===== MAL ===== gr. [[lexico:k:kakon:start|kakon]], [[lexico:k:kakia:start|kakia]] (gr. to kakon; lat. malun; in. Evil; fr. Mal, al. Böse; it. Male). Este [[lexico:t:termo:start|termo]] tem uma variedade de significados tão extensa quanto a do termo [[lexico:b:bem:start|Bem]] , do qual é correlativo. Do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista filosófico, entretanto, é [[lexico:p:possivel:start|possível]] resumir essa variedade em duas interpretações fundamentais dadas a essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] ao longo da [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]: 1) noção [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] do mal, segundo a qual este é d) o [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]], ou b) uma [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] no [[lexico:s:ser:start|ser]]; 2) noção subjetivista, segundo a qual o mal é o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] negativa ou de um [[lexico:j:juizo-negativo:start|juízo negativo]]. 1) A concepção metafísica do mal consiste em considerá-lo como o não-ser diante do ser, que é o bem, ou em considerá-lo como uma dualidade do ser, como uma dissensão ou um conflito interno do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser. a) A concepção do mal como [[lexico:n:nao:start|não]] aparece nos estoicos e é claramente formulada pelos neoplatônicos. Por considerarem que a [[lexico:e:existencia:start|existência]] dos males condiciona a dos [[lexico:b:bens:start|bens]], de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que, p. ex., não haveria [[lexico:j:justica:start|justiça]] se não houvesse ofensas, não haveria [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] se não houvesse indolência, não haveria [[lexico:v:verdade:start|verdade]] se não houvesse [[lexico:m:mentira:start|mentira]], etc, os estoicos, em [[lexico:p:particular:start|particular]] Crisipo, achavam que os chamados males não são realmente males, porque necessários à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e à [[lexico:e:economia:start|economia]] do [[lexico:u:universo:start|universo]] (Aulo Gélio, Noct. Att., 1). [[lexico:m:marco-aurelio:start|Marco Aurélio]] exprimia perfeitamente este ponto de vista dizendo: "Toda vez que arrancas uma partícula qualquer da ordem e da continuidade do inverso a integridade do [[lexico:t:todo:start|todo]] fica mutilada e comprometida. (...) E realmente extirpas, na [[lexico:m:medida:start|medida]] do teu poder, [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] do universo toda vez que te queixas do que aconteceu; em um certo [[lexico:s:sentido:start|sentido]], em assim fazendo, estás condenando à [[lexico:m:morte:start|morte]] o universo inteiro em teu [[lexico:d:desejo:start|desejo]]" (Ric, V, 8). Uma vez que não se pode amar uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] e considerá-la má, o ponto de vista estoico equivale a considerar [[lexico:b:bom:start|Bom]] tudo o que existe e a reduzir o mal ao não-ser. Essa [[lexico:r:reducao:start|redução]] torna-se explícita no [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]]. [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] diz: "Se tais são os entes e se tal é o que está [[lexico:a:alem:start|além]] dos entes , então o mal não existe nem naqueles nem neste, já que tanto um quanto o [[lexico:o:outro:start|outro]] são bem. Conclui-se, portanto, que, se [[lexico:e:existir:start|existir]], existe no que não é, e que é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de não-ser, encontrando-se, pois, nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] mescladas de não-ser ou partícipes do não-ser" (Enn., I, 8, 3). Nesse sentido, Plotino identifica o mal com a [[lexico:m:materia:start|matéria]]: a matéria é o não-ser. "O mal não consiste na deficiência parcial, mas na deficiência total: o que carece parcialmente de bem não é mau e pode até ser [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] em seu [[lexico:g:genero:start|gênero]]. Mas quando há deficiência total, como na matéria, tem-se o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] mal, que não tem [[lexico:p:parte:start|parte]] alguma de bem. A matéria não tem sequer o ser que lhe possibilitaria participar do bem: pode-se dizer que ela é apenas em sentido [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]; na verdade, a matéria é o próprio não-ser" (Ibid., I, 8, 5). A identificação do mal com o não-ser torna-se tradicional na [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]]. É retomada por Clemente de [[lexico:a:alexandria:start|Alexandria]].(Strom., IV, 13), por Orígenes (De princ, I, 109) e por S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], que a difunde no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] ocidental. S. Agostinho diz.- "Nenhuma [[lexico:n:natureza:start|natureza]] é mal, e [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:n:nome:start|nome]] indica apenas a [[lexico:p:privacao:start|privação]] do bem" (De civ. Dei, XI, 22). Portanto, "todas as coisas são boas, e o mal não é [[lexico:s:substancia:start|substância]] porque se fosse substância seria bem" (Conf, VII, 12). [[lexico:b:boecio:start|Boécio]] afirmava: "O mal é [[lexico:n:nada:start|nada]], porque não o pode fazer Aquele que pode todas as coisas" (Phil. cons., III, 12). A [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] é igualmente unânime nesse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]]. S. Anselmo reiterou a doutrina do mal como não-ser nos mesmos termos de S. Agostinho (De casu diaboli, 12-16). Com [[lexico:m:maimonides:start|Maimônides]], a escolástica hebraica repete a mesma [[lexico:t:tese:start|tese]] (Guia dos perplexos, III, 10), na escolástica cristã, é repetida por agostinianos, como Alexandre de Hales (S. Th., I, q. 18, 9), por aristotélicos, como [[lexico:a:alberto-magno:start|Alberto Magno]] (S. Th., I, q. 27, 1), e por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]. Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] diz: "Uma vez que bem é tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] apetecível e uma vez que a cada natureza apetece seu ser e sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]], cumpre dizer que o ser e a perfeição de qualquer natureza são essencialmente bem. Portanto, não pode acontecer que ‘mal’ signifique algum ser, alguma [[lexico:f:forma:start|forma]] ou natureza; conclui-se, pois, significa apenas a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] do bem" (S. Th., I, q. 48, a. 1) O [[lexico:v:verbo:start|verbo]] ser pode referir-se ao mal somente no sentido "da verdade da [[lexico:p:proposicao:start|proposição]]", como quando se diz que "a cegueira é do olho", sentido que não implica de modo algum a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] (entitas rei) (Ibid., I, q. 48, a 2). Após as observações cépticas de Pierre [[lexico:b:bayle:start|Bayle]] sobre a [[lexico:c:compatibilidade:start|compatibilidade]] do mal (em todas as suas formas) com a [[lexico:o:onipotencia:start|onipotência]] divina e com a perfeição do universo, a [[lexico:t:teodiceia:start|Teodiceia]] de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] está fundamentada na doutrina tradicional do mal como [[lexico:n:negacao:start|negação]] do bem. "Os platônicos, S. Agostinho e os escolásticos", diz Leibniz, "tiveram [[lexico:r:razao:start|razão]] em dizer que [[lexico:d:deus:start|Deus]] é a [[lexico:c:causa:start|causa]] material do mal, que consiste em sua parte positiva, e não da forma dele, que consiste na privação, assim [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode dizer que a corrente é a causa material do atraso na velocidade de um barco, sem ser a causa da forma do próprio atraso, ou seja, dos limites desta velocidade" (Théod., I, 30). Essas considerações de Leibniz fundamentaram todas as tentativas ulteriores de teodiceia . Por outro lado, a nulidade do mal continuou sendo a tese adotada pelas doutrinas que identificam o ser com o bem ou, em termos modernos, com a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] ou o [[lexico:d:dever-ser:start|dever-ser]]; isso acontece em [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] o mal, entendido como [[lexico:v:vontade:start|vontade]] malévola, é "a nulidade absoluta" dessa vontade (Enc., § 512). Do ponto de vista dos [[lexico:i:idealismos:start|idealismos]] absolutos, como o de Hegel e de sua [[lexico:e:escola:start|escola]], apresenta-se novamente o [[lexico:p:problema:start|problema]] tradicional da teodiceia: o da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] do mal; a única solução disponível é ainda a tradicional: a nulidade do mal Gentile dizia: "Não é [[lexico:e:erro:start|erro]] e verdade, mas erro na verdade, como seu conteúdo que se resolve na forma; nem mal e bem, mas mal do qual o bem se nutre no seu [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]]" ([[lexico:t:teoria:start|teoria]] generale dello spirito, XVI, 10). [[lexico:c:croce:start|Croce]] por sua vez afirmava: "O mal, quando [[lexico:r:real:start|real]], não existe senão no bem, que se lhe opõe e o vence; portanto, não existe como [[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:p:positivo:start|positivo]]: quando, porém, existe como fato positivo, já não é um mal, mas um bem (e por sua vez tem como sombra o mal, contra o qual [[lexico:l:luta:start|luta]] e vence)" (Fil. della pratica, 1909, p. 139). Não-ser, nulidade ou irrealidade do mal é tese redescoberta toda vez que, de qualquer forma, se propõe a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] entre ser e bem. b) A segunda concepção metafísica do mal considera-o como um conflito interno do ser, como a luta entre dois [[lexico:p:principios:start|princípios]]. Segundo essa concepção, o domínio do ser divide-se em dois campos opostos, dominados por dois princípios antagônicos. O [[lexico:m:modelo:start|modelo]] dessa concepção é a [[lexico:r:religiao:start|religião]] persa, de Zarathustra ou Zoroastro, que contrapunha à divindade (Ahura Mazda ou Ormazd) uma antidivindade (Ahrimarí), que é o [[lexico:p:principio:start|princípio]] do mal (cf. Pettazzoni, La religione di Zaratustra, Bolonha, 1921; Du-Chesne-Guillemin, Ormazd et Ahriman, Paris, 1953). Essa doutrina constitui uma solução extremamente [[lexico:s:simples:start|simples]] para o problema do mal, pois, ao mesmo em que limita o poder das divindades, não trai o [[lexico:m:monoteismo:start|monoteísmo]] porque concebe a [[lexico:p:potencia:start|potência]] limitante como antidivindade. Segundo essa solução, o mal é real tanto quanto o bem, e, como tal, tem causa própria, [[lexico:a:antitetica:start|antitética]] à do bem. Essa doutrina evita a redução do mal ao nada, tão pouco convincente para o [[lexico:h:homem:start|homem]] comum, e decorre do mesmo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] de que lança mão a negação metafísica da realidade do mal O [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] persa retornou no [[lexico:c:culto:start|culto]] de Mitra: [[lexico:p:personagem:start|personagem]] que, segundo [[lexico:r:relato:start|relato]] de Plutarco, ocupava [[lexico:p:posicao:start|posição]] intermediária entre o domínio da [[lexico:l:luz:start|luz]], pertencente a Ahura Mazda, e o domínio das trevas, pertencente a Ahriman (De Iside et Osiride, 46-47; cf. F. Cumont, The Mysteries of Mithra, cap. I). Retomou também, com algumas atenuações, em algumas seitas gnósticas dos primeiros séculos da era [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]], especialmente na de Basílides (cf. Buonaiuti, Frammenti gnostici, 1923, pp-42 ss.), bem como na [[lexico:s:seita:start|seita]] dos maniqueus, contra os quais S. Agostinho assenta uma de suas principais polêmicas (v. [[lexico:m:maniqueismo:start|maniqueísmo]]). Mas a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] nunca aceitou essa solução para o problema do mal na forma simples como foi originariamente formulada pela religião persa; nunca admitiu a [[lexico:s:separacao:start|separação]] dos dois princípios. Quando aceitou essa solução, modificou-a no sentido de incluir ambos os princípios em Deus, considerando o princípio do bem e o do mal unidos em Deus, justamente em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de seu conflito. No séc. XVII, Jacob Böhme, insistindo na [[lexico:p:presenca:start|presença]], em todos os aspectos da realidade, de dois princípios em luta, que são o bem e o mal, atribuía a causa dessa luta à presença em Deus dos dois princípios antagonistas, que ele indicava com vários nomes: [[lexico:e:espirito:start|espírito]] e natureza, [[lexico:a:amor:start|amor]] e ira, ser e [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], etc. Em Deus, esses dois princípios estariam fortemente ligados, numa espécie de luta amorosa. Böhme dizia: "A divindade não repousa tranquila, mas suas potências trabalham sem trégua e lutam amorosamente; movem-se e combatem: como acontece com duas criaturas que brincam uma com a outra, com amor abraçam-se e estreitam-se; ora uma é vencida, ora a outra, mas o vencedor logo se detém e deixa que a outra retome seu [[lexico:j:jogo:start|jogo]]" (Aurora oder die Morgenröte im Aufgang, 1634, cap. XI, § 49). Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], o dualismo do bem e do mal está em Deus mesmo e nele os dois princípios travam um combate "amoroso", no qual nenhum é definitivamente derrotado. A subcorrente do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] chamada [[lexico:t:teosofia:start|teosofia]] sempre adotou essa solução para o problema do mal: no período romântico, retornou em Indagações sobre a [[lexico:e:essencia:start|essência]] da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] humana (1809), de [[lexico:s:schelling:start|Schelling]], em que este sustentava, assim como Böhme, que em Deus está não só o ser, mas, como fundamento desse ser, há um [[lexico:s:substrato:start|substrato]] ou natureza que se distingue dele e é um anseio [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]], um desejo [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] de ser, de sair da escuridão e alcançar a luz divina (Werke, 1, VIII, p. 359). No entanto, Schelling afirmava que, estando esses dois princípios estreitamente unidos em Deus, não há nele [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre bem e mal; com a separação desses princípios no homem, nasce a possibilidade do bem e do mal, e de seu conflito (Ibid., p. 364). Ainda em tempos relativamente recentes, em [[lexico:r:relacao:start|relação]] mais direta com a religião persa, solução [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] para esse problema foi proposta por G. T. Fechner, que admitia haver em Deus a mesma dualidade entre vontade [[lexico:r:racional:start|racional]] e instintos obscuros encontrada no homem (Zend Avesta, 5a ed., 1922, pp. 244-45). É possível entrever soluções análogas, porém menos explicitas, em algumas formas de [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] e na [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]] , mas trata-se, muitas vezes, de soluções de [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]] ou teosófico, que dificilmente podem ser consideradas explicações filosóficas propriamente ditas. 2) A segunda concepção fundamental do mal não o considera realidade ou irrealidade, mas objeto [[lexico:n:negativo:start|negativo]] do desejo ou, em [[lexico:g:geral:start|geral]], do [[lexico:j:juizo:start|juízo]] de valores. Essa concepção é admitida por todos os que defendem a chamada teoria subjetivista do bem. [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] e [[lexico:l:locke:start|Locke]] compartilham essa teoria (para os [[lexico:r:relativos:start|relativos]] textos, v. BEM), à qual [[lexico:k:kant:start|Kant]] deu forma mais geral. Segundo Kant, "os únicos objetos da [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]] são o bem e o mal Pelo primeiro entende-se um objeto [[lexico:n:necessario:start|necessário]] da [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de desejar; pelo segundo, um objeto necessário da faculdade de repelir; mas ambos somente segundo o princípio da razão" (Crít. R. Prática, cap. 2). Kant insistia sobretudo em retirar as determinações de bem e mal (em alemão, Gut e Böse) "da [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da faculdade inferior de desejar", à qual pertencem o agradável e o doloroso (em alemão, Wohl e Übel). "O que devemos chamar de bem" — dizia ele — "é o objeto da faculdade de desejar segundo o juízo dos homens dotados de razão; o mal deve ser objeto de aversão aos olhos de todos, de tal modo que para tais juízos, além dos sentidos, também há [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] da razão" (Ibid.). Contudo Kant concordava com a teoria subjetivista, ao julgar que o bem e o mal não podem ser determinados independentemente da faculdade de desejar do homem, o que significa que eles não são realidade ou irrealidade [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmos. A [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e contemporânea compartilha essa [[lexico:v:visao:start|visão]]. Para ela, mal é simplesmente um desvalor, objeto de um juízo negativo de [[lexico:v:valor:start|valor]], e implica, portanto, [[lexico:r:referencia:start|referência]] à [[lexico:r:regra:start|regra]] ou [[lexico:n:norma:start|norma]] na qual se fundamenta o juízo de valor. Assim, p. ex., o terremoto é um mal quando destrói vidas humanas ou fontes de [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] e [[lexico:b:bem-estar:start|bem-estar]] [[lexico:h:humano:start|humano]], mas não é um mal quando não provoca esse tipo de [[lexico:d:destruicao:start|destruição]], pois nesse caso não contraria o desejo ou a exigência humana de [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]] e bem-estar. Seja qual for o ponto de vista de que se considere essa exigência, ela se expressa em regras ou normas que podem entrar em conflito com acontecimentos naturais ou com comportamentos humanos. Esses acontecimentos ou comportamentos são chamados de males, com base nesse conflito, e não porque tenham um [[lexico:s:status:start|status]] metafísico especial. Era desse ponto de vista que Kant interpretava o "mal radical" da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] como um princípio que alicerça o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] de todos os seres racionais finitos: afastar-se, ocasionalmente, da [[lexico:l:lei-moral:start|lei moral]] (Religion, I, 3). Esse princípio nada mais expressa que a possibilidade de transgredir as normas morais próprias do homem, definindo-se, então, o mal radical como a possibilidade geral de desvalor na [[lexico:c:conduta:start|conduta]] do homem. O que é contrário ao bem. — O problema do mal é colocado pelo "mal [[lexico:f:fisico:start|físico]]", a [[lexico:d:dor:start|dor]], a [[lexico:d:doenca:start|doença]] e a morte; é o mal que o homem sofre: a desgraça. O mal que o homem faz é o "mal [[lexico:m:moral:start|moral]]": pode reduzir-se, de maneira geral, à [[lexico:v:violencia:start|violência]] e à mentira. A [[lexico:o:origem:start|origem]] dos males encontrar-se-ia na imperfeição geral do homem, ou "mal metafísico", que esse retira de sua natureza imperfeita, de seu caráter de simples "criatura". Na Religião nos limites da simples razão, Kant distinguiu a "[[lexico:m:maldade:start|maldade]]" ([[lexico:a:ato:start|ato]] de fazer o mal acidentalmente) e a "malignidade diabólica" (ato de fazer o mal pelo mal). O [[lexico:p:pessimismo:start|pessimismo]] é a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que consiste em [[lexico:v:ver:start|ver]] o aspecto negativo e a imperfeição de todas as coisas, em afirmar o [[lexico:p:primado:start|primado]] do mal sobre o bem em todas as ocorrências do mundo e reconhecer a [[lexico:i:influencia:start|influência]] preponderante do mal na [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] da [[lexico:h:historia:start|história]] ([[lexico:d:decadencia:start|decadência]]). Discutiu-se muito acerca da relação entre o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:l:lugar:start|lugar]] e [[lexico:e:espaco:start|espaço]] em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Segundo uns autores, os dois [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] são idênticos. Segundo outros autores, há diferenças notórias entre a noção de espaço e a noção de lugar. A [[lexico:q:questao:start|questão]] do lugar foi explicada por Aristóteles especialmente no livro quarto da [[lexico:f:fisica:start|Física]]. 1) O lugar não é simplesmente um algo, mas um algo que exerceu certa influência, isto é, que afeta o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] que está nele. 2) O lugar não é [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]], pois se o fosse seria indiferente para um corpo determinado [[lexico:e:estar:start|estar]] ou não num lugar determinado. Mas não é indiferente, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], para corpos pesados tender para o lugar de baixo, e para corpos leves tender para o lugar de cima. 3) O lugar, embora determinado, não está determinado para cada objeto, mas, por assim dizer, para classes de objetos. 4) Embora o lugar seja uma “[[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] dos corpos”, isso não que o corpo arraste consigo o seu lugar. Assim, o lugar não é nem o corpo (pois se o fosse não poderia haver dois corpos no mesmo lugar em diferentes momentos), nem tão pouco algo inteiramente alheio ao corpo. 5) O lugar é uma propriedade que nem está inerente aos corpos nem pertence à sua substância; não é forma, nem matéria, nem causa eficiente, nem [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], nem tão pouco substrato. 6) O lugar pode comparar- se a uma vasilha, sendo a vasilha um lugar transportável. 7) O lugar define-se como um modo de “estar em”. 8) O lugar pode definir-se como “o primeiro [[lexico:l:limite:start|limite]] imóvel do continente”. As anteriores definições do lugar mostram que Aristóteles usa, para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] esta noção, uma espécie de [[lexico:m:metodo:start|método]] dialéctico, afirmando e negando ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] a subsistência [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] do lugar. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], afirma que o lugar é separável (uma vez que, de contrário, se deslocaria juntamente com os corpos). Mas afirma também que não é inteiramente separável (pois se o fosse poderia identificar-se com o espaço no sentido de [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], isto é, com o [[lexico:v:vazio:start|vazio]]). Afirma, ao mesmo tempo, que o lugar não equivale à [[lexico:m:massa:start|massa]] do corpo (uma vez que permanece quando a massa do corpo se põe em [[lexico:m:movimento:start|movimento]]). Mas afirma também que há [[lexico:l:lugares:start|lugares]] naturais para as coisas (por exemplo, lugares naturais parta os [[lexico:q:quatro-elementos:start|quatro elementos]]: [[lexico:f:fogo:start|fogo]], [[lexico:t:terra:start|Terra]], água e [[lexico:a:ar:start|ar]]) e, portanto, a que, de certo modo, é equivalente à massa dos corpos. Aristóteles declara que qualquer corpo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] tem um lugar e que pode falar-se de seis espécies de lugar: alto e baixo, diante e detrás, direita e esquerda. Uma dificuldade na doutrina aristotélica do lugar consiste em [[lexico:s:saber:start|saber]] se o próprio lugar ocupa lugar. Se o lugar fosse espaço [[lexico:p:puro:start|puro]], não se punha a questão. Mas não sendo espaço puro (ou vazio), Aristóteles vê-se obrigado a enfrentar o problema e a concluir que não há lugar do lugar, nem o lugar do lugar do lugar, etc, uma vez que, de contrário, haveria que admitir um [[lexico:r:regresso:start|regresso]] até ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]]. Os velhos estoicos tinham tentado solucionar a questão indicando que as dificuldades da teoria de Aristóteles obedecem ao fato de este defender a tese da [[lexico:i:impenetrabilidade:start|impenetrabilidade]] dos corpos; uma vez admitida a interpenetrabilidade desvanecem-se todas as dificuldades. A principal [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de Aristóteles na sua teoria do lugar consiste em evitar as [[lexico:a:antinomias:start|antinomias]], suscitadas pela noção de espaço vazio, e a solução dessas antinomias pois suscitada ao [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] de um modo [[lexico:n:natural:start|natural]] pela sua concepção organicista do universo, e da qual o lugar aparece como uma propriedade de índole muito mais geral que quaisquer outras. Mal (1) é, em primeiro lugar, a propriedade pela qual um [[lexico:e:ente:start|ente]] é mau (mal em sentido [[lexico:f:formal:start|formal]]); mais raramente, denomina-se mal (2) o próprio ente afetado por um mal (1) (mal em sentido material). Visto que todo ente, enquanto tal, é bom ([[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]], valor), o mal (1) não é uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] ou [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] positiva do mesmo, mas sim a [[lexico:c:carencia:start|carência]] daquela [[lexico:b:bondade:start|bondade]] (perfeição, plenitude de ser) que deveria competir-lhe, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] (privação). Todavia presta-se a erro a maneira de [[lexico:f:falar:start|falar]] de Leibniz, que qualifica de mal metafísico a carência de qualquer perfeição ontológica, uma vez que esta carência é essencial a todo ente [[lexico:f:finito:start|finito]], embora perfeito em sua espécie. Distinguem-se duas espécies de mal: o ético (moral) e o físico. O mal moral é, antes de tudo, a livre [[lexico:d:decisao:start|decisão]] da vontade contra o bem moral, e, em seguida, a [[lexico:a:acao:start|ação]] externa daí resultante, bem como o [[lexico:h:habito:start|hábito]] mau e a atitude interna má, que subsequentemente se consolidam. Pelo contrário, mal físico é a ausência, em si moralmente indiferente, de uma perfeição ontológica exigida pela natureza do respectivo ente (dor, [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]], [[lexico:d:disteleologia:start|disteleologia]]). [[lexico:d:dado:start|dado]] que toda [[lexico:f:falta:start|falta]], todo defeito supõe um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], ao qual, como ente, compete ao menos uma medida mínima de bondade, não existe nenhum mal subsistente, por outras palavras, não existe ser que não seja senão iniquidade ou mal. Neste particular, fracassam as doutrinas dualistas, que admitem, a par do princípio bom do mundo, um princípio mau igualmente originário ([[lexico:p:parsismo:start|parsismo]], maniqueísmo). Na questão acerca da origem do mal, importa considerar, antes de mais nada, que a ação em si produz sempre algo positivo, e nunca uma mera deficiência; por isso o mal nunca tem uma causa que vise imediatamente produzi-lo, mas resulta sempre como efeito acessório. Assim, por exemplo, uma causa já defeituosa realiza defeituosamente sua ação própria. Originariamente pode um mal físico nascer pela coincidência de duas séries causais, cada uma das quais tende por si a um bem, mas cuja acidental concorrência produz um mal (por exemplo, um [[lexico:a:acidente:start|acidente]] de tráfego). Além disso, um mal pode provir do fato de se pretender e causar um bem que exclui necessariamente outro bem (assim, numa intervenção cirúrgica a [[lexico:c:cura:start|cura]] do [[lexico:o:organismo:start|organismo]] total exclui a conservação de uma parte do mesmo). O mal moral consiste sempre, ou tem sempre seu fundamento numa decisão pecaminosa da vontade livre criada. A possibilidade do mal radica-se, em derradeira [[lexico:i:instancia:start|instância]], na [[lexico:f:finitude:start|finitude]] de toda criatura. No que tange ao sentido do mal, teodiceia, [[lexico:p:providencia:start|providência]]. — Naumann. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}