===== INTENÇÃO ===== (lat. intentio; in. Intention; fr. Intention; al. Gesinnung; it. Intenzioné). Propriamente, a [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]] no domínio [[lexico:p:pratico:start|prático]], ou seja, a [[lexico:r:referencia:start|referência]] de uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] prática ([[lexico:d:desejo:start|desejo]], [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]], [[lexico:v:vontade:start|vontade]]) ao seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. Nesse [[lexico:s:significado:start|significado]], a intencionalidade do [[lexico:a:ato:start|ato]] [[lexico:m:moral:start|moral]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] reconhecida por qualquer doutrina moral. Todavia, a insistência no [[lexico:v:valor:start|valor]] da intenção como [[lexico:c:condicao:start|condição]] da moral é uma das características da [[lexico:e:etica:start|ética]] do [[lexico:f:fim:start|fim]], distinta da ética do [[lexico:m:mobil:start|móbil]] (v. Ética). Na ética do móbil, a [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] da [[lexico:a:acao:start|ação]] é julgada em termos de [[lexico:e:eficiencia:start|eficiência]] em produzir o [[lexico:b:bem-estar:start|bem-estar]], a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]], etc. Na ética do fim, entretanto, a ação é julgada em termos da direção que o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] imprime à ação, que é exatamente a intenção. A [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:r:respeito:start|respeito]], [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] diz com [[lexico:j:justica:start|justiça]] que "a intenção é o [[lexico:n:nome:start|nome]] do ato da vontade, estando [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] o ordenamento da [[lexico:r:razao:start|razão]], que ordena [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] para um fim"; é que "a intenção pertence primordial e principalmente àquilo que se move para um fim", sendo por isso "o ato da vontade" (S. Th., II, 1, q. 12, a. 1). Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], a intenção é própria da ética do fim. Portanto, sua [[lexico:n:nocao:start|noção]] [[lexico:n:nao:start|não]] se encontra na ética aristotélica, em que a [[lexico:a:analise:start|análise]] do ato moral é feita com base na ética do móbil; não se encontra nenhuma ética do mesmo [[lexico:g:genero:start|gênero]], como p. ex. o [[lexico:u:utilitarismo:start|utilitarismo]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a [[lexico:m:moral-teologica:start|moral teológica]] tende a insistir no valor da intenção. [[lexico:a:abelardo:start|Abelardo]] dizia: "[[lexico:d:deus:start|Deus]] não toma em consideração as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] feitas, mas o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] com que são feitas, e o [[lexico:m:merito:start|mérito]] e o valor de [[lexico:q:quem:start|quem]] age não consiste na ação, mas na intenção" (Scito te ipsum, 3). A própria moral kantiana, sobretudo em seus aspectos de pregação leiga e edificante, insiste muito no valor da intenção: a exaltação da "[[lexico:b:boa-vontade:start|boa vontade]]" com a qual se inicia a Fundamentação da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] dos [[lexico:c:costumes:start|costumes]] na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] é uma exaltação da intenção. E a primeira [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:c:critica-da-razao-pratica:start|Crítica da Razão Prática]] conclui-se com a exaltação da "intenção realmente moral e consagrada à [[lexico:l:lei:start|lei]]". Ao contrário, a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre a ética da intenção e a ética objetiva foi [[lexico:b:bem:start|Bem]] expressa por Max [[lexico:w:weber:start|Weber]]: "Na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da [[lexico:c:conduta:start|conduta]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] existem problemas éticos específicos que a ética não pode resolver com base em seus próprios pressupostos. Antes de mais [[lexico:n:nada:start|nada]] há a [[lexico:q:questao:start|questão]] fundamental de [[lexico:s:saber:start|saber]] se: d) o valor [[lexico:i:intrinseco:start|intrínseco]] da conduta ética — a ‘vontade pura’ ou a ‘intenção’, [[lexico:c:como-se:start|como se]] costuma denominar — basta para a sua [[lexico:j:justificacao:start|justificação]], segundo a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] cristã: ‘o cristão age bem e deixa por conta de Deus as consequências de sua ação’ ou b) a [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] das consequências previsíveis da ação deve ser tomada em consideração. Toda [[lexico:a:atitude:start|atitude]] politicamente revolucionária, em especial o sindicalismo revolucionário, partem do primeiro [[lexico:p:postulado:start|postulado]]; toda [[lexico:p:politica:start|política]] realista, do segundo. Ambas invocam [[lexico:p:principios:start|princípios]] éticos. Mas esses princípios estão em [[lexico:e:eterno:start|eterno]] conflito, o que não pode ser resolvido só por [[lexico:m:meio:start|meio]] da ética" ("Der Sinn der Wertfreiheit der soziologischen und ökonomischen Wissenschaften", 1917; trad. in., em The Methodology of the [[lexico:s:social:start|social]] Sciences, p. 16). A ética [[lexico:m:moderna:start|moderna]] e contemporânea, por ser predominantemente uma ética do móbil (v. Ética) dá primazia àquilo que Weber denominou segundo postulado. Por outro lado, o [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] tão difundido na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea, quanto à [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de conhecer com [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] suficiente o que acontece no âmago da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] individual, levou o [[lexico:b:behaviorismo:start|behaviorismo]] a considerar a intenção como [[lexico:o:operacao:start|operação]] (ou como parte de uma operação) que constitui a execução de um [[lexico:p:plano:start|plano]] ou [[lexico:p:projeto:start|projeto]] de conduta. Nesse caso, a [[lexico:f:frase:start|frase]] "tenho a intenção de [[lexico:v:ver:start|ver]] João" significa simplesmente que estou empenhado na execução de um plano de que faz parte encontrar com João (Miller, Galanter, Pribban, Plans and the Structure of Behavior, 1960, p. 61). Examinaremos dois sentidos destas noções: 1) o sentido [[lexico:l:logico:start|lógico]], gnoseológico (e em parte [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]), que muitas vezes estão entrelaçados. 2) o sentido ético. 1) O vocábulo intenção exprime a ação e [[lexico:e:efeito:start|efeito]] de tender para algo. Quando é tomado no sentido lógico, gnoseológico e, em parte, psicológico, designa o [[lexico:f:fato:start|fato]] de nenhum [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:a:atual:start|atual]] ser [[lexico:p:possivel:start|possível]] se não houver uma intenção. A intenção é então o ato de [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] dirigido ao conhecimento do objeto. Mas como neste ato podem distinguir-se vários [[lexico:e:elementos:start|elementos]] por parte do sujeito como por parte do objeto, o significado de intenção torna-se um tanto ambíguo. Cada vez se impôs mais na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] o sentido de intenção como [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:p:particular:start|particular]] de [[lexico:a:atencao:start|atenção]] (como modo de ser do ato cognoscente) sobre a realidade conhecida. Daí a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] em conceitos de primeiras intenções e conceitos de segundas intenções. Trata-se primariamente de atos. Mas como estes se referem a conceitos, a divisão em questão acaba por ser de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] [[lexico:l:logica:start|lógica]]. Alguns autores Árabes haviam já afirmado a [[lexico:t:tese:start|tese]] do ser [[lexico:i:intencional:start|intencional]] como realidade presente na [[lexico:m:mente:start|mente]]. O entrelaçamento entre o sentido gnoseológico e o sentido lógico do vocábulo intenção deve-se quase sempre ao fato de se entender a intenção simultaneamente como um ato e como um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]]. Por vezes observamos o predomínio do sentido gnoseológico, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], quando S. Tomás usa o [[lexico:t:termo:start|termo]] intencionalidade ao referir-se às formas intencionais ou espécies intencionais. Estas formas resultam também do [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Como o sujeito se converte em objeto sem deixar de ser sujeito, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a sua [[lexico:p:presenca:start|presença]] nele introduzir a noção de [[lexico:e:especie:start|espécie]] intencional, que determina a chamada [[lexico:e:existencia-intencional:start|existência intencional]]. Franz [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] retomou a [[lexico:s:significacao:start|significação]] escolástica de intenção, que fora crescentemente durante a [[lexico:e:epoca:start|época]] moderna, embora não tão totalmente como às vezes se supõe. [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] retomou de Brentano a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de intencionalidade, que constituiu uma das bases da [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]]. Nas [[lexico:i:investigacoes-logicas:start|INVESTIGAÇÕES LÓGICAS]], Husserl ateve-se principalmente à noção brentaniana de intencionalidade: “nós consideramos que a referência intencional, entendida de um modo puramente [[lexico:d:descritivo:start|descritivo]], como peculiaridade íntima de certas vivências é a [[lexico:n:nota:start|nota]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] dos fenômenos psíquicos ou atos de modo que vemos na [[lexico:d:definicao:start|definição]] de Brentano, segundo a qual os fenômenos psíquicos são aqueles fenômenos que contêm intencionalmente um objeto, uma definição essencial, cuja realidade (no antigo sentido) está assegurada naturalmente pelos exemplos”. Mas admitiu que há que evitar de [[lexico:f:falar:start|falar]] de “fenômenos psíquicos”; e introduzir melhor a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] “[[lexico:v:vivencias-intencionais:start|vivências intencionais]]”. Em [[lexico:i:ideias:start|ideias]], Husserl precisou os sentidos de intenção. “reconhecemos sob a intencionalidade a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] das vivências de ser [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de algo. Esta propriedade maravilhosa apareceu- nos antes de tudo no [[lexico:c:cogito:start|cogito]] [[lexico:e:explicito:start|explícito]]: [[lexico:c:compreender:start|compreender]] é compreender algo, talvez uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]]; julgar é julgar uma [[lexico:s:situacao:start|situação]]; valorizar é valorizar um conteúdo valioso; desejar é desejar um conteúdo apetecível, etc. O obrar refere-se à ação, o fazer concerne ao feito, o amar ao amado, a [[lexico:a:alegria:start|alegria]] àquilo de que um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] se alegra, etc. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] o cogito atual, um olhar irradia do [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:e:eu:start|eu]] para o objeto da correspondente [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] da consciência...” Há em Husserl não só diversos conceitos de intenção , como a ideia de que há várias formas de intenção. Assim, não é o mesmo a intencionalidade da “mera [[lexico:r:representacao:start|representação]]” e a do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], da [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] (ou [[lexico:s:suposto:start|suposto]]), da [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], do desejo, etc. Há intenções teóricas e intenções volitivas, etc. 2) Também nesta esfera foi usado o vocábulo intenção principalmente pelos escolásticos à base do sentido [[lexico:p:primario:start|primário]] de tender para outra coisa. A coisa para a qual aqui se tende não é, porém, o objeto de conhecimento, mas um fim moral. O [[lexico:p:problema:start|problema]] da intenção moral é um dos problemas fundamentais da época. O rumo que esta toma depende em grande parte da maior ou menor importância que se der à intenção. Alguns autores destacam, com efeito, como elementos determinantes do valor moral, as intenções; outros, os atos (e ainda o mero resultado deles). Em [[lexico:g:geral:start|geral]], pode dizer-se que a ética formalista, por exemplo a de [[lexico:k:kant:start|Kant]], tende para o predomínio da intenção (que foi sublinhada já por alguns filósofos medievais) diferentemente da maior parte das morais antigas, que tendiam para o predomínio da [[lexico:o:obra:start|obra]]. Segundo as éticas formalistas, em rigor apenas são morais os atos que têm uma intenção moral, quer dizer, os que se executam em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de princípios morais e quaisquer que sejam os seus resultados. Segundo as éticas não formalistas (ou materiais), o resultado da ação moral é decisivo (e ainda exclusivo) para o juízo ético. O papel decisivo da noção de intenção para determinar o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de ética adoptado foi muito claramente posto em relevo por [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]] ao estabelecer uma divisão da [[lexico:h:historia:start|história]] da moral em três grandes períodos: O primeiro é o período pré-moral, no qual o valor ou desvalor de uma ação se inferem unicamente das suas consequências (incluindo os defeitos retroativos das mesmas). O segundo é o período moral, período aristotélico, no qual predomina a questão da [[lexico:o:origem:start|origem]] da ação moral. Quando o [[lexico:p:primado:start|primado]] da origem, todavia, é levado às suas últimas consequências, não se sublinha a origem do ato, mas a intenção de atuar de certo modo: e isto é tudo o que se requer para qualificar o ato de moral. Por isso o segundo período é aquele em que se predomina a moral das intenções. O [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] período é, segundo Nietzsche, o período do [[lexico:f:futuro:start|futuro]], o [[lexico:c:chamado:start|chamado]] ultra-moral e defendido pelos imoralista... Nele se considerará que o valor de uma ação radica justamente no fato de o significado não ser intencional. A intenção será considerada unicamente como um [[lexico:s:sinal:start|sinal]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]] que necessita de uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]]: só assim, crê Nietzsche, se superará a moralidade e se descobrirá uma moral situada “mais [[lexico:a:alem:start|além]] do bem e do [[lexico:m:mal:start|mal]]”. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}