===== INQUÉRITO ===== A [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] respeitante aos problemas sociais da [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] levanta três dificuldades importantes: 1.a, a [[lexico:o:observacao:start|observação]] tende a modificar a [[lexico:s:situacao:start|situação]] observada; 2.a, torna-se muito difícil apreciar as informações de segunda mão; 3.a, cada situação [[lexico:s:social:start|social]] é essencialmente original, o que torna difícil a comparação e, por [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], a [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]]. Examinemos sucessivamente essas três questões. A observação. O [[lexico:o:observador:start|observador]] é um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] da situação que estuda. A sua [[lexico:p:presenca:start|presença]] influi nos fatos, isto é, no [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] dos indivíduos que observa: segundo o [[lexico:p:principio:start|princípio]] de [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] de Heisenberg é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] observar um [[lexico:a:atomo:start|átomo]] sem que, por isso, o seu comportamento seja influenciado. Mas nas [[lexico:c:ciencias-sociais:start|ciências sociais]] é particularmente importante a [[lexico:i:influencia:start|influência]] do observador. Os indivíduos adaptam sutilmente o seu comportamento à [[lexico:i:ideia:start|ideia]] que fazem do que este ou aquele observador deve ou [[lexico:n:nao:start|não]] deve [[lexico:v:ver:start|ver]]. O que um observador deve ou não deve ver depende em grande [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e da [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] das suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com o [[lexico:g:grupo:start|grupo]] observado. Se tais relações foram satisfatórias, o observador poderá reduzir ao mínimo os fenômenos de «interferência» e obter uma situação quase [[lexico:n:normal:start|normal]]; poderá também [[lexico:t:ter:start|ter]] em conta nas suas conclusões a influência que tiver exercido sobre o grupo [Exemplificação com o método de «sondagens de opinião» (v. sondagem): «Os resultados do inquérito dependem: 1.°, da pessoa do inquiridor (este aceita mais facilmente as opiniões em conformidade com as suas tendências; os Negros dissimulam aos inquiridores brancos as suas simpatias pelos Japoneses); 2.°, da ordem das questões postas (às perguntas, formuladas durante a guerra, sobre se os exércitos americanos deveriam juntar-se: A, aos exércitos anglo-franceses, ou: B, aos exércitos alemães, obtinham-se 45% de respostas favoráveis aos Aliados e 30% aos Alemães se se pusesse primeiro a questão A; mas se, ao contrário, se pusesse primeiro a B, os Alemães tinham 22% de respostas favoráveis e os Aliados 40%); 3.°, do enunciado das perguntas, etc.» (Nota de Cuvillier, Mon. de Soe., I, p. 266.)] As informações de segunda mão ou as declarações feitas ao observador por terceiros suscitam outros problemas de apreciação. Mesmo — ou sobretudo — quando se [[lexico:f:fala:start|fala]] de si, têm-se mais em conta os próprios desejos, ou as suas relações com o [[lexico:i:interlocutor:start|interlocutor]], do que a [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. O mesmo sucede quando se fala dos outros. Quanto aos pretensos «fatos» ou «números» aparentemente indiscutíveis — inventários de mercadorias e de material, contas, estatísticas de rendimento—, também não são mais do que [[lexico:s:simples:start|simples]] declarações, apresentadas sob determinada [[lexico:f:forma:start|forma]]. Tais declarações não poderão ter a [[lexico:v:veleidade:start|veleidade]] de [[lexico:s:ser:start|ser]] exatas ou de fornecer uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] imparcial da realidade. Devemos atribuir-lhes essencialmente [[lexico:v:valor:start|valor]] sintomático. Por outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: não refletem unicamente a situação, mas também as [[lexico:i:ideias:start|ideias]], os sentimentos e as reações pessoais do seu autor. Ainda por outra [[lexico:r:razao:start|razão]] se torna difícil interpretar as informações de segunda mão. Nos casos mais favoráveis, o autor de uma declaração descreve os fatos tal qual os vê, em [[lexico:f:funcao:start|função]] da sua [[lexico:a:atitude:start|atitude]] e situação na [[lexico:e:epoca:start|época]], da sua atitude e situação atuais, das condições em que a declaração é feita e particularmente das suas relações com o interlocutor. Quer [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] quer deliberadamente, deforma ou mutila os fatos. De entre os inúmeros [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de uma situação social não retém necessariamente aqueles que o investigador teria retido; e ainda mais: o seu [[lexico:c:condicionamento:start|condicionamento]] social leva-o a considerar como evidentes, e, portanto, como não merecendo ser observados ou relatados, os elementos que indubitavelmente são os mais característicos. É preciso sempre escolher. Mas, inconscientemente, o narrador omitirá a [[lexico:m:mencao:start|menção]] dos aspectos da situação indispensáveis a um observador [[lexico:e:externo:start|externo]] para formar uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] exata. A apreciação de informações de segunda mão será facilitada se se lograr conhecer a opinião da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] interrogada sobre a situação e sobre o investigador e [[lexico:c:criar:start|criar]] condições tais que as declarações possam ser precisadas, verificadas e completadas. O investigador não deve surpreender-se com que lhe respondam «sim» ou «não» a uma [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] que exige [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]], ou lhe deem uma resposta de mil palavras; não deve também esperar uma declaração objetiva da parte de alguém que receie as consequências das suas palavras. Antes de mais, deverá esforçar-se por criar condições e estabelecer relações tais que a pessoa interrogada possa [[lexico:f:falar:start|falar]] livremente e sem pressas. É sempre difícil descrever, medir e apreciar os fatos sociais — e não apenas no decurso do inquérito propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]]. Para vencer tais dificuldades, dispomos de diferentes meios técnicos. Podemos, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], registar as declarações: as repetições, as [[lexico:c:causas:start|causas]], o tom e as harmônicas vocais fornecem úteis indicações sobre a atitude da pessoa interrogada. Também podemos medir certos elementos da situação de conjunto: [[lexico:n:numero:start|número]] de pessoas interrogadas, número e [[lexico:d:duracao:start|duração]] dos interrogatórios; o rendimento, o absentismo, a [[lexico:c:cifra:start|cifra]] de negócios. Os casos de [[lexico:d:doenca:start|doença]] prestam-se a estatísticas. Todos estes dados são susceptíveis de [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]]. [[lexico:f:falta:start|falta]] a apreciação dos fatos. O investigador é um ser [[lexico:h:humano:start|humano]] que regista aquilo que o impressiona. As suas observações correm o [[lexico:r:risco:start|risco]] de serem incompletas ou deformadas, tanto mais que todos os dados sociais são necessariamente aproximados. As generalizações assentam no [[lexico:e:estudo:start|estudo]] de certo número de casos comparáveis, mas nunca idênticos. As condições da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] nunca são exatamente as mesmas. Não há qualquer [[lexico:m:meio:start|meio]] para [[lexico:s:saber:start|saber]] «o que se teria passado de outra forma» ou de estabelecer o [[lexico:s:status-quo:start|status quo]] ante para ensaiar [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:metodo:start|método]]. Um médico não pode [[lexico:c:comparar:start|comparar]] os efeitos da amputação e da não amputação num mesmo paciente. Apenas pode comparar os casos de dois pacientes: um que foi amputado e outro que não foi, ou o [[lexico:e:estado:start|Estado]] dum mesmo paciente antes e após a amputação. O mesmo sucede relativamente a qualquer generalização fundada nos fatos sociais. J. Scott e R. P. Lynton, Le Progrès Technique et l’Intégration Sociale, pp. 127-130, publicação da Unesco, 1953. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}