===== INAPTIDÃO ===== gr. κακόν ([[lexico:k:kakon:start|kakon]]): inaptidão, [[lexico:m:mal:start|mal]] No livro X da [[lexico:r:republica:start|República]] , [[lexico:p:platao:start|Platão]] procura focar a [[lexico:l:logica:start|lógica]] desta [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] que temos [[lexico:e:estado:start|Estado]] a tematizar. Esta passagem procura mostrar que há uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] de [[lexico:s:sentido:start|sentido]] relativamente à qual se podem experimentar três desenvolvimentos possíveis para cada [[lexico:e:ente:start|ente]] em [[lexico:g:geral:start|geral]]. Torna visível o [[lexico:m:modo:start|modo]] como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] uma provocação do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] da [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] (ἀρετή ) em geral e da excelência (ἀρετή) do [[lexico:h:humano:start|humano]] em [[lexico:p:particular:start|particular]], enquanto [[lexico:a:analise:start|análise]] da [[lexico:l:lucidez:start|lucidez]] humana (ψυχή ). É a identificação da estrutura aptidão-inaptidão (ἀγαθόν-κακόν ) no [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] da lucidez humana (ψυχή) o que nos dá a [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] fundamental. A análise [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] do facto de haver qualquer [[lexico:c:coisa:start|coisa]] a que chamamos o [[lexico:b:bem:start|Bem]] e qualquer coisa a que chamamos o mal [Rep., 608d13]. São qualquer coisa . Este nível elementar em que registamos a [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] e a [[lexico:p:presenca:start|presença]] maciça de qualquer coisa permite, no entanto, [[lexico:t:ter:start|ter]] em conta [Rep., 608e1] a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] que especifica (εἶδος ) o bem e o mal, isto é, que, a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] deles , sabemos como «[[lexico:t:todo:start|todo]] o mal é devastador e destrutivo, ao passo que o bem conserva e é vantajoso» [Rep., 608e3]. Importa, nessa conformidade, procurar [[lexico:v:ver:start|ver]] de que [[lexico:f:forma:start|forma]] se chega a diversas concretizações deste sentido, quando tomamos em consideração diversos entes, procedendo, como até aqui, no [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de obtenção da base fenomenal que nos permita um olhar claro sobre estes fenômenos. Cada ente na sua [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] experimenta um mal e um bem específicos [Rep., 608e6], isto é, cada ente tanto pode [[lexico:s:ser:start|ser]] impedido de realizar as suas potencialidades como pode vir a transformar-se maximamente naquilo que pode ser, ao cumpri-las, podendo ainda manter-se na [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] de indiferenciação relativamente àqueles limites. Há sempre uma e a mesma forma [[lexico:e:eidetica:start|eidética]] que se manifesta da mesma maneira, tanto na forma como constitui impedimento ao [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] das potencialidades do ente determinado que é, quanto como motor desse mesmo desenvolvimento. A forma (εἶδος) do impedimento e do desenvolvimento das capacidades subjaz a cada ente específico . De [[lexico:a:acordo:start|acordo]], portanto, com o que cada ente é em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] na sua [[lexico:e:essencia:start|essência]], assim também lhe assistem formas específicas de [[lexico:f:formacao:start|formação]] e desenvolvimento ou de deformação e [[lexico:d:destruicao:start|destruição]]. Esta passagem da República é de importância decisiva para a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do modo como Platão nos confronta com diversas formas de [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] da estrutura eidética da excelência (ἀρετή), ou mais concretamente dos conceitos-limite bem-mal (ἀγαθόν-κακόν). [[lexico:e:esse:start|esse]] confronto parte das diversas manifestações do mal (κακόν). É [[lexico:c:como-se:start|como se]] apenas a partir das mais diversas manifestações de deformação e de [[lexico:p:privacao:start|privação]] (στέρησις) se desse o [[lexico:u:unico:start|único]] modo de relevarmos e convocarmos a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] da excelência (ἀρετή) e, assim, o seu [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] de uma forma positiva . A excelência (ἀρετή) é analisada a partir do confronto com aquilo que de alguma forma a impede de se manifestar, como se a partir do seu [[lexico:c:cancelamento:start|cancelamento]] houvesse uma indicação para o que ela pode ser e para a possibilidade que pode dar. Um cancelamento que [[lexico:n:nao:start|não]] corresponde de modo algum à [[lexico:s:subtracao:start|subtração]] da possibilidade de registarmos uma determinada presença no horizonte, mas que antes se revela como uma presença compungente. O que não está disponível não deixa por isso de se manifestar. A «conjuntivite», a «[[lexico:d:doenca:start|doença]]», o «míldio», o «caruncho» e a «ferrugem» são manifestações de males específicos que nem por isso deixam de ser eficazes. Pela sua presença, não se vê, adoece-se, toda uma colheita de trigo é prejudicada, estraga-se uma mobília ou corrói-se o ferro. São fenômenos que estragam, danificam, fazem adoecer. Quer dizer, impedem determinados entes de se manterem na sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]], naquilo mesmo que são e podem ser. Cada forma de impedimento tem o seu [[lexico:c:campo:start|campo]] de [[lexico:a:acao:start|ação]] absoluta e claramente circunscrito. A conjuntivite e a doença não são males para cada coisa [Rep., 609e6], mas apenas para os olhos e para o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] [Rep., 609a1]. O mesmo se passando com as restantes formas de mal a que se aludiu. O míldio ataca o trigo, o caruncho as madeiras, a ferrugem o cobre e o ferro. Nenhuma destas formas de mal ataca outros entes fora do seu campo específico de ação. «Há para quase todos um mal congênere e uma doença.» [Rep., 609a3] Quer dizer, um mal é sempre um mal congênere (σύμφυτον κακόν) que só pode constituir e afetar como forma de impedimento a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de ser não de qualquer coisa mas de um ente específico. Há uma ligação fundamental entre cada ente e o seu mal congênere, de tal [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que não é todo e qualquer mal em geral que pode afetar os entes em geral. Ele só exerce o seu poder destrutivo e devastador sobre o ente relativamente ao qual é congênere. Só o mal congênere (τò σύμφυτον κακόν) é a forma de ruindade (πονηρία) capaz de desapropriar cada ente das suas propriedades . Quando uma destas formas de mal [Rep., 609a6] se abate , então traz dificuldades , acabando, no [[lexico:f:fim:start|fim]], por dissolver e devastar completamente [Rep., 609a7] o ente em que se implanta. Apesar da circunscrição de um mal ao seu campo específico de ação, o qual é impermeável de ente para ente, subsiste a possibilidade de se dar um alargamento no campo de ação de um determinado mal. Suponhamos o mal que afecta o trigo, o míldio ou a [[lexico:v:velhice:start|velhice]] e o apodrecimento. Esses males, em si, não podem afetar o corpo, deixando-o em más condições [Rep., 609e4]; no entanto, o mau estado específico do trigo pode [[lexico:p:provocar:start|provocar]] o mau estado que afecta em exclusivo o corpo [Rep., 609e]. O trigo estragado provoca o mal que é [[lexico:p:proprio:start|próprio]] do corpo, a doença. Ou seja, o corpo pode ser destruído por alimentos impróprios para consumo , na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que eles causam doença (νόσος). Mas não é por isso, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que dizemos que o corpo sofre de míldio. Tudo apenas pode ser destruído pela sua perversão específica [lbid. Tudo é destruído segundo a sua forma própria de perversão. Quer dizer, um mal alheio não pode destruir ou afetar um determinado ente (Rep., 610a3).]. [CaeiroArete:40-43] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}