===== LIBERDADE DA VONTADE ===== A [[lexico:l:liberdade|liberdade]] de eleição, ou [[lexico:l:livre-arbitrio|livre arbítrio]], ou livre alvedrio é a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] que o [[lexico:s:ser-espiritual|ser espiritual]] tem de tomar por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] (isto é, sem [[lexico:s:ser|ser]] precedentemente determinado univocamente por [[lexico:c:coisa|coisa]] alguma) uma [[lexico:p:posicao|posição]] em face de valores limitados conhecidos, de escolher ou [[lexico:n:nao|não]] escolher o [[lexico:b:bem|Bem]] limitado, de escolher este ou aquele bem concebido como limitado. Portanto a [[lexico:l:liberdade-da-vontade|liberdade da vontade]] só é tomada em consideração onde se apreende um [[lexico:v:valor|valor]] como [[lexico:r:real|real]], mas limitado, unido a um não-valor, que é tal desde [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista. Quando [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] aparece como valor [[lexico:a:absoluto|absoluto]] tal que a [[lexico:t:tendencia|tendência]] a ele não leva anexo nenhum não-valor noutro [[lexico:s:sentido|sentido]], a [[lexico:v:vontade|vontade]] deve — não por [[lexico:c:coacao|coação]], mas de [[lexico:a:acordo|acordo]] com o seu peculiar [[lexico:i:impulso|impulso]] [[lexico:n:natural|natural]] para tudo quanto é valioso ([[lexico:a:apetite|apetite]]) — afirmar o bem em [[lexico:q:questao|questão]] e tender necessariamente para ele. [[lexico:a:alem|Além]] disso, a liberdade da vontade não significa, por [[lexico:f:forma|forma]] alguma, capacidade para querer "sem [[lexico:c:causa|causa]]", como repetidamente afirmam muitos adversários do livre arbítrio (deterministas), por desconhecerem a verdadeira doutrina da liberdade. Não há querer imotivado. A liberdade da vontade não quer dizer que esta não possa ser intensamente influenciada e solicitada pelos [[lexico:m:motivos|motivos]] ou que permaneça absolutamente indiferente perante eles. Nem tampouco significa que, de [[lexico:f:fato|fato]], os homens queiram sempre livremente, pois que muitas [[lexico:a:acoes|ações]] da [[lexico:v:vida|vida]] cotidiana se praticam sem qualquer apreciação de motivos. Além disso, como a [[lexico:d:deliberacao|deliberação]] necessária para a [[lexico:e:escolha|escolha]] pode ser também limitada e entorpecida pela [[lexico:p:paixao|paixão]] ou por estados patológicos, como p. ex., por [[lexico:i:ideias|ideias]] obsessivas e outros transtornos idênticos, podemos com [[lexico:r:razao|razão]], em tais circunstâncias, [[lexico:f:falar|falar]] de minoração da liberdade e da [[lexico:i:imputabilidade|imputabilidade]], embora não da total supressão das mesmas (a não ser nos casos de grave enfermidade mental). O fato do livre arbítrio infere-se, antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], de suas [[lexico:r:relacoes|relações]] com a [[lexico:p:personalidade|personalidade]] [[lexico:e:etica|ética]]. Sem liberdade da vontade e, portanto, sem a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de querer desta ou daquela maneira, não pode o [[lexico:h:homem|homem]] razoavelmente ser mais responsável das orientações de sua vontade, nem mais digno de prêmio ou de castigo, do que o é um enfermo de sua enfermidade. Por conseguinte, sem liberdade da vontade também não é [[lexico:p:possivel|possível]] separar razoavelmente do [[lexico:p:puro|puro]] valor de [[lexico:u:utilidade|utilidade]] a [[lexico:b:bondade|bondade]] [[lexico:m:moral|moral]] ou a [[lexico:m:maldade|maldade]] do querer. O [[lexico:i:imperativo-categorico|imperativo categórico]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]] careceria, então, de sentido, tanto como a [[lexico:v:vivencia|vivência]] da boa ou [[lexico:m:ma-consciencia|má consciência]], a culpabilidade, o [[lexico:a:arrependimento|arrependimento]], etc. Com a [[lexico:r:renuncia|renúncia]] à liberdade da vontade deveria simultaneamente renunciar-se à [[lexico:d:dignidade|dignidade]] ética da personalidade, mas com isso perderia também seu sentido o ser inteiro do homem. — Além disso, a consciência da liberdade antes, em e depois das decisões voluntárias (aliás, admitida como um fato por muitos adversários), é um fato tão [[lexico:u:universal|universal]] e fàcticamente invencível, que não se pode [[lexico:e:explicar|explicar]] sempre e em todos os casos, p. ex., por mera auto-ilusão, por [[lexico:i:ignorancia|ignorância]] [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]] de motivos, etc, mas só pela [[lexico:r:realidade|realidade]] da liberdade da vontade. Que, não obstante, seja possível em muitos casos predizer com o máximo de [[lexico:p:probabilidade|probabilidade]] decisões ulteriores das pessoas, quando se conhecem exatamente seu [[lexico:c:carater|caráter]], inclinações e situações, isso explica-se pelo fato de, em muitos casos, os homens escolherem precisamente aquilo que, de ordinário, corresponde a seus [[lexico:c:costumes|costumes]], a suas inclinações estáveis, ou a considerações de sua [[lexico:s:situacao|situação]], principalmente se esta não oferece ensejo especial para uma escolha contrária (cf. os experimentos de Ach para "refutar" a liberdade da vontade). — Tampouco se pode asseverar que, mesmo sem liberdade da vontade, os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] éticos fundamentais conservariam seu pleno sentido, porque, p. ex., o homem deveria [[lexico:t:ter|ter]] formado melhor o caráter que [[lexico:a:agora|agora]] o determina ao [[lexico:m:mal|mal]]. De fato, se êíe não é livre, não podia formar o caráter de outra maneira, e, por conseguinte, não é responsável pelos efeitos deste. A liberdade da vontade radica, em última [[lexico:i:instancia|instância]], na [[lexico:e:essencia|essência]] do ser espiritual. Este, de um lado, deve chegar, de maneira essencialmente necessária, ao [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] do valor meramente [[lexico:r:relativo|relativo]] dos fins limitados apetecidos (ao [[lexico:j:juizo|juízo]] valorativo indiferente, o qual diz: o [[lexico:f:fim|fim]] em questão sintoniza-se, em [[lexico:p:parte|parte]], bem, e, em parte, menos bem, com o sentido do querer; mas sob outro [[lexico:a:aspecto|aspecto]], também o contradiz; pelo que, não oferece a fundamentação absoluta de uma volição); do outro lado, uma vontade psicologicamente determinada, também neste caso, estaria necessária e essencialmente ordenada a tal fim; por conseguinte, a [[lexico:o:orientacao|orientação]] [[lexico:i:intencional|intencional]] da vontade a si mesma se contradiria, a vontade a si mesma se aniquilaria e se converteria num [[lexico:a:absurdo|absurdo]]. — A liberdade da vontade não repugna, por forma alguma, à [[lexico:v:validade|validade]] universal do [[lexico:p:principio-de-razao-suficiente|princípio de razão suficiente]] ou à validade, não menos universal, do [[lexico:p:principio-de-causalidade|princípio de causalidade]], cujo caso [[lexico:p:particular|particular]], a [[lexico:l:lei-de-causalidade|lei de causalidade]], se restringe, em sua validade, aos acontecimentos do [[lexico:m:mundo|mundo]] corpóreo. [[lexico:r:razao-suficiente|Razão suficiente]], embora não necessitante, do querer é sempre a bondade apreendida do fim. Causa eficiente bastante do [[lexico:a:ato|ato]] volitivo é a vontade satisfeita com os motivos ou a própria [[lexico:a:alma|alma]], enquanto tem em si a eficácia produtora não só de uma, mas de muitas direções da vontade. Mas não se demonstrou como sendo [[lexico:l:lei|lei]] universalmente válida e necessária, o fato de uma causa suficiente em cada caso, embora atuando como [[lexico:f:forca|força]] decisiva à [[lexico:l:luz|luz]] de um completo conhecimento de várias possibilidades, [[lexico:d:dever|dever]] ser uma causa coarctada, capaz unicamente da [[lexico:a:acao|ação]] em questão. Alguns defensores da liberdade da vontade (indeterministas) tentaram, mediante profundas controvérsias especulativas, examinar mais em pormenor o "como" da [[lexico:g:genese|gênese]] e da possibilidade dos atos volitivos livres, e também da cooperação dos mesmos com a [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] e a razão divina. Assim, nos séculos XVI e XVII, Báñez, [[lexico:m:molina|Molina]], Belarmino ( [[lexico:c:concurso-de-deus|concurso de Deus]], [[lexico:p:presciencia-divina|presciência divina]], molinismo), [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] (doutrina da eleição do fim que em cada caso parece ser o melhor, com o que a liberdade ficaria logicamente suprimida) e outros. Não se conseguiu até hoje o acordo definitivo sobre esta questão, talvez só possível psicologicamente, e que esbarra na [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de elucidar, de [[lexico:m:modo|modo]] exaustivo, com nossos meios racionais, a essência e a ação de [[lexico:d:deus|Deus]] nas criaturas. Para a apreciação de tais tentativas, é [[lexico:e:essencial|essencial]] que, nos intentos de [[lexico:e:explicacao|explicação]] [[lexico:t:teoretica|teorética]], fiquem a salvo a liberdade, a [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]], a dignidade ética do homem e, com elas, a [[lexico:j:justica|justiça]], e a [[lexico:v:veracidade|veracidade]] de Deus, bem como a dependência da criatura relativamente ao Criador. — Segundo [[lexico:k:kant|Kant]], a liberdade da vontade não é teoreticamente demonstrável; deve, porém, admitir-se como [[lexico:p:pressuposicao|pressuposição]] das exigências éticas. Todavia, ela não consiste propriamente na liberdade de optar perante valores limitados, mas na independência a [[lexico:r:respeito|respeito]] dos impulsos sensitivos, a qual, ria [[lexico:v:verdade|verdade]], não significa livre arbítrio, mas espiritualidade exagerada da vontade. — WlLLWOLL. Mas esta [[lexico:a:autonomia|autonomia]] da vontade nos abre já uma pequena porta em direção àquilo que desde o [[lexico:p:principio|princípio]] desta lição estamos procurando; abre-nos já uma pequena porta fora do mundo dos fenômenos, fora do mundo dos objetos a conhecer, fora da espessa rede de condições que o ato de conhecimento pôs sobre todos os materiais com que se faz o conhecimento. Porque se a vontade moral pura é vontade autônoma, então isso implica necessária e evidentemente no [[lexico:p:postulado|postulado]] da liberdade da vontade. Pois como poderia ser autônoma uma vontade que não fosse livre? Como poderia ser a vontade moralmente meritória, digna de ser qualificada de boa ou de má, se a vontade estivesse sujeita à lei dos fenômenos, que a [[lexico:c:causalidade|causalidade]], a lei de [[lexico:c:causas|causas]] e efeitos, a [[lexico:d:determinacao|determinação]] natural dos fenômenos? Na [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]] vimos que nossas impressões, quando recebem as formas do [[lexico:e:espaco|espaço]], do [[lexico:t:tempo|tempo]] e das [[lexico:c:categorias|categorias]], se tornam objetos reais, objetos a conhecer pela [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Este conhecimento da ciência consiste em ligar indissoluvelmente todos os fenômenos uns aos outros, por [[lexico:m:meio|meio]] da causalidade, da [[lexico:s:substancia|substância]], da [[lexico:a:acao-reciproca|ação recíproca]] e pelas formas e figuras da causalidade, da substância, da ação recíproca e pelas formas e figuras no espaço e dos números no tempo. Pois bem: se nossa vontade, nas suas decisões internas estivesse irremediavelmente sujeita, como qualquer outro [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] da [[lexico:f:fisica|física]], à lei da causalidade sujeita a um [[lexico:d:determinismo|determinismo]] natural, então, que sentido teria que nós vituperássemos o criminoso ou venerássemos o [[lexico:s:santo|santo]]? Porém é um fato que nós censuramos ao mau, vituperamo-lo; e é um fato também que nós respeitamos ao santo, louvamo-lo e o aplaudimos. Esta valorização que fazemos de uns homens no sentido [[lexico:p:positivo|positivo]] e de outros no sentido [[lexico:n:negativo|negativo]] (pejorativo) é um fato. Que sentido teria este fato se a vontade não fosse livre? É, pois, absolutamente evidente, tão evidente como os [[lexico:p:principios|princípios]] elementares das matemáticas, que a vontade tem que ser livre, sob [[lexico:p:pena|pena]] de que se tire a conclusão de que não há [[lexico:m:moralidade|moralidade]], de que o homem não merece nem aplausos nem censuras. Pois bem; se a [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]] é um fato, tão fato como o fato da ciência, e se do fato da ciência extraímos as condições da [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento|possibilidade do conhecimento]] científico, igualmente do fato da consciência moral temos que extrair também as condições da possibilidade da consciência moral. E uma primeira [[lexico:c:condicao|condição]] da possibilidade da consciência moral é que postulemos a liberdade da vontade. Mas se a vontade é livre, é que então entramos em [[lexico:c:contradicao|contradição]] com a [[lexico:n:natureza|natureza]]? Se a vontade é livre, então parece [[lexico:c:como-se|como se]] na rede de malhas das [[lexico:c:coisas|coisas]] naturais tivéssemos cortado um fio, rompido um fio. Entramos, pois, por [[lexico:a:acaso|acaso]], em contradição com a Natureza? Não; não entramos em contradição com a Natureza. Aqui, neste ponto, é que se concentram todas as precauções com que Kant teve de desenvolver a [[lexico:c:critica|Crítica]] da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]]. Nela Kant foi advertindo constantemente que o conhecimento [[lexico:f:fisico|físico]], científico, é conhecimento de fenômenos, de objetos a conhecer, mas não de coisas em si mesmas. Todavia a consciência moral não é conhecimento. Não nos apresenta a realidade essencial de algo, mas antes é um ato de valorização, não de conhecimento, que nos coloca em contacto direto com outro mundo, que não é o mundo dos fenômenos, que não é o mundo dos objetos a conhecer, mas o mundo puramente [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], no qual não se trata já do espaço, do tempo, das categorias; no qual espaço, tempo e categorias não têm nada a fazer; é o mundo de umas realidades supra—sensíveis, inteligíveis, às quais não chegamos como conhecimento, mas como diretas intuições de caráter moral que nos põem em contacto com essa outra [[lexico:d:dimensao|dimensão]] da consciência humana que é a dimensão não cognoscitiva, mas valorizadora e moral. De modo que nossa personalidade total é a confluência de dois focos, por assim dizer: um, nosso [[lexico:e:eu|eu]] como [[lexico:s:sujeito|sujeito]] cognoscente, que se expande amplamente sobre a Natureza na sua [[lexico:c:classificacao|classificação]] em objetos, na reunião e concatenação de causas e efeitos e seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] na ciência, no [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]], matemático, químico, biológico, [[lexico:h:historico|histórico]] etc. Mas, ao mesmo tempo [[lexico:e:esse|esse]] mesmo eu, que quando conhece se põe a si mesmo como sujeito cognoscente, esse mesmo eu é também consciência moral, e sobrepõe a [[lexico:t:todo|todo]] esse [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] da Natureza, sujeita às leis naturais de causalidade, uma [[lexico:a:atitude|atitude]] estimativa, valorizadora, que se refere a si mesmo, não como sujeito cognoscente, mas como ativo, como [[lexico:a:agente|agente]]; e que se refere aos outros homens na mesma [[lexico:r:relacao|relação]]. Assim, pois, a consciência moral nos entreabre um pouco o véu que encobre este outro mundo inteligível das almas e consciências morais, das vontades morais, que nada tem a [[lexico:v:ver|ver]] com o sujeito cognoscente.