===== KOINE ===== gr. koinon A [[lexico:n:nao|não]] mundanidade como um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] [[lexico:p:politico|político]] só é [[lexico:p:possivel|possível]] com a [[lexico:p:premissa|premissa]] de que o [[lexico:m:mundo|mundo]] não durará; mas, com tal premissa, é quase inevitável que a não mundanidade venha, de uma [[lexico:f:forma|forma]] ou de outra, a dominar a cena [[lexico:p:politica|política]]. Foi o que sucedeu após a [[lexico:q:queda|Queda]] do Império Romano e parece [[lexico:e:estar|estar]] ocorrendo novamente em nosso [[lexico:t:tempo|tempo]] – embora por [[lexico:m:motivos|motivos]] [[lexico:b:bem|Bem]] diferentes e de forma muito diversa, e talvez bem mais desalentadora. A [[lexico:a:abstencao|abstenção]] cristã das [[lexico:c:coisas|coisas]] mundanas não é, de [[lexico:m:modo|modo]] algum, a única conclusão [[lexico:a:a-se|a se]] tirar da [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que o artifício [[lexico:h:humano|humano]], [[lexico:p:produto|produto]] de [[lexico:m:maos|mãos]] [[lexico:m:mortais|mortais]], é tão mortal quanto os seus artífices. Isso pode também, pelo contrário, intensificar o gozo e o consumo das coisas do mundo e de todas as formas de intercâmbio nas quais o mundo não é fundamentalmente concebido como o koinon, aquilo que é comum a todos. Só a [[lexico:e:existencia|existência]] de um domínio [[lexico:p:publico|público]] e a subsequente [[lexico:t:transformacao|transformação]] do mundo em uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] de coisas que reúne os homens e estabelece uma [[lexico:r:relacao|relação]] entre eles dependem inteiramente da [[lexico:p:permanencia|permanência]]. Se o mundo deve conter um [[lexico:e:espaco|espaço]] público, não pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:c:construido|construído]] apenas para uma [[lexico:g:geracao|geração]] e planejado somente para os que estão vivos, mas tem de transcender a [[lexico:d:duracao|duração]] da [[lexico:v:vida|vida]] de homens mortais. Sem essa [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] em uma potencial [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]] terrena, nenhuma política, no [[lexico:s:sentido|sentido]] restrito do [[lexico:t:termo|termo]], nenhum mundo comum nem domínio público são possíveis. Pois, diferentemente do [[lexico:b:bem-comum|bem comum]] tal como o cristianismo o concebia – a [[lexico:s:salvacao|salvação]] da própria [[lexico:a:alma|alma]] como [[lexico:i:interesse|interesse]] comum a todos –, o mundo comum é aquilo que adentramos ao nascer e que deixamos para trás quando morremos. Transcende a duração de nossa vida tanto no passado quanto no [[lexico:f:futuro|futuro]], preexistia à nossa chegada e sobreviverá à nossa breve permanência nele. É isso o que temos em comum não só com aqueles que vivem conosco, mas também com aqueles que aqui estiveram antes e com aqueles que virão depois de nós. Mas [[lexico:e:esse|esse]] mundo comum só pode sobreviver ao vir e ir das gerações na [[lexico:m:medida|medida]] em que aparece em público. É a [[lexico:p:publicidade|publicidade]] do domínio público que pode absorver e fazer brilhar por séculos tudo o que os homens venham a querer preservar da ruína [[lexico:n:natural|natural]] do tempo. Durante muitas eras antes de nós – mas já não [[lexico:a:agora|agora]] –, os homens ingressavam no domínio público por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas. (Assim, a desgraça da [[lexico:e:escravidao|escravidão]] consistia não só em ser [[lexico:p:privado|privado]] de [[lexico:l:liberdade|liberdade]] e de visibilidade, mas também no medo dessas mesmas pessoas obscuras “de que, por serem obscuros, morressem sem deixar vestígio algum de terem existido” [v. escravo]). Talvez a mais clara [[lexico:e:evidencia|evidência]] do desaparecimento do domínio público na era [[lexico:m:moderna|moderna]] seja a quase completa [[lexico:p:perda|perda]] de uma autêntica [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] com a imortalidade, perda esta um tanto eclipsada pela perda simultânea da preocupação [[lexico:m:metafisica|metafísica]] com a [[lexico:e:eternidade|Eternidade]]. Esta última, por ser a preocupação dos filósofos e da [[lexico:v:vita-contemplativa|vita contemplativa]], deve permanecer fora de nossas considerações atuais; mas a primeira é atestada pela [[lexico:a:atual|atual]] identificação da busca da imortalidade com o [[lexico:v:vicio|vício]] privado da vaidade. De [[lexico:f:fato|fato]], nas condições modernas, é tão improvável que alguém aspire sinceramente à imortalidade terrena que possivelmente temos [[lexico:r:razao|razão]] de [[lexico:v:ver|ver]] nela apenas a vaidade. O famoso trecho de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] – “ao considerar os assuntos humanos não se deve (...) considerar o [[lexico:h:homem|homem]] como ele é nem considerar [[lexico:o:o-que-e|o que é]] mortal nas coisas mortais, mas [[lexico:p:pensar|pensar]] neles na medida em que têm a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de imortalizar” – aparece, muito adequadamente, em uma de suas obras políticas.[Ética Nicomaqueia, 1177b31] Pois a pólis era para os gregos, como a res publica para os romanos, antes de tudo sua [[lexico:g:garantia|garantia]] contra a futilidade da vida individual, o espaço protegido contra essa futilidade e reservado à relativa permanência dos mortais, se não à sua imortalidade. [...] Nas condições de um mundo comum, a [[lexico:r:realidade|realidade]] não é garantida primordialmente pela “[[lexico:n:natureza|natureza]] comum” de todos os homens que o constituem, mas antes pelo fato de que, a despeito de diferenças de [[lexico:p:posicao|posição]] e da resultante variedade de perspectivas, todos estão sempre interessados no mesmo [[lexico:o:objeto|objeto]]. Quando já não se pode discernir a mesma [[lexico:i:identidade|identidade]] do objeto, nenhuma [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] comum, e muito menos o conformismo artificial de uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] de massas, pode evitar a [[lexico:d:destruicao|destruição]] do mundo comum, que é geralmente precedida pela destruição dos muitos aspectos nos quais ele se apresenta à [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] humana. Isso pode ocorrer nas condições do isolamento radical, no qual ninguém mais pode concordar com ninguém, como geralmente ocorre nas tiranias; mas pode também ocorrer nas condições da sociedade de massas ou de histeria em [[lexico:m:massa|massa]], em que vemos todos passarem subitamente a se comportar [[lexico:c:como-se|como se]] fossem membros de uma única [[lexico:f:familia|família]], cada um a multiplicar e prolongar a [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] do vizinho. Em ambos os casos, os homens tornam-se inteiramente privados, isto é, privados de ver e ouvir os outros e privados de ser vistos e ouvidos por eles. São todos prisioneiros da [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] de sua própria existência [[lexico:s:singular|singular]], que continua a ser singular ainda que a mesma [[lexico:e:experiencia|experiência]] seja multiplicada inúmeras vezes. O mundo comum acaba quando é visto somente sob um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] e só se lhe permite apresentar-se em uma única perspectiva. [ArendtCH, 7]