===== INATISMO ===== Chama-se inatismo à doutrina segundo a qual há certas [[lexico:i:ideias|ideias]], [[lexico:p:principios|princípios]], noções, máximas - especulativas, ou práticas - que são inatas, quer dizer, que possuem a [[lexico:a:alma|alma]], o [[lexico:e:espirito|espírito]], etc, de todos os homens sem excepção. A primeira fase da [[lexico:h:historia|história]] do inatismo constitui a doutrina platônica. [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:c:capital|capital]] desta foi a [[lexico:i:ideia|ideia]] da [[lexico:r:reminiscencia|reminiscência]]. Esta ideia, combinada com frequência com a doutrina agostiniana da [[lexico:i:iluminacao|iluminação]], exerceu grande [[lexico:i:influencia|influência]] durante toda a idade média, e opôs-se geralmente ao [[lexico:e:empirismo|empirismo]] do [[lexico:p:principio|princípio]] “[[lexico:n:nada|nada]] há no [[lexico:i:intelecto|intelecto]] que [[lexico:n:nao|não]] estivesse antes nos sentidos”, de ascendência aristotélica, até ao [[lexico:p:ponto|ponto]] de esta [[lexico:q:questao|questão]], muitas vezes, [[lexico:s:ser|ser]] a que estabeleceu uma [[lexico:s:separacao|separação]] terminante entre o [[lexico:p:platonismo|platonismo]] e o [[lexico:a:aristotelismo|aristotelismo]]. Geralmente, o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] antigo, com excepção das correntes sofísticas e cépticas, inclinou-se para o inatismo. Dentro deste [[lexico:g:geral|geral]] inatismo inseriu-se a [[lexico:d:discussao|discussão]] acerca de se as noções consideradas como princípios deviam ser estimadas como atuais ou potenciais, e isto é muitas vezes o que introduz a citada [[lexico:d:diferenca|diferença]] de [[lexico:o:opiniao|opinião]] entre os platônicos e o s aristotélico.. Embora [[lexico:p:platao|Platão]] tenda para [[lexico:p:pensar|pensar]] que tais princípios são antes disposições que podem usar-se num [[lexico:m:momento|momento]] determinado pela [[lexico:a:acao|ação]] de um [[lexico:b:bem|Bem]] dirigida [[lexico:c:causa|causa]] [[lexico:e:exterior|exterior]], a sua [[lexico:t:tendencia|tendência]] para o inatismo [[lexico:a:atual|atual]] é muito mais acentuada que em [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], para [[lexico:q:quem|quem]] os princípios comuns se identificam quase sempre com disposições ou [[lexico:f:faculdades|faculdades]]. Na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]], o [[lexico:p:problema|problema]] do inatismo adquiriu um novo [[lexico:s:sentido|sentido]] em [[lexico:d:descartes|Descartes]]. Houve grandes e frequentes disputas acerca do inatismo, durante os séculos dezassete e dezoito, dividindo-se os autores em inatistas (extremos ou moderados) e anti-inatistas. Assim, enquanto Descartes e [[lexico:m:malebranche|Malebranche]] podem ser considerados como inatistas, [[lexico:l:locke|Locke]] combate a [[lexico:t:teoria|teoria]] das [[lexico:i:ideias-inatas|ideias inatas]] no seu ENSAIO SOBRE O [[lexico:e:entendimento|entendimento]] [[lexico:h:humano|humano]], que era também dirigido contra o inatismo da [[lexico:e:escola|escola]] de Cambridge. Locke rejeita “a opinião arreigada de alguns de que há certos princípios inatos, noções primárias ou [[lexico:c:caracteres|caracteres]] impressos no espírito humano. Tais princípios ou noções enatas não são, segundo Locke, necessários para [[lexico:e:explicar|explicar]] coamo podem os homens chegar a possuir [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] que têm. Basta - diz - “o [[lexico:u:uso|uso]] das suas faculdades naturais”, com o que, seja [[lexico:d:dito|dito]] de passagem, Locke reconhece que há umas faculdades que são inatas, o que faz com que o inatismo de Locke seja moderado. Embora os raciocínios matemáticos pareçam constituir uma [[lexico:p:prova|prova]] em favor do inatismo, Locke declara que não há tal, pois uma [[lexico:c:coisa|coisa]] é dizer que não há princípios evidentes por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e outra coisa muito diferente proclama que tais princípios são inatos. Na [[lexico:d:disputa|disputa]] sobre o inatismo destaca-se a polêmica entre Locke e [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]. Observemos que assim como Locke não era um anti-inatista radical, tão pouco Leibniz era um radical inatista. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], Leibniz não afirmava que as chamadas ideias inatas ou princípios inatos se encontram efetiva e positivamente no espirito dos homens. De contrário, haveria que supor que tais princípios se manifestam sempre e sem nenhuma peia. O que há no espírito humano é [[lexico:e:evidencia|evidência]] das “[[lexico:v:verdades-eternas|verdades eternas]]”. “[[lexico:i:inato|inato]]” não significa, portanto, para Leibniz, “o que efetivamente se sabe”, mas ”o que se reconhece como evidente”. Por isso é preciso distinguir entre “os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] como [[lexico:a:acoes|ações]]” e “conhecimentos ou verdades como disposições”. Enquanto em Locke se trata de “disposições para conhecer verdades”, em Leibniz trata-se, conforme apontamos, de “verdades como disposições”. Assim, Locke põe a tônica na [[lexico:f:faculdade|faculdade]] e Leibniz põe-na sobre a [[lexico:v:verdade|verdade]]. Embora se possa dizer, portanto, que em geral os racionalistas eram inatistas e os empiristas, se exceptuarmos [[lexico:b:berkeley|Berkeley]], eram anti-inatistas, as diferenças não consistiam tanto no que os autores diziam como no [[lexico:m:modo|modo]] de dizê-lo, ou se se preferir, no [[lexico:t:tipo|tipo]] de prova aduzido para demonstrar ou reforçar as suas respectivas posições. (in. Innatism; fr. Innatisme, al. Nativismus; it. Innatismó). Doutrina segundo a qual no [[lexico:h:homem|homem]] existem conhecimentos ou princípios práticos inatos, ou seja, não adquiridos com a [[lexico:e:experiencia|experiência]] ou pela experiência e anteriores a ela. O [[lexico:m:modelo|modelo]] de todo inatismo é a doutrina platônica da [[lexico:a:anamnese|anamnese]] : "Como a alma é imortal e nasceu muitas vezes e viu todas as [[lexico:c:coisas|coisas]], tanto aqui como no [[lexico:h:hades|Hades]], nada há que ela não tenha aprendido: de modo que não espanta o [[lexico:f:fato|fato]] de que possa recordar, seja em [[lexico:r:relacao|relação]] à [[lexico:v:virtude|virtude]], seja em relação a outras coisas, o que antes sabia" (Men., 81 c). Mas a [[lexico:f:forma|forma]] com que o inatismo passou para a [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica foi dada pelos estoicos. Estes admitiam como [[lexico:c:criterio|critério]] da verdade, ao lado da [[lexico:r:representacao|representação]] [[lexico:c:cataleptica|cataléptica]], a [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], que é "a [[lexico:n:nocao|noção]] [[lexico:n:natural|natural]] do [[lexico:u:universal|universal]]" (Dióg. L., VII, 54). Cícero assim expunha o ponto de vista estoico: "A [[lexico:n:natureza|natureza]] deu-nos minúsculas centelhas, e nós, cedo estragados por maus [[lexico:c:costumes|costumes]] e por falsas opiniões, apagamo-las todas, de tal modo que fazemos desaparecer a [[lexico:l:luz|luz]] da natureza. Na verdade, em nossa índole, são inatas as [[lexico:s:sementes|sementes]] da virtude, e se lhes fosse [[lexico:p:possivel|possível]] desenvolver-se, a própria natureza nos guiaria para uma [[lexico:v:vida|vida]] feliz" (Tusc, III, 1, 2). Essa [[lexico:e:especie|espécie]] de inatismo vincula-se à teoria do [[lexico:i:instinto|instinto]] , própria dos estoicos, que é retomada por doutrinas cuja [[lexico:i:intencao|intenção]] é proteger da [[lexico:d:duvida|dúvida]] certas crenças fundamentais de natureza teórica ou prática. Nesse sentido, o inatismo foi retomado pelo platonismo renascentista, cuja continuação pode ser vista no platonismo inglês do séc. XVII, contra cujas teses fundamentais se dirige a [[lexico:c:critica|crítica]] do primeiro livro do Ensaio de Locke. O inatismo é depois retomado na Inglaterra, no século seguinte pela [[lexico:e:escola-escocesa|escola escocesa]] do [[lexico:s:senso-comum|senso comum]] , ou seja, por Reid e Dügald [[lexico:s:stewart|Stewart]]. Mas já Descartes e Leibniz tinham [[lexico:d:dado|dado]] ao inatismo um [[lexico:s:significado|significado]] novo. Para Descartes algumas ideias são inatas como "[[lexico:c:capacidade|capacidade]] de pensar e de [[lexico:c:compreender|compreender]] as [[lexico:e:essencias|essências]] verdadeiras, imutáveis e eternas das coisas" (Méd., III; Lettre à [[lexico:m:mersenne|Mersenne]], 16-VI-1641, OEuvr., III, 383). E Leibniz, de modo [[lexico:s:semelhante|semelhante]], considerava inatas as verdades que se revelam imediatamente como tais à [[lexico:l:luz-natural|luz natural]], sem [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de outra [[lexico:v:verificacao|verificação]] (Nouv. ess., I, 1, 21). Neste sentido, o inatismo não era mais uma espécie de escultura que a alma traz consigo ao nascer, segundo a [[lexico:i:imagem|imagem]] que Cícero empregara (De nat. deor., II, 4, 12). Ao velho adágio escolástico, "Nihil est in intellectu, [[lexico:q:quod|quod]] prius non fuerit in sensu", Leibniz acrescentava a [[lexico:r:restricao|restrição]] "nisi ipse intellectus", entendendo dizer com isso que a alma dispõe, por sua conta, de [[lexico:c:categorias|categorias]] como o ser, a [[lexico:s:substancia|substância]], o [[lexico:u:uno|uno]], o mesmo, a causa, a [[lexico:p:percepcao|percepção]], o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]], etc, que os sentidos não poderiam fornecer-lhe (Nouv. ess. II, 1, § 2). Não é grande a distância entre essa forma de inatismo e a doutrina kantiana (que, todavia, não se costuma designar com [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]]), segundo a qual as formas [[lexico:a:a-priori|a priori]] do conhecimento não derivam da experiência. O inatismo pertence, hoje, ao [[lexico:n:numero|número]] das doutrinas não mais discutidas, porque já não são mais discutidos os problemas cujas soluções elas constituiriam. Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], quando se admite que [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] precede a experiência (como, p. ex., o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] hegeliano), esse algo é um [[lexico:c:complexo|complexo]] de ideias ou de virtualidades, toda a [[lexico:r:razao|razão]] ou todo o espírito (cf. a Priori).