===== LUCIDEZ ===== ψυχή ([[lexico:p:psyche|psyche]]): lucidez humana, [[lexico:a:alma|alma]] Terá também a lucidez humana (ψυχή ) um [[lexico:t:trabalho|trabalho]] (ἔργον ) específico que lhe assiste e que nenhum [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:e:ente|ente]] poderia realizar? Se de alguma [[lexico:f:forma|forma]] compreendemos o [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:a:analise|análise]], quando se trata da tematização de entes como artefatos, utensílios, o [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:h:humano|humano]], ou da [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] da [[lexico:v:vida|vida]] em geral, percebemos que subsiste uma grande dificuldade à partida ao tratar a tematização da [[lexico:e:existencia|existência]] humana. Mas, se [[lexico:n:nao|não]] sabemos o que fazer quando tematizamos a alma humana [Cf. Schadewaldt, p. 78], não é por isso que deixamos de lhe reconhecer uma eficácia resultante da sua [[lexico:a:acao|ação]] específica. «O preocupar-se, o dominar, o deliberar e [[lexico:c:coisas|coisas]] deste [[lexico:g:genero|gênero]] e também [[lexico:v:viver|viver]]» [Rep., 353d] são funções específicas da existência, o [[lexico:p:proprio|próprio]] (ἴδιον ) da lucidez humana (ψυχή). Quando a lucidez humana (ψυχή) está privada da sua [[lexico:e:excelencia|excelência]] peculiar [República, 353e2], também se torna [[lexico:i:impossivel|impossível]] [Rep., 353e3] que ela execute [[lexico:b:bem|Bem]] as suas funções [Rep., 353e1]. A especificidade desse impedimento e dessa perversão, aquilo que desvirtua a lucidez humana (ψυχή) e que a torna uma alma pervertida (ψυχὴ κακή ) é experimentado num passar por uma [[lexico:s:situacao|situação]] (πράττειν ) qualificada como uma má situação (κακῶς ) . O viver (tὸ ζῆν ) pode continuar a verificar-se em ambas as possibilidades . O [[lexico:m:modo|modo]] como essa continuação se processa é que é completa e radicalmente diferente, quando a lucidez humana (ψυχή) cumpre um [[lexico:d:destino|destino]] e quando ela cumpre o outro. Quer dizer, pode verificar-se sempre uma continuação da vida, quer a lucidez humana (ψυχή) se torne naquilo em que ela se pode tornar, realizando maximamente a sua [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] extrema, quer se destrua, desfazendo para sempre toda e qualquer possibilidade. O [[lexico:e:efeito|efeito]] da [[lexico:q:queda|Queda]] numa possibilidade ou da [[lexico:c:constituicao|constituição]] da outra é experimentado a um outro nível para [[lexico:a:alem|além]] do simplesmente [[lexico:v:vivido|vivido]]. [[lexico:e:esse|esse]] outro nível a tematizar é o da [[lexico:d:dimensao|dimensão]] em que se decide se cada um passa bem ou [[lexico:m:mal|mal]] pelas situações da existência. Passa por um acompanhamento das autênticas possibilidades da existência humana. Para tal temos de nos circunscrever ao [[lexico:h:horizonte|horizonte]] de [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] da situação específica humana (πρᾶξις ) [Cf. M. Heidegger, «Phänomenologische Interpretation zu Aristoteles», Dilthey-Jahrbuch für Philosophie und Geschichte der Geisteswissenschaften, editado por Frithjof Rodi, vol. 6/1968, Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen: «Dieser Umgang [sc., des Umgangs menschlichen Lebens mit ihm selbst] ist die πρᾶξις: das sich selbst Behandeln im Wie des [...] handeln den Umgehens» (p. 259). Cf. também Franco Volpi, «[[lexico:d:dasein|Dasein]] comme [[lexico:p:praxis|praxis]]: l’assimilation et la radicalisation heideggerienne de la philosophie pratique d’Aristote», in Phaenomenologica, vol. 108, 1987, pp. 1-43. Jacques Taminiaux, «[[lexico:p:poiesis|poiesis]] et praxis dans l’articulation de l’ontologie fondamental» (ibid., pp. 107-127), e Manfred Riedl, «[[lexico:h:heidegger|Heidegger]] und der hermeneutische Weg zur praktischen Philosophie», in Für eine zweite Philosophie Vortrdge und Abhandlungen, pp. 171-196.]. O apuramento das modalidades mal (κακῶς) e bem (εὖ [eû]) do agir e passar por situações especificamente humanas (πράττειν) requer a tematização de acontecimentos que concebem a lucidez humana (ψυχή) para além da mera [[lexico:s:subsistencia|subsistência]] num corpo, para além da [[lexico:d:duracao|duração]] da vida. A situação especificamente humana (πρᾶξις) é o horizonte em que se dá, no seu sentido [[lexico:a:autentico|autêntico]], uma [[lexico:r:relacao|relação]] com os limites extremos da perversão (κακία ) e da excelência (ἀρετή ), sendo o trabalho (ἔργον) do humano determinado a partir do modo [[lexico:c:como-se|como se]] passa pelas mais diversas situações da existência. Viver com os olhos postos na possibilidade, enquanto possibilidade, de convocar a [[lexico:p:presenca|presença]] da excelência (ἀρετή) e a ação eficaz da perversão (κακία) extravasa para fora das meras possibilidades de [[lexico:e:estar|estar]] vivo ou de morrer. É dependendo das presenças da [[lexico:j:justica|justiça]] justificadora (δικαιοσύνη ) ou da injustiça (άδικία ) na lucidez humana (ψυχή) que podemos [[lexico:s:saber|saber]] do modo como passamos pela vida, se bem ou se mal [Rep., 353e10]. A qualificação do viver (ζῆν ) e da lucidez humana (ψυχή) na dimensão situação especificamente humana (πρᾶξις) anula o [[lexico:c:carater|caráter]] mais ou menos neutro com que se manifestam [Rep., 354a]. Verifica-se, assim, uma constituição da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] possibilidade-impossibilidade na manifestação excelência-perversão (εἶδος-ἀρετή-κακία ). Por estas análises preliminares percebemos numa mesma [[lexico:e:entidade|entidade]] três possibilidades de desdobramento. Uma que, embora não desfaça a sua [[lexico:n:natureza|natureza]] (φύσις ), também não a realiza plenamente; outra que destrói a possibilidade de qualquer ente se manter na sua natureza; e, por [[lexico:u:ultimo|último]], que realiza de uma forma excelente uma qualquer natureza pela presença da excelência (ἀρετή). [CaeiroArete:38-40] A lucidez humana (ψυχή) é um [[lexico:p:plano|plano]] de sentido ao qual assiste a dupla possibilidade de se tornar autenticamente naquilo que ela é, fazendo-se assim excelente; ou a de se destruir, pervertendo todas as suas capacidades de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]]. Assim como uma casa, o corpo humano, um ente vivo, não deixam de [[lexico:s:ser|ser]] reconhecidos como tais apenas por estarem em [[lexico:d:desordem|desordem]], assim também a lucidez humana (ψυχή) não deixa de ser reconhecida como tal, mesmo que destruída [v. desalmado]. De alguma forma temos uma indicação daquilo que podia [[lexico:t:ter|ter]] sido e não foi, do que ainda não veio a ser e poderá vir a ser, ou do que já não é, tendo alguma vez sido. [CaeiroArete:47-48]