===== MITO ===== (do gr. [[lexico:m:mythos:start|mythos]], [[lexico:l:lenda:start|lenda]]). Da [[lexico:r:raiz:start|raiz]] my (mu), a mesma de "[[lexico:m:misterio:start|mistério]]" e que tinha o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de "[[lexico:s:silencio:start|silêncio]]", guardar silêncio; ou seja, refere-se a algo que se nega a [[lexico:s:ser:start|ser]] expresso em [[lexico:p:palavras:start|palavras]], só admitindo o [[lexico:u:uso:start|uso]] de [[lexico:f:figura:start|figura]], [[lexico:i:imagem:start|imagem]], [[lexico:a:alegoria:start|alegoria]], [[lexico:m:metafora:start|metáfora]], ou a [[lexico:f:forma:start|forma]] imaginária de mitos, fábulas, estórias. (do gr. mythos, [[lexico:f:fabula:start|fábula]]), narrativa dos tempos fabulosos e heroicos, [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]]. — A [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] sobre os mitos e a mitologia empenha-se em descobrir o nascimento das religiões, pois o mito constitui uma primeira forma de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e do [[lexico:u:universo:start|universo]], uma explicação que é da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]], [[lexico:n:nao:start|não]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]. A reflexão sobre os mitos como [[lexico:m:metodo:start|método]] de um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] aprofundado do [[lexico:h:homem:start|homem]] e das religiões foi preconizada e praticada por [[lexico:s:schelling:start|Schelling]], J. Bachofen, E. [[lexico:c:cassirer:start|Cassirer]], K. [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] e P. [[lexico:r:ricoeur:start|Ricoeur]]. a) É o [[lexico:r:relato:start|relato]] [[lexico:s:simbolico:start|simbólico]] que não revela imediatamente qualquer reflexão sobre fatos realizados por agentes impessoais ou forças da [[lexico:n:natureza:start|natureza]], mas representados por seres pessoais. Esses relatos constituem, em [[lexico:s:suma:start|suma]], a mitologia, acrescentando-se neles as crenças respectivas. b) A [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] de uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] ou doutrina sob a forma predominantemente poética, portanto metafórica e alegoricamente, como o [[lexico:m:mito-da-caverna:start|mito da caverna]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]] (v. [[lexico:m:mito-em-platao:start|mito em Platão]]). c) Uma [[lexico:c:crenca:start|crença]] mais ou menos [[lexico:g:geral:start|geral]] que não tem nenhuma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] histórica, como o "mito da greve geral" para instaurar a [[lexico:r:revolucao:start|revolução]] [[lexico:s:social:start|social]], defendida pelos socialistas revolucionários e sindicalistas. Vide [[lexico:u:utopia:start|utopia]]. Chama-se mito a um relato de algo fabuloso que se supõe que aconteceu num passado remoto e quase sempre impreciso. Os mitos podem referir-se a grandes feitos heroicos que, com frequência são considerados como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] e o [[lexico:c:comeco:start|começo]] da [[lexico:h:historia:start|história]] de uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] ou do [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:h:humano:start|humano]] em geral. Podem [[lexico:t:ter:start|ter]] como conteúdo fenômenos naturais, e nesse caso costumam ser apresentados alegoricamente. Muitas vezes, os mitos comportam a personificação de coisas ou acontecimentos. Quando o mito é tomado alegoricamente, converte-se num relato com dois aspectos, ambos igualmente necessários: o fictício e o [[lexico:r:real:start|real]]. O fictício consiste em que, de [[lexico:f:fato:start|fato]], não aconteceu o que o relato [[lexico:m:mitico:start|mítico]] diz. O real consiste em que, de certo [[lexico:m:modo:start|modo]], o que diz o relato mítico corresponde à [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. O mito é como um relato daquilo que poderia ter acontecido se a realidade coincidisse com o [[lexico:p:paradigma:start|paradigma]] da realidade. Na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]], alguns, como os [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]], separaram o mito da razão, mas nem sempre para sacrificar inteiramente o primeiro, pois com frequência admitiram a narração mitológica como envoltura da [[lexico:v:verdade:start|verdade]] filosófica. Esta concepção foi retomada por Platão, especialmente quando considerou o mito como modo de expressar certas verdades que escapam ao [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]]. Neste sentido, o mito não pode ser eliminado da [[lexico:f:filosofia-platonica:start|filosofia platônica]], pois desapareceriam então dela a doutrina do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], da [[lexico:a:alma:start|alma]] e de [[lexico:d:deus:start|Deus]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] como [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. O mito é para Platão, muitas vezes, algo mais que uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] [[lexico:p:provavel:start|provável]]. Mas, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o mito aparece nele como o modo de expressar o [[lexico:r:reino:start|reino]] do [[lexico:d:devir:start|devir]]. Na antiguidade e na idade média, deu-se [[lexico:p:particular:start|particular]] [[lexico:a:atencao:start|atenção]] ao [[lexico:p:proprio:start|próprio]] conteúdo dos mitos e ao seu poder [[lexico:e:explicativo:start|explicativo]]. Desde o [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], abriu-se passagem a um [[lexico:p:problema:start|problema]] que, embora já tratado na antiguidade, tinha ficado um pouco à margem: o problema da realidade, e, por conseguinte, o problema da verdade ou [[lexico:g:grau:start|grau]] de verdade, dos mitos.. Muitos autores modernos negaram-se a considerar os mitos como dignos de [[lexico:m:mencao:start|menção]]. A verdadeira história, proclamaram eles, não tem [[lexico:n:nada:start|nada]] de mítico. Contudo, à [[lexico:m:medida:start|medida]] que se procurou estudar a história empiricamente, verificou-se que os mitos podem não ser verdadeiros no que contam, mas são verdadeiros noutro sentido: em que contam algo que realmente aconteceu na história, isto é, a crença em mitos. por outras palavras, os mitos foram considerados como fatos históricos: a sua verdade é uma verdade histórica. Na [[lexico:e:epoca:start|época]] contemporânea, prevaleceu o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] do mito como [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:p:possivel:start|possível]], e em [[lexico:t:todo:start|todo]] o caso ilustrativo, da história humana e de certas formas de comunidade humana. O mito não é mero objeto de pura [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] empírico-descritiva, nem tão pouco é [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] histórica de nenhum [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]: é modo de ser ou forma de uma consciência: a “consciência mítica”. Esta consciência tem um [[lexico:p:principio:start|princípio]] que se pode investigar mediante um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:a:analise:start|análise]] que não é nem empírica nem [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], mas - em sentido muito lato - epistemológico. Mas como, ao mesmo tempo, a consciência mítica é uma das formas da consciência humana, o exame dos mitos ilumina a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] dessa consciência. O que se investiga deste modo é a [[lexico:f:funcao:start|função]] dos mitos na consciência e na [[lexico:c:cultura:start|cultura]]. A [[lexico:f:formacao:start|formação]] de mitos obedece a uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]: a necessidade da consciência cultural. Os mitos podem ser considerados como supostos culturais. Os mitos constituem "a espinha dorsal dogmática das sociedades tradicionais"; eles são "a carta [[lexico:p:pragmatica:start|pragmática]]" delas, afirmará B. Malinowsky. Para Claude [[lexico:l:levi-strauss:start|Lévi-Strauss]], seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] é o de não serem produzidos por mentalidades individuais, mas o de impor-se a nós pelo [[lexico:p:peso:start|peso]] da [[lexico:t:tradicao:start|Tradição]]. Essa redescoberta do poder significante do mito e de seu [[lexico:v:valor:start|valor]] regenerador não se faz sem [[lexico:e:esforco:start|esforço]]; sua "[[lexico:s:seriedade:start|seriedade]]" não é evidente para a maioria nem para a minoria. No quadro geral das teorias evolucionistas que dominavam o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] antropológico do [[lexico:u:ultimo:start|último]] século, os mitos foram percebidos como a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de um esforço intelectual para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o mundo, mas também como a manifestação de um pensamento confuso, [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]], [[lexico:i:irracional:start|irracional]] "embrionário", segundo Frazer, ou para Taylor, como "elas mesmas resultam o fruto de crenças de uma análise confusa da realidade". Quando os próprios teóricos da [[lexico:e:etnologia:start|etnologia]] começaram a seguir ao [[lexico:c:campo:start|campo]] com a [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] de não mais somente colecionar os fatos, mas também de interrogarem precisamente quanto ao [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] destes, os pontos de vista que acabamos de resumir pareceram depressa indefensáveis. De fato, essas pessoas com as quais se podia [[lexico:v:viver:start|viver]], conversar, [[lexico:r:raciocinar:start|raciocinar]], viviam manifestamente sem dificuldade com a realidade que as cercava, ainda que esta diferisse em certos pontos da realidade ocidental; era evidente que nenhuma insuficiência intelectual vinha entravar a eficácia das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] desses homens com seu [[lexico:m:meio:start|meio]]; ELES NÃO CONFUNDIAM OS SONHOS COM A REALIDADE, nem as coisas com as palavras, nada, desde este [[lexico:m:momento:start|momento]], podia justificar a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] do recurso inevitável a narrativas fantasmagóricas para sustentar as atitudes de um pensamento [[lexico:m:mal:start|mal]] assegurado e de uma [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] confusa. Marcel Griaule descobre entre os Dogons, na [[lexico:a:africa:start|África]], um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] particularmente refletido e [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]] de modos de pensamento, fundado no Mito, na [[lexico:a:analogia:start|analogia]], nos signos simbólicos, nos sistemas de [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]], no esoterismo iniciático. Todo o [[lexico:j:jogo:start|jogo]] social é apenas uma colocação em prática dos Mitos; Griaule concluirá dizendo que "o etnólogo nada tem a dizer, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, sobre a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] Dogon, do que dela dizem os próprios Dogons". __O MITO, NARRATIVA DAS ORIGENS__ Os mitos, diferentemente dos contos, são reconhecidos como verdadeiros pelas sociedades tradicionais. Significando "[[lexico:f:fala:start|fala]]" ou "narrativa" em [[lexico:g:grego:start|grego]], o Mito deveria ser compreendido como a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] verdadeira; é o Mito que transmite as verdades arquetípicas aos homens, graças à sua [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] poética acessível a todos. A não ser que sejam transmitidos por [[lexico:s:simples:start|simples]] solicitação, como para os contos (será [[lexico:n:necessario:start|necessário]] então que o solicitante coloque de maneira judiciosa as questões que lhe são consideradas importantes), os mitos apresentam-se como a explicação das questões fundamentais antecipada pela própria sociedade. O mito só pode ser transmitido pelo [[lexico:v:verbo:start|verbo]], isto é, de boca a orelha; ele é a expressão do Verbo Criador. A maioria dos mitos remete a um «tempo primordial», ao qual nos referimos sem cessar, como sendo a «matriz dos tempos presentes». Os nomes dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] retêm o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]. O [[lexico:r:risco:start|risco]] não é somente o [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] do mito, mas também o da própria verdade, à qual nos propomos medir; a [[lexico:q:questao:start|questão]] é finalmente [[lexico:s:saber:start|saber]] se a verdade científica é toda a verdade, ou se algo [[lexico:d:dito:start|dito]] pelo mito poderia ser de outra forma. __MITO E IDEOLOGIA__ Diferentemente do [[lexico:c:conceito:start|conceito]], o Mito não é linear; ele propõe diversos níveis de conhecimentos e diferentes direções de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] coexistindo num todo [[lexico:o:organico:start|orgânico]]. Se o mito foi por muito tempo [[lexico:m:marginalizado:start|marginalizado]] e incompreendido pelos filósofos modernos, é porque, como enfatizaram primeiramente René Guénon, depois ((Gilbert Durand)), os três níveis complementares do conhecimento tradicional "Deus, Homo e Natura" não são três estados cronológicos. De fato, Augusto [[lexico:c:comte:start|Comte]] e seus sucessores acreditaram [[lexico:v:ver:start|ver]] nos diferentes conhecimentos do homem (teológicos, metafísicos e positivos) "três estados" sucessivos pelos quais haveria passado a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], segundo um [[lexico:p:processo:start|processo]] de [[lexico:p:progresso:start|progresso]] linear. O que está "deformado", segundo René Guénon, "desfigurado", segundo ((Gilbert Durand)), "é a [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] do [[lexico:p:pluralismo:start|pluralismo]] cósmico. No pensamento (isto é, o "[[lexico:e:eu:start|eu]] penso!") tradicional, há três direções de pesquisa do sentido (Deus, Natura, Homo) e uma unificação que se faz pela similitude (ou analogia) de Natura e de Homo, hierarquizados sob o [[lexico:a:ato:start|ato]] criador de Deus. Isto é, nessa [[lexico:s:situacao:start|situação]], em que se tem um "eu penso" em direções múltiplas e uma "[[lexico:c:criacao:start|Criação]]" unificada pelo ato do Criador, substitui-se no pensamento [[lexico:m:moderno:start|moderno]] um "eu penso" unidimensional. Produz-se, portanto, "uma reviravolta objetiva (inversa e negativa do [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]) que unifica o universo e seus níveis de [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] fazendo-os entrar unidimensionalmente no propósito [[lexico:u:unico:start|único]] e obsessivo da pesquisa «positivista». E nisso que consiste a [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] de uma «[[lexico:i:ideologia:start|ideologia]]» em uma mitologia que compreende necessariamente os distanciamentos internos de toda [[lexico:a:atitude:start|atitude]] [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]]". Por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] do Colóquio de Córdova, D. Shayegan expressou-se assim a propósito da ideologia: "A ideologia, exteriormente, possui o aparelho [[lexico:r:racional:start|racional]] de um pensamento, digamos [[lexico:l:logico:start|lógico]], no sentido [[lexico:c:classico:start|clássico]] do [[lexico:t:termo:start|termo]]. Ela obedece, portanto, em seu funcionamento, à [[lexico:l:logica:start|lógica]] binária, enquanto os [[lexico:m:motivos:start|motivos]] que a nutrem encontram a oiigem deles na lógica onírica, tanto e tão bem que se, exteriormente, a ideologia obedece ao [[lexico:p:principio-do-terceiro-excluido:start|princípio do terceiro excluído]], ela é motivada interiormente por [[lexico:c:categorias:start|categorias]] mágico-sincrônicas. Se, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a ideia principal postula que somente a [[lexico:r:raca:start|raça]] [[lexico:s:superior:start|superior]] deve sobreviver porque é eleita pela natureza, ou somente deve triunfar esta ou aquela [[lexico:c:classe-social:start|classe social]] que é missionária da história, ou ainda, que não há verdade senão no que é dito e [[lexico:e:escrito:start|escrito]] nos livros santos, resulta, segundo a implacável lógica redutora do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] ideológico que, no primeiro caso, as raças inferiores devem perecer já que são condenadas pela natureza; no segundo caso, as classes antagônicas devem desaparecer porque são renegadas pela história, e, no [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] caso, as infiéis devem ser suprimidas da cena do mundo porque contradizem as verdades primeiras que revelam os livros santos. Temos aí um caso [[lexico:t:tipico:start|típico]] em que um aparelho lógico e racional apoiar-se em premissas que se dizem geralmente irracionais, mas das quais se pode dizer, pelo menos à [[lexico:l:luz:start|luz]] do que acaba de ser evocado, que elas salientam uma lógica e uma razão diferentes. Assistimos nesse caso à colocação, ao cruzamento, de dois tipos de pensamento, que, em cada qual, um deformar-se para se ajustar ao [[lexico:o:outro:start|outro]], e que produz sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] as piores aberrações". Assim pode-se dizer que se a ideologia obedece ao princípio do terceiro excluído, o Mito, em compensação, obedece à "lógica" do terceiro incluído já que ele é capaz de integrar os paradoxos do ser e do Universo, como o vimos a propósito dos mitos cosmogônicos. 0 mito, assim reduzido a uma simples e única [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]], tornou-se ideologia ou [[lexico:d:dogma:start|dogma]] graças à [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] unidimensional das Ciências do Homem. Ou, como o exprime H. Dumery: "[[lexico:c:ciencia:start|Ciência]] ou [[lexico:r:religiao:start|religião]], artes ou técnicas, [[lexico:m:moral:start|moral]] ou [[lexico:p:politica:start|política]], nada está ao abrigo da ideologia ilusória ou enganosa, da ideologia, isto é, de uma falsa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] do mito, de uma explicação que não restitui nem sua ordem, nem suas [[lexico:c:causas:start|causas]], nem sua importância." O mito é, portanto, um [[lexico:m:modelo:start|modelo]] paradoxal e [[lexico:c:complexo:start|complexo]], radicalmente diferente da ideologia lógica, unitária e simplista. Para [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o mito, é necessário «vivê-lo», já que se trata de uma [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] total, que toca todos os constituintes do ser (conscientes e inconscientes); enquanto que, para a ideologia, é suficiente raciocinar, pois ela é de natureza apenas intelectual. É a "desmitologização" efetuada pelas [[lexico:c:ciencias-sociais:start|ciências sociais]] que conduziu o Ocidente à crise de [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] e à [[lexico:s:serie:start|série]] de desencantamentos em que ele vive há dois séculos: desencantamento da Igreja, do progressismo burguês e, enfim, do [[lexico:c:coletivismo:start|coletivismo]]. Segundo ((Gilbert Durand)), "em seu programa de dependência e de dominação, as "ciências sociais" tornaram-se as dóceis servas de todas as empresas de [[lexico:a:alienacao:start|alienação]], desde o [[lexico:i:instante:start|instante]] cm que suas problemáticas «reduziram-se» aos problemas de "rendimento", de "rentabilidade", de "produção" ou de "consumo", de "técnicas de gestão" ou de "[[lexico:p:publicidade:start|publicidade]]". A [[lexico:m:mistificacao:start|mistificação]] antropológica reside justamente no fato de que a atitude [[lexico:h:heuristica:start|heurística]] transgrediu os limites (os «deveres», teriam dito os antigos companheiros) de que dispunham imemorialmente na Tradição as divindades e os poderes da mitologia. Estes últimos eram primeiramente os [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]], os [[lexico:r:reflexos:start|reflexos]] ou as projeções das necessidades que definem e delimitam a espécie homo sapiens. E se se aplica por zombaria o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] positivista dos "três estados " ao [[lexico:d:discurso:start|discurso]] antropológico, vê-se a utopia dessacralizar, pela metade, o mito, racionalizando-o e retirando-lhe a opacidade originária, após ser escamoteada, por sua vez, pela ideologia e pelos métodos de análise da linguagem, e é então bem [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] dizer «que o homem está perecendo a medida que brilha mais forte em nosso [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] o ser da linguagem». Esta «substituição» dupla de uma liquidação, por toda uma aquiescência tácita ou confessa ao dogma positivista, do próprio objeto da [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] e partindo do próprio [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] de todo [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]], ia-se ilustrar em todos esses acontecimentos do meio século decorrido, do qual Auschivitz e Gulag permanecem para sempre o paradigma ". (((Gilbert Durand))) __A [[lexico:i:intencao:start|INTENÇÃO]] SIGNIFICANTE DO MITO__ O mito, enquanto história das [[lexico:o:origens:start|origens]], tem essencialmente uma função de instauração; somente há mito se o [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] fundador não possui lugar na história, mas em um tempo situado antes da história; "in illo tempore": é essencialmente a [[lexico:r:relacao:start|relação]] de nosso tempo com o Tempo que constitui o mito. Este diz sempre como [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] nasceu. A primeira função do mito é, portanto, instaurar os tempos históricos. Antes que as coisas ocorram, o mito instaura os [[lexico:p:principios:start|princípios]] que animarão a [[lexico:t:transformacao:start|transformação]]; a história desenvolver-se-á sempre no quadro estreito dos princípios dados pelo mito que exerce o papel de [[lexico:a:arquetipo:start|arquétipo]]; todas as situações históricas, inclusive a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]], já são prefiguradas nas representações dos deuses, mensageiros, heróis, etc. Não é a história que se repete, mas o mito que reaparece. Uma outra função do mito é sua função praticidade; várias escolas antropológicas marcaram o vínculo estreito que existe entre o mito e o [[lexico:r:rito:start|rito]]. Este vínculo deve ser compreendido em seu princípio; é na medida em que o mito constitui a ligação do tempo [[lexico:h:historico:start|histórico]] com o tempo primordial que a narração das origens toma valor de paradigma para os tempos presentes: eis aí como as coisas foram fundadas na [[lexico:o:origem:start|origem]], e ainda o é da mesma forma hoje. Por sua intenção significante fundamental, o mito permite que ele seja repetido, reativado no rito. O mito constitui, portanto, uma defesa contra o tempo e seu desgaste. Ele sacraliza a história à qual se opõe, pois pertence a uma outra dimensão, uma dimensão transcendente. O papel do mito é despertar o homem, destruir as escamas que obstruem sua [[lexico:v:visao:start|visão]] interior e fazê-lo ver as coisas tais como elas são. O mito reinstalar-se na realidade, mascarada, a cada instante, pelo tempo profano, [[lexico:r:relativo:start|relativo]] e mortal. O mito confere à [[lexico:a:acao:start|ação]] humana uma experiência do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]], uma função de informação e de manutenção da consciência de um outro mundo, do mundo [[lexico:d:divino:start|divino]]. Se conhece o mito, o homem tornar-se contemporâneo do acontecimento primordial, das origens, e para ele, o mundo tornar-se transparente. Desde então, o mito é uma linguagem simbólica do sagrado; é também uma estrutura [[lexico:u:universal:start|universal]] do real. Em resumo, todo o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] mítico é marcado pela [[lexico:i:imitacao:start|imitação]] de um arquétipo, pela [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] de um [[lexico:a:argumento:start|argumento]] [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]] e pela [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]] do tempo profano. Esses três [[lexico:e:elementos:start|elementos]] reencontram-se no comportamento cristão. De fato a [[lexico:e:experiencia-religiosa:start|experiência religiosa]] do homo religiosus fundar-se na imitação do Cristo que, na celebração litúrgica, tornar-se modelo exemplar graças a repetição de sua [[lexico:v:vida:start|vida]], de sua [[lexico:m:morte:start|morte]] e de sua ressurreição. Assim, o tempo litúrgico opera uma ruptura no tempo profano. Permite ao cristão reatualizar um mistério, fazendo-o entrar no tempo sagrado. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}