===== LEIS SOCIOLÓGICAS ===== No entender de sociólogos contemporâneos, a [[lexico:s:sociologia|sociologia]] do século XIX debateu-se num [[lexico:m:mundo|mundo]] de falsos problemas. Para Georges Gurvitch foram essencialmente os seguintes: 1°, o [[lexico:p:problema|problema]] do [[lexico:d:destino|destino]] da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], herdado da chamada [[lexico:f:filosofia-da-historia|filosofia da história]]; 2.°, o das sociologias da «[[lexico:o:ordem|ordem]]» e do «[[lexico:p:progresso|progresso]]»; 3.°, o do pretenso conflito entre o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e a [[lexico:s:sociedade|sociedade]]; 4.°, o da falsa [[lexico:a:alternativa|alternativa]] «[[lexico:p:psicologia|psicologia]] ou sociologia»; 5.°, o do fator dominante; e, finalmente, 6.°, o das [[lexico:l:leis-sociologicas|leis sociológicas]]. A [[lexico:b:bem|Bem]] dizer, todos os sociólogos com alguma [[lexico:a:autoridade|autoridade]] renunciaram no século XX a procurar determinar «leis sociológicas», justificando essa [[lexico:a:abstencao|abstenção]] ou com a insuficiente maturidade da sociologia ou afirmando que o [[lexico:o:objeto|objeto]] e o [[lexico:m:metodo|método]] próprios da sociologia excluem a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de determinar leis sociológicas. [...] Em [[lexico:b:biologia|biologia]], em psicologia, em sociologia a validez de toda «[[lexico:l:lei|lei]]» é apenas muito relativa, porque só pode aplicar-se no interior de um [[lexico:t:tipo|tipo]] biológico, [[lexico:p:psicologico|psicológico]] ou [[lexico:s:social|social]]; o tipo [[lexico:d:descontinuo|descontínuo]] e qualitativo predomina aqui nitidamente sobre a lei, que, [[lexico:a:alem|além]] do mais, [[lexico:n:nao|não]] pode basear-se em fenômenos que se repetem estritamente e deveria, portanto, [[lexico:s:ser|ser]] preferivelmente considerada como [[lexico:r:regularidade|regularidade]] tendencial. Por isso, cumpre exprimirmo-nos de [[lexico:m:modo|modo]] preciso quando falamos de «leis», e em [[lexico:p:particular|particular]] de «leis sociológicas»: a) Devemos, em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], inteirar-nos de que o domínio das leis e o domínio da [[lexico:c:causalidade|causalidade]] não coincidem; as leis podem ser matemáticas e estatísticas e determinar apenas, no respeitante ao [[lexico:r:real|real]], probabilidades, enquanto a causalidade pode ser [[lexico:s:singular|singular]] e individualizada e só determinar encadeamentos que se não repetem. b) Ê duvidoso que em sociologia seja [[lexico:p:possivel|possível]] determinar leis denominadas causais, dada a descontinuidade demasiado grande entre [[lexico:c:causa-e-efeito|causa e efeito]]. Entre o [[lexico:a:antecedente|antecedente]] e o [[lexico:c:consequente|consequente]] intervém uma margem de incerteza grande de mais para permitir a elaboração de previsões generalizadas sobre a [[lexico:r:repeticao|repetição]] das mesmas [[lexico:c:causas|causas]] e dos mesmos efeitos. Esta repetição das causas nunca é segura nem completa; e a produção por elas de efeitos idênticos ainda o é menos, devido à [[lexico:e:evolucao|evolução]] e à flutuação incessante das circunstâncias e das conjunturas sociais. c) São possíveis e desejáveis «explicações causais» em sociologia, sob a [[lexico:c:condicao|condição]] de se procurar a [[lexico:c:causa|causa]] no [[lexico:p:proprio|próprio]] social, como já o indicou [[lexico:d:durkheim|Durkheim]]; noutros termos, e para usar a [[lexico:e:expressao|expressão]] de Marcel [[lexico:m:mauss|Mauss]], as causas devem descobrir-se nos «fenômenos sociais totais». De modo ainda mais preciso, poderia dizer-se que a [[lexico:e:explicacao|explicação]] causal em sociologia se deve basear nos tipos sociais descontínuos considerados em todos os seus níveis de profundidade ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]]. Esta explicação causal pelo tipo global ou pelo quadro social particular está ainda ligada à particularidade da conjuntura social. Afirma-se, desta maneira, mais próxima da causalidade histórica que da causalidade generalizada. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], é sabido que foi possível, nos séculos XIX e XX, verificar uma [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] entre o [[lexico:a:aumento|aumento]] do [[lexico:n:numero|número]] de gente letrada e o acréscimo da taxa dos suicídios. Não deve concluir-se daí que a [[lexico:i:instrucao|instrução]] é a causa do [[lexico:s:suicidio|suicídio]]. Efetivamente, a única conclusão v que se impõe é que, num quadro social particular e numa conjuntura social precisa, a instrução e o suicídio parecem ser efeitos da mesma [[lexico:s:situacao|situação]]; trata-se do enfraquecimento de certos laços sociais que nem sempre são compensados de modo suficiente por outros laços que se estabelecem por [[lexico:v:virtude|virtude]] do alargamento da instrução1. d) O estabelecimento entre fenômenos sociais de [[lexico:g:genero|gênero]] diferente de correlações funcionais, cuja constância não é completa, porque o quadro social nunca é total ou parcialmente o mesmo, não representa nem uma explicação causal nem uma formulação de lei; é uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:d:descricao|descrição]] de [[lexico:e:estrutura|estrutura]] de um tipo social [[lexico:d:dado|dado]]. Tais são as correlações funcionais que se estabelecem na sociologia do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], da [[lexico:m:moral|moral]], da [[lexico:r:religiao|religião]], do [[lexico:d:direito|direito]]. As correlações funcionais são muitas vezes tomadas por uma explicação causal, ou mesmo por leis, pela única [[lexico:r:razao|razão]] de se identificarem causa (que em sociologia é sempre global) e fatores (cuja [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] é muito variável na [[lexico:r:realidade-social|realidade social]] e muda com o tipo social). Ora, mesmo em [[lexico:f:fisica|física]], não devemos identificar causas e fatores. Quando, por exemplo, se trata de [[lexico:e:explicar|explicar]] o rebentar de um rochedo, os fatores serão: a [[lexico:m:medida|medida]] da resistência da rocha, a dinamite e o [[lexico:f:fogo|fogo]], enquanto a causa será a [[lexico:f:forca|força]] e a dilatação do gás. Em sociologia, todos os níveis de profundidade e todos os aspectos da [[lexico:r:realidade|realidade]] social são «fatores» cuja [[lexico:i:intensidade|intensidade]] é essencialmente variável; a causa, essa, reside numa constelação particular da sua hierarquia, que é específica para cada quadro e para cada conjuntura. e) As únicas leis que podem ser válidas em sociologia são leis de [[lexico:p:probabilidade|probabilidade]] baseadas em estatísticas, mas aplicam-se apenas a domínios muito restritos, preferivelmente de base material (morfológica e ecológica), e ao [[lexico:c:comportamento|comportamento]] coletivo observável do [[lexico:e:exterior|exterior]] e mais ou menos previsível, quer dizer, regular, habitual, tradicional2. Estas leis de probabilidade são de validez contestável quando tentamos aplicá-las a fenômenos sociais tais como a «[[lexico:o:opiniao|opinião]] coletiva», que é essencialmente flutuante, ou, sobretudo, aos sinais, [[lexico:s:simbolos|símbolos]], valores, [[lexico:i:ideias|ideias]], condutas inovadoras, [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] coletiva, etc. f) Finalmente, o que outrora se chamava lei de evolução deve substituir-se pelo [[lexico:c:conceito|conceito]] de regularidades tendenciais, que só se aplicam à escala macrossociológica, quer dizer, cuja validez é estritamente limitada aos tipos descontínuos dos agrupamentos e da sociedade global. Por exemplo, em cada tipo de sociedade global podem observar-se múltiplas regularidades tendenciais encaminhando-se para direções diversas. O [[lexico:e:estudo|estudo]] destas só pode, aliás, dar resultados relativamente precisos se começarmos por pesquisar os aspectos diferenciados dessas regularidades, tomando como base, por exemplo, a [[lexico:t:tecnica|técnica]], a demografia, a [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:e:economica|econômica]], a vida jurídica, a vida religiosa, a vida moral, a psicologia coletiva, etc. Em [[lexico:s:suma|suma]], e para concluir, o centro de [[lexico:i:interesse|interesse]] da sociologia do século XIX, isto é, a procura das «leis sociológicas» que regessem o funcionamento e a marcha [[lexico:g:geral|geral]] da sociedade, não é o da sociologia dos nossos dias. As investigações pormenorizadas a que se consagra não conduzem nem se propõem conduzir às «leis causais» ou às «leis de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]]» [São exemplos: a «lei dos três estados», de Auguste Comte, e a da «integração por diferenciação», de Herbert Spencer.]. O conceito de tipo social qualitativo e descontínuo eliminou em sociologia o conceito de lei . Georges Gurvitch, La Vocation Actuelle de la Sociologie, 1950 pp. 43-48. O [[lexico:c:carater|caráter]] estatístico permite eliminar inteiramente o famoso conflito [[lexico:t:teorico|teórico]] do [[lexico:d:determinismo|determinismo]] científico e da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] humana. Formular leis sociológicas supõe a [[lexico:e:existencia|existência]] de um determinismo social: não está este determinismo em [[lexico:c:contradicao|contradição]] com a liberdade humana? Veio a reconhecer-se que este problema é o tipo acabado do [[lexico:f:falso|falso]] problema. A liberdade é respeitante à [[lexico:a:atitude|atitude]] de cada indivíduo: as leis sociológicas só exprimem [[lexico:r:relacoes|relações]] entre conjuntos de indivíduos. Elas assentam indubitavelmente no [[lexico:f:fato|fato]] de que no interior de um conjunto as atitudes assumidas pelos [[lexico:e:elementos|elementos]] componentes são determinadas em bloco, globalmente, estatisticamente. Isto quer dizer simplesmente que é possível prever a proporção de pessoas que hão-de suportar o [[lexico:p:peso|peso]] de certos fatores, a daquelas que hão-de suportar o peso de outros, etc. Individualmente, cada um continua livre de agir como entender. O fato de 10% dos Parisienses tomarem o comboio no primeiro dia de Agosto não obriga ninguém a precipitar-se para a estação de [[lexico:c:caminho|caminho]] de ferro. Nenhuma [[lexico:p:pessoa|pessoa]] competente invoca o problema da liberdade humana para criticar o conceito de lei sociológica: mas não é [[lexico:q:questao|questão]] resolvida na opinião do [[lexico:h:homem|homem]] comum, pelo menos no domínio do [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]]. Assim se explica muita reticência a [[lexico:r:respeito|respeito]] das [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]]. Maurice Duverger, Méthodes des Sciences Sociales, 1961, pp. 328-329.