===== MATÉRIA E FORMA ===== Mas [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] [[lexico:n:nao|não]] se contenta com trazer as [[lexico:i:ideias|ideias]] do [[lexico:c:ceu|céu]] à [[lexico:t:terra|Terra]]. Relembremos que uma das críticas fundamentais que ele faz a [[lexico:p:platao|Platão]] consiste em censurar-lhe que as ideias não têm "atuação", não atuam, são inoperantes, não têm [[lexico:f:forca|força]] [[lexico:g:genetica|genética]] e geradora. Aristóteles, trazendo as ideias ao [[lexico:m:mundo|mundo]] das [[lexico:c:coisas|coisas]], quer dar-lhes força genética ou geradora. Por isso estabelece em cada [[lexico:c:coisa|coisa]] uma [[lexico:d:distincao|distinção]] fundamental. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que na [[lexico:a:analise|análise]] da coisa distingue a [[lexico:s:substancia|substância]], a [[lexico:e:essencia|essência]] e o [[lexico:a:acidente|acidente]], assim distingue [[lexico:a:agora|agora]] na coisa esses dois [[lexico:e:elementos|elementos]]: a [[lexico:f:forma|forma]] e a [[lexico:m:materia|matéria]]. A que chama Aristóteles matéria? Aristóteles chama matéria a um [[lexico:c:conceito|conceito]] que não tem [[lexico:n:nada|nada]] a [[lexico:v:ver|ver]] com aquilo que em [[lexico:f:fisica|física]] chamamos hoje matéria. Matéria, para ele, é simplesmente aquilo de que é feito algo. O "aquilo de que é feito algo" pode [[lexico:s:ser|ser]] isso que nossos físicos chamam hoje matéria; porém pode ser também outra coisa que não seja isso que os físicos chamam hoje matéria. Assim, uma [[lexico:t:tragedia|tragédia]] é uma coisa que fez Esquilo ou que fez Eurípides, e essa coisa é feita de [[lexico:p:palavras|palavras]], de logoi, de razões, de ditos dos homens, de sentimentos humanos; e não é feita de matérias no [[lexico:s:sentido|sentido]] que dão à [[lexico:p:palavra|palavra]] "matéria" os físicos de hoje. Matéria é, pois, para Aristóteles, aquilo — seja o que for — de que é feito algo. E forma? Que significa a forma para Aristóteles? Esta é uma das palavras que mais deram que fazer aos filósofos e aos historiadores da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]. Não nego [[lexico:e:eu|eu]] que seja difícil interpretar aquilo que Aristóteles quis chamar "forma". Também não nego que a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] que eu lhe dou não esteja exposta a toda [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:critica|crítica]]. Mas eu, que não vou entrar agora em polêmica com todas e cada uma das acepções que esta palavra teve e tem, vou me contentar em dar "minha" interpretação. A palavra "forma" toma-a Aristóteles da [[lexico:g:geometria|geometria]]; toma-a da [[lexico:i:influencia|influência]] que a geometria tem sobre [[lexico:s:socrates|Sócrates]] e sobre Platão. Não esqueçamos que Platão inscreveu na porta de sua [[lexico:e:escola|escola]], que se chamava "[[lexico:a:academia|Academia]]", um letreiro que dizia: "Ninguém entre aqui se não for geômetra." Considerava que o [[lexico:e:estudo|estudo]] da geometria era a [[lexico:p:propedeutica|propedêutica]] fundamental e necessária ao estudo da filosofia. A influência da geometria foi enorme, e Aristóteles entendeu por forma, primeira e principalmente, a [[lexico:f:figura|figura]] dos corpos, a forma no sentido mais [[lexico:v:vulgar|vulgar]] da palavra, a forma que um [[lexico:c:corpo|corpo]] tem, a forma como terminação-limite da [[lexico:r:realidade|realidade]] corpórea, vista de todos os pontos; a forma no sentido da estatuária, no sentido da escultura; isso foi que Aristóteles entendeu primeiro e fundamentalmente por forma. Mas sobre essa acepção e sentido da palavra, por "forma" entendeu também Aristóteles — e sem [[lexico:c:contradicao|contradição]] alguma — aquilo que faz que a coisa seja [[lexico:o:o-que-e|o que é]], aquilo que reúne os elementos materiais, no sentido amplo referido antes, entrando também o imaterial. Aquilo que faz entrar os elementos materiais num conjunto, que lhes confere [[lexico:u:unidade|unidade]] e sentido. Isto é que Aristóteles chama forma. A forma, pois, se confunde com o conjunto dos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] essenciais que fazem com que as coisas sejam aquilo que são; confunde-se com a essência. A forma, em Aristóteles, é a essência, aquilo que faz com que a coisa seja o que é. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]: essas formas das coisas não são para Aristóteles for mas ao [[lexico:a:acaso|acaso]], não são formas casuais, não foram trazidas pelo ir e vir das [[lexico:c:causas|causas]] eficientes na [[lexico:n:natureza|natureza]]. Longe do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de Aristóteles, o mais longe [[lexico:p:possivel|possível]], está nossa [[lexico:i:ideia|ideia]] de física [[lexico:m:moderna|moderna]] de que aquilo que cada coisa fisicamente é, seja o resultado de uma [[lexico:s:serie|série]] de causas puramente físicas, eficientes, mecânicas, que, sucedendo-se umas às outras, chegaram a ser necessariamente aquilo que uma coisa neste [[lexico:m:momento|momento]] é. Nada está mais longe do pensamento aristotélico do que isso; pelo contrário, para Aristóteles cada coisa tem a forma que deve [[lexico:t:ter|ter]], quer dizer, a forma que define a coisa. Por conseguinte, para Aristóteles a forma de algo é aquilo que dá sentido a [[lexico:e:esse|esse]] algo; e esse sentido é a [[lexico:f:finalidade|finalidade]], é o [[lexico:t:telos|telos]], palavra grega que significa [[lexico:f:fim|fim]], daí vem esta palavra que se emprega muito em filosofia e que é "[[lexico:t:teleologia|teleologia]]"; [[lexico:t:teoria|teoria]] dos fins, o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do qual apreciamos e definimos as coisas, não enquanto são causas mecanicamente, mas enquanto estão dispostas para a realização de um fim. Pois bem: para Aristóteles a [[lexico:d:definicao|definição]] de uma coisa contém sua finalidade, e a forma ou conjunto das notas essenciais imprimem nessa coisa um sentido que é aquilo para que serve. Desta maneira está já armado Aristóteles para responder à [[lexico:p:pergunta|pergunta]] acerca da [[lexico:g:genese|gênese]] ou produção das coisas. Se a matéria e a forma são os ingredientes necessários para o advento da coisa, então este advento em que consiste? Consiste em que à matéria informe, sem forma, se acrescenta, se agrega, se sintetiza com ela, a forma. E a forma que é? A forma, é a série das notas essenciais que fazem da coisa aquilo que é e lhe dão sentido, telos, finalidade. Pois bem: que é isto se não a ideia platônica que vimos descer do céu para pousar sobre a substância e formar a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] e integridade da coisa [[lexico:r:real|real]]? Pois a essa ideia platônica não dá Aristóteles tão-somente, como fazia Platão, a [[lexico:f:funcao|função]] de definir a coisa, mas também a função de conseguir o advento da coisa. A coisa advém a ser aquilo que é porque sua matéria é informada, é plasmada, recebe forma, e uma forma que é a que lhe dá sentido e finalidade. Mas isto dá às ideias platônicas o que as ideias platônicas não têm; imprime uma [[lexico:c:capacidade|capacidade]] [[lexico:d:dinamica|dinâmica]], uma capacidade produtiva às ideias trazidas aqui ao mundo [[lexico:s:sensivel|sensível]] na figura de forma e sob o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] de forma. Nessas ideias está para Aristóteles o germe, o [[lexico:p:principio|princípio]] informativo, criador, produtivo, da realidade de cada coisa. Em que implica isto? Implica evidentemente em algo que já sai por completo dos limites em que se movia a filosofia de Platão, porque implica, sem que exista disso a menor [[lexico:d:duvida|dúvida]], em que cada coisa e aquilo que é porque foi feita inteligentemente. Se a forma da coisa é aquilo que confere à coisa sua [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]], seu sentido, seu telos, seu fim, não há mais remédio que admitir que cada coisa foi feita do mesmo modo como o escultor faz a [[lexico:e:estatua|estátua]], como o marceneiro faz a mesa, como o ferreiro faz a ferradura. Tiveram que ser feitas todas as coisas no [[lexico:u:universo|universo]], todas as realidades existenciais por uma [[lexico:c:causa|causa]] inteligente, que pensou o telos, a forma, e que imprimiu a forma, o fim, a essência definidora na matéria.