===== MODOS DE VIDA ===== [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] distinguia três [[lexico:m:modos-de-vida|modos de vida]] (bioi) que os homens podiam escolher livremente, isto é, em inteira independência das [[lexico:n:necessidades-da-vida|necessidades da vida]] e das [[lexico:r:relacoes|relações]] delas decorrentes. Esta [[lexico:c:condicao|condição]] prévia de [[lexico:l:liberdade|liberdade]] eliminava qualquer [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:v:vida|vida]] dedicado basicamente à [[lexico:s:sobrevivencia|sobrevivência]] do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] — [[lexico:n:nao|não]] apenas o [[lexico:l:labor|labor]], que era o modo de vida do [[lexico:e:escravo|escravo]], coagido pela [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de permanecer vivo e pela [[lexico:t:tirania|tirania]] do senhor, mas também a vida de [[lexico:t:trabalho|trabalho]] dos artesãos livres e a vida aquisitiva do mercador. Em uma [[lexico:p:palavra|palavra]], excluía todos aqueles que, involuntária ou voluntariamente, permanente ou temporariamente, já não podiam dispor em liberdade dos seus movimentos e [[lexico:a:acoes|ações]] ([[lexico:n:nota|nota]] abaixo). Os três modos de vida restantes têm em comum o [[lexico:f:fato|fato]] de se ocuparem do «[[lexico:b:belo|belo]]», isto é, de [[lexico:c:coisas|coisas]] que não eram necessárias nem meramente úteis: a vida voltada para os prazeres do [[lexico:c:corpo|corpo]], na qual o belo é consumido tal como é [[lexico:d:dado|dado]]; a vida dedicada aos assuntos da [[lexico:p:polis|polis]], na qual a [[lexico:e:excelencia|excelência]] produz belos feitos; e a vida do [[lexico:f:filosofo|filósofo]], dedicada à [[lexico:i:investigacao|investigação]] e à [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] das coisas eternas, cuja [[lexico:b:beleza|beleza]] perene não pode [[lexico:s:ser|ser]] causada pela interferência produtiva do [[lexico:h:homem|homem]] nem alterada através do consumo [[lexico:h:humano|humano]] ([[lexico:o:oposicao|oposição]] entre belo e [[lexico:n:necessario|necessário]] e [[lexico:u:util|útil]], [[lexico:p:politica|Política]] 1333a30 ff., 1332b32) A principal [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o emprego aristotélico e o posterior emprego medieval da [[lexico:e:expressao|expressão]] é que o [[lexico:b:bios-politikos|bios politikos]] denotava explicitamente somente a [[lexico:e:esfera|esfera]] dos assuntos humanos, com ênfase na [[lexico:a:acao|ação]], [[lexico:p:praxis|praxis]], necessária para estabelecê-la e mantê-la. Nem o labor nem o trabalho eram tidos como suficientemente dignos para constituir um bios, um modo de vida autônomo e autenticamente humano; uma vez que serviam e produziam o que era necessário e útil, não podiam ser livres e independentes das necessidades e privações humanas (oposição entre livre e necessário e útil, Política 1332b2). Se o modo de vida [[lexico:p:politico|político]] escapou a este veredicto, isto se deve ao [[lexico:c:conceito|conceito]] [[lexico:g:grego|grego]] de vida na polis que, para eles, denotava uma [[lexico:f:forma|forma]] de organização política muito especial e livremente escolhida, [[lexico:b:bem|Bem]] mais que mera forma de ação necessária para manter os homens unidos e ordeiros. Não que os gregos ou Aristóteles ignorassem o fato de que a vida humana sempre exige alguma forma de organização política, e que o [[lexico:g:governo|governo]] dos súditos pode constituir um modo de vida à [[lexico:p:parte|parte]]; mas o modo de vida do déspota, pelo fato de ser «meramente» uma necessidade, não podia ser considerado livre e [[lexico:n:nada|nada]] tinha a [[lexico:v:ver|ver]] com o bios politikos. (NOTA) William L. Westermann («Between Slavery and Freedom», American Historical Review. Vol. L (1945)) afirma que o «[[lexico:e:enunciado|enunciado]] de Aristóteles... de que os artífices vivem numa condição de [[lexico:e:escravidao|escravidão]] limitada, significa que o artífice, ao fazer um contrato de trabalho, dispunha de dois dos [[lexico:q:quatro-elementos|quatro elementos]] de seu [[lexico:s:status|status]] de homem livre (viz., liberdade de [[lexico:a:atividade|atividade]] [[lexico:e:economica|econômica]] e [[lexico:d:direito|direito]] de ir e vir), mas por [[lexico:v:vontade|vontade]] própria e temporariamente»; fatos citados por Westermann demonstram que a liberdade, na [[lexico:e:epoca|época]], era concebida como consistindo em «status, inviolabilidade [[lexico:p:pessoal|pessoal]], liberdade de atividade econômica e direito de ir e vir» e que, consequentemente, a escravidão «era a [[lexico:a:ausencia|ausência]] destes [[lexico:q:quatro|Quatro]] atributos». Aristóteles, ao enumerar os «modos de vida» na [[lexico:e:etica-a-nicomaco|Ética a Nicômaco]] (i.5) e na [[lexico:e:etica|Ética]] a [[lexico:e:eudemo|Eudemo]] (1215a35 ff.), nem chega a mencionar o modo de vida do artífice; para ele, é óbvio que um banausos não é livre (cf. Política 1337b5). Menciona, porém, o modo de vida do «ganhador de dinheiro» para rejeitá-lo, uma vez que também é «adotado sob compulsão» (Ét. a Nic. 1096a5). Na Ética a Eudemo, fica salientado que o [[lexico:c:criterio|critério]] é a liberdade: ele enumera somente aqueles modos de vida escolhidos ep’ exousian.