===== LÍNGUA NACIONAL ===== A [[lexico:n:nacao|Nação]] é uma [[lexico:t:totalidade|totalidade]] fechada. Mas segundo os românticos, como Herder por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a preservação da [[lexico:c:cultura|cultura]] nacional [[lexico:n:nao|não]] excluía o contacto com o estrangeiro. O [[lexico:e:essencial|essencial]] era que os [[lexico:e:elementos|elementos]] estranhos não fossem excessivos e pudessem [[lexico:s:ser|ser]] totalmente assimilados, assim como em todas as línguas se assimilaram milhares de [[lexico:p:palavras|palavras]] exóticas. O essencial na doutrina romântica é que a cultura se compara a um [[lexico:o:organismo|organismo]] vivo, e que não possa — como qualquer organismo vivo — assimilar elementos estranhos. A [[lexico:t:teoria|teoria]] da cultura como organismo — ou como organização — é, já [[lexico:p:por-si|por si]], anti-cosmopolita. Exclui toda [[lexico:h:hipotese|hipótese]] de considerar a cultura como [[lexico:s:soma|soma]] de resultados adquiridos acumulativamente e arbitrariamente. — A [[lexico:l:lingua|língua]], por exemplo, não é uma soma de palavras; é um [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:p:psiquico|psíquico]], um [[lexico:n:nexo|nexo]], uma [[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] de que as palavras são os [[lexico:s:simbolos|símbolos]]. A [[lexico:r:riqueza|riqueza]] das línguas não está na [[lexico:q:quantidade|quantidade]] do seu vocabulário (senão qualquer língua poderia enriquecer-se indefinidamente, agregando ao seu dicionário tantas palavras quantas quisesse). A riqueza das línguas está na sua [[lexico:e:estrutura|estrutura]] interna, na sua plasticidade, na sua [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:s:sintese|síntese]], no seu [[lexico:s:sistema|sistema]] nervoso. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] preciso preservar da contaminação, segundo os românticos, é essa estrutura interna que se exprime no vocabulário [[lexico:a:autentico|autêntico]]. A [[lexico:l:lingua-nacional|língua nacional]], como [[lexico:e:expressao|expressão]] da cultura original, é um dos temas desenvolvidos por [[lexico:f:fichte|Fichte]] em seus Discursos à Nação Alemã. Fichte teve, sobre o [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], uma [[lexico:i:influencia|influência]] ainda maior que a de [[lexico:s:schelling|Schelling]] e [[lexico:h:hegel|Hegel]], com os quais compõe a trilogia de Filósofos do [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]]. Sua [[lexico:o:obra|obra]] Reden an die deutsche Nation é de [[lexico:c:capital|capital]] importância para a [[lexico:h:historia|história]] do [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:v:volk|Volk]], de [[lexico:e:estado|Estado]], de [[lexico:e:educacao|educação]] nacional e para a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] do [[lexico:n:nacionalismo|nacionalismo]]. São 14 Discursos exclusivamente dirigidos a alemães e sem a menor [[lexico:i:intencao|intenção]] de valer para outros povos. Escritos e pronunciados entre 1807 e 1808, na Alemanha dividida, na Prússia destruída e reduzida a menos da metade do seu território e da sua população, estes Discursos, que foram lidos em Berlim, como um desafio às baionetas francesas, vêm revestidos de forte tonalidade [[lexico:m:mistica|mística]]; constituem por isso mesmo um dos mais importantes monumentos do nacionalismo romântico, na sua [[lexico:f:forma|forma]] absoluta. — A [[lexico:t:tese|tese]] do nacionalismo linguístico já vinha de Hamann e Herder; mas Fichte erige essa tese num [[lexico:p:principio|princípio]] que adquire toda a sua amplitude com os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] de Urvolk e Ursprache. É nestes Discursos que o conceito de Nação emerge claramente pela primeira vez. Como logo depois em Hegel, a Nação aparece em Fichte como ser dotado de [[lexico:v:valor|valor]] absoluto, como [[lexico:u:unidade|unidade]] substantiva, [[lexico:r:realidade|realidade]] originária transpessoal, identificando-se com o Estado. O romântico inglês Blackwell havia já sustentado que a língua e o [[lexico:d:destino|destino]] do [[lexico:p:povo|povo]] estão intimamente ligados. Hamann havia observado que os autores do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]], que escreveram em italiano, não conseguiram atingir a [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] porque trabalharam com uma língua que não lhes era congênita. Fichte defendeu a tese de que o povo alemão não é um povo como os demais povos germânicos, e muito menos um povo parecido com os românicos, e sim um Volk originário, um Urvolk, que se exprime na língua materna originária, a sua Ursprache. É de [[lexico:s:suma|suma]] importância esta unidade do Urvolk com a sua Ursprache, isto é, essa unidade do povo com sua língua histórica originária, porque esta é a [[lexico:c:condicao|condição]] da autenticidade da Nação. O povo alemão, ao contrário dos outros povos germânicos, se conservou num território de habitação primitiva e se conservou a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] como um povo [[lexico:p:primitivo|primitivo]]. Isto, segundo Fichte, não implicava necessariamente a pureza racial, desde que reconhecia na Prússia uma certa [[lexico:m:mistura|mistura]] eslava. Mas implicava, isto sim, uma unidade subjetiva, que se inscreve na [[lexico:n:nocao|noção]] fichteana de Totalidade, Allheit. Uma nação é um conjunto fechado, uma Totalidade. Esta totalidade nacional é coerente consigo mesma, é autêntica, na [[lexico:m:medida|medida]] em que, na sua [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de Urvolk [[lexico:f:fala|fala]] a sua língua original, única na qual pode exprimir com intimidade e [[lexico:v:vida|vida]] a sua própria visão original do mundo. A língua original de um povo não é o resultado [[lexico:h:historico|histórico]] [[lexico:a:arbitrario|arbitrário]]; ela é o que é necessariamente. Não é o povo que se exprime na língua, e sim a língua é que se exprime no povo. Quer dizer, "não é o povo [[lexico:q:quem|quem]] expressa seus conhecimentos (por [[lexico:m:meio|meio]] da língua), senão que são os próprios conhecimentos que se expressam mediante sua [[lexico:p:palavra|palavra]] [[lexico:e:exterior|exterior]]". A língua é o que é necessariamente, porque se desenvolve segundo uma [[lexico:l:lei|lei]] interna e fixa, como um organismo. É a língua que conserva o [[lexico:c:carater|caráter]] primitivo de um Volk e não a sua própria pureza racial, já que nenhuma nação germânica pode vangloriar-se dessa pureza. Tudo o que se pensa é vivo na língua original, porque entre as imagens sensíveis e as supra-sensíveis há uma perfeita [[lexico:c:correlacao|correlação]]. Se disséssemos por exemplo a um alemão as palavras de procedência estranha Humanität, Popularität, Liberalität, estas palavras [[lexico:n:nada|nada]] lhe diriam, sem o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:r:racional|racional]] completo do seu [[lexico:s:significado|significado]]; ao contrário, quando a um alemão dizemos a palavra Menschlikeit ele a compreenderá imediatamente, sem nenhuma [[lexico:e:explicacao|explicação]] histórica; porque a palavra [[lexico:h:humanidade|humanidade]], Menschheit, permaneceu em alemão no estado de cousa puramente [[lexico:s:sensivel|sensível]], que precedeu a noção sintética de Humanidade. Um [[lexico:g:grupo|grupo]] nacional se degrada quando adota uma língua estranha, cujas raízes estão mortas e cujas palavras exprimem entidades puramente supra-sensíveis, sem nexo com as imagens sensíveis da língua materna. Assim os grupos germânicos, que vieram fundar outras nações, adotaram línguas estranhas como foi o caso do latim; e do latim já degenerado pelo Cristianismo, formado de elementos estranhos a essa língua e que destruíram os [[lexico:p:principios|princípios]] constitutivos do latim, como foi [[lexico:v:vivido|vivido]], enquanto língua conatural, pelos antigos romanos; esses grupos que adotaram línguas estranhas se dividiram de sua própria [[lexico:a:alma|alma]] original; falam uma língua e sentem obscuramente em outra; suas criações poderão ser laboriosíssimas, mas nunca poderão ser autênticas, em [[lexico:v:virtude|virtude]] desse corte que separa a alma e a sua expressão. O Urvolk, ao contrário, não está dividido de si pela sua língua, que, ao contrário, é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] visível da sua [[lexico:e:essencia|essência]]; [[lexico:e:esse|esse]] povo, ao contrário dos outros, pode [[lexico:t:ter|ter]] Gemüt, intimidade, caráter e [[lexico:s:seriedade|seriedade]]. Seu poder criador vem dos seus arcanos mais profundos e por isso suas criações são autênticas, originais. No Urvolk, as palavras são realmente vida e [[lexico:e:estimulo|estímulo]] de vida; as palavras são [[lexico:e:espirito|espírito]] e podem formar a vida. Só a língua original pode produzir imagens que, em vez de refletir simplesmente a realidade, podem ser modelos da realidade: Esse povo pode [[lexico:c:criar|criar]] novas realidades. Mas tal poder não existe nos povos que adotaram línguas estranhas; usam línguas cujos sons não lhes dizem nada, cujas imagens não sentem e que são aliás artificiais. Neste caso, a [[lexico:f:formacao|formação]] espiritual segue uma trilha e a vida outra; as classes instruídas se separam do povo e fazem deste [[lexico:u:ultimo|último]] o [[lexico:i:instrumento|instrumento]] cego de seus planos egoístas. A [[lexico:i:instrucao|instrução]] não atinge mais do que a [[lexico:r:razao|razão]] e não exerce a menor influência sobre as condições da vida [[lexico:r:real|real]]. Fabricam constituições políticas perfeitíssimas, engrenagens que devem funcionar com [[lexico:p:precisao|precisão]]; e quando, no curso dos acontecimentos sociais se produz algum choque, vão procurar [[lexico:s:saber|saber]] qual foi a engrenagem que falhou e a substituem; mas não têm a menor noção da [[lexico:f:forca|força]] misteriosa que dirige a [[lexico:m:maquina|máquina]] toda. E garantem com isso uma [[lexico:l:liberdade|liberdade]] que não é vida original, mas vacilação indecisa entre muitas cousas igualmente possíveis. Os homens primitivos, ao contrário, amam a verdadeira liberdade, e quando formam uma coletividade, formam um povo primitivo, um Urvolk. Na tese de Fichte, a [[lexico:n:natural|natural]] [[lexico:e:evolucao|evolução]] das línguas não se opõe a que as mesmas se conservem primitivas, ao contrário. O essencial é que a evolução proceda geneticamente, na linha da [[lexico:r:raiz|raiz]] primitiva. A língua original evolui segundo as leis do seu [[lexico:p:processo|processo]] interno, não tolerando palavras estranhas que não possam entrar no [[lexico:c:circulo|círculo]] das suas noções matrizes; evolui assim como um [[lexico:c:corpo|corpo]] cresce, explicitando as virtualidades naturais da [[lexico:f:fonte|fonte]] materna. Exprime com autenticidade a sua cosmo-visão matinal. É uma língua que se fala a si mesma, formando o seu povo e evoluindo através dele. Se do povo original se aproximam, por exemplo, outros descendentes do mesmo tronco, que falem já línguas estranhas e não sejam mais capazes de penetrar o círculo das [[lexico:i:ideias|ideias]] da língua original, esses recém-chegados não terão influência alguma sobre o povo original, até o dia em que possam por [[lexico:f:fim|fim]] achar-se a si mesmos e compreender-se a si mesmos a partir das suas nações matrizes; e nesse dia estarão novamente formados pela língua original, longe de a terem formado. O caráter da Nação deriva em suma do caráter de sua língua. Tal é a tese de Fichte, que fundamenta todos os nacionalismos linguísticos. O nacionalismo linguístico de Fichte traduz um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] comum aos românticos. Reflete-se, por exemplo, em Arndt, contemporâneo de Fichte, e considerado um dos maiores poetas do sentimento nacional; em Görres, romântico católico; em Wilhelm von [[lexico:h:humboldt|Humboldt]], filólogo e historiador, que, como já dissemos, considerava a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] como a forma externa do espírito dos povos e afirmava que nunca se poderá exprimir com bastante força a [[lexico:i:identidade|identidade]] da língua e do espírito do povo. A língua corresponde externamente ao que o romântico inglês Shaftesbury denominava a "forma interna" da cultura. A teoria [[lexico:l:linguistica|linguística]] de Fichte amplia singularmente o princípio da [[lexico:o:originalidade|originalidade]] do Volk, cujas raízes estão imersas na floresta primeva. Liga intimamente a identidade nacional com certos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] somatológicos do povo: Dentre estes, o mais importante para Fichte era a língua; para outros românticos será, [[lexico:a:alem|além]] da língua, a [[lexico:m:musica|música]], que é a língua falada em outra [[lexico:d:dimensao|dimensão]]. [NOTA: O nacionalismo linguístico de Fichte, exposto nos Discursos à Nação Alemã, bem como a tese contida em seu ensaio Über die franzözische Revolution, foi dirigido contra a França. A França, fundada como Frankreich pelos Francos e parte do Império de Carlos Magno, era o exemplo da nação que se tinha extraviado de sua língua original. Era um povo em que as elites se separavam da plebe e cuja desunião intrínseca tinha promovido a Revolução de 1789. Mas, à parte essa aplicação ao caso francês, os românticos defenderam o nacionalismo de Fichte como transcendendo as demarcações territoriais e as circunscrições políticas. Há nações que não coincidem com Estados e Estados que não coincidem com nações, com é o caso dos Estados que compreendem várias nações e das nações que compreendem vários Estados. O rigoroso estatismo de Fichte não se dirige a um Estado qualquer, mas ao Estado que coincide com a Nação e que realmente a reflete. O nacionalismo linguístico de base fichteana se reavivou na última guerra, quando fundou a concepção de "mundo anglo-americano", unido pela comunidade da língua. O simples título da obra de Churchill, História dos Povos de Língua Inglesa, mostra esse nacionalismo fichteano. Apesar de que, os ingleses reconhecem que a língua inglesa, mais do que qualquer outra língua "germânica", está penetrada de elementos e estruturas estranhas.]