===== METAFÍSICA DO SER ===== Como o observou [[lexico:b:bergson|Bergson]], há, em toda [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] verdadeiramente consistente, uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] original que orienta todos os desenvolvimentos posteriores. Isto quer dizer que na [[lexico:o:ordem|ordem]] objetiva da [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]], se deve remontar a um [[lexico:t:termo|termo]] primeiro e [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]], ao qual tudo poderá [[lexico:s:ser|ser]] referido. É preciso dizer que é [[lexico:c:capital|capital]], se se quiser penetrar na [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] de um [[lexico:s:sistema|sistema]], reencontrar esta intuição e determinar exatamente o termo. Ora, em [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], este termo, [[lexico:o:objeto|objeto]] da intuição geradora do seu [[lexico:p:pensamento|pensamento]] metafísico, é incontestavelmente o ser: "O que a inteligência capta de início como seu objeto mais conhecido e em que resolve todas as suas concepções é o ser": Illud autem [[lexico:q:quod|quod]] primo intellectus concipit quasi notissimum et in [[lexico:q:quo|quo]] omnes conceptiones resolvit est [[lexico:e:ens|ens]]. De Veritate, q. I, a. 1 Neste [[lexico:t:texto|texto]] Tomás de Aquino afirma ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] a universalidade e a primazia da [[lexico:n:nocao-de-ser|noção de ser]]. Tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] concebido pode ser referido à [[lexico:n:nocao|noção]] de ser; objetivamente, por conseguinte, tudo é do ser e esta constatação é primeira enquanto se reporta ao objeto que, [[lexico:p:por-si|por si]], é o mais conhecido. É claro que esta [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] da universalidade e da primazia da noção de ser, se está envolvida de [[lexico:m:modo|modo]] confuso nos [[lexico:s:simples|simples]] dados do [[lexico:s:senso-comum|senso comum]], somente adquire toda sua [[lexico:s:significacao|significação]] para um [[lexico:e:espirito|espírito]] conduzido à [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica. Também [[lexico:n:nao|não]] é preciso surpreender-se pelo [[lexico:f:fato|fato]] de que a inteligência humana necessitou e necessite ainda bastante tempo para captar a significação desta primeira constatação. Historicamente, já foi [[lexico:d:dito|dito]], é a [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] que se deve atribuir o [[lexico:m:merito|mérito]] de [[lexico:t:ter|ter]] visto pela primeira vez com nitidez que o ser é primeiro, tanto do lado [[lexico:o:objetivo|objetivo]] da [[lexico:r:realidade|realidade]] como do lado do pensamento. Mas Parmênides se liga a uma [[lexico:t:tradicao|tradição]] de filósofos físicos, e assim este ser imóvel e indiviso que concebera confundia-se com a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] percebido pelos sentidos. A [[lexico:o:ontologia|ontologia]] de Parmênides está pois ainda no nível do ser corporal. [[lexico:p:platao|Platão]] conseguirá se elevar acima deste [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista inferior, e restituir ao ser sua [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] e seu [[lexico:d:devir|devir]]. Enfim, [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], e depois Tomás de Aquino, através de aprofundamentos progressivos, atingirão a verdadeira noção [[lexico:t:transcendente|transcendente]] e analógica de ser. Em nossos dias, nos situaríamos de preferência, no ponto de vista reflexivo de [[lexico:a:analise|análise]] do pensamento para descobrir a [[lexico:s:situacao|situação]] privilegiada da noção de ser. Eis, de modo esquemático, [[lexico:c:como-se|como se]] poderia proceder. Coloquemo-nos de início no [[lexico:p:plano|plano]] da simples [[lexico:a:apreensao|apreensão]] de um objeto de pensamento: esta mesa, esta folha de papel, minha mão, um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de [[lexico:a:alegria|alegria]] de que tomo [[lexico:c:consciencia|consciência]], etc... vejo que tudo isto é ser e que se não o fosse a título algum, [[lexico:e:eu|eu]] não teria mais [[lexico:n:nada|nada]] a que ligar meu pensamento. Mesmo as negações, as privações, só se concebem a partir de uma certa [[lexico:r:referencia|referência]] ao ser. Suprima-se este e não haverá mais objeto e nem, por conseguinte, pensamento. Esta conclusão emerge de maneira mais decisiva do [[lexico:e:estudo|estudo]] do [[lexico:j:juizo|juízo]] que, tal como o mostra a [[lexico:l:logica|lógica]], é o [[lexico:a:ato|ato]] perfectivo da inteligência. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], se analisamos um juízo, constatamos que ele compreende essencialmente um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e um termo que o determina, este termo podendo ser constituído de um [[lexico:v:verbo|verbo]] seguido de um [[lexico:p:predicado|predicado]], "o tempo está [[lexico:b:bom|Bom]]", ou de um simples verbo, "o [[lexico:s:sol|sol]] brilha". Se no primeiro caso o juízo nos aparece manifestamente como afirmação de ser, no segundo o juízo deve ser considerado como compreendendo implicitamente esta afirmação. É em [[lexico:r:relacao|relação]] ao que é, ou por outra, em relação ao ser, que julgamos: [[lexico:t:todo|todo]] juízo, tanto [[lexico:n:negativo|negativo]] como afirmativo, é uma [[lexico:s:sintese|síntese]] de dois termos no ser. Nosso pensamento nos aparece ainda, na sua [[lexico:a:atividade|atividade]] perfectiva, como determinado ou polarizado pelo ser. A realidade é ser, e [[lexico:p:pensar|pensar]] é conceber o que é a realidade. Concluamos: uma vez que o ser é o objeto [[lexico:p:primitivo|primitivo]] e o mais compreensivo do pensamento, a metafísica, que é a [[lexico:c:ciencia|ciência]] do que é primeiro e mais [[lexico:u:universal|universal]], não poderia ter [[lexico:o:outro|outro]] objeto senão o ser. Qual é pois o conteúdo objetivo desta noção de ser, da qual acabamos de descobrir a situação privilegiada tanto no pensamento como na realidade concreta?