===== IDEALISMO ===== VIDE idealismo (in. Idealism; fr. Idéalisme; al. Idealismus; it. Idealismo). Este [[lexico:t:termo|termo]] foi introduzido na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] filosófica em meados do séc. XVII, inicialmente com [[lexico:r:referencia|referência]] à doutrina platônica das [[lexico:i:ideias|ideias]]. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] diz: "O que há de [[lexico:b:bom|Bom]] nas [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] de [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] e de [[lexico:p:platao|Platão]], dos maiores materialistas e dos maiores idealistas, reúne-se aqui (na doutrina da [[lexico:h:harmonia-preestabelecida|harmonia preestabelecida]])" (Op., ed. Erdmann, p. 186). Contudo, [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:s:significado|significado]] do termo, que por vezes é indicado como "idealismo metafísico", no [[lexico:s:sentido|sentido]] de [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:h:hipotese|hipótese]] acerca da [[lexico:n:natureza|natureza]] da [[lexico:r:realidade|realidade]] (que consiste em afirmar o [[lexico:c:carater|caráter]] espiritual da própria realidade) [[lexico:n:nao|não]] teve longa [[lexico:v:vida|vida]]. Essa [[lexico:p:palavra|palavra]] foi usada principalmente nos dois significados seguintes: 1) idealismo gnosiológico ou epistemológico, por várias correntes da [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea. 2) idealismo romântico, que é uma corrente [[lexico:b:bem|Bem]] determinada da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:m:moderna|moderna]] e contemporânea. 1) No sentido gnosiológico (ou epistemológico) esse termo foi empregado pela primeira vez por [[lexico:w:wolff|Wolff]]: "Denomina-se idealista [[lexico:q:quem|quem]] admite que os corpos têm somente [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:i:ideal|ideal]] em nosso [[lexico:e:espirito|espírito]], negando assim a existência [[lexico:r:real|real]] dos próprios corpos e do [[lexico:m:mundo|mundo]]" (Psychol. rationalis, § 36). No mesmo sentido, Baumgartem diz: "Aquele que admite neste mundo somente [[lexico:e:espiritos|espíritos]] é um idealista" (Met., § 402). [[lexico:k:kant|Kant]] introduziu definitivamente em filosofia esse significado do termo: "idealismo é a [[lexico:t:teoria|teoria]] que declara que os objetos existem fora do [[lexico:e:espaco|espaço]] ou simplesmente que sua existência é duvidosa e [[lexico:i:indemonstravel|indemonstrável]], ou falsa e [[lexico:i:impossivel|impossível]]; o primeiro é o idealismo [[lexico:p:problematico|problemático]] de [[lexico:d:descartes|Descartes]], que declara indubitável somente uma [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] (assertio) empírica, ‘[[lexico:e:eu|eu]] sou’, o segundo é o idealismo dogmático de [[lexico:b:berkeley|Berkeley]], que considera o espaço, com todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] a que ele adere como [[lexico:c:condicao|condição]] imprescindível, como algo em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] impossível e declara por isso que as coisas no espaço são [[lexico:s:simples|simples]] imaginações" (Crít. R. Pura, [[lexico:a:analitica|Analítica]] dos [[lexico:p:principios|princípios]], [[lexico:r:refutacao|refutação]] do idealismo). Kant denomina esse idealismo de material, para distingui-lo do [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]] ou [[lexico:f:formal|formal]] (Prol, § 49), que é a sua própria doutrina da "[[lexico:i:idealidade|idealidade]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]]" do espaço, do [[lexico:t:tempo|tempo]] e das [[lexico:c:categorias|categorias]]; essa doutrina permite justificar o [[lexico:r:realismo|realismo]] e refutar o idealismo. Mas, apesar dessa tomada de [[lexico:p:posicao|posição]] (mais explícita na segunda edição da [[lexico:c:critica|Crítica]] do que na primeira, na qual [[lexico:f:falta|falta]] a "Refutação"), a doutrina kantiana já esteve voltada para um significado idealista, sobretudo graças à [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] feita por [[lexico:r:reinhold|Reinhold]], em Letras sobre a filosofia kantiana (1786-87); segundo este [[lexico:u:ultimo|último]], o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], ou seja, o [[lexico:o:objeto|objeto]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:e:empirico|empírico]], como [[lexico:r:representacao|representação]]. [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]] acreditava expressar a [[lexico:e:essencia|essência]] do [[lexico:k:kantismo|kantismo]] ao iniciar sua [[lexico:o:obra|obra]] O [[lexico:m:mundo-como-vontade-e-representacao|Mundo Como Vontade e Representação]] (1819) com a [[lexico:t:tese|tese]]: "O mundo é a minha representação." Esta tese, aceita como um [[lexico:p:principio|princípio]] evidente do idealismo romântico, foi compartilhada na filosofia moderna e contemporânea, não só pelas formas desse idealismo como também pelas várias correntes do [[lexico:c:criticismo|criticismo]] e por algumas correntes do [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]]. São idealistas, neste sentido, as doutrinas de [[lexico:r:renouvier|Renouvier]], [[lexico:c:cohen|Cohen]], [[lexico:n:natorp|Natorp]], [[lexico:w:windelband|Windelband]], [[lexico:r:rickert|Rickert]], assim como as de Lotze, Eduard [[lexico:h:hartmann|Hartmann]], Ravaisson, [[lexico:h:hamelin|Hamelin]], Martinetti e outros: pensadores que, mesmo se opondo ao idealismo romântico, têm em comum com ele o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] gnosiológico fundamental: a [[lexico:r:reducao|redução]] do objeto de conhecimento a representação ou [[lexico:i:ideia|ideia]]. 2) No segundo sentido, o idealismo constitui o [[lexico:n:nome|nome]] da grande corrente filosófica romântica que se originou na Alemanha no período [[lexico:p:pos-kantiano|pós-kantiano]] e que teve numerosas ramificações na filosofia moderna e contemporânea de todos os países. Por seus próprios fundadores, [[lexico:f:fichte|Fichte]] e [[lexico:s:schelling|Schelling]], esse idealismo foi denominado "transcendental", "[[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]" ou "[[lexico:a:absoluto|absoluto]]". O [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] transcendental tende a ligá-lo ao [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista kantiano, que fizera do "eu penso" o princípio fundamental do conhecimento. A qualificação subjetivo tende a contrapor esse idealismo ao ponto de vista de [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], que reduzira toda a realidade a um [[lexico:u:unico|único]] princípio, a [[lexico:s:substancia|Substância]], mas entendera a própria substância como objeto. Por [[lexico:f:fim|fim]], o adjetivo absoluto tem por [[lexico:f:finalidade|finalidade]] frisar a tese de que o Eu ou Espírito é o princípio único de tudo, e que fora dele não existe [[lexico:n:nada|nada]]. Schelling diz, ao traçar a [[lexico:g:genese|gênese]] histórica do idealismo romântico: "Fichte libertou o eu dos revestimentos que em [[lexico:p:parte|parte]] ainda o obscureciam em Kant, e colocou-o como único princípio à testa da filosofia; tornou-se assim o criador do idealismo transcendental... O idealismo de Fichte é o oposto [[lexico:p:perfeito|perfeito]] do [[lexico:e:espinosismo|espinosismo]] ou um espinosismo invertido, pois Fichte opôs ao objeto absoluto de Spinoza, que aniquilava qualquer [[lexico:s:sujeito|sujeito]], o Sujeito em sua absolutidade, o [[lexico:a:ato|ato]] ao ser absolutamente imóvel de Spinoza; para Fichte, o eu não é, como para Descartes, um eu admitido só com o [[lexico:o:objetivo|objetivo]] de poder filosofar, mas é o eu real, o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] princípio, o prius absoluto de tudo" (Münchener Vorlesungen: zur [[lexico:g:geschichte|Geschichte]] der neueren Philosophie, 1834, Kant, Fichte; trad. it., pp. 108-09). [[lexico:h:hegel|Hegel]], que também chama de subjetivo ou absoluto o seu idealismo, esclarece seu princípio desta [[lexico:f:forma|forma]]: "A [[lexico:p:proposicao|proposição]] de que o [[lexico:f:finito|finito]] é o ideal constitui o idealismo. O idealismo da filosofia consiste apenas nisto: em não reconhecer o finito como verdadeiro ser. Toda filosofia é essencialmente idealismo, ou pelo menos tem o idealismo como princípio; trata-se apenas de [[lexico:s:saber|saber]] até que ponto esse princípio está efetivamente realizado. A filosofia é idealismo tanto quanto [[lexico:r:religiao|religião]]" (Wissenschaft der Logik, I, seç. I, cap. III, [[lexico:n:nota|nota]] 2, trad. it., pp. 169-70). Também receberam os nomes de [[lexico:i:idealismo-subjetivo|idealismo subjetivo]] ou idealismo absoluto as derivações contemporâneas do idealismo romântico, que são substancialmente duas: a anglo-americana (Green, Bradley, McTaggart, Royce, etc.) e a italiana (Gentile, [[lexico:c:croce|Croce]]). Ambas as derivações mantiveram aquilo que, para Hegel, era a principal [[lexico:c:caracteristica|característica]] do idealismo: a não-realidade do finito e a sua resolução no [[lexico:i:infinito|infinito]]. Mas, enquanto o idealismo italiano seguiu mais de perto a corrente hegeliana, procurando estabelecer essa [[lexico:i:identidade|identidade]] por via positiva, mostrando na [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do finito, na sua intrínseca e necessária [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]], a [[lexico:p:presenca|presença]] e a realidade do infinito, o idealismo anglo-americano tratou de demonstrar a identidade por via negativa, mostrando que o finito, devido à sua intrínseca irracionalidade, não é real, ou é real na [[lexico:m:medida|medida]] em que revela e manifesta o infinito. O título de uma das obras fundamentais do idealismo inglês, [[lexico:a:aparencia|Aparência]] e realidade’(1893), de F. H. Bradley, revela já o [[lexico:t:tema|tema]] dominante do idealismo anglo-saxão, enquanto o título da obra fundamental de Gentile, Teoria do espírito como [[lexico:a:ato-puro|ato puro]] (1916), revela a inspiração fichteana e a trilha subjetivista do idealismo italiano. Quanto às principais características de todas as formas do idealismo romântico, v. absoluto; [[lexico:r:romantismo|Romantismo]].