===== IMORTALIDADE DA ALMA ===== Na segunda ([[lexico:m:meditacao:start|meditação]]), o [[lexico:e:espirito:start|espírito]], que fazendo [[lexico:u:uso:start|uso]] de sua própria [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]], supõe que nenhuma das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] de cuja [[lexico:e:existencia:start|existência]] [[lexico:n:nao:start|não]] tem a menor [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], existe, reconhece que é absolutamente [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], no entanto, que ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]] não exista. O que também se torna muito [[lexico:u:util:start|útil]], porquanto, desta maneira, o espírito distingue facilmente o que lhe pertence, isto é, o que pertence à [[lexico:n:natureza:start|natureza]] intelectual, do que pertence ao [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. Mas como pode acontecer que haja [[lexico:q:quem:start|quem]] espere que neste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] [[lexico:e:eu:start|eu]] exponha algumas razões para provar a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]], creio que devo advertir-lhe que, tendo procurado [[lexico:n:nada:start|nada]] escrever neste tratado sem possuir demonstrações muito exatas para isso, vi-me obrigado a seguir uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] à que seguem os geômetras, e que consiste em expor primeiro tudo aquilo de que depende a [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] procurada, antes de tirar qualquer conclusão. Ora, o que primeiro e principalmente se necessita para conhecer [[lexico:b:bem:start|Bem]] a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] da [[lexico:a:alma:start|alma]], é formar desta um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] claro e preciso, inteiramente distinto das concepções todas que podemos [[lexico:t:ter:start|ter]] do corpo; foi isto o que se fez. aqui. [[lexico:a:alem:start|Além]], disso se requer [[lexico:s:saber:start|saber]] que todas as coisas que concebemos clara e distintamente são verdadeiras, do [[lexico:m:modo:start|modo]] como as concebemos; [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que não se pode provar até a quarta meditação. Faz [[lexico:f:falta:start|falta]] ainda ter uma concepção diversa da natureza corporal, concepção que se [[lexico:f:forma:start|forma]], [[lexico:p:parte:start|parte]] nesta segunda e parte na quinta e sexta meditações. E por [[lexico:u:ultimo:start|último]], de tudo isto se deve concluir que as coisas que concebemos clara e distintamente como [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] diversas, v. gr., o espírito e o corpo, são.com [[lexico:e:efeito:start|efeito]] substâncias realmente distintas umas de outras, o que se vê na sexta meditação; e isto se confirma também nesta mesma meditação, porque não concebemos corpo algum que não seja divisível, ao passo que o espírito ou a alma do [[lexico:h:homem:start|homem]] não se pode conceber senão indivisível; pois, efetivamente, não podemos conceber meia alma, coisa que podemos fazer com o menor dos corpos; de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que se conhece que ambas as naturezas não só São diversas como até contrárias em certo [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. E se tratei só por alto, no presente [[lexico:e:escrito:start|escrito]], esta [[lexico:m:materia:start|matéria]], foi porque é suficiente para mostrar claramente que da [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] do corpo não se segue a [[lexico:m:morte:start|morte]] da alma, e dar assim ao homem a [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] de outra [[lexico:v:vida:start|vida]] depois da morte; e também porque as premissas de que se pode deduzir a imortalidade da alma dependem da [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] de toda a [[lexico:f:fisica:start|física]]: primeiro, para saber que, em [[lexico:g:geral:start|geral]], todas as substâncias, isto é, todas as coisas que não podem [[lexico:e:existir:start|existir]] sem serem criadas por [[lexico:d:deus:start|Deus]], são por natureza incorruptíveis e nunca podem cessar de [[lexico:s:ser:start|ser]], desde que Deus não as reduza a nada, negando-lhes seu concurso; e também para advertir que o corpo, tomado em geral, é uma [[lexico:s:substancia:start|substância]], pelo que também perece; porém que o corpo [[lexico:h:humano:start|humano]], visto ser diferentes dos outros corpos, está [[lexico:c:composto:start|composto]] de certa configuração de membros e outros acidentes semelhantes, ao passo que a alma humana não está composta de acidentes e é uma substância pura. Pois mesmo estando todos seus acidentes sujeitos a [[lexico:m:mudanca:start|mudança]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], concebendo certas coisas, querendo outras e sentindo outras, etc., a alma no entanto não muda; o corpo humano, pelo contrário, se torna uma coisa distinta apenas pela mudança da [[lexico:f:figura:start|figura]] de alguma de suas partes, de onde se segue que o corpo humano pode bem facilmente perecer, mas o espírito ou alma do homem (não os distingo) é imortal por natureza. ([[lexico:d:descartes:start|Descartes]] - Meditationes de prima [[lexico:p:philosophia:start|philosophia]], Resumen.) O primeiro [[lexico:p:postulado:start|postulado]] com que [[lexico:k:kant:start|Kant]] inaugura a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], extraindo-a da [[lexico:e:etica:start|ética]], é [[lexico:e:esse:start|esse]] postulado da liberdade (v. [[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]]). E uma vez que, por [[lexico:m:meio:start|meio]] desse postulado da Liberdade, pusemos pé nesse [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] de coisas "em si" que está além do mundo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], num [[lexico:p:plano:start|plano]] ulterior ao mundo sensível dos fenômenos, podemos prosseguir! nossa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] de postulação, e encontramos imediatamente o segundo postulado da [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]], que é o postulado da imortalidade. Se a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] humana é livre, se a vontade humana nos permite penetrar nesse mundo inteligível, isto nos ensina que esse mundo inteligível não está [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] às formas de [[lexico:e:espaco:start|espaço]], de [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e [[lexico:c:categorias:start|categorias]]. Isto já é suficiente. Se nosso eu, como [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] [[lexico:m:moral:start|moral]], não está sujeito ao espaço, tempo e categorias, não tem sentido para ele [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma vida mais ou menos longa ou mais ou menos curta. O tempo não existe aqui; o tempo é uma forma aplicável a fenômenos. aplicável a objetos a conhecer, a esses objetos que estão esperando aí, com seu ser, que eu atinja esse ser pelos meios metódicos da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]. Porém a alma humana, a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] humana moral, a vontade livre, é alheia ao espaço e ao tempo. De outra parte, essa liberdade da vontade, concebe-a Kant de duas maneiras: da maneira metafísica que acabo de [[lexico:e:explicar:start|explicar]], e de outra maneira que é, por assim dizer, histórica. No decurso de nossa própria vida, nesse mundo sensível dos fenômenos, cada uma de nossas [[lexico:a:acoes:start|ações]] pode, com efeito, e deve ser considerada de dois pontos de vista distintos. Considerada como um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] que se efetua no mundo, tem suas [[lexico:c:causas:start|causas]] e está integralmente determinada. Mas considerada como a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] de uma vontade, não cai sob o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da [[lexico:c:causa:start|causa]] e da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]], mas sob o aspecto do [[lexico:d:dever:start|dever]]. Então, sob o aspecto do moral ou imoral, dentro de nossa vida concreta, no mundo dos fenômenos, para que cumpra integralmente a [[lexico:l:lei-moral:start|lei moral]] é preciso que cada vez mais, de um modo progressivo, como quem se aproxima de um [[lexico:i:ideal:start|ideal]] da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]], o domínio da vontade livre sobre a vontade psicológica e determinada seja cada vez mais íntegro e completo. Se o homem pudesse, por quaisquer meios, da [[lexico:e:educacao:start|educação]], da [[lexico:p:pedagogia:start|pedagogia]], ou como for, purificar cada vez mais sua vontade no sentido de que essa vontade pura e livre dependesse só da [[lexico:l:lei:start|lei]] moral; se o homem tomasse consciência dessa tarefa cada vez mais, sujeitando e dominando a vontade psicológica empiricamente determinada, teríamos realizado um ideal, teríamos um ideal cumprido. Ter-se-ia cumprido o ideal daquilo que Kant chama a "[[lexico:s:santidade:start|santidade]]". Kant chama [[lexico:s:santo:start|santo]] a um homem que dominou por completo, aqui, na [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], toda determinação moral oriunda dos fenômenos concretos, físicos, fisiológicos, psicológicos para sujeitá-los à lei moral. Mas a isto que Kant chama santidade não se lhe pode conceder [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:r:realidade:start|realidade]] que a realidade ideal. Mas se esta realidade ideal é o [[lexico:u:unico:start|único]] tipo de realidade que pode se lhe conceder neste mundo [[lexico:f:fenomenico:start|fenomênico]], em troca, nesse outro mundo metafísico das coisas "em si mesmas" — para as quais nos oferece uma leve e ligeira abertura o postulado da liberdade — nesse outro mundo, esse ideal se realiza. Isto é tudo quanto contém nossa [[lexico:c:crenca:start|crença]] inabalável na imortalidade da alma. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}