===== LOCKE ===== LOCKE (John), [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] inglês (Wrington, Somersetshire, 1632 — Oates, Essex, 1704). [[lexico:f:filho:start|filho]] de um jurista, fez seus estudos secundários em Londres, em Westminster, entrando mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] para a universidade de Oxford. Sua [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] com a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] levou-o a ocupar-se de [[lexico:f:fisica:start|física]], química, medicina e [[lexico:p:politica:start|política]]. Sua [[lexico:t:teoria:start|teoria]] sobre a [[lexico:o:origem-do-conhecimento:start|origem do conhecimento]] (Ensaio sobre o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]], 1690) é um [[lexico:s:sensualismo:start|sensualismo]] segundo o qual todos os nossos conhecimentos e os próprios [[lexico:p:principios:start|princípios]] de nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]] resultam da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e do [[lexico:h:habito:start|hábito]]; sua [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] do [[lexico:d:direito:start|direito]] é, contra [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], uma [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] de [[lexico:t:tolerancia:start|tolerância]] (Cartas sobre a tolerância, 1689), Os Tratados do [[lexico:g:governo:start|governo]] civil (1690) expõem a teoria da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] liberal. Deve-se-lhe também um tratado sobre A [[lexico:e:educacao:start|educação]] (1693), onde apresenta o cristianismo [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] como a [[lexico:r:religiao:start|religião]] [[lexico:n:natural:start|natural]] do [[lexico:c:coracao:start|coração]] do [[lexico:h:homem:start|homem]]. John Locke (1632-1704) em sua [[lexico:o:obra:start|obra]] "Um ensaio sobre o entendimento humano", declara, no prefácio, que pretende examinar a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e os limites do entendimento humano. Locke opõe-se à aceitação das [[lexico:i:ideias-inatas:start|ideias inatas]]. Ele repele o [[lexico:i:inatismo:start|inatismo]], e afirma que todas as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] do homem são adquiridas através de um [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]. Assim, para ele, a [[lexico:a:alma:start|alma]] é uma tabula rasa, uma folha [[lexico:n:nao:start|não]] [[lexico:e:escrita:start|escrita]], na qual a experiência grava as suas impressões. Dessas impressões é que nascem as ideias, que, para Locke, são apenas representações gerais da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. A experiência pode [[lexico:s:ser:start|ser]] externa ou interna. No primeiro caso, a aquisição da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] é feita através da [[lexico:s:sensacao:start|sensação]]; no segundo, pelo [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] do espírito, a qual exige [[lexico:a:atencao:start|atenção]]. As representações não são imagens fiéis do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] percebido. Nas representações, concorrem as qualidades chamadas primárias, que são as correspondentes às [[lexico:r:relacoes:start|relações]] de [[lexico:e:extensao:start|extensão]], [[lexico:f:figura:start|figura]], [[lexico:m:movimento:start|movimento]], [[lexico:n:numero:start|número]], etc, que são adequadas ao objeto [[lexico:e:externo:start|externo]] e que, por isso, podem ser qualificadas de verdadeiras. As qualidades secundárias, tais çpmo a côr, o sabor, o som, etc, são meros produtos da [[lexico:r:representacao:start|representação]] interna. São as qualidades primárias, como [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], a base de todas as leis físicas e mecânicas. Já tivemos oportunidade de entrever, através dos Novos [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] de Leibnitz, a [[lexico:s:significacao:start|significação]] do Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke, e as perspectivas que ele abria. Locke era o mais estimável dos homens, um [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] gentleman, amigo certo e prestativo, sem nenhum [[lexico:p:pedantismo:start|pedantismo]] na sua [[lexico:i:instrucao:start|instrução]] e na sua [[lexico:c:cultura:start|cultura]]. Nascido em 1632, morria em 1704 da maneira mais edificante e corajosa, após uma [[lexico:v:vida:start|vida]] de constantes enfermidades. Mostrara certa inclinação para a carreira eclesiástica, voltando-se depois para a diplomacia e ligando-se a Lord Ashley, mais tarde Conde de Shaftesbury, por [[lexico:q:quem:start|quem]] foi introduzido na corte de Guilherme de Orange. Este homem de [[lexico:p:projecao:start|projeção]] era um espírito perfeitamente [[lexico:m:moderno:start|moderno]], muito desconfiado no tocante às sutilezas da [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], pelas quais tivera de passar, e voltado para todas as formas do [[lexico:r:real:start|real]]. Concebeu pelas ciências uma [[lexico:p:paixao:start|paixão]] que o levou a estudá-las nos mínimos pormenores e vemo-lo, [[lexico:b:bem:start|Bem]] jovem ainda, encher diariamente cadernos de observações meteorológicas. Mas soube também estender a sua [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] à [[lexico:e:existencia:start|existência]] corrente e [[lexico:s:social:start|social]] e não foi absolutamente um [[lexico:s:sabio:start|sábio]] de gabinete; nas viagens que fez a Paris frequentou a [[lexico:e:elite:start|elite]] intelectual; em sua pátria acompanhou os negócios públicos com atenção e [[lexico:s:sagacidade:start|sagacidade]], mas sempre cheio de urbanidade. Na juventude escrevera umas Reflexões sobre a [[lexico:r:republica:start|República]] Romana em que prefigurava [[lexico:m:montesquieu:start|Montesquieu]], falando já da "[[lexico:g:grandeza:start|grandeza]]" dos romanos e da sua "[[lexico:d:decadencia:start|decadência]]"; foi somente por volta dos cinquenta anos que publicou os Dois tratados sobre o governo civil: mas Locke permanece acima de tudo o autor do Ensaio filosófico sabre o entendimento humano, que apareceu em 1690. Ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]] define no prefácio a [[lexico:i:intencao:start|intenção]], o [[lexico:m:metodo:start|método]] e as grandes linhas da obra. Essa intenção é a de examinar a [[lexico:c:certeza:start|certeza]] e a extensão dos conhecimentos humanos, como outrossim os fundamentos e os graus de [[lexico:c:crenca:start|crença]], de [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] e de [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] que podemos [[lexico:t:ter:start|ter]] com [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos diversos assuntos que se apresentam ao nosso espírito. O método consiste em separar o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] certo da opinião, em buscar a [[lexico:o:origem-das-ideias:start|origem das ideias]] e mostrar de que [[lexico:m:modo:start|modo]] elas se associam para formar o entendimento, examinando depois os "graus" desse "assentimento", que vai desde a "opinião" — que outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não é senão a [[lexico:f:fe:start|fé]] — até a certeza científica. Deste modo poderemos evitar o cepticismo e conhecer o que nos importa realmente conhecer, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que banimos a vã [[lexico:c:curiosidade:start|curiosidade]]. O centro da doutrina está, pois, na consideração das "ideias", a que é consagrado o segundo livro. As "ideias" são os conhecimentos que o espírito adquire dos objetos. Há ideias [[lexico:s:simples:start|simples]], impressões imediatas que os sentidos criam no espírito ao revelar-lhe certas qualidades dos objetos: côr, cheiro, volume ou certas impressões de conjunto como as de [[lexico:p:prazer:start|prazer]], de existência, de [[lexico:u:unidade:start|unidade]]. E há ideias complexas, que são combinações destas. As ideias complexas são de três espécies, conforme se refiram aos modos, às [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] ou às relações. As ideias em si não podem ser verdadeiras ou falsas, são-no apenas pelo [[lexico:j:juizo:start|juízo]] que fazemos a seu [[lexico:r:respeito:start|respeito]]. As ideias primitivas se reduzem às de volume, extensão, número, [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] ou movimento. Todas elas se acham pois no ser ou no [[lexico:a:atual:start|atual]], e estão fora de consideração as ideias "inatas" ou naturalmente separadas. Tal é o fundo de que o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] vai haurir ao mesmo tempo a sua fraqueza e a sua facilidade: tudo se reduz ao [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] e à [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] ou [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] do espírito. É [[lexico:p:possivel:start|possível]], deste modo, construir ou reconstruir o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. A [[lexico:p:prova:start|prova]] sobrevirá quando se passar desta [[lexico:e:especie:start|espécie]] de física à [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], quando se passar a [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Mas Locke não se embaraça com isso. Tem a resposta pronta, e basta-lhe empregar mais uma vez o seu método: "As ideias complexas que temos de Deus e dos [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] puros são compostas de ideias simples que recebemos da reflexão." "Se verifico que conheço um pequeno número de [[lexico:c:coisas:start|coisas]], sendo que algumas delas ou talvez todas de maneira imperfeita, posso formar ideia de um ser que conheça duas vezes mais e, procedendo assim ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]], tanto ao infinito da concepção como da [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]], posso chegar à ideia do ser infinito." É, como vemos, a [[lexico:p:prova-ontologica:start|prova ontológica]], percebendo-se também em que [[lexico:s:sentido:start|sentido]] se aperfeiçoou, como outrossim o que evidentemente lhe [[lexico:f:falta:start|falta]]. Sempre [[lexico:l:logica:start|lógica]], tornou-se mais positiva e concreta; no entanto se esquece, como mostrará muito bem [[lexico:k:kant:start|Kant]], de sair do simples [[lexico:j:jogo:start|jogo]] da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], e aqui o defeito reflete o da própria doutrina. Não explica [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode passar da ideia à [[lexico:a:associacao:start|associação]] das ideias e do entendimento à [[lexico:r:razao:start|razão]], embora faça [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre ambos: um como a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] propriamente dita de [[lexico:p:pensar:start|pensar]], a outra como [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] dos meios próprios para discernir a certeza. É que o espírito é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o espírito e, ainda que tudo deva passar pelos sentidos para chegar ao espírito, é preciso que ele esteja presente com os sentidos. Aí está por que Leibnitz acrescentou à [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de Locke, "[[lexico:n:nada:start|nada]] existe no espírito que não tenha [[lexico:e:estado:start|Estado]] antes nos sentidos" estas simples [[lexico:p:palavras:start|palavras]] que mudam tudo e com as quais Locke devia forçosamente concordar: "...a não ser o próprio espírito". [[lexico:p:platao:start|Platão]] opunha a inteligência ao [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] e conciliava-os mediante a ideia de [[lexico:p:participacao:start|participação]]; [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e os seus discípulos imaginaram o [[lexico:i:intelecto-agente:start|intelecto agente]] e o [[lexico:i:intelecto-possivel:start|intelecto-possível]]; [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] distinguiu a [[lexico:s:substancia:start|substância]] pensante e a substância extensa, sem conseguir restabelecer uma [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] entre elas. Mas pelo menos o [[lexico:p:problema:start|problema]] continuava em pé. Com Locke ele desaparece, pois aqui as ideias, percepções ou séries de percepções do espírito se ordenam [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmas e a [[lexico:q:questao:start|questão]] do espírito é finalmente resolvida pela supressão do espírito. Isto significa, em [[lexico:s:suma:start|suma]], que Locke ia terminar no mecanismo, o que se verá demasiadamente bem naqueles que derivam dele em linha reta e que o simplificam ainda mais. De qualquer modo, acabou de dar um [[lexico:i:impulso:start|impulso]] definitivo ao mundo moderno no sentido da defecção e dos progressos deste mundo. Estabeleceu com mais rigor uma filosofia fundada exclusivamente na razão e na experiência; crente sincero como Descartes, imaginava uma [[lexico:a:apologetica:start|apologética]] fundada apenas na inteligência e não sonhou sequer com uma concepção do mundo que ultrapassasse essa [[lexico:d:deducao:start|dedução]] [[lexico:r:racional:start|racional]] dos seus fenômenos e do seu encadeamento. Isto é o que o torna claro, sedutor, convincente, singularmente estreito, e explica a sua [[lexico:i:influencia:start|influência]] numa [[lexico:e:epoca:start|época]] tão favorável às suas teses e de que ele próprio era a [[lexico:i:ilustracao:start|ilustração]], sobre os seus contemporâneos de todos os países e uma sociedade que se jactava de descobrir o homem desligando-o de toda religião e de toda metafísica. É ele assim, apesar da sua fé, o antepassado do [[lexico:l:laicismo:start|laicismo]] e dos outros flagelos filosóficos modernos, desde o [[lexico:u:utilitarismo:start|utilitarismo]] até o [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] e o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] científico, e é bastante enumerar os seus descendentes para defini-lo na sua natureza — embora ele não tivesse querido ser o que de [[lexico:f:fato:start|fato]] foi — e no seu alcance. Mantém-se com demasiada [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] no tom espiritual da sua [[lexico:n:nacao:start|nação]] para não ter desempenhado ali, na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], um papel [[lexico:c:capital:start|capital]]. É a ele que se costuma ligar com [[lexico:j:justica:start|justiça]] a [[lexico:e:escola:start|escola]] associacionista, os [[lexico:m:mill:start|Mill]], os [[lexico:s:spencer:start|Spencer]], os Bain, os Bailey e mesmo os Escoceses, cujo utilitarismo só podia provir destas mesmas fontes. Mas foi na França que encontrou a sua [[lexico:t:terra:start|Terra]] de eleição. E não é para admirar que esta terra, doravante "filosófica", isto é, racionalista e anticlerical, o acolhesse com transportes de [[lexico:e:entusiasmo:start|entusiasmo]]. Foi, para os [[lexico:e:enciclopedistas:start|enciclopedistas]], uma [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] maravilhosa e o objeto de uma exploração que avançou muito [[lexico:a:alem:start|além]] das intenções desse homem honesto. Conhece-se o [[lexico:d:dito:start|dito]] de [[lexico:v:voltaire:start|Voltaire]]: "A filosofia de Locke está para a de Descartes e de [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]] como a [[lexico:h:historia:start|história]] está para o romance." [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]] seguiu-o por um [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:c:caminho:start|caminho]] e num sentido ainda mais [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] e forçado. Lia Locke e até o copiava. Tirava dele ideias políticas sobre o "[[lexico:c:contrato-social:start|Contrato Social]]", que arranjava a seu modo, e quando ouvia o seu autor [[lexico:f:falar:start|falar]] em [[lexico:e:estado-de-natureza:start|estado de natureza]] entendia estas palavras não no sentido [[lexico:l:logico:start|lógico]] de um estado em que o homem se achasse "por natureza", mas como uma espécie de [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] fiistórico. Chegaremos a uma sistematização mais resoluta, mais pérfida mesmo, do pensamento de Locke, e a filósofos que daí tirarão consequências diante das quais ele teria recuado. Isto não nos deve impedir de fazer-lhe justiça, malgrado as deficiências e, podemos dizê-lo, o [[lexico:c:carater:start|caráter]] elementar da sua construção. Nada metafísico num [[lexico:c:campo:start|campo]] em que a metafísica é da capital importância, foi contudo psicólogo e fez avançar a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]]. Se por um lado, ao atribuir o papel preponderante aos sentidos, não se apercebeu logo que a combinação das sensações não podia bastar para explicar o pensamento e deste modo preparou o sensualismo ainda mais ingênuo de um [[lexico:c:condillac:start|Condillac]], também é [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que, por outro lado, acabou de purgar o espírito de [[lexico:t:todo:start|todo]] resquício de [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] abusiva e permitiu-lhe entregar-se com toda [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] ao jogo perigoso em que o arriscava. Fenomenista, tende a eliminar a [[lexico:i:ideia-de-substancia:start|ideia de substância]] e esta eliminação será a grande prova a que vai sucumbir a filosofia ulterior. Mas graças a isso os fenômenos poderão ser considerados em toda a sua flexibilidade e suas possibilidades de [[lexico:a:arranjo:start|arranjo]] e, embora conduzam a [[lexico:e:esse:start|esse]] mecanismo final que é o impasse onde vai encalhar o sistema, permitirá pelo menos admirar a construção engenhosa da [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]]. Enfim, chegaremos por este caminho ao espírito e aos métodos científicos que têm sido os instrumentos da nossa perdição, mas que também nos fizeram progredir a passos rápidos na senda desta [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] tão exclusivamente material em que escolhemos [[lexico:v:viver:start|viver]]. Tal é o sentido e o alcance da doutrina de Locke. Exorbita a letra mas conserva ainda o espírito da física cartesiana; não se corrige com essa metafísica que impediu Descartes de ir até onde desejariam tê-lo levado. E, na verdade, estamos mais perto de Locke do que de Descartes — o que aliás não é nenhuma [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] para nós. Esta doutrina participa, outrossim, da [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] do homem, pois Locke introduziu nela, além da sua inteligência, a sua moderação e a sua [[lexico:p:piedade:start|piedade]]: qualidades, estas últimas, que não encontraremos nos seus sucessores. Finalmente, se o problema do conhecimento não era resolvido, pelo menos continuava a apresentai-se em seus termos modernos e o [[lexico:g:genio:start|gênio]] de Kant, menos de una século mais tarde, poderia reconsiderá-lo. O [[lexico:e:empirismo-ingles:start|empirismo inglês]] se inicia com John Locke. A filosofia no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que vem ao mundo filosófico John Locke é ainda predominantemente cartesiana. Desde logo, um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista idealista é dominante já na filosofia; porém não somente o ponto de vista idealista em [[lexico:g:geral:start|geral]], mas, também, a concreta solução dada por Descartes ao problema metafísico predomina ainda na filosofia europeia. Assim o problema metafísico encontra nesta filosofia a solução substancialista de Descartes. [[lexico:e:eu:start|eu]] descubro "meu" próprio ser como ser presente: descubro entre minhas ideias a [[lexico:i:ideia-de-deus:start|ideia de Deus]], cuja [[lexico:e:essencia:start|essência]] envolve a existência e, mercê desta ideia de Deus como [[lexico:g:garantia:start|garantia]], afirmo a existencialidade dos objetos de minhas ideias claras e distintas; por conseguinte, do [[lexico:e:espaco:start|espaço]], movimento, número e suas modificações. Donde extrai Descartes uma metafísica das três substâncias: a substância pensante (a alma), a substância extensa (o [[lexico:c:corpo:start|corpo]]) e Deus, substância infinita criadora. Essa triplicidade da substância domina absolutamente na filosofia quando chega Locke. O ponto de partida de Locke é, pois, o ponto da filosofia cartesiana. Mas Locke se propõe, desde logo, com uma clareza absoluta o problema metafísico como problema do conhecimento. Locke, com plena consciência da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] que existe radicalmente no [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] de esclarecer o problema do conhecimento, inicia seu [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] filosófico perguntando-se: qual é a essência, qual é a [[lexico:o:origem:start|origem]], qual é o alcance do conhecimento humano? Pois bem; o conhecimento se constitui por [[lexico:m:meio:start|meio]] de ideias. Toma Locke a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "ideia" num sentido que nem antes nem depois dele teve na filosofia; toma-a como [[lexico:t:traducao:start|tradução]] em [[lexico:l:lingua:start|língua]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]] da palavra latina [[lexico:c:cogitatio:start|cogitatio]], usada por Descartes. Para Descartes, cogitatio é pensée, pensamento, e pensamento é todo fenômeno [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] em geral. Uma sensação é uma cogitatio; uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] o é também; uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] ou [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] o é também. Em suma: qualquer [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] psíquica é chamada por Descartes cogitatio. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}