===== KATHODOS ===== káthodos: descida, [[lexico:q:queda|Queda]] (da [[lexico:a:alma|alma]]) 1. As [[lexico:o:origens|origens]] da [[lexico:f:figura|figura]] da queda ou afastamento da alma da sua residência [[lexico:n:natural|natural]] e imortal são religiosas, como surge da sua primeira [[lexico:o:ocorrencia|ocorrência]] entre os filósofos nas Purificações de [[lexico:e:empedocles|Empédocles]] (frg. 115; pode, em certa [[lexico:m:medida|medida]], [[lexico:t:ter|ter]] sido sustentada também por [[lexico:h:heraclito|Heráclito]]; [[lexico:v:ver|ver]] frgs. 62, 68; [[lexico:p:platao|Platão]], [[lexico:g:gorg|Górg]]. 492e-493b; [[lexico:p:plotino|Plotino]], [[lexico:e:eneadas|Eneadas]] IV, 8, 1) onde o afastamento é resultado de um crime [[lexico:p:primitivo|primitivo]] (derramamento de [[lexico:s:sangue|sangue]] ou comer [[lexico:c:carne|carne]] humana; frgs. 136, 137, 139) cometido por um dos daimones ([[lexico:d:daimon|daimon]]) cujo [[lexico:d:destino|destino]] natural era a [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]]. Devido a este crime ele é submetido durante o período de um «grande ano» (30.000 estações em Empédocles, frg. 115, verso 6; o [[lexico:n:numero|número]] varia algures), a reencarnações sucessivas neste [[lexico:m:mundo|mundo]] de [[lexico:m:mudanca|mudança]]. 2. Este [[lexico:r:relato|relato]] está intimamente ligado à [[lexico:t:teoria|teoria]] pitagórica da alma imortal (ver [[lexico:p:psyche|psyche]]) e à doutrina [[lexico:c:consequente|consequente]] da [[lexico:p:palingenesia|palingenesia]]. Este [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:c:crenca|crença]] é [[lexico:v:vulgar|vulgar]] em Platão e é expresso numa [[lexico:s:serie|série]] de grandes mitos (ver [[lexico:a:athanatos|athanatos]]). Platão conhece a versão de Empédocles (e, ao que parece, o [[lexico:m:mito|mito]] relacionado da devoração de Dioniso pelos Titãs, a [[lexico:c:criacao|criação]] do [[lexico:h:homem|homem]] das cinzas destes e a consequente «[[lexico:n:natureza|natureza]] titânica» dos [[lexico:m:mortais|mortais]] cuja centelha dionisíaca está por isso incorporada num [[lexico:e:elemento|elemento]] titânico que é o resultado direto de um «[[lexico:p:pecado-original|pecado original]]»; ver Leis 701c) e emprega-a, com as características transformações platônicas, no [[lexico:f:fedro|Fedro]] 248c-249d. A alma perde as suas asas e cai no mundo [[lexico:s:sensivel|sensível]]. Mas enquanto a ênfase em Empédocles é posta na vinda da alma imortal ao [[lexico:k:kosmos|kosmos]] cíclico, a queda resultante do [[lexico:p:pecado|pecado]] (a sua natureza [[lexico:n:nao|não]] é especificada) é usada por Platão para [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:p:presenca|presença]] da alma no [[lexico:c:corpo|corpo]] e integrada, através da conexão entre a recordação ([[lexico:a:anamnesis|anamnesis]]) e os eide, nas doutrinas metafísicas e epistemológicas de Platão. 3. O [[lexico:p:problema|problema]] da descida da alma, seu [[lexico:m:modo|modo]] e [[lexico:f:finalidade|finalidade]], continuou a suscitar a [[lexico:a:atencao|atenção]] dos pensadores de [[lexico:t:tradicao|tradição]] platônica, e o melhor [[lexico:t:testemunho|testemunho]] do [[lexico:i:interesse|interesse]] destes é, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], o ensaio dedicado à [[lexico:q:questao|questão]] por Plotino (Eneadas IV, 8) e os passos do [[lexico:d:de-anima|De anima]] de Jamblico preservados em Estobeu. Regista-se uma grande variedade de opiniões, e são admiravelmente pormenorizadas a [[lexico:m:mecanica|mecânica]] e a paisagem da viagem através das esferas, misturadas de observações de Platão (a [[lexico:v:visao|visão]] pré-natal das esferas dada à alma no Fedro 274c-248c e na Republica 616d-617d, e a [[lexico:s:sugestao|sugestão]], na Republica 614d, de que a descida, pelo menos para alguns, faz-se através dos céus) e de muita erudição astronômica. É [[lexico:t:tipica|típica]] a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] alegórica que [[lexico:p:porfirio|Porfírio]] faz da «Caverna das Ninfas» na Od. XIII, 102-112 (com alguns dos pormenores recebidos de Numênio; cf. De antro nymph. 21, 28); as viagens de Odisseu tornam-se, nesita [[lexico:e:epoca|época]] enamorada de [[lexico:s:simbolos|símbolos]], a [[lexico:r:representacao|representação]] arquetípica das peregrinações da alma: ibid. 34-35 e o relato de Macróbio da descensus animae no seu comentário sobre o Somnium Scipionis (I, 11, 11-12-18); é típica a interiorização plotiniana do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] (Eneadas IV, 8, 1). 4. A [[lexico:r:razao|razão]] por que isto ocorreu deixa-nos consideravelmente perplexos. O Fedro anuncia-a como uma «[[lexico:l:lei|lei]] da [[lexico:n:necessidade|necessidade]]», mas passa a ligá-la a um infortúnio (syntychia) da alma (248c). O [[lexico:t:timeu|Timeu]] apresenta um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista diferente. O kosmos deve conter todos os seres do [[lexico:k:kosmos-noetos|kosmos noetos]], de [[lexico:o:outro|outro]] modo será incompleto; por esta razão são geradas criaturas mortais (41b-d). Plotino adere a esta [[lexico:o:opiniao|opinião]] de que a ligação da alma com um corpo mortal é o cumprimento de uma finalidade divina e ditado pela própria natureza da alma (Eneadas IV, 8, 7). A mesma opinião é mantida por [[lexico:p:proclo|Proclo]] (In Ale. 328, 29; confrontar Elem. theol, prop. 206). 5. Mas neste mesmo passo de Plotino há, pelo menos, a sugestão de que a alma deve [[lexico:s:ser|ser]] um pouco censurada pelo seu «zelo excessivo», e nas Eneadas V, 1, 1 nos é [[lexico:d:dado|dado]] um relato ainda mais claro da sua «audácia» (tolma) e da sua [[lexico:a:alegria|alegria]] pela sua própria independência que a leva a fugir a [[lexico:d:deus|Deus]]. A teoria do pecado pré-natal, embora seja pouco concordante com o resto do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de Plotino, foi sustentada por outros pensadores. Segundo Jamblico (Estobeu, Ecl. I, p. 375), Albino encontra-se neste número ao fazer da queda resultado de livre [[lexico:e:escolha|escolha]], mas isto pode referir-se ao vulgar [[lexico:m:motivo|motivo]] pitagórico da escolha da [[lexico:v:vida|vida]] pela alma antes da palingenesia (Republica 617e: «o que escolhe é responsável; Deus é sem [[lexico:c:culpa|culpa]]»). Macróbio (I, 11, 11) [[lexico:f:fala|fala]] de um «anseio pelo corpo» (appetentia corporis). Mas os adeptos mais conhecidos desta doutrina foram indubitavelmente os gnósticos que pensaram o mundo material como essencialmente o [[lexico:l:lugar|lugar]] do [[lexico:m:mal|mal]] e para [[lexico:q:quem|quem]] a queda da alma era um lugar-comum (ver Plotino, Eneadas n, 9, 10).