===== IMPUTAÇÃO ===== [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] e acusação estão ligadas originariamente. Essa articulação é encontrada no século XVIII no par lockiano attribute-impute. Em [[lexico:l:locke|Locke]], a imputação é o elo [[lexico:e:essencial|essencial]] da construção da “[[lexico:r:relacao|relação]] entre a cons-ciousness, o self e a person enquanto “[[lexico:t:termo|termo]] judicial” — forensic term. Da atribuição à imputação, a transição é contínua. O [[lexico:a:atributivismo|atributivismo]] culmina em uma [[lexico:t:teoria|teoria]] da [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]] qua [[lexico:i:imputabilidade|imputabilidade]]. Na teoria lockiana, o self ou a [[lexico:p:pessoa|pessoa]] é aquele a [[lexico:q:quem|quem]] o [[lexico:h:homem|homem]] ou a [[lexico:c:consciencia|consciência]] atribui suas [[lexico:a:acoes|ações]], enquanto [[lexico:s:sujeito|sujeito]] de imputação [[lexico:p:possivel|possível]]; a imputação é uma atribuição de atos, efetuados “do interior”, que supõe a consciência (cons-ciousness), chamando a ela mesma ou a “si” os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] e as ações realizados. A [[lexico:n:nocao|noção]] de sujeito de imputação é historicamente posterior à de sujeito de atribuição, ainda que o [[lexico:s:sentido|sentido]] de κατεγορεῖν do qual ele procede seja anterior àquele de onde provém o sujeito de atribuição. O paralelismo das duas séries é evidente: κατεγορεῖν¹ ➔ acusar ➔ impute: sujeito² de imputação (homem individual, a pessoa, o Self), [[lexico:m:moral|moral]] κατεγορεῖν² ➔ atribuir ➔ attribute: sujeito¹ de atribuição (o homem, a [[lexico:a:alma|alma]], o [[lexico:e:espirito|espírito]], o [[lexico:c:corpo|corpo]]), [[lexico:p:psicologia|psicologia]] Mas é evidente que, de novo, a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] teológica da passagem de um sentido ao [[lexico:o:outro|outro]], ou melhor, o enraizamento teológico da [[lexico:m:mediacao|mediação]] que conduz de um ao outro sujeito [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:s:ser|ser]] subestimado. [[lexico:c:como-se|como se]] verá, de [[lexico:f:fato|fato]], a apropriação das ações (e de seu [[lexico:m:merito|mérito]] ou demérito) pela pessoa – [[lexico:a:alem|além]] de ser enunciada em uma [[lexico:l:linguagem|linguagem]] que é a que a [[lexico:t:teologia|teologia]] trinitária utiliza – cruza inúmeras vezes o [[lexico:c:campo|campo]] da teologia. No que se refere ao papel da imputação na [[lexico:d:definicao|definição]] da [[lexico:p:personalidade|personalidade]], o Ensaio diz de maneira clara: É unicamente pela consciência que essa personalidade se estende ela mesma ao passado para além da [[lexico:e:existencia|existência]] presente: por onde se torna preocupada e responsável por atos passados, confessa-os e imputa-os, à si mesma, ao mesmo título e pelo mesmo [[lexico:m:motivo|motivo]] que os atos presentes. Tudo isso repousa sobre o fato de que uma [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] com sua própria [[lexico:f:felicidade|felicidade]] acompanha invariavelmente a consciência, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:c:consciente|consciente]] do [[lexico:p:prazer|prazer]] e da [[lexico:d:dor|dor]] desejando sempre também a felicidade que precisamente é consciente. É por isso que, se não pudesse, pela consciência, confiar ou apropriar para [[lexico:e:esse|esse]] si [[lexico:a:atual|atual]] atos do passado, ele não poderia mais se preocupar com eles a não ser que jamais tivessem sido realizados [...] [J. Locke, Essai philosophique concernant l’entendement humain, II, XXVII, § 26, trad. Balibar, em John Locke, Identité et différence: L’invention de la conscience, apres., trad. e com. E. Balibar; para a tradução Coste, cf. idem, p. 129 (principalmente: “A personalidade não se estende para além da existência presente, até o que é passado, a não ser por meio da cons-ciência, que faz com que a pessoa tenha interesse por ações passadas, se torne responsável por elas, as reconheça como suas, e as impute a si com base no mesmo fundamento e pela mesma razão que se atribui as ações presentes”), e, aqui mesmo, p. 443.]. O que P. [[lexico:r:ricoeur|Ricoeur]], após [[lexico:s:scheler|Scheler]], chama de imputabilidade inscreve-se sem dificuldade, portanto, na arqueologia do sujeito. A consciência lockiana é um operador que, como se procurará mostrar, tem como [[lexico:f:funcao|função]] transformar o sujeito de atribuição em sujeito de imputação, ou, mais exatamente, prolongá-lo a [[lexico:p:parte|parte]] ante do presente ao passado, para assegurar sua responsabilidade . Em A [[lexico:m:memoria|Memória]], a [[lexico:h:historia|História]], o [[lexico:e:esquecimento|esquecimento]], P. Ricoeur liga estreitamente o que ele chama de o “[[lexico:c:coracao|coração]] da [[lexico:i:ipseidade|ipseidade]]” e o “foco da imputabilidade”. É uma boa maneira de [[lexico:v:ver|ver]] um dos aspectos centrais na definição do sujeito [[lexico:m:moderno|moderno]]: uma melhor ainda seria analisar mais em detalhe como Locke entrelaçou para toda a [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] o si, o sujeito e pessoa, sujeito [[lexico:d:dito|dito]] “[[lexico:p:psicologico|psicológico]]” e sujeito dito “moral”. É o que se procurará fazer no quadro arqueológico. Essa [[lexico:t:tarefa|tarefa]] exige reinscrever Locke no [[lexico:h:horizonte|horizonte]] da [[lexico:h:historia-da-teologia|história da teologia]], inclusive o da teologia trinitária. [LiberaAS:117-120] [[lexico:n:nota|nota]]: Em “De la morale à l’éthique et aux éthiques”, falando da “[[lexico:v:vontade|vontade]] boa”, onde supostamente as morais respectivas da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] e da Modernidade se comunicam, Ricoeur põe o [[lexico:c:conceito|conceito]] de imputabilidade no primeiro [[lexico:p:plano|plano]]: “Que a moral dos Antigos e a dos Modernos possam se juntar, se reconhecer e se saudar mutuamente no conceito, a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] não decorre mais nem da [[lexico:e:etica|ética]] nem da moral, mas de uma [[lexico:a:antropologia-filosofica|antropologia filosófica]] que faria da [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:c:capacidade|capacidade]] um de seus [[lexico:c:conceitos|conceitos]] diretivos. A [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] das capacidades, que, de minha parte, desenvolvo nos capítulos de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] como um Outro que precedem a ‘pequena ética’, prepara o terreno para essa capacidade propriamente ética, a imputabilidade, capacidade de se reconhecer como o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] autor de seus próprios atos. Ora, a imputabilidade pode ser associada alternadamente ao conceito [[lexico:g:grego|grego]] de preferência [[lexico:r:razoavel|razoável]] e ao conceito kantiano de [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] moral: é de fato do foco dessa capacidade que se lança o [[lexico:d:desejo|desejo]] ‘grego’ de [[lexico:v:viver|viver]] [[lexico:b:bem|Bem]] e que se cava o [[lexico:d:drama|drama]] ‘cristão’ da incapacidade de fazer o bem [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo sem uma aprovação vinda lá de cima e concedida à ‘[[lexico:c:coragem|coragem]] de ser’, outro [[lexico:n:nome|nome]] daquilo que foi [[lexico:c:chamado|chamado]] de [[lexico:d:disposicao|disposição]] para o bem e que é a própria alma da [[lexico:b:boa-vontade|boa vontade]]”. Sobre a controvérsia Ricoeur--Levinas a propósito da [[lexico:e:equacao|equação]] responsabilidade = imputabilidade, cf. P. Ricoeur, Autrement, Lecture d’Autrement qu’être ou au-delà de l’essence d’Emmanuel [[lexico:l:levinas|Levinas]] (espec. p. 26). [LiberaAs:119-120]