===== MÔNADAS ===== Com isto, com o infinitamente pequeno do [[lexico:c:calculo-infinitesimal:start|cálculo infinitesimal]], com a [[lexico:f:forca:start|força]] viva como [[lexico:e:elemento:start|elemento]] definitório da [[lexico:m:materia:start|matéria]] em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] da pura [[lexico:e:extensao:start|extensão]], temos os dois [[lexico:e:elementos:start|elementos]], as duas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] fundamentais que, chegando a uma maridagem, a um [[lexico:c:casamento:start|casamento]], a uma [[lexico:u:uniao:start|união]] perfeita, vão produzir a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] propriamente dita de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]. A metafísica de Leibniz está constituída toda ela sobre o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de "[[lexico:m:monada:start|mônada]]". Pode-se dizer que a metafísica, de Leibniz é a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das mônadas, e ele o compreendeu assim, visto que sua última [[lexico:o:obra:start|obra]], publicada depois de sua [[lexico:m:morte:start|morte]], leva este [[lexico:n:nome:start|nome]]: "Teoria das Mônadas", ou [[lexico:d:dito:start|dito]] em uma só [[lexico:p:palavra:start|palavra]]: [[lexico:m:monadologia:start|monadologia]]. Vamos [[lexico:v:ver:start|ver]] que é a mônada. A palavra "mônada" [[lexico:n:nao:start|não]] é de Leibniz. Provavelmente Leibniz tomou-a de suas leituras de um [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] da [[lexico:r:renascenca:start|Renascença]], üm [[lexico:f:fisico:start|físico]], astrônomo e matemático muito genial, porém um pouco [[lexico:f:fantastico:start|fantástico]] que se chamava Giordano [[lexico:b:bruno:start|Bruno]]. Giordano Bruno foi [[lexico:q:quem:start|quem]] a pôs em circulação na Europa. Talvez ele a tivesse tomado também de leituras que houvesse feito, de místicos e filósofos da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]]; talvez de [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], que também a empregou. O [[lexico:f:fato:start|fato]] é que até muito [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] na sua [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] filosófica não usou Leibniz a palavra "mônada", e quando chega já a usá-la cristalizam-se em torno dessa palavra todos os elementos fundamentais de sua metafísica. Que é a mônada? A mônada é primeiramente [[lexico:s:substancia:start|substância]], quer dizer, [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Substância como realidade, e não substância como conteúdo do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], como [[lexico:t:termo:start|termo]] puramente [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] de nossas vivências, mas substância como realidade em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]]. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; que é para Leibniz [[lexico:s:ser:start|ser]] substância? Ser substância, para Leibniz, não consiste em ser extenso. Acabamos de vê-lo. Para Leibniz, a extensão é a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] das [[lexico:s:substancias:start|substâncias]], a ordem da [[lexico:s:simultaneidade:start|simultaneidade]] das substâncias, como o [[lexico:t:tempo:start|tempo]] é a ordem da [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de nossos estados de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. A extensão, o [[lexico:e:espaco:start|espaço]] é uma ideia prévia, mas não tem um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]], [[lexico:r:real:start|real]]. O [[lexico:u:unico:start|único]] objeto substancial, real, a substância, a mônada, não pode, por conseguinte, definir-se pela extensão. Se a mônada pudesse definir-se pela extensão, então a mônada seria extensa. Que quer dizer? Que seria divisível; e se fosse divisível seria dual, ou trial etc. Mas a mônada é mônada, ou seja, única, só, e, por conseguinte, indivisível. E para que seja indivisível não vale [[lexico:f:falar:start|falar]] de átomos. Os átomos materiais não satisfazem a Leibniz, porque o [[lexico:a:atomo:start|átomo]], se é material, se é extenso, é divisível; será mais ou menos difícil de dividir pela [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] [[lexico:d:digital:start|digital]] humana, mas como não se trata de técnica digital, mas da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] de si e por si da substância, uma substância extensa será sempre divisível. Por conseguinte, a mônada não pode ser divisível; é indivisível, e se é indivisível, não é material, não pode ser material. E se, sendo indivisível, é imaterial, que é, pois? Qual é a [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] da mônada? Em que consiste a mônada? Se não consiste em extensão, se não consiste em matéria, em que consiste? Pois não pode consistir em outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que em força, em [[lexico:e:energia:start|energia]], em vis, [[lexico:c:como-se:start|como se]] diz em latim; em vigor. A mônada é, pois, aquilo que tem força, aquilo que tem energia. Mas que é força e energia? Força e energia não as devemos [[lexico:r:representar:start|representar]] como aparecem na nossa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. Na nossa experiência sensível chamamos força à [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] que um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] tem de [[lexico:p:por:start|pôr]] em [[lexico:m:movimento:start|movimento]] [[lexico:o:outro:start|outro]] corpo. Define-se, pois, a força pela capacidade de pôr em movimento outro corpo. Mas assim não pode definir-se metafisicamente a energia, porque aqui não há corpos; as mônadas não são corpos, as mônadas não são extensas. Então, que será esta força em que consiste a mônada? Não pode ser outra coisa que a capacidade de agir, a capacidade de atuar. E que é este atuar? Que é este agir? Pois verificamos que não há para nós [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] de [[lexico:a:acao:start|ação]], intuição [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] nenhuma, senão a que temos de nós mesmos. Aqui outra vez o [[lexico:m:metodo:start|método]] do [[lexico:c:cogito:start|cogito]] cartesiano vem dar a Leibniz um apoio e um auxílio. Pois como podemos imaginar e representar a força, a energia da mônada? Pois do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que nós, no interior de nós mesmos, captamos a nós mesmos como força, como energia; quer dizer, como trânsito e movimento interno psicológico de uma ideia, de uma [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] a outra percepção, de uma [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] a outra vivência. Essa capacidade de [[lexico:t:ter:start|ter]] vivência, essa capacidade de variar nosso [[lexico:e:estado:start|Estado]] interior, que deixa de ser a vivência A para passar a ser a vivência B, depois a vivência C; essa capacidade íntima de suceder-se umas a outras as vivências, é isso que constitui para Leibniz a consistência da mônada. A mônada é substância ativa. Que quer dizer isto? Substância, diremos, psíquica. Essa substância ativa, essa capacidade de passar por vários estados, essa [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de_ [[lexico:v:viver:start|viver]] com que se pode definir a mônada, tem uma porção de [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] interessantes. Em primeiro lugar, a mônada não somente é indivisível, mas individual. Que quer dizer isto? Quer dizer que uma mônada é totalmente diferente de outra mônada; não pode haver no [[lexico:u:universo:start|universo]] duas mônadas iguais. Em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do [[lexico:p:principio:start|princípio]] de Leibniz [[lexico:c:chamado:start|chamado]] dos "[[lexico:i:indiscerniveis:start|indiscerníveis]]", se uma mônada fosse igual a outra mônada, verdadeiramente igual a ela, não poderiam ser duas, mas uma. As [[lexico:c:coisas:start|coisas]] no [[lexico:m:mundo:start|mundo]], as realidades no mundo são indiscerníveis quando são iguais. Portanto, nunca são iguais. A [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] da mônada é um dos pontos essenciais da metafísica de Leibniz. Mas, ademais, essa individualidade é simplicidade. Indivisível significa [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], mas ademais [[lexico:s:simples:start|simples]]. Simples quer dizer sem partes. A mônada não tem partes, mas, como é ativa, há de se encontrar uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] que torne compatível a individualidade, a indivisibilidade, a simplicidade da mônada com as mudanças interiores da mônada. Como pode haver mudanças interiores, [[lexico:a:atividade:start|atividade]], [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] interior nos estados da mônada se, de outro lado, tem que ser indivisível, individual e simples? Pois não há mais que uma maneira que é dotar a mônada de percepção. A mônada está, pois, dotada de percepção e de [[lexico:a:apeticao:start|apetição]], caracteres de tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] essencialmente [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]. Percepção, porque a percepção é justamente o [[lexico:a:ato:start|ato]] mesmo de ter o [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]] no simples. Na [[lexico:a:alma:start|alma]] espiritual, no ato da percepção, o múltiplo percebido, o conteúdo múltiplo da vivência está na [[lexico:u:unidade:start|unidade]] indivisível, na unidade simples daquele que percebe. Na percepção é que se dá precisamente o requisito que antes exigíamos, a [[lexico:s:saber:start|saber]], que a mônada seja simples, indivisível e individual, e ao mesmo tempo que contenha uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] de estados. Essa precisamente é a percepção; e assim define literalmente Leibniz a percepção: como a [[lexico:r:representacao:start|representação]] do múltiplo no simples. Mas, [[lexico:a:alem:start|além]] de percepção, a mônada tem apetição, ou seja, [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] de passar de uma a outra percepção. As percepções se sucedem na mônada, e [[lexico:e:esse:start|esse]] suceder-se das percepções na mônada constituem a apetição. [[lexico:a:agora:start|agora]] já temos uma representação, uma ideia muito mais complexa e clara da atividade da mônada. A atividade da mônada é dupla: de um lado, perceber; de outro lado, apetecer. Corresponde, pois, — como diz o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Leibniz — a realidade metafísica da mônada a essa realidade que chamamos o "[[lexico:e:eu:start|eu]]". Paremos agora um [[lexico:m:momento:start|momento]]; relembremos o geometrismo e o [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. Que vemos agora? Vemos que Leibniz perfurou, por assim dizer, o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]], a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] do geométrico, do [[lexico:m:mecanico:start|mecânico]], do físico, do material, e por debaixo dessa aparência fenomênica do extenso, do mecânico, do material, do físico, descobriu, como suporte real metafísico dessa aparência [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]], a mônada, que não é extensa, que não é movimento, mas sim é pura atividade, ou seja, percepção e apetição. Estas mônadas são a sucessão constante de diferentes e diversas percepções, o trânsito constante de uma a outra percepção. E qual é a [[lexico:l:lei:start|lei]] íntima desse trânsito? É uma lei espontânea. Assim como o [[lexico:c:circulo:start|círculo]] percorrido por um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] está já in nuce, em germe, dentro da [[lexico:d:divisao:start|divisão]] [[lexico:i:infinitesimal:start|infinitesimal]] do ponto, assim também as mônadas, para Leibniz, não têm janelas nem nelas penetra [[lexico:n:nada:start|nada]] do mundo [[lexico:e:exterior:start|exterior]]. Mas a lei íntima de sucessão de seus estados perceptivos e de sua própria apetição é uma lei que rege essa sucessão; da mesma [[lexico:f:forma:start|forma]] que a lei íntima de uma [[lexico:f:funcao:start|função]], de uma variável, está integralmente contida no seio do ponto dessa variável. E assim verificamos que em qualquer momento de sua [[lexico:v:vida:start|vida]], do seu ser, do seu [[lexico:e:existir:start|existir]]; em qualquer [[lexico:i:instante:start|instante]] da sua realidade, a mônada é uma [[lexico:r:reducao:start|redução]] do mundo inteiro. É a mônada em qualquer momento de sua vida algo que nesse momento contém [[lexico:t:todo:start|todo]] o passado da mônada e todo o porvir, visto que a [[lexico:s:serie:start|série]] das percepções que a mônada vai tendo vem determinada por uma lei interna, que é a definição dessa individualidade metafísica substancial. Em qualquer momento da vida da mônada todo o seu passado está vertido nesse presente e esse presente por seu turno não é mais do que o prelúdio do [[lexico:f:futuro:start|futuro]], inscrito já também na atividade presente da mônada. Pois bem; se as mônadas refletem desta [[lexico:s:sorte:start|sorte]] o universo; se cada mônada é um [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] [[lexico:u:universal:start|universal]], é assim exclusivamente de um certo ponto de vista. Reflete, pois, cada mônada a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do universo, porém a reflete do ponto de vista em que se encontra situada, e ademais a reflete obscuramente. Leibniz distingue perfeitamente a percepção da [[lexico:a:apercepcao:start|apercepção]]. Leibniz distingue entre perceber e aperceber. Que é aperceber? Muito simplesmente: aperceber é ter consciência de que se está percebendo. A apercepção é o saber da percepção; a percepção que se sabe a si mesma como tal percepção. De modo que Leibniz distingue entre estes atos psíquicos: a apercepção e a percepção. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}