:juizo|juízo]] deverá passar por essa "experiência presente" da própria coisa; assim a evidência é o [[lexico:s:sentido|sentido]] de toda justificação ou de toda [[lexico:r:racionalizacao|racionalização]]. É evidente que a experiência não se refere apenas ao objeto perceptivo, ela pode aplicar-se a um [[lexico:v:valor|valor]] ([[lexico:b:beleza|beleza]]), em resumo, a qualquer dos modos intencionais enumerados acima. Entretanto, essa evidência ou vivência da verdade não apresenta total [[lexico:g:garantia|garantia]] contra o erro: sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] há casos em que não temos a "experiência" daquilo de que falamos e, no entanto, experimentamo-lo em nós mesmos com evidência; mas, pode o erro inserir-se na própria evidência. Essa parede amarela, à [[lexico:l:luz|luz]] do dia, me é revelada como cinza. Há então duas evidências sucessivas e contraditórias. A primeira que contém um erro. A isto Husserl responde na [[lexico:l:logica-formal|Lógica Formal]] e Transcendental, § 8: "Mesmo uma evidência que se apresenta como [[lexico:a:apoditica|apodítica]] pode revelar-se como ilusória, o que pressupõe, não obstante uma evidência do mesmo [[lexico:g:genero|gênero]], na qual ela "eclode". Em outros termos, é sempre e exclusivamente na experiência [[lexico:a:atual|atual]] que a experiência anterior me aparece como ilusória. Assim não existe uma "experiência verdadeira" em cuja direção dever-se-ia voltar como se fosse o indicador da verdade e do erro; a verdade se experimenta sempre e exclusivamente numa experiência atual, o sempre e exclusivamente numa experiência atual, o fluxo das vivências não se remonta, pode-se apenas dizer que se tal vivência se dá atualmente a mim como uma evidência passada e errônea essa [[lexico:a:atualidade|atualidade]] constitui ela mesma uma nova "experiência" que exprime no presente vivo, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] o erro passado e a verdade presente como a correção desse erro. Não há, portanto, verdade absoluta, [[lexico:p:postulado|postulado]] comum do [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]] e ao [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]], a verdade se define como revisão, correção e [[lexico:s:superacao|superação]] dela mesma, fazendo-se essa [[lexico:o:operacao|operação]] [[lexico:d:dialetica|dialética]] sempre no seio do presente vivo (lebendige Gegenwart); assim, ao contrário do que se produz numa [[lexico:t:tese|tese]] dogmática, o erro é compreensível, porque está [[lexico:i:implicito|implícito]] no [[lexico:p:proprio|próprio]] sentido da evidência pela qual a consciência constitui o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. É, pois, [[lexico:n:necessario|necessário]], para responder corretamente ao [[lexico:p:problema|problema]] da verdade, isto é, para descrever corretamente a experiência do verdadeiro, insistir com ênfase sobre o [[lexico:d:devir|devir]] [[lexico:g:genetico|genético]] do [[lexico:e:ego|ego]]: a verdade não é um objeto, é um [[lexico:m:movimento|movimento]] e ela não existe a não ser que esse movimento seja efetivamente feito por mim. Por conseguinte, para verificar um juízo, isto é, para extrair-lhe o sentido de verdade, é preciso proceder a uma [[lexico:a:analise|análise]] regressiva que leve a uma "experiência" pré-categorial (ante-predicativa), a qual constitui um [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] fundamental da [[lexico:l:logica|lógica]] em [[lexico:g:geral|geral]] ([[lexico:a:aron|Aron]] Gurwitsch). Esse pressuposto não é um [[lexico:a:axioma|axioma]] [[lexico:l:logico|lógico]]. Ele é [[lexico:c:condicao|condição]] filosófica de [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], constitui o solo (Boden) no qual toda predicação tem [[lexico:r:raiz|raiz]]. Antes de toda ciência, aquilo que se examina nos é [[lexico:d:dado|dado]] previamente numa "[[lexico:c:crenca|crença]]" passiva, e o "pré-dado [[lexico:u:universal|universal]] [[lexico:p:passivo|passivo]] de toda [[lexico:a:atividade|atividade]] julgadora" é denominado "mundo", "[[lexico:s:substrato|substrato]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]], [[lexico:i:independente|independente]], no sentido [[lexico:p:profundo|profundo]] de independência absoluta" (Experiência e Juízo, 26 et 157). O [[lexico:f:fundamento|fundamento]] radical de verdade se revela ao final de um [[lexico:r:retorno|retorno]] pela análise [[lexico:i:intencional|intencional]] à Lebenswelt, no seio da qual o sujeito constituinte "recebe as [[lexico:c:coisas|coisas]]" como sínteses passivas anteriores a todo saber rigoroso. "Essa [[lexico:r:receptividade|receptividade]] deve ser vista como etapa inferior da atividade " (ibid., 83), o que significa que o ego transcendental que constitui o sentido desses objetos se refere implicitamente a uma [[lexico:a:apreensao|apreensão]] passiva do objete, a uma cumplicidade primordial que ele tem com o objeto. Essa alusão demasiado breve permite-nos precisar, finalizando, que o "mundo" de que se trata aqui não é evidentemente o mundo da [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]], ele é o conjunto ou [[lexico:i:ideia|ideia]] no sentido kantiano de tudo aquilo que existe e de que se pode [[lexico:t:ter|ter]] consciência. Assim, após a [[lexico:r:reducao|redução]], que afastara o mundo sob sua [[lexico:f:forma|forma]] constituída, para restituir ao ego constituinte sua autenticidade de doador de sentido, o desígnio husserliano ao explorar o próprio sentido dessa Sinngebung subjetiva reencontra o mundo como a própria [[lexico:r:realidade|realidade]] do constituinte. Não se trata, evidentemente, do mesmo mundo: o mundo [[lexico:n:natural|natural]] é um mundo fetichizado no qual o [[lexico:h:homem|homem]] se abandona como existente natural e onde ele "objetiva" ingenuamente a [[lexico:s:significacao|significação]] dos objetos. A redução procura apagar essa [[lexico:a:alienacao|alienação]] e o mundo primordial que descobre ao prolongar-se é o solo de experiências vividas sobre o qual se eleva a verdade do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:t:teorico|teórico]]. A verdade da ciência não é mais fundada em [[lexico:d:deus|Deus]] como em [[lexico:d:descartes|Descartes]] nem nas condições a priori de possibilidade como em [[lexico:k:kant|Kant]], ela se funda sobre a vivência imediata de uma evidência pela qual o homem e o mundo se revelam concordes originariamente.