===== MELANCOLIA ===== (gr. melas kole; in. Melancholia; fr. Mélancolie, al. Melancholie; it. Melancollià). Propriamente, [[lexico:h:humor|humor]] negro (v. [[lexico:t:temperamento|temperamento]]). Em [[lexico:l:linguagem|linguagem]] comum, [[lexico:t:tristeza|tristeza]] sem [[lexico:m:motivo|motivo]]. A tristeza vaga. — A melancolia, com todas as aspirações que traz em si, designava o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] [[lexico:a:autentico|autêntico]] da [[lexico:e:existencia|existência]] humana como [[lexico:d:desejo|desejo]] de [[lexico:i:infinito|infinito]] (Sehnsucht), entre os filósofos românticos alemães ([[lexico:s:schelling|Schelling]], Schlegel). Em [[lexico:p:psicologia|psicologia]], a melancolia designa um [[lexico:e:estado|Estado]] mórbido de tristeza e [[lexico:d:depressao|depressão]], [[lexico:p:proprio|próprio]] aos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] ciclotímicos; atingiria aproximadamente 1 p. 100 da população, o que torna o caso frequente; atinge o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] entre trinta e quarenta anos, e se acha ligada a uma perturbação da [[lexico:r:regiao|região]] do centro do encéfalo, cuja [[lexico:o:origem|origem]] é frequentemente hereditária. O doente sente-se então indigno, culpado de todas as faltas, e exige um castigo severo. A [[lexico:e:evolucao|evolução]] da [[lexico:d:doenca|doença]] estende-se de [[lexico:q:quatro|Quatro]] a oito meses; o elevado [[lexico:r:risco|risco]] de [[lexico:s:suicidio|suicídio]] requer um tratamento rápido, que pode ir da [[lexico:a:analise|análise]] psicológica à intervenção da cirurgia (consistindo esta num seccionamento das fibras nervosas que unem o tálamo à crosta cerebral do lóbulo frontal, ou lobotomia frontal), passando pelo [[lexico:u:uso|uso]] de estimulantes químicos. A melancolia , ou bílis negra (μέλαινα χόλη), é aquela cuja [[lexico:d:desordem|desordem]] pode [[lexico:p:provocar|provocar]] as consequências mais nefastas. Na cosmologia humoral medieval, aparece associada tradicionalmente à [[lexico:t:terra|Terra]], ao outono (ou ao inverno), ao [[lexico:e:elemento|elemento]] seco, ao frio, à tramontana, à cor preta, à [[lexico:v:velhice|velhice]] (ou à maturidade), e o seu planeta é Saturno, entre cujos filhos o melancólico encontra [[lexico:l:lugar|lugar]] ao lado do enforcado, do coxo, do camponês, do jogador de [[lexico:a:azar|azar]], do [[lexico:r:religioso|religioso]] e do porqueiro. A síndrome fisiológica da abbundantia melancholiae inclui o enegrecimento da pele, do [[lexico:s:sangue|sangue]] e da urina, o enrijecimento do pulso, a ardência do estômago, a flatulentia, o arroto ácido, o zumbido na orelha esquerda [É provavelmente a esse sintoma (e não à sonolência acidiosa, conforme parece pensar Panofsky, ainda mais que a autoridade de Aristóteles — De somno et vigilia, 457a — afirmava que os melancólicos não são amantes do sono) que se deve a atitude de se apoiar a cabeça com a mão esquerda, tão característica das representações do temperamento melancólico (nas representações mais antigas, o melancólico aparece frequentemente em pé, no ato de comprimir-se a orelha esquerda com a mão). Provavelmente tal atitude pôde ser posteriormente entendida erradamente como sinal de sonolência e aproximada às representações da acídia; o trâmite para esta convergência pode ser encontrado na teoria médica dos efeitos nocivos do somnus meridianus, relacionado com o demônio meridiano da acídia.], a prisão de ventre ou o excesso de fezes, os sonhos macabros e, entre as enfermidades que podem provocar, figuram a histeria, a demência, a epilepsia, a lepra, as hemorroidas, a sarna e a [[lexico:m:mania|mania]] suicida. Consequentemente, o temperamento que deriva da sua prevalência no [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:h:humano|humano]] é apresentado sob uma [[lexico:l:luz|luz]] sinistra: o melancólico é pexime complexionatus, triste, invejoso, mau, ávido, fraudulento, temeroso e terroso. Contudo, uma antiga [[lexico:t:tradicao|tradição]] associava exatamente ao humor mais miserável o exercício da [[lexico:p:poesia|poesia]], da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] e das artes. “Por que” — conforme reza um dos mais extravagantes problemata aristotélicos — “todos os homens que foram excepcionais na filosofia, na [[lexico:v:vida|vida]] publica, na poesia e nas artes são melancólicos, alguns a [[lexico:p:ponto|ponto]] de serem tomados pelas enfermidades oriundas da bílis negra?” A resposta que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] deu a essa [[lexico:i:interrogacao|interrogação]] marca o ponto de partida de um [[lexico:p:processo|processo]] dialético no transcurso do qual a doutrina do [[lexico:g:genio|gênio]] se costura indissoluvelmente com a do humor melancólico na fascinação de um conjunto [[lexico:s:simbolico|simbólico]], cujo emblema foi plasmado ambiguamente na [[lexico:f:figura|figura]] do [[lexico:a:anjo|anjo]] alado da Melencolia de Dürer: *Aqueles nos quais a bílis é abundante e fria tornam-se torpes e estranhos; outros, nos quais ela é abundante e quente, tornam-se maníacos e alegres, muito amorosos e facilmente dados à [[lexico:p:paixao|paixão]]... E muitos, porque o calor da bílis está perto da sede da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], são tomados pelo furor ou pelo [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]], como acontece com as Sibilas e as Bacantes, e com todos os que são inspirados pelos [[lexico:d:deuses|deuses]], que são feitos assim [[lexico:n:nao|não]] por uma enfermidade, mas por uma [[lexico:m:mistura|mistura]] [[lexico:n:natural|natural]]. Por isso Marakós, o Siracusano, nunca era tão [[lexico:p:poeta|poeta]] como quando estava fora de si. E aqueles nos quais o calor aflui para o [[lexico:m:meio|meio]], também eles são melancólicos, porém mais sensatos e menos excêntricos, e se destacam em [[lexico:r:relacao|relação]] aos outros homens em muitas [[lexico:c:coisas|coisas]], uns nas letras, outros nas artes, outros na vida pública.* [AgambenE:33-35]