===== LEI CIENTÍFICA ===== Quando se considera sem [[lexico:a:atencao|atenção]] a [[lexico:n:natureza|natureza]], oferece ela o [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] de uma incessante [[lexico:m:mudanca|mudança]] e de uma infinita variedade. [[lexico:n:nao|Não]] há numa floresta duas folhas de árvore que sejam exatamente idênticas; e cada folha, considerada em si mesma, varia, por pouco que seja, de um [[lexico:i:instante|instante]] a [[lexico:o:outro|outro]], pois é sede de uma infinidade de fenômenos químicos. Mas, logo que a [[lexico:o:observacao|observação]] se torna atenta e refletida, apercebemo-nos de que, sob estas mudanças, há [[lexico:e:elementos|elementos]] fixos que se apresentam sempre de uma maneira [[lexico:s:semelhante|semelhante]]. A variedade não exclui certas analogias e certas uniformidades. As folhas de um carvalho têm todas uma contextura idêntica, embora difiram todas em algum pormenor, e os fenômenos químicos que nelas se passam ocorrem sempre de maneira [[lexico:b:bem|Bem]] definida, [[lexico:c:como-se|como se]] obedecessem a regras imutáveis. A [[lexico:r:reflexao|reflexão]] vai atender a estes elementos permanentes e estáveis. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], a [[lexico:c:curiosidade|curiosidade]], a atenção, não se fixa sobre [[lexico:o:o-que-e|o que é]] efêmero e acidental, sobre o que, [[lexico:m:mal|mal]] aparece, se desvanece para nunca mais. E, se o fizesse, o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] resultante seria inútil, pois nunca acharia aplicação alguma. Demais, um conhecimento refletido exige uma multitude de observações diversas, que apenas são possíveis pela [[lexico:r:repeticao|repetição]] frequente de fenômenos semelhantes. Ater-se-á a descobrir as semelhanças constantes, para [[lexico:a:alem|além]] das variações de pormenor, as [[lexico:r:relacoes|relações]] imutáveis que a observação atenta nos revela nas transformações incessantes dos fenômenos naturais. Estas relações são denominadas leis da natureza e a [[lexico:c:ciencia|ciência]] pode [[lexico:s:ser|ser]] definida como a [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] de tais leis. Procuremos precisar o [[lexico:s:sentido|sentido]] desta [[lexico:e:expressao|expressão]]: [[lexico:l:lei-natural|lei natural]], para esclarecer ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] a [[lexico:d:definicao|definição]] da ciência. Uma [[lexico:l:lei|lei]] [[lexico:n:natural|natural]] é, no dizer de [[lexico:l:lachelier|Lachelier]], uma [[lexico:r:reducao|redução]] do [[lexico:p:particular|particular]] ao [[lexico:u:universal|universal]], do [[lexico:c:composto|composto]] ao [[lexico:s:simples|simples]], do [[lexico:c:contingente|contingente]] ao [[lexico:n:necessario|necessário]]. Daí resulta que a ciência apresentará também este tríplice [[lexico:c:carater|caráter]]. «[[lexico:a:abandono|abandono]] uma pedra que tinha entre os dedos: ela cai; do mesmo [[lexico:m:modo|modo]], largo um pedaço de metal e um pedaço de madeira: eles caem; volto um vaso cheio de água: o líquido escorre. No [[lexico:a:ar|ar]], uma bola de chumbo e uma bola de cortiça caem com velocidades desiguais: no [[lexico:v:vacuo|vácuo]] caem com a mesma velocidade. No polo, no equador, entre o polo e o equador, a linha seguida pelos corpos que caem é perpendicular à superfície das águas tranquilas e, se a prolongássemos, encontraria o centro da [[lexico:t:terra|Terra]]. [...] Aqui estão os fatos. [[lexico:a:agora|agora]] a lei: todos os corpos caem para o centro da Terra e, no vácuo, com a mesma aceleração.» (Liard, Science Positive et Métaphysique, 4.) 1.° «Consideremos os fatos: [[lexico:n:nada|nada]] mais diverso. Fiz a [[lexico:e:experiencia|experiência]] com corpos sólidos: uma pedra, um pedaço de ferro, de chumbo, de madeira, etc., e com corpos líquidos; verifiquei que os próprios gases estavam submetidos à [[lexico:a:acao|ação]] da gravidade. Fiz a experiência em meios diversos: na atmosfera a diversos graus de condensação, no ar rarefeito, no vácuo menos imperfeito que os nossos instrumentos podem obter. Fi-la em diversos [[lexico:l:lugares|lugares]]: perto do polo, longe do polo, em dois pontos diametralmente opostos do globo terrestre. Fi-la em alturas diferentes: na planície, nas montanhas. Em todos estes casos, por diversos que sejam e possam ser, encontrei um [[lexico:e:elemento|elemento]] comum: a [[lexico:q:queda|Queda]] para o centro da Terra. [...] Quando deixo de considerar os fatos para passar à lei que os rege, ponho de lado todas as circunstâncias, todas as variedades individuais e particulares, para reter apenas a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] comum.» (Liard, op. cit., 5.) Retenho de um grande [[lexico:n:numero|número]] de fenômenos, muito diferentes uns dos outros, uma propriedade universal, isto é, apresentada por eles todos, quaisquer que sejam as circunstâncias consideradas. Por isso se pode dizer, com [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], que só há ciência do universal ou do [[lexico:g:geral|geral]]. 2.° Esta redução do particular ao universal é ao mesmo tempo uma passagem do composto ao simples. Para [[lexico:q:quem|quem]] ignora as leis da gravidade não há [[lexico:c:coisa|coisa]] mais complexa do que o conjunto destes fenômenos: um balão, o fumo, um «papagaio» que se elevam na atmosfera, uma [[lexico:p:pena|pena]], tuna folha de papel que oscilam no ar, um [[lexico:c:corpo|corpo]] pesado que cai verticalmente, a subida da água nas bombas. E, no entanto, diz-nos a ciência, todos seguem a mesma lei, se eliminarmos certas particularidades acidentais. A natureza inteira afigura-se-nos então como constituída por efeitos inumeráveis e muito variados de um pequeno número de [[lexico:c:causas|causas]] muito gerais. A variedade resulta de diferenças secundárias e mínimas na maneira como esses fatores gerais agem e se combinam. Vemos assim que a pesquisa do geral e do universal nos fenômenos particulares é afinal a redução do [[lexico:c:complexo|complexo]] ao simples; e as leis científicas são uma [[lexico:e:explicacao|explicação]] simples, embora suficiente, de um conjunto à primeira vista muito complexo. Esta simplicidade tem a [[lexico:v:vantagem|vantagem]] de nos dar dos fenômenos, na expressão de [[lexico:d:descartes|Descartes]], uma [[lexico:i:ideia|ideia]] clara e distinta, porque um conjunto complexo é por [[lexico:f:forca|força]] confuso e [[lexico:o:obscuro|obscuro]]. O [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] substitui, portanto, por noções claras e distintas as [[lexico:i:ideias|ideias]] obscuras que espontaneamente fazemos das [[lexico:c:coisas|coisas]]. E é esta simplicidade, pela clareza que implica, que nos permite evitar, tanto quanto é [[lexico:p:possivel|possível]], o [[lexico:e:erro|erro]]. 3.° Enfim, e é [[lexico:e:esse|esse]] o caráter fundamental da ciência, reduz ela o contingente ao necessário. Uma vez que explicamos um conjunto de fenômenos por leis gerais e simples, vemos nitidamente como esses fenômenos se produzem e que não poderiam produzir-se de outro modo. É necessário que as coisas se passem assim. A quem quer que considere superficialmente a natureza e não a compreenda parece-lhe que os fenômenos se produzem ao [[lexico:a:acaso|acaso]] e arbitrariamente. O [[lexico:m:milagre|milagre]] está por toda a [[lexico:p:parte|parte]] e a [[lexico:o:ordem|ordem]] em parte alguma. Os Gregos do tempo de Homero não explicavam tudo pelas vontades mais ou menos razoáveis das divindades caprichosas? Na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] filosófica denomina-se contingente o que é [[lexico:p:produto|produto]] do acaso e do capricho; o que poderia ser coisa diversa do que é; o que não obedece a uma lei fixa e imutável. A natureza, antes que a ciência tivesse determinado as suas leis, surge, pois, como contingente. «Esta pedra que abandonei a si mesma caía segundo a [[lexico:n:normal|normal]]; a velocidade da queda crescia proporcionalmente ao tempo: eram estes os fatos. Mas nada me [[lexico:g:garantia|garantia]] que ela não pudesse permanecer suspensa no ar, ou descrever, na queda, esta ou aquela curva, ou cair num [[lexico:m:movimento|movimento]] [[lexico:u:uniforme|uniforme]] ou uniformemente retardado. Agora que conheço a lei, o [[lexico:f:fato|fato]] e as suas diversas circunstâncias essenciais afiguram-se-me necessários: o meu [[lexico:e:espirito|espírito]] recusa-se a conceber que ocorra o oposto do que ocorreu. A produção de um fato cuja lei é conhecida é necessária em [[lexico:r:relacao|relação]] a essa lei.» (Liard, op. cit., 6.)