===== INSTINTO ===== (gr. [[lexico:h:horme|horme]]; lat. instinctus; in. Instinct; al. Instinkt; it. Istintó). Um guia [[lexico:n:natural|natural]] da [[lexico:c:conduta|conduta]] [[lexico:a:animal|animal]] e humana [[lexico:n:nao|não]] é [[lexico:a:adquirido|adquirido]], não é escolhido e é pouco modificável. O instinto distingue-se da [[lexico:t:tendencia|tendência]] pelo [[lexico:c:carater|caráter]] biológico, porquanto se destina à conservação do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e da [[lexico:e:especie|espécie]] e vincula-se a uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] orgânica determinada; distingue-se do [[lexico:i:impulso|impulso]] por seu caráter estável. Existem duas concepções fundamentais de instinto: 1) a [[lexico:m:metafisica|metafísica]], segundo a qual o instinto é a [[lexico:f:forca|força]] que assegura a concordância entre a conduta animal e a [[lexico:o:ordem|ordem]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]; 2) a científica, segundo a qual o instinto é um [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:d:disposicao|disposição]] biológica. 1) A [[lexico:t:teoria|teoria]] metafísica dos instinto foi fundada pelos estoicos. Para eles, a ordem providencial do mundo, que todos os seres estão destinados a manter, dirige a conduta animal por [[lexico:m:meio|meio]] do instinto. Crisipo diz: "O instinto [[lexico:p:primario|primário]] do animal, por [[lexico:s:ser|ser]] este desde o [[lexico:p:principio|princípio]] dirigido pela [[lexico:n:natureza|natureza]], é de cuidar de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] (Dos fins, Livro I). Diz também que o que está no mais íntimo de cada animal é a sua própria [[lexico:c:constituicao|constituição]] e a [[lexico:c:consciencia|consciência]] dessa constituição. Não é [[lexico:v:verossimil|verossímil]] que o animal se alheie de si ou que de algum [[lexico:m:modo|modo]] aja de tal [[lexico:f:forma|forma]] que se alheie de si ou não cuide de si mesmo. É preciso, pois, que a própria natureza o constitua de tal modo que ele cuide de si, fugindo às [[lexico:c:coisas|coisas]] nocivas e perseguindo as favoráveis. Donde se evidencia como [[lexico:f:falso|falso]] o que dizem alguns, de o [[lexico:p:prazer|prazer]] ser o instinto primário dos animais" (Dióg. L., VII, 85). Através do instinto a natureza leva o animal a cuidar de si e a conservar-se, contribuindo para manter a ordem do [[lexico:t:todo|todo]]. Cícero exprimia o [[lexico:c:conceito|conceito]] estoico nos seguintes termos: "Para conservar-se, para conservar sua [[lexico:v:vida|vida]] e seu [[lexico:c:corpo|corpo]], toda espécie animal evita por natureza tudo o que parece nocivo, deseja e trata de arranjar tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:n:necessario|necessário]] à vida, como alimento, abrigo e todo o resto. Também é comum a todos os seres animais o instinto sexual com vistas à procriação e certo cuidado para com suas crias" (Tusc, I, 4, 11; De fin., III, 7, 23; De off., I, 28, 101). Algumas vezes o [[lexico:d:direito-natural|direito natural]] foi equiparado ao instinto assim entendido, por ser comum não só aos homens mas também aos animais. No séc. III, Ulpiano fazia a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre o [[lexico:d:direito-das-gentes|direito das gentes]], que é só dos homens, e o [[lexico:d:direito|direito]] natural, que "a natureza ensinou a todos os animais e por isso pertence não só ao [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:h:humano|humano]], mas é comum a todos os animais que vivem na [[lexico:t:terra|Terra]], no mar e no [[lexico:c:ceu|céu]]. Desse direito decorrem o [[lexico:c:casamento|casamento]], a procriação e a [[lexico:e:educacao|educação]] dos filhos, coisas estas de que os animais também têm [[lexico:e:experiencia|experiência]]" (Dig, I, 1, 1-4). Essa concepção sempre ligada esteve ao [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] metafísico da [[lexico:e:existencia|existência]] de uma ordem providencial cuja [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] nos animais e nos homens seria o instinto [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] aduzia como [[lexico:p:prova|prova]] dessa [[lexico:t:tese|tese]] que a [[lexico:p:providencia|providência]] se ocupa também das coisas individuais contingentes, o instinto natural de que os animais são dotados e que se manifesta nas abelhas e em muitos outros animais (Contra Gent., III, 75). "Em nós semeado e infundido pelo princípio da nossa [[lexico:g:geracao|geração]], nasce um rebento, que os gregos chamavam de [[lexico:h:homem|homem]] e que é o [[lexico:a:apetite|apetite]] natural do [[lexico:e:espirito|espírito]] (...). E assim parece que é, pois todo animal, assim que nasce, seja ele [[lexico:r:racional|racional]] ou bruto, ama-se a si mesmo e teme e evita as coisas que lhe são contrárias e que ele detesta" (Conv., IV, 22; cf. Par., 1,112-14). [[lexico:k:kant|Kant]] ainda falava do instinto como da "[[lexico:v:voz|voz]] de [[lexico:d:deus|Deus]] à qual todos os animais obedecem" e que "na [[lexico:o:origem|origem]] deve [[lexico:t:ter|ter]] guiado os primeiros tempos do homem [[lexico:p:primitivo|primitivo]]" (Mutmasslicher Anfang der Menschengeschichte, 1786). Segundo essa concepção, as características do instinto são as seguintes: 1) providencialidade, 2) infalibilidade, que deriva do caráter interior e graças à qual o instinto estaria sempre apto a garantir a vida do animal e a continuação da espécie; 3) [[lexico:i:imutabilidade|imutabilidade]], que deriva das duas características precedentes e que consiste na imperfectibilidade do instinto; 4) cegueira, no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que o instinto foge ao controle do animal e o guia sem nenhuma iniciativa direta de sua [[lexico:p:parte|parte]]. Algumas dessas características por vezes foram pressupostas e mantidas na concepção científica do instinto Contudo, são típicas da concepção metafísica, sendo [[lexico:c:caracteres|caracteres]] presumidos, deduzidos da [[lexico:f:funcao|função]] atribuída ao instinto no [[lexico:c:cosmo|cosmo]], todos em [[lexico:o:oposicao|oposição]] aos dados da [[lexico:o:observacao|observação]]. Essas características também são admitidas e defendidas habitualmente pelos filósofos que têm uma concepção providencialista do mundo biológico, como p. ex. os espiritualistas. [[lexico:h:hegel|Hegel]] também falou de um "instinto da [[lexico:r:razao|razão]]" (Phänom. des Geistes, I, cap. V, "A observação da natureza"; trad. it, I, pp. 222, 225, etc), atribuindo a [[lexico:e:esse|esse]] instinto as características gerais mencionadas antes. Também é metafísica a teoria freudiana do instinto, especialmente do modo como é formulada em seus últimos textos. Os instintos são "a última [[lexico:c:causa|causa]] de toda [[lexico:a:atividade|atividade]] e sua natureza é conservadora: de cada [[lexico:e:estado|Estado]] atingido por um ser surge a tendência a restabelecer esse estado quando ele foi abandonado." Os instintos podem ser múltiplos, podem mudar de alvo e uns podem substituir os outros, mas em última [[lexico:a:analise|análise]] é [[lexico:p:possivel|possível]] reconhecer dois instintos fundamentais em [[lexico:l:luta|luta]]: [[lexico:e:eros|Eros]], ou instinto de vida, e [[lexico:t:thanatos|thanatos]], ou instinto de [[lexico:d:destruicao|destruição]] (Abriss der Psychoanalyse, 1940, cap. II). [[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]]. 2) As teorias científicas do instinto são de duas espécies: A) explicativas; B) descritivas. A) Existem três teorias explicativas fundamentais, que recorrem respectivamente: a) à [[lexico:a:acao-reflexa|ação reflexa]]; b) ao [[lexico:i:intelecto|intelecto]]; c) ao [[lexico:s:sentimento|sentimento]] ([[lexico:s:simpatia|simpatia]]). a) A doutrina que explica o instinto recorrendo à [[lexico:a:acao|ação]] reflexa é a mais antiga. Foi defendida por [[lexico:s:spencer|Spencer]] em [[lexico:p:principios|Princípios]] de [[lexico:p:psicologia|psicologia]] (1855): "Enquanto nas formas primitivas da ação reflexa uma única [[lexico:i:impressao|impressão]] é seguida por uma única [[lexico:c:contracao|contração]], e enquanto nas formas mais desenvolvidas da ação reflexa uma única impressão é seguida por uma combinação de contrações, nesta, que distinguimos como instinto, uma combinação de impressões é seguida por uma combinação de contrações; e quanto mais [[lexico:s:superior|superior]] for o instinto, tanto mais complexas serão as coordenações de direção e de execução" (Princ. of Psychology, § 194). Essa tese foi substancialmente aceita por [[lexico:d:darwin|Darwin]], que a modificou no sentido de que o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] dos instinto seria devido à [[lexico:s:selecao|seleção]] natural dos atos [[lexico:r:reflexos|reflexos]] que constituem os instintos mais [[lexico:s:simples|simples]]. Darwin diz: "A maior parte dos instintos mais complexos parece ter sido adquirida mediante a seleção natural das variações de atos mais simples. Tais variações parecem resultar das mesmas [[lexico:c:causas|causas]] desconhecidas que ocasionam as variações ligeiras ou as diferenças individuais nas outras partes do corpo, que agem sobre a organização cerebral e determinam mudanças que, na nossa [[lexico:i:ignorancia|ignorância]], consideramos espontâneas" (Descent of [[lexico:m:man|Man]], 1871, I, cap. 3; trad. fr., p. 69). Essa [[lexico:e:explicacao|explicação]] do instinto foi aceita não só por darwinistas e neodarwinistas, mas também pelos que elaboraram a teoria dos [[lexico:r:reflexos-condicionados|reflexos condicionados]], que consideraram o instinto como um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] condicionado [[lexico:c:complexo|complexo]] (cf. [[lexico:p:pavlov|Pavlov]], Os reflexos condicionados; trad. it., p. 273). O defeito dessa teoria é que as variações casuais dificilmente poderiam [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:f:formacao|formação]] de instinto tão aperfeiçoados e complexos como os dos insetos. b) A segunda teoria explicativa tem em vista justamente a formação desses instinto mais complexos e considera o instinto como [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] degradada ou mecanizada. Essa doutrina, apresentada por Romanes (Mental Evolution in Animals, 1883), foi amplamente aceita pela psicologia do [[lexico:f:fim|fim]] do século passado. Equivale a ver o instinto como um [[lexico:h:habito|hábito]] que se formou e se aperfeiçoou através do desenvolvimento de uma espécie animal. [[lexico:w:wundt|Wundt]], especialmente, contribuiu para a difusão dessa doutrina. Diz: "Os instintos são movimentos oriundos de atos de [[lexico:v:vontade|vontade]] simples ou compostos que depois, durante a vida individual ou ao longo de "um desenvolvimento [[lexico:g:geral|geral]], acabam mecanizados no todo ou em parte" (Grundzüge der physiologischen Psych., 4a ed., 1893, II, pp. 510 ss.; cf. System der Phil., 2a ed., 1897, p. 590). Essa concepção algumas vezes foi utilizada pelos filósofos, com vistas a uma metafísica espiritualista (cf, p. ex., [[lexico:r:renouvier|Renouvier]], Nouvelle monadologie, 1899, p. 83), mas contra ela existe o [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:b:bem|Bem]] verificado de que os hábitos adquiridos não são transmissíveis por herança (v. [[lexico:h:hereditariedade|hereditariedade]]), constatando-se ademais que, para explicar a formação de instintos aperfeiçoados, não basta a hereditariedade da disposição para contrair hábitos mais facilmente, que parece provada em alguns casos (Mac-Dougall). c) A terceira teoria explicativa é a que relaciona o instinto com os sentimentos, em [[lexico:p:particular|particular]] com a simpatia. "instinto é simpatia", diz [[lexico:b:bergson|Bergson]]. "Nos fenômenos do sentimento, nas simpatias e antipatias irrefletidas, sentimos em nós mesmos, de forma bem mais vaga e ainda demasiado penetrada de inteligência, algo do que deve acontecer na consciência de um inseto que age por instinto. Para desenvolvê-los em profundidade, a [[lexico:e:evolucao|evolução]] distanciou [[lexico:e:elementos|elementos]] que na origem se interpenetravam" (Évol. créatr., 1911, 8a ed., pp. 190-91). A evolução vital distanciou a inteligência do instinto, especializando o instinto na [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de utilizar ou mesmo de construir instrumentos organizados, e a inteligência, na de fabricar e utilizar instrumentos inorganizados (Ibid., p. 152). Segundo Bergson, a especialização do instinto depende do fato de o instinto ser utilização de um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] determinado para um fim determinado: de um instrumento que, [[lexico:a:alem|além]] do mais, é de enorme complexidade de detalhes, embora de funcionamento simplíssimo. Os instrumentos fabricados pela inteligência, ao contrário, são muito menos perfeitos, mas podem mudar continuamente de forma e adaptar-se às novas circunstâncias. Isso explica também por que o instinto não é [[lexico:c:consciente|consciente]] ou o é minimamente: a consciência mede a distância entre a [[lexico:r:representacao|representação]] e a ação (entre as diversas possibilidades de agir e a ação efetiva); no instinto essa distância é mínima porque é mínima a parte passível de [[lexico:e:escolha|escolha]] (Ibid., p. 157). [[lexico:s:scheler|Scheler]], fazendo [[lexico:r:referencia|referência]] a essa doutrina de Bergson, como capaz de explicar os instintos mais complicados (p. ex., o dos himenópteros, que paralisam, mas não matam escaravelhos ou aranhas para [[lexico:p:por|pôr]] seus ovos, cf. Fabre, Souvenirs entomologiques, I, 3a ed., 1894, pp. 93 ss.), declara considerar [[lexico:p:provavel|provável]] que "nos atos instintivos dessa espécie, que nos põem em [[lexico:p:presenca|presença]] de uma concatenação finalista, [[lexico:l:logica|lógica]], das fases de atividade de muitos seres, estejamos apenas diante de um exagero [[lexico:a:anormal|anormal]] daquilo que é a verdadeira [[lexico:f:fusao|fusão]] afetiva na [[lexico:e:esfera|esfera]] da atividade humana" (Sympathie, cap. I; trad. fr., p. 50). Essa é uma aceitação [[lexico:s:substancial|substancial]] do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista de Bergson, mas corrigindo aquilo que Bergson chama de simpatia para fusão afetiva (quanto à [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre as duas, v. simpatia). A doutrina de Bergson foi amplamente aceita pelos filósofos, mas encontrou pouca acolhida junto aos fisiologistas e psicólogos. Continua sendo uma das alternativas possíveis para uma explicação do instinto. Este, com [[lexico:e:efeito|efeito]], pode ser relacionado com qualquer uma das duas [[lexico:a:atividades|atividades]] que supostamente dirigirem a conduta humana: a inteligência e o sentimento. A [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] procura vincular o instinto à inteligência; a interpretação (c), ao sentimento. B) Na psicologia contemporânea, a [[lexico:i:influencia|influência]] do [[lexico:g:gestaltismo|gestaltismo]], em sua concepção de [[lexico:a:abandono|abandono]] definitivo da teoria dos reflexos que tendia a resolver o instinto em atividades elementares (as [[lexico:a:acoes|ações]] reflexas), favoreceu também o abandono de qualquer teoria explicativa e o recurso a teorias descritivas, fundadas em ampla base de observações. Desse ponto de vista, a [[lexico:d:descricao|descrição]] do instinto mais comumente adotada é a de G. E. Müller, que modificou oportunamente uma [[lexico:d:definicao|definição]] de MacDougall: "O instinto é uma disposição psicofísica, dependente da hereditariedade, muitas vezes completamente formada logo depois do nascimento, outras vezes só depois de certo período de desenvolvimento, que orienta o animal a dar [[lexico:a:atencao|atenção]] especial a objetos de certa espécie ou de certo modo, e a sentir, depois de perceber esses objetos, um impulso para determinada atividade, em conexão com eles" (cf. D. Katz, Mensch und Tier, 1948; trad. in., p. 1 71). Definições desse tipo tornam inútil até mesmo o [[lexico:n:nome|nome]] instinto, que, de fato, alguns psicólogos tendem a substituir por outros termos, menos comprometidos pelo [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:s:secular|secular]] ([[lexico:p:propensao|propensão]], tendência). Às vezes, insiste-se no caráter totalitário da disposição instintiva, considerando-a como um "[[lexico:e:esquema|esquema]] unitário" que cresce e diminui como um todo (cf. R. B. Cattell, Personality, Nova York, 1950, p. 195). A [[lexico:e:etologia|etologia]] comparada distingue no instinto aquilo que Konrad Lorenz chamou de [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] desencadeante, conjunto de condições que servem de [[lexico:e:estimulo|estímulo]] para a conduta instintiva, e o [[lexico:a:ato|ato]] consumador, constituído por um esquema ou [[lexico:p:plano|plano]] de movimentos, hierarquicamente organizado, que é o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] instintivo propriamente [[lexico:d:dito|dito]]. Essa organização hierárquica do comportamento instintivo torna-se menos flexível à [[lexico:m:medida|medida]] que nos aproximamos da conduta em ato. Para Tinbergen, essa flexibilidade depende das mudanças no mundo [[lexico:e:externo|externo]] (The Study of lnstinct, 1951, p. 110). Para Lorenz, o desencadeamento da conduta instintiva também pode ser provocado por um acúmulo de [[lexico:e:energia|energia]] endógena (de natureza predominantemente físico-química) que, tanto no animal quanto no homem, constitui um instinto de [[lexico:a:agressao|agressão]]; este instinto, se entregue a si mesmo, leva os homens à destruição recíproca, mas pode ser disciplinado e canalizado para alvos que não ponham em [[lexico:r:risco|risco]] a convivência humana. A descarga da agressão sobre objetos constituídos seria o privilégio do homem, que pode mudar a direção de seu impulso instintivo (Das sogenannte Böse, 1963, cap. XII). Essa doutrina continua atribuindo ao instinto o papel principal na [[lexico:d:determinacao|determinação]] do comportamento humano e animal, mas, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, chegou-se a duvidar que, para explicar esse comportamento, fosse possível utilizar o conceito de instinto (cf. o simpósio sobre esse assunto no British Journal of Educacional Psychol, nov. 1941). Também se propõe uma concepção "[[lexico:e:estatistica|estatística]]" do L, segundo a qual ele é apenas "o fator de um [[lexico:g:grupo|grupo]] [[lexico:i:inato|inato]] e conativo" (burt, "The Case for Human Instincts" na Rev., cit., 3a parte; cf. J. Flugel, Studies in Feeling and Desire, Londres, 1955). Essa [[lexico:n:negacao|negação]] do instinto diz [[lexico:r:respeito|respeito]] sobretudo ao homem. Katz dissera: "No homem, os instinto determinam apenas a força de um impulso à ação e seu esquema geral. Esse esquema é [[lexico:i:indefinido|indefinido]] e varia segundo a [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] e o indivíduo. P. ex., em todas as crianças o instinto lúdico desenvolve-se e floresce em certo período e depois morre. Mas o modo como as crianças realmente brincam varia muito. Além isso, é na infância que o homem está mais [[lexico:s:sujeito|sujeito]] à influência dos instintos. Mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], a conduta de vida é tão controlada pelas forças externas que é difícil distinguir sua base instintiva. Ao contrário dos animais, ele não passa a vida dentro da segurança dos instintos, mas tem a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de formá-los" (Animals and Men, cit., p. 173). Em [[lexico:s:sociologia|sociologia]], às vezes se [[lexico:f:fala|fala]] em instinto como fator dominante da [[lexico:c:cultura|cultura]] ou dos seus aspectos fundamentais. Ao instinto Pareto atribuía as ações "não lógicas" (Sociologia generale, 1923, § 157). Thorstein Veblen, em suas explicações sociológicas, frequentemente recorria ao instinto: instinto de [[lexico:e:eficiencia|eficiência]], ao instinto animista, etc. (cf. The Instinct of Workmanship and the State of Business Enterprise, 1904). Hoje em dia esse ponto de vista é frequentemente contestado. "A cultura não é instintiva sob nenhum [[lexico:a:aspecto|aspecto]]: ela é exclusivamente aprendida. A partir da publicação de Instinto, de [[lexico:b:bernard|Bernard]], em 1924, foi [[lexico:i:impossivel|impossível]] aceitar qualquer teoria do instinto como a explicação do esquema cultural [[lexico:u:universal|universal]] ou como a solução de certos problemas culturais" (G. P. Murdock, em R. Linton, The Science of Man in the World Crisis, Nova York, 7a ed., 1952, pp. 126-27). O impulso para agir de certa maneira. — Essa ação possui (sobretudo no animal) as três seguintes maneiras de ser: 1.° inata (as vespas solitárias, denominadas "vespas pedreiras", fazem seu ninho de maneira sempre idêntica, ainda que os pais morram antes do desenvolvimento da vespa-filhote; este não teria então podido "aprender" a fazer um ninho. O mesmo acontece com os pássaros migradores, que conhecem de maneira inata o [[lexico:c:caminho|caminho]] de sua migração — de 6.000 a 12.000 km — mesmo se estão em seu primeiro ano e os "pais" não estão lá para guiá-los); 2.° [[lexico:u:uniforme|uniforme]] (o instinto não se aperfeiçoa; a [[lexico:t:tecnica|técnica]] da construção de barragens pelos castores, por ex., nunca progrediu no decurso do [[lexico:t:tempo|tempo]]); 3.° específica (cada espécie tem instintos particulares). Os instintos são, assim, reflexos complexos, que são dados juntamente com a natureza de um indivíduo. Contudo, esses reflexos podem ser completados pela aquisição de "reflexos condicionados", que dão uma certa flexibilidade e um certo poder de [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] no instinto. No homem, os instintos são, em geral, dominados pelas regras sociais, mascarados pela intervenção da inteligência (raciocínios, motivações racionais e retrospectivas de condutas instintivas), e só reaparecem quando a inteligência acha-se inibida ([[lexico:s:sonho|sonho]], [[lexico:e:emocao|emoção]], paixões, doenças mentais). (V. tendência.) (do latim instinctus = apetite natural) designa, em acepção muito geral, a disposição natural dos seres vivos para operar ideologicamente. Encarado do ponto de vista da [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]], o instinto é uma disposição natural hereditária, um conjunto de disposições ordenadas e relacionadas com o todo, que impelem o ser vivo a atender de maneira especial a certos objetos do mundo [[lexico:a:ambiente|ambiente]], a entrar em contato com estes e a operar de maneira especificamente [[lexico:t:tipica|típica]] e adequada à conservação da espécie. Experiências e processos de [[lexico:a:aprendizagem|aprendizagem]] não desempenham nenhum papel fundamental, embora aliados a reflexos e automatismos acompanhem frequentemente a ação instintiva e "se atrelem" a ela. Esta é desencadeada por determinados objetos do mundo animal circundante (presa, inimigo, etc.) ou principalmente por sinais dos mesmos, o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] dos quais é inteiramente inato ao animal e completamente [[lexico:i:independente|independente]] da experiência (esquema inato). Os sinais podem ser de natureza química, acústica ou ótica. Há casos em que um esquema (p. ex., o de "companheiro sexual") está, em certo modo, "[[lexico:v:vazio|vazio]]", e só num determinado período da vida (geralmente na adolescência) é moldado pela experiência. Também no homem se dão ações instintivas. Cronologicamente, o primeiro instinto é o da sucção, ao qual se seguem os de voltar-se, expressar-se, imitar e [[lexico:j:jogar|jogar]]. Contudo, o comportamento instintivo não é a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] [[lexico:c:caracteristica|característica]] do homem. Neste se encontra, antes, uma ampla "[[lexico:r:reducao|redução]] do instinto" (Gehlen), de [[lexico:s:sorte|sorte]] que não existe nenhuma gradação entre o conhecimento instintivo e o intelectivo-racional, nem se pode considerar o instinto como primeiro [[lexico:e:estadio|estádio]] ontogenético ou filogenético das operações mentais superiores. Além disso, no homem o instinto não está tão univocamente determinado como no animal, aparecendo subjetivamente, as mais das vezes, como um estado [[lexico:e:emocional|emocional]] difuso e pobre de conteúdo [[lexico:r:representativo|representativo]] que, sem [[lexico:r:reflexao|reflexão]] teleológica se traduz diretamente numa atuação’ A explicação filosófica do instinto tem seguido diversos caminhos, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com as pressuposições sistemáticas. [[lexico:p:progresso|progresso]] [[lexico:e:essencial|essencial]], mostra-o a [[lexico:m:moderna|moderna]] [[lexico:i:investigacao|investigação]] do comportamento (Lorenz, Seitz, Tinbergen e outros), a qual elevou os estudos sobre o instinto à [[lexico:c:categoria|categoria]] de [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:e:experimental|experimental]] de [[lexico:c:conceitos|conceitos]] rigorosos: trabalhos dirigidos a estabelecer uma [[lexico:s:separacao|separação]] nítida entre os reflexos, e a experiência, por um lado, e os verdadeiros componentes do instinto, relativamente rígidos e especificamente típicos, por outro; análise minuciosa dos esquemas desencadeados (prova de surpresa); trabalhos tendentes a mostrar a ação conjugada variável de reflexo, [[lexico:a:automatismo|automatismo]], experiência e ação instintiva. A doutrina [[lexico:e:escolastica|escolástica]] do instinto é, na esfera da [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]], uma parte da [[lexico:p:problematica|problemática]] relativa aos graus essenciais da vida; na esfera da psicologia, constitui uma parte da doutrina sobre os [[lexico:s:sentidos-internos|sentidos internos]]. Situado assim no [[lexico:l:lugar|lugar]] que lhe compete, o instinto, como [[lexico:f:faculdade|faculdade]] cognoscitiva e apetitiva pertencente à [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] interna, diferencia-se de todo [[lexico:p:processo|processo]] condicionado por puros reflexos. Além disso, a habilidade instintiva distingue-se claramente da [[lexico:m:memoria|memória]] sensitiva. Ao formular esta distinção, a escolástica está concorde com os resultados da moderna investigação do comportamento, ressalvada porém a separação, amiúde demasiado rigorosa, que esta estabelece entre os distintos componentes da ação, ensinando a conceber o instinto como vis aestimativa ([[lexico:f:faculdade-de-julgar|faculdade de julgar]] [juízo] de natureza sensitiva) dentro do conjunto do [[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]], vis (¡estimativa que, de modo [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e [[lexico:t:teleologico|teleológico]], aplica ao caso [[lexico:c:concreto|concreto]] os sinais recebidos por meio dos [[lexico:s:sentidos-externos|sentidos externos]] (e recolhidos pelo sentido comum). Todavia, [[lexico:d:dado|dado]] que muitas vezes os animais buscam o [[lexico:o:objeto|objeto]] apetecido sem que este jamais lhes tenha sido dado na experiência, e atendendo a que na ação "em estado vazio" (Lorenz) a atuação instintiva se perfaz sem objeto teleológico [[lexico:e:exterior|exterior]], ó necessário que à "estimativa" se antecipe algo configurado pela [[lexico:f:fantasia|fantasia]] anteriormente a toda experiência ("coordenação hereditária"). Com a "prova de surpresa", as modernas pesquisas sobre o instinto demonstraram claramente existirem em muitos animais estas "imagens da fantasia" previamente cunhadas e condicionadas pela hereditariedade (esquema da presa, esquema do inimigo, etc). Muitos destes esquemas se moldam, quando o estado excitante interno, que comunica impulso às ações instintivas, alcança determinada [[lexico:i:intensidade|intensidade]]. — Como o animal, nas ações instintivas, tende ao fim de maneira objetivo-racional (sem [[lexico:i:inteleccao|intelecção]] subjetiva da [[lexico:t:teleologia|teleologia]]), o instinto é um caso peculiar da [[lexico:f:finalidade|finalidade]] e apresenta os mesmos problemas que ela. — Haas. O [[lexico:t:termo|termo]] instinto significa aguilhão, [[lexico:a:acidente|acidente]], estímulo. Daqui deriva o sentido de instinto como estímulo natural, como conjunto de ações e reações primárias primitivas e não conscientes. O instinto foi definido pelo [[lexico:p:pragmatismo|pragmatismo]] como “a faculdade de atuar de tal modo que se produzam certos fins sem [[lexico:p:previsao|previsão]] dos fins e sem prévia preparação”. Alguns psicólogos têm mantido que os instintos são sempre cegos e invariáveis, mas os pragmatistas negam-no. A cegueira e invariabilidade dos instintos são propriedades que podem aplicar-se a instintos já constituídos e que têm funcionado, ou continuam a funcionar, durante um tempo relativamente longo, mas não à maneira como foram formados os instintos. Tem-se discutido com frequência a [[lexico:r:relacao|relação]] em que se encontram os instintos com os hábitos. Tem sido frequente admitir-se que os primeiros estão mais arreigados ou são mais fundamentais que os segundos, mas é difícil estabelecer-se sempre uma diferença cortante entre eles. Tem-se discutido também se os instintos se contrapõem sempre aos atos inteligentes ou se os instintos, ou pelo menos alguns deles, são atos inteligentes depois mecanizados. Também se tem examinado a relação que existe entre instinto e reflexo. Tem sido comum considerar este como puramente automático, ou como mais automático que o instinto. A relação entre instinto e impulso é sempre pouco clara, mas sugeriu-se que, diferentemente da maior parte dos instintos, os impulsos são ações ou reações profundas e geralmente violentas. Bergson defendeu a concepção do instinto como um modo especial de ação e de conhecimento, e a [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] entre instinto e inteligência. A definição da consciência como [[lexico:a:adequacao|adequação]] entre o ato e a representação permite [[lexico:a:apreender|apreender]] também, segundo Bergson, a natureza do instinto: enquanto a inteligência se orienta na consciência, que é [[lexico:p:perplexidade|perplexidade]] e [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de escolha, o instinto orienta-se na inconsciência, e por isso é plena segurança e firmeza. A forma especial de ação e conhecimento que o instinto representa é definida pelo fato de ser [[lexico:v:vivido|vivido]] diferentemente do mero ser pensado da inteligência. Daí que o instinto conheça imediatamente coisas, isto é, matérias do conhecimento, existências, ao passo que a inteligência se inclina sobre [[lexico:r:relacoes|relações]], quer dizer, formas do conhecimento, [[lexico:e:essencias|essências]]. O instinto é [[lexico:c:categorico|categórico]] e limitado; a inteligência é hipotética, mas ilimitada, e por isso pode, diferentemente do instinto, superar-se a si mesmo e chegar até uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] que irá ser a definitiva [[lexico:r:ruptura|ruptura]] dos limites em que estão encerrados cada um por seu lado, o instinto e a inteligência. Por isso a diferença entre estes é coroada com a precisa [[lexico:f:formula|fórmula]] bergsoniana de que “há coisas que só a inteligência é capaz de procurar, mas que, [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, nunca encontrará. Só o instinto as encontraria, mas jamais as procurará”.