===== IDEAL DO RACIONALISMO ===== Se consideramos o conjunto da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], podemos dizer que nela o [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] atinge seu mais alto cume. Depois do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] levado a [[lexico:e:efeito|efeito]] pelo [[lexico:p:pensamento|pensamento]] leibniziano, estabelece-se em toda a [[lexico:c:ciencia|ciência]] e em toda a filosofia europeia o império do racionalismo. A [[lexico:d:distincao|distinção]] feita por Leibniz entre [[lexico:v:verdades-de-razao|verdades de razão]] e [[lexico:v:verdades-de-fato|verdades de fato]] implica em que o [[lexico:i:ideal|ideal]] do [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] consiste em estruturar todos seus [[lexico:e:elementos|elementos]] como verdades de [[lexico:r:razao|razão]]. [[lexico:e:esse|esse]] ideal é um propósito do [[lexico:h:homem|homem]], cuja razão se põe à [[lexico:p:prova|prova]] na resolução de problemas científicos apresentados pela [[lexico:r:realidade|realidade]]. Mas a resolução destes problemas consiste primordialmente nisto: em que as comprovações de [[lexico:f:fato|fato]] acusadas pela [[lexico:e:experiencia|experiência]] se tornem verdades de razão, ou seja, juízos cujo [[lexico:f:fundamento|fundamento]] esteja demonstrado, extraído de outras verdades de razão mais profundas; e assim sucessivamente. O [[lexico:i:ideal-do-racionalismo|ideal do racionalismo]] consiste, pois, em que o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:h:humano|humano]] chegue a estruturar-se do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que o está a [[lexico:m:matematica|matemática]], que o está a [[lexico:g:geometria|geometria]], a [[lexico:a:algebra|álgebra]], a [[lexico:a:aritmetica|aritmética]], o [[lexico:c:calculo|cálculo]] diferencial e o cálculo integral. É este o [[lexico:m:momento|momento]] mais [[lexico:s:sublime|sublime]] da [[lexico:f:fisica|física]] matemática, é este o [[lexico:i:instante|instante]] em que todas as esperanças são permitidas ao homem e que estas esperanças parecem [[lexico:t:ter|ter]], de momento, já, uma realização tão extraordinária que se toca, por assim dizer, o instante em que o homem vai poder conseguir uma [[lexico:f:formula|fórmula]] matemática que compreenda na brevidade de seus termos o conjunto íntegro da [[lexico:n:natureza|natureza]]. Este racionalismo, que aspira a que [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:d:dado|dado]] se torne pura razão, este racionalismo encontra sua realização [[lexico:m:metafisica|metafísica]] na [[lexico:t:teoria|teoria]] das [[lexico:m:monadas|mônadas]]. Assim como os conhecimentos de fato hão de [[lexico:s:ser|ser]] problemas para se tornarem mais ou menos em breve verdades de razão, assim também o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] interno da [[lexico:m:monada|mônada]] que a leva de uma [[lexico:p:percepcao|percepção]] a outra, culmina no [[lexico:r:reflexo|reflexo]] que cada mônada é em si mesma de todo o [[lexico:u:universo|universo]]; e as hierarquias das mônadas atingem seu mais alto cume em [[lexico:d:deus|Deus]], para [[lexico:q:quem|quem]] toda percepção é [[lexico:a:apercepcao|apercepção]], toda [[lexico:i:ideia|ideia]] é ideia clara, e todo fato é ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] razão. Há, pois, no racionalismo de Leibniz uma metafísica espiritualista que é aquela que expus na lição anterior. Esta metafísica espiritualista nos representa o universo inteiro como constituído por pontos de [[lexico:s:substancia-espiritual|substância espiritual]] que chamamos mônadas. Quer dizer, que o universo inteiro apresenta diante de nós duas faces. Uma face, que é a dos objetos materiais, seus movimentos, suas combinações e as leis desses movimentos e combinações; uma face que poderíamos chamar, por conseguinte, fenomênica: a do [[lexico:m:mundo|mundo]] tal como o vemos, o percebemos e o sentimos. Porém, mais profundamente, do [[lexico:o:outro|outro]] lado desta face visível dos fenômenos, encontram-se as verdadeiras realidades, encontram-se as existências em si mesmas das mônadas. Tudo isto que aparece diante de nós como objetos extensos no [[lexico:e:espaco|espaço]], movendo-se uns com [[lexico:r:relacao|relação]] a outros, seguindo as leis conhecidas pela física, as leis do [[lexico:m:movimento|movimento]]; todos esses fenômenos que vemos, ouvimos e tocamos, [[lexico:n:nao|não]] são senão aspectos externos, [[lexico:i:ideias|ideias]] confusas de uma realidade profunda, a realidade dessas mônadas espirituais. Assim, na filosofia racionalista de Leibniz reaparece a teoria dos dois [[lexico:m:mundos|mundos]] que já vimos ao iniciar-se a [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]] com [[lexico:p:parmenides|Parmênides]]: um mundo [[lexico:f:fenomenico|fenomênico]] de aparências e um mundo em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] de [[lexico:s:substancias|substâncias]] reais, de substâncias que são [[lexico:c:coisas|coisas]] em si. Para Leibniz estas coisas "em si" são as mônadas. O que existe na [[lexico:v:verdade|verdade]] não é, como para [[lexico:d:descartes|Descartes]], o espaço mesmo; não são, como para os ingleses as vivências; mas são essas unidades espirituais que na simplicidade do seu [[lexico:p:proprio|próprio]] ser metafísico contêm a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] das percepções. Notamos, pois, aqui, que na metafísica de Leibniz o desenvolvimento da ideia idealista, o desenvolvimento da [[lexico:a:atitude|atitude]] idealista iniciada por Descartes não chegou ainda à sua terminação. Em Descartes encontramos ainda um resíduo do [[lexico:r:realismo|realismo]] aristotélico apesar da atitude inicial idealista. Esse resíduo estava na teoria das três substâncias. Nos ingleses encontramos uma curiosa e estranha [[lexico:t:transposicao|transposição]] do [[lexico:c:conceito|conceito]] aristotélico de [[lexico:c:coisa|coisa]] "em si", que em [[lexico:l:lugar|lugar]] de aplicar-se à [[lexico:s:substancia|substância]] se translada à [[lexico:v:vivencia|vivência]] mesma. E [[lexico:a:agora|agora]] aqui em Leibniz, encontramos também esse resíduo do realismo aristotélico na consideração da mônada como coisa em si mesma. A mônada não é [[lexico:o:objeto|objeto]] do conhecimento científico mas é algo que transcende do objeto do conhecimento científico e que existe em si e [[lexico:p:por-si|por si]], seja ou não conhecida por nós. Essa [[lexico:e:existencia|existência]] metafísica [[lexico:t:transcendente|transcendente]] da mônada, essa existência, essa "coisidade" em si mesma é o resíduo da metafísica realista aristotélica. **A [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de [[lexico:k:kant|Kant]].** A missão da filosofia que há de suceder à de Leibniz, a filosofia de Kant, vai consistir em dar plena terminação e remate ao movimento iniciado pela atitude idealista. A atitude idealista tinha posto o [[lexico:a:acento|acento]], a base de todo [[lexico:r:raciocinar|raciocinar]] filosófico, sobre a [[lexico:i:intuicao|intuição]] do [[lexico:e:eu|eu]], sobre a [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] nos são mais imediatamente conhecidos que os objetos dos pensamentos. Porém, o desenvolvimento dessa atitude idealista, o desenvolvimento das possibilidades contidas dentro dessa atitude idealista, tinha arrastado consigo constantemente um resíduo de realismo, porquanto todos estes filósofos, ainda que se situando na atitude idealista, não a levavam até seus últimos extremos, antes em algum momento de seu desenvolvimento detinham esse pensamento idealista e determinavam a existência transcendente, "em si", de algum [[lexico:e:elemento|elemento]] dos que tinham encontrado em seu [[lexico:c:caminho|caminho]]: ora o espaço, Deus, a [[lexico:a:alma-pensante|alma pensante]], ora as vivências mesmas como fatos; ora essas mônadas que dentro da realidade das coisas percebidas constituem uma autêntica e mais plena realidade. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]. Era [[lexico:n:necessario|necessário]], por [[lexico:d:dialetica|dialética]] histórica interna, que esse [[lexico:p:processo|processo]] iniciado por Descartes chegasse a seu término e seu remate. Era necessário que viesse um pensador capaz de dar [[lexico:f:fim|fim]], de concluir e rematar por completo as possibilidades contidas na atitude idealista. Este pensador foi Emanuel Kant. Emanuel Kant trata de terminar definitivamente — e essa é sua tarefa fundamental — com a ideia de ser em si. Kant vai esforçar-se para mostrar como, na relação do conhecimento, aquilo que chamamos ser, é não um ser "em si", mas um ser objeto, um ser "para" ser conhecido, um ser posto logicamente pelo [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante e cognoscente, como objeto de conhecimento, mas não "em si" nem por si, como uma realidade transcendente. Assim, pois, Kant encerra um período da [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]]. Encerra o período que começa com Descartes. E ao encerrar este período nos dá a formulação mais completa e perfeita do [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]]. Mas, de outra [[lexico:p:parte|parte]], Kant abre um novo período. Tendo estabelecido Kant um novo [[lexico:s:sentido-do-ser|sentido do ser]], que não é o ser "em si", mas o ser "para" o conhecimento, o ser no conhecimento, abre Kant um novo período para a filosofia, que é o período do desenvolvimento do [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] que chega até nossos dias. Ainda hoje existem pensadores como [[lexico:h:husserl|Husserl]], que chamam a seu próprio [[lexico:s:sistema|sistema]] idealismo transcendental. Kant se encontrava, quando veio ao mundo filosófico, por [[lexico:s:sorte|sorte]] e pelo [[lexico:g:genio|gênio]] de sua imensa [[lexico:c:capacidade|capacidade]] filosófica, situado no cruzamento de três grandes correntes ideológicas que sulcavam o século XVIII. Estas três grandes correntes filosóficas eram, de uma parte, o racionalismo de Leibniz, que acabamos de [[lexico:e:explicar|explicar]] nestas duas últimas lições; de outra parte o [[lexico:e:empirismo|empirismo]] de [[lexico:h:hume|Hume]], que explicamos anteriormente, e em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] lugar, a ciência positiva físico-matemática que Newton acabava de estabelecer. Na confluência dessas três grandes correntes situou-se Kant; e dessas três grandes correntes tirou os elementos fundamentais para poder estabelecer de um modo eficaz, de um modo [[lexico:c:concreto|concreto]], o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] e, em seguida, o problema da metafísica. Kant, pois, nessa encruzilhada representa o homem que tem na mão todos os fios da [[lexico:i:ideologia|ideologia]] do seu tempo. Até muito avançado em anos não chega Kant a perceber, a intuir claramente seu [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]]. Seu livro [[lexico:c:capital|capital]], o mais estudado, o mais comentado, o mais discutido de toda a [[lexico:l:literatura|literatura]] filosófica de todos os tempos, sua [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], escreveu-a quando já tinha cinquenta e sete anos. Até então tinha sido um excelente professor de filosofia; porém, seus ensinamentos da filosofia não se tinham destacado em [[lexico:n:nada|nada]] do ensinamento corrente naqueles tempos nas [[lexico:u:universidades|universidades]] alemãs. Nas Universidades alemãs dominava naquele tempo a filosofia de Leibniz na [[lexico:f:forma|forma]] escolar que lhe tinham dado os discípulos de Leibniz, dentre eles [[lexico:w:wolff|Wolff]], Baumgarten, Meier. E o ensinamento de Kant na Universidade de Königsberg limitava-se a ler e comentar em aula a metafísica de Baumgarten, a [[lexico:e:etica|ética]] do mesmo e a [[lexico:l:logica|lógica]] de Meier. Assim foi durante muito tempo um excelente professor que dava, lições na Universidade, um pouco de tudo, porque também ensinava matemática, [[lexico:a:alem|além]] de lógica e metafísica; também deu aulas de geografia física. Muito [[lexico:t:tarde|Tarde]] na sua [[lexico:v:vida|vida]], repito, chega a cristalizar-se nele o sistema filosófico mais estudado e mais discutido de todos quantos existem. Esse sistema filosófico está exposto numa [[lexico:m:multidao|multidão]] de livros, mas principalmente, na [[lexico:c:critica|Crítica]] da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]]. que publica aos cinquenta e sete anos; e depois, a partir da Crítica da Razão Pura, em outros, como [[lexico:c:critica-da-razao-pratica|Crítica da Razão Prática]], Crítica do [[lexico:j:juizo|Juízo]], A [[lexico:r:religiao|Religião]] Dentro dos Limites da Razão, e grande [[lexico:n:numero|número]] de livros que foi rapidamente publicando até o final de seus dias.