===== LAVELLE ===== Tarda-nos, porém, chegar finalmente a esta "[[lexico:f:filosofia-do-espirito:start|Filosofia do Espírito]]" em que vemos reflorir flores antigas com graças novas. Sob este mesmo título, dois professores, René Le Senne e Louis Lavelle fundaram na Editora Aubier uma coleção que se tornou o centro do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] espiritualista. E [[lexico:n:nao:start|não]] há duvidar que o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] fosse aí afirmado e servido. Na página 693 do Tratado de [[lexico:m:moral:start|moral]] de Le Senne lemos o seguinte: "Na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que o [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] deve possuir eminentemente a [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]], que nós conhecemos como o mais alto dos valores e o [[lexico:c:coracao:start|coração]] do espírito, cumpre chamar [[lexico:d:deus:start|Deus]] ao Absoluto; não o conhecemos, porém, senão pelas participações que ele nos dá do valor, na proporção da nossa busca..." Esta reivindicação altiva demonstra que é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] escamotear Deus; esta [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:p:participacao:start|participação]]" define com muita [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] a doutrina de Louis Lavelle, que a seguir vamos expor. Existe um Espírito, [[lexico:r:realidade:start|realidade]] soberana e primordial, ainda que invisível, de onde tudo procede e para onde tudo volta ou tende a voltar. [[lexico:e:esse:start|esse]] espírito vale infinitamente, é o [[lexico:u:unico:start|único]] valor, e nós mesmos valemos e nos realizamos na medida em que entramos na sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e dela participamos. É a ele que devemos buscar nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e sobretudo em nós mesmos; é somente por ele e nele que nos será [[lexico:d:dado:start|dado]] entrar ou reentrar na [[lexico:p:posse:start|posse]] do [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], do [[lexico:b:belo:start|belo]] e do [[lexico:b:bem:start|Bem]], na [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] terrestre, se é que ela existe, e na [[lexico:b:beatitude:start|beatitude]] final. São laivos evidentes de [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]]. Mas o platonismo não é em absoluto uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] abstrata e exclusivamente conceptual. As [[lexico:i:ideias:start|ideias]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]] eram vivas e ativas, e não o é menos o Espírito de Lavelle. Este Espírito dá cor e [[lexico:s:sentido:start|sentido]] à [[lexico:v:vida:start|vida]] e [[lexico:f:forma:start|forma]] a sua própria [[lexico:s:substancia:start|substância]]. É [[lexico:l:luta:start|luta]] e [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]], [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] hierárquica desses mesmos valores, [[lexico:s:subordinacao:start|subordinação]] do corporal e do [[lexico:t:temporal:start|temporal]], triunfo do [[lexico:e:eterno:start|eterno]]. E não imaginemos que Lavelle não traga [[lexico:n:nada:start|nada]] de novo depois de Platão, que não lhe acrescente nada. Define e precisa a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de participação; lança mão de toda a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e de todos os progressos adquiridos desde os tempos luminosos da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]]. Também o [[lexico:e:eu:start|eu]] cartesiano é adotado, não porém como o fruto de uma [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] ou de uma [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] [[lexico:a:analitica:start|analítica]] e sim como a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] de unia [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]] e [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]]. Os trabalhos dos fenomenistas ou dos fenomenologistas são utilizados: o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] já não é dado como uma [[lexico:a:aparencia:start|aparência]], mas como um [[lexico:r:real:start|real]] manifestado e intuitivamente apreendido. Que é o eu? [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] Lavelle em O eu e seu [[lexico:d:destino:start|destino]]; e [[lexico:f:fala:start|fala]] da "intimidade" desse eu. "Aprofundando-me, desço até a própria [[lexico:r:raiz:start|raiz]] do [[lexico:s:ser:start|ser]]. Julga-se muitas vezes que a [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] seja uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] e de miragem e que o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] esteja alhures. Mas ilusão e miragem é justamente esse objeto que procuro alhures; a única [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] verdadeira é a da minha própria subjetividade... ." O fundo mesmo da doutrina está contido neste [[lexico:r:realismo:start|realismo]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], se assim se pode dizer, no qual se patenteia um realismo, ou mais exatamente uma realidade [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. E é assim que passaremos da [[lexico:i:identidade:start|identidade]], depois da "[[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]" do eu, à [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]]. O que me revela a mim mesmo, o que me revela o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], o que faz com que eu seja um "eu-no-mundo", diriam [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] ou [[lexico:s:sartre:start|Sartre]], é o [[lexico:a:ato:start|ato]], e Lavelle trata Do Ato em outra [[lexico:o:obra:start|obra]] [[lexico:c:capital:start|capital]]. "O [[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]", escreve ele ainda, "reside numa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] que vem a ser a de minha [[lexico:p:presenca:start|presença]] ativa a mim mesmo... o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] da minha [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] perante mim e perante os outros...." Em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] o ato era "afirmado"; aqui o vemos apreendido e "desenvolvido" no seu [[lexico:p:principio:start|princípio]]. Assim andam dignamente os modernos, quando não se transviam. Há uma "experiência" do ato. Após tê-la examinado, o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] considera as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] do ser com esse ato e afirma que tais relações são urna identidade. "O ato não é em absoluto uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] que se acrescente ao ser, mas é a sua própria [[lexico:e:essencia:start|essência]]." É assim que devemos entender a palavra do [[lexico:g:genese:start|Gênese]]: "No [[lexico:c:comeco:start|começo]] era o [[lexico:v:verbo:start|verbo]]." No começo da [[lexico:c:criacao:start|criação]] há um ato e toda a criação é um ato. [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] da filosofia consistiria, então, no da [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]]? O ato nos descortina o mundo, mas um mundo diverso daquele que imaginamos, que vemos fugir diante de nós e que nos deslumbra desde que atentamos nele. O ato nos revela a nós mesmos e nos revela o mundo; leva-nos ainda mais [[lexico:a:alem:start|além]], a esse mundo que nos supera a nós e ao mundo. "Constitui o ‘si’ e o esgota", acrescenta Lavelle. Palavra que nos transporta à [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] hindu, ao nascimento da sabedoria. A essência das coisas é manifestada em nós e no mundo; em si mesma ela é o si, a própria [[lexico:c:coisa:start|coisa]], a coisa de toda coisa, o princípio e a substância. Eis aonde nos conduz a "participação": ao "descortino de um [[lexico:u:universo:start|universo]] que é uma inexaurível maravilha...". Numa terceira grande obra, intitulada Do [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e da eternidade, Lavelle aborda a difícil e [[lexico:c:crucial:start|crucial]] [[lexico:q:questao:start|questão]] do tempo. É uma evidente [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] deduzir o tempo cronologicamente, pois seria [[lexico:n:necessario:start|necessário]] partir sempre de um tempo anterior; mas se o considerássemos [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e percebido pelo ato? É a esta operação arrojada que nos convida o filósofo, chegando à seguinte [[lexico:d:definicao:start|definição]] que é a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de uma gênese: "...a experiência fundamental da inscrição do eu no ser, que, pelo intervalo que faz [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] entre o eu e o ser, dá [[lexico:o:origem:start|origem]] ao tempo...". Continuamos, assim, dentro do espírito do [[lexico:s:sistema:start|sistema]]: não somos o ser, mas somos seres e participamos do ser. Os momentos dessa participação marcariam, portanto, o tempo. Daí [[lexico:p:parte:start|parte]] Lavelle para deduzir [[lexico:a:agora:start|agora]] os diversos momentos do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] tempo: presente, passado, [[lexico:f:futuro:start|futuro]]. E o faz com uma habilidade que nos permite penetrar na dialética mais sutil. Não vamos segui-lo nessa operação: basta-nos tê-lo visto na continuidade da sua doutrina. Permanece-lhe fiel na sua moral e em outras obras de envergadura mais modesta, mas cheias de sabedoria e de sabor. O grande princípio de [[lexico:a:acao:start|ação]] desta doutrina é a noção de liberdade, essa liberdade que era antes [[lexico:c:condicao:start|condição]] da participação e que o é agora de toda a ação do mundo. O que importa em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]] é [[lexico:s:superar:start|superar]] o eu para atingir o si, e o "[[lexico:e:erro:start|erro]] de [[lexico:n:narciso:start|Narciso]]" foi não [[lexico:t:ter:start|ter]] podido chegar até ele. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, qual será o sentido do "[[lexico:m:mal:start|mal]]" e do "[[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]]"? Será ainda a ideia de participação que nos elucidará este doloroso [[lexico:p:problema:start|problema]]. Trata-se de nos integrarmos no todo, de não nos isolarmos em nós mesmos: nisso consiste o nosso [[lexico:d:drama:start|drama]], do qual a [[lexico:d:dor:start|dor]] é uma advertência. Trata-se de ser o que fundamentalmente somos e não o que parecemos em nosso [[lexico:e:egoismo:start|egoísmo]] e em nosso [[lexico:e:egotismo:start|egotismo]]: "Ninguém nasceu o que deve ser, como também jamais existiu ninguém que se tivesse tornado o que devia ser, em, outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], que tivesse alcançado a meta. Mas ninguém progride a não ser saindo de si, isto é, triunfando desse apego a si próprio que o separa dos outros seres." Belas palavras de um admirável escritor. A filosofia original e nova de Lavelle — pois existe realmente algo de novo neste platonismo renovado — traz algum reconforto a uma [[lexico:e:epoca:start|época]] tão fúnebre. Pusemo-la em confronto com a de Sartre num livrinho a que nos permitimos remeter o leitor para um complemento de informação que não poderia ter lugar aqui e a ideia [[lexico:n:natural:start|natural]] dessa aproximação nos veio como um [[lexico:p:possivel:start|possível]] ensejo de apresentar o remédio ao lado do tóxico. A [[lexico:v:verdade:start|verdade]] é que acabamos de navegar agora em águas límpidas e bastante inesperadas. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}