===== INTUIÇÃO ESPIRITUAL ===== Se [[lexico:n:nao|não]] houvesse mais [[lexico:i:intuicao|intuição]] que a [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]], a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ficaria muito [[lexico:m:mal|mal]] servida. Mas é o caso que há na nossa [[lexico:v:vida-psiquica|vida psíquica]] outra intuição [[lexico:a:alem|além]] da intuição [[lexico:s:sensivel|sensível]]. Existe, digo, outra intuição que, desde já, antes de trocar-lhe o [[lexico:n:nome|nome]], vamos denominar "[[lexico:i:intuicao-espiritual|intuição espiritual]]". Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], quando [[lexico:e:eu|eu]] aplico o meu [[lexico:e:espirito|espírito]] a [[lexico:p:pensar|pensar]] este [[lexico:o:objeto|objeto]]: "Que uma [[lexico:c:coisa|coisa]] não pode [[lexico:s:ser|ser]] e não ser ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]]", vejo sem [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] (a demonstração é [[lexico:d:discurso|discurso]] e [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:d:discursivo|discursivo]]), com uma só [[lexico:v:visao|visão]] do espírito, com uma [[lexico:e:evidencia|evidência]] imediata, direta e sem necessidade de demonstração, que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. O [[lexico:p:principio-de-contradicao|princípio de contradição]], como o chamam os lógicos, é, pois, intuído por uma visão direta do espírito, é uma intuição. Quando eu digo que a cor vermelha é distinta da cor azul, esta [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o vermelho e o azul, vejo-a também com os olhos do espírito mediante uma visão direta e imediata. Eis um segundo exemplo de uma intuição que já não é sensível. É sensível a intuição do vermelho, é sensível a intuição do azul, porém a intuição da [[lexico:r:relacao|relação]] de diferença — a intuição de que o vermelho é diferente do azul — essa já não é uma intuição sensível, porque seu objeto, que é a diferença, não é um objeto sensível, como o azul e o vermelho. Quando eu digo que a distância de um metro é menor do que a distância de dois metros, esta diferença, esta relação, é o objeto de uma intuição e não é um objeto sensível. Por conseguinte a intuição, que estes exemplos nos descobrem, não é uma intuição sensível. Existe, pois, uma intuição espiritual, que se diferencia da intuição sensível em que seu objeto não ó um objeto sensível. Esta intuição tampouco se faz por [[lexico:m:meio|meio]] dos sentidos, mas por meio do espírito. Até [[lexico:a:agora|agora]] vou falando do espírito em [[lexico:g:geral|geral]], sem maior [[lexico:p:precisao|precisão]]. Mas agora é preciso ir depurando, purificando, esclarecendo mais esta [[lexico:n:nocao|noção]] que já temos da intuição. Se considerarmos os exemplos com que ilustramos esta intuição espiritual, dar-nos-emos conta imediatamente de que eles nos colocam diante de um [[lexico:g:genero|gênero]] de objetos que são sempre [[lexico:r:relacoes|relações]], e estas relações são de [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:f:formal|formal]]. Referem-se à [[lexico:f:forma|forma]] dos objetos. Não ao seu conteúdo, mas a [[lexico:e:esse|esse]] caráter, por assim dizer, [[lexico:e:exterior|exterior]], que todos os objetos têm de comum: a [[lexico:d:dimensao|dimensão]], o tamanho etc. Então, por meio da intuição espiritual, no [[lexico:s:sentido|sentido]] em que a empregamos até agora, percebemos diretamente, intuímos diretamente formas dos objetos: ser maior ou ser menor; ser grande ou ser pequeno em relação a um módulo; poder ser ou não ao mesmo tempo. Mas todas estas são formalidades. A intuição espiritual nos exemplos que acabo de oferecer é, pois, uma intuição puramente formal. Se não houvesse outra na [[lexico:v:vida|vida]] do [[lexico:f:filosofo|filósofo]], mal andaria ele. Se não pudesse [[lexico:t:ter|ter]] mais intuições que intuições formais, também não poderia construir a sua filosofia porque com [[lexico:s:simples|simples]] formalismos não se pode penetrar na [[lexico:e:essencia|essência]], na [[lexico:r:realidade|realidade]] roesma das [[lexico:c:coisas|coisas]], como o filósofo pretende mais do que nenhum [[lexico:o:outro|outro]] pensador. Porém, há na vida do filósofo outra intuição que não é puramente formal, há outra intuição que, para contrapô-la a intuição formal, chamaremos "intuição [[lexico:r:real|real]]". Há outra intuição que penetra no fundo mesmo da coisa, que chega a captar sua essência, sua [[lexico:e:existencia|existência]], sua [[lexico:c:consistencia|consistência]]. Esta intuição que vai diretamente ao fundo da coisa é a que aplicam os filósofos. Não uma simples intuição espiritual, mas uma intuição espiritual de caráter real, por [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] à intuição de caráter formal a que antes me referia. E esta intuição de caráter real, esta saída do espírito, que vai tomai contacto com a íntima realidade [[lexico:e:essencial|essencial]] e [[lexico:e:existencial|existencial]] dos objetos, esta intuição real, podemos, por sua vez, dividi-la em três classes, segundo predomine nela, ao verificá-la, por [[lexico:p:parte|parte]] do filósofo, a [[lexico:a:atitude|atitude]] espiritual, ou a atitude emotiva, ou a atitude volitiva.