===== MORTE DE DEUS ===== A [[lexico:c:critica|crítica]] ao [[lexico:i:idealismo|Idealismo]], ao [[lexico:e:evolucionismo|evolucionismo]], ao [[lexico:p:positivismo|positivismo]] e ao [[lexico:r:romantismo|Romantismo]] [[lexico:n:nao|não]] cessa. Essas teorias são [[lexico:c:coisas|coisas]] "humanas, muito humanas", que se apresentam como [[lexico:v:verdades-eternas|verdades eternas]] e absolutas que é preciso desmascarar. Mas as coisas não ficam nisso, já que [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]], precisamente em [[lexico:n:nome|nome]] do [[lexico:i:instinto|instinto]] [[lexico:d:dionisiaco|dionisíaco]], em nome daquele sadio [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:g:grego|grego]] do século VI a.C, que "ama a [[lexico:v:vida|vida]]" e que é totalmente terreno, por um lado anuncia a "[[lexico:m:morte-de-deus|morte de Deus]]" e por [[lexico:o:outro|outro]] realiza [[lexico:p:profundo|profundo]] ataque contra o cristianismo, cuja vitória sobre o [[lexico:m:mundo|mundo]] antigo e sobre a concepção grega do homem envenenou a [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. E, por outro lado ainda, vai às raízes da [[lexico:m:moral|moral]] tradicional, examina a sua genealogia e descobre que ela é a [[lexico:m:moral-dos-escravos|moral dos escravos]], dos fracos e dos vencidos ressentidos contra tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] nobre, [[lexico:b:belo|belo]] e aristocrático. Na [[lexico:g:gaia|Gaia]] [[lexico:c:ciencia|ciência]], o homem louco anuncia aos homens que [[lexico:d:deus|Deus]] está morto: "O que houve com Deus? [[lexico:e:eu|eu]] vos direi. Nós o matamos — eu e vós. Nós somos os seus assassinos!" Pouco a pouco, por diversas razões, a [[lexico:s:sociedade|sociedade]] ocidental foi se afastando de Deus: foi assim que o matou. Mas, "matando" Deus, eliminam-se todos os valores que serviram de [[lexico:f:fundamento|fundamento]] para a nossa vida e, consequentemente, perde-se qualquer [[lexico:p:ponto|ponto]] de [[lexico:r:referencia|referência]]: "O que fazemos separando a [[lexico:t:terra|Terra]] do seu [[lexico:s:sol|sol]]? Para onde vai ela [[lexico:a:agora|agora]]? Para onde vamos nós, longe de qualquer sol? Não continuaremos a nos precipitar para trás, para os lados e para a frente? Ainda existem um alto e um baixo? Não estaremos talvez vagando por um [[lexico:n:nada|nada]] [[lexico:i:infinito|infinito]]? (...) Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos!" Para Nietzsche, nós eliminamos o mundo do [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]], mas, assim fazendo, infringimos também o quadro dos valores e ideais a ele ligados. E, assim, nos encontramos sem ponto de referência: nós matamos Deus e com ele desapareceu o homem velho, mas o homem novo ainda não apareceu. Diz o louco em Gaia ciência: "Venho cedo demais, ainda não é o meu [[lexico:t:tempo|tempo]]. [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] monstruoso ainda está em curso e não chegou aos ouvidos dos homens." A [[lexico:m:morte|morte]] de Deus é [[lexico:f:fato|fato]] que não tem paralelos. E acontecimento que divide a [[lexico:h:historia|história]] da humanidade. Não é o nascimento de Cristo, e sim a morte de Deus, que divide a história da humanidade: "[[lexico:q:quem|quem]] quer que nascer depois de nós, por isso mesmo, pertencerá a uma história mais elevada do que qualquer outra transcorrida". E esse acontecimento, a morte de Deus, anuncia antes de mais nada Zaratustra, que, depois, sobre as cinzas de Deus, erguerá a [[lexico:i:ideia|ideia]] do [[lexico:s:super-homem|super-homem]], do homem novo, impregnado do [[lexico:i:ideal|ideal]] dionisíaco, que "ama a vida" e, voltando as costas para as quimeras do "[[lexico:c:ceu|céu]]", voltará à "sanidade da terra". Proclama, portanto, Zaratustra: "Oh, meus irmãos, aquele Deus que eu criei era a [[lexico:o:obra|obra]] louca de um homem, como são todos os [[lexico:d:deuses|deuses]] (...), o cansaço, que de um só [[lexico:s:salto|salto]] — com salto mortal — pretendia alcançar o cume, esse pobre e ignorante cansaço, que ademais não sabe sequer querer: ele criou todos os deuses e o sobrenatural". E aqueles que pregam [[lexico:m:mundos|mundos]] sobrenaturais são "pregadores da morte", porque "todos os deuses estão mortos". (in. Death of God; fr. Mort de Dieu; al. Gottertod; it. Morte di Dió). O anúncio de que "Deus morreu" foi feito por Nietzsche, no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que "a [[lexico:f:fe|fé]] no Deus cristão tornou-se inaceitável" (A Gaia Ciência, 1882, § 108, 125, 343), mas hoje é considerado [[lexico:s:simbolo|símbolo]] da renovação do cristianismo, que precisava libertar-se das estruturas mitológicas e sobrenaturalistas de que se revestira nos séculos anteriores, reencontrando a pureza de sua [[lexico:m:mensagem|mensagem]]. Essa "nova [[lexico:t:teologia|teologia]]" inspira-se substancialmente na obra de Bultman (v. [[lexico:d:desmitificacao|desmitificação]]) e de Bonhoeffer (v. Deus, 2, b): contrapõe a fé à [[lexico:r:religiao|religião]], nega a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] de Deus (sendo, pois, quase um [[lexico:p:panteismo|panteísmo]]) e transfere para o mundo [[lexico:h:historico|histórico]] a [[lexico:e:esperanca|esperança]] escatológica dos primórdios do cristianismo ao afirmar que "Deus não é, mas será", no sentido de que se realizará como [[lexico:a:amor|amor]] no seio de uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] humana ajustada ao [[lexico:e:exemplo|exemplo]] de Cristo (G. Vartanian, Death ofGod, 1961; T. Altizer, The Gospel of Christian Atheism, 1967). A «Morte de Deus» não parece situar-se no contexto da morte dos deuses, criadora de vida cósmica, mas certamente dá [[lexico:f:forma|forma]] ao [[lexico:r:ritual|ritual]] da nossa vida presente, da vida que é humana por excesso, da vida demasiado humana; e, como tal, é [[lexico:m:mito|mito]] que, como todos os mitos, explica, não se explica, não é explicado, não tem [[lexico:e:explicacao|explicação]]. Julgo que, na [[lexico:s:sequencia|sequência]], se torna evidente para o leitor que o Deicídio por Nietzsche denunciado só significa para nós [[lexico:c:confirmacao|confirmação]] da perenidade de um mito, ou, melhor, de um [[lexico:i:impulso|impulso]] [[lexico:m:mitico|mítico]], criador de mitos. Não me proponho, de [[lexico:m:modo|modo]] nenhum, extrair dele as consequências conhecidas pela [[lexico:l:leitura|leitura]] de toda a obra do [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. Excitante e incitante é só que na [[lexico:m:mente|mente]] privilegiada de um homem tivesse surgido essa ideia de que a «morte de Deus» desfecha uma rajada de [[lexico:m:motivos|motivos]] para dar [[lexico:r:razao-suficiente|razão suficiente]] a uma forma de vida humana, tão «demasiado humana», que ratificou e promoveu todas as consequências implicadas na grande [[lexico:r:recusa|recusa]] Adâmica. A morte dos deuses desoculta mundos em que eles se ocultam. A morte de Deus não desoculta mundo, dá forma, que parece definitiva, ao Homem, que já tinha começado a construir o seu Mundo, com os destroços do mundo em que se recusara a [[lexico:v:viver|viver]]; mas quando chegou a aperceber-se de que a vida de Deus se ia aproximando do [[lexico:f:fim|fim]], sabendo que, daí por diante, só podia contar consigo, da forçada [[lexico:r:renuncia|renúncia]] faz grande triunfo («Se não fizermos da morte de Deus uma grandiosa renúncia e uma contínua vitória sobre nós, temos de suportar a [[lexico:p:perda|perda]]»): acabaria, não por regressar ao Paraíso por Deus plantado, mas por ingressar no paraíso que estava em vias de edificar. A morte de Deus também se faz mundo, mas só através da operosidade humana. Morte de Deus é vida do Homem, e este é que morre para dar vida ao Mundo. Do Deicídio, passa-se ao Homicídio. Vale para este mito o que dissemos da [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de que a [[lexico:m:mitologia|mitologia]] é «biografia dos deuses»: a história não é tanto biografia do Homem quanto a do mortificante [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de construir o Mundo, em que ele efetivamente não vive. O Homem não vive no Mundo, mas diante dele, fora dele. Nenhum artífice vive dentro da sua obra, enquanto obra. Pelo menos, esta, a construção do Mundo, é das que nunca se darão por terminadas. Homem não habita Mundo que é sempre um «[[lexico:a:afazer|afazer]]». Em [[lexico:l:lugar|lugar]] nenhum o homem habita, enquanto faz o que tem de fazer, desde o [[lexico:m:momento|momento]] em que se recusou a aceitar, por habitação sua, aquela que Deus ou um deus fizera sem nada [[lexico:t:ter|ter]] que fazer: habitação do homem que ainda não é Homem, já estava pronta no [[lexico:c:corpo|corpo]] visível de um deus invisível, num mundo que ainda não é o Mundo. O Deus que morreu, sepultou-o o Homem sob a pedra fundamental do Mundo a fazer, e o afazer que o Mundo é exige que o Deus não ressuscite («Toda a Igreja é pedra sepulcral de um Homem-Deus: quer absolutamente que ele não ressuscite.» Aqui o Zaratustra de Nietzsche encontra-se com o Inquisidor-Mor de Dostoiewski.) O Mundo que o homem faz, em seu infindável afazer, assegurará que o Deus não volte mais. Ilusório triunfo! O Homem sofrerá pior [[lexico:d:destino|destino]] se quiser ocupar o lugar que Deus deixou [[lexico:v:vazio|vazio]]: terá de morrer vezes sem conta, excedendo-se de cada vez que morre, porque Deus é [[lexico:e:excessividade|excessividade]] Caótica, o Excesso que vem subindo do [[lexico:a:abismo|abismo]] sem fundo [v. excessividade]. [EudoroMito:50-52]