===== HISTORICIDADE ===== (in. Historicity; fr. Historicité, al. Geschichtlichkeit; it. Storicità). 1. O [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:s:ser|ser]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:h:historico|histórico]] ou de qualquer [[lexico:r:realidade|realidade]] histórica. 2. A [[lexico:e:existencia|existência]] de [[lexico:f:fato|fato]] no passado; neste [[lexico:s:sentido|sentido]] se diz, p. ex., "a historicidade de Jesus", para indicar que Jesus foi uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]] [[lexico:r:real|real]], [[lexico:n:nao|não]] um [[lexico:m:mito|mito]]. 3. A importância histórica que, às vezes, se atribui também a fatos presentes e contemporâneos. [[lexico:c:caracteristica|Característica]] do que é histórico. — O [[lexico:p:problema|problema]] metafísico da historicidade é [[lexico:s:saber|saber]] por que o [[lexico:h:homem|homem]] nasce, desenvolve-se e morre. [[lexico:b:bergson|Bergson]] o havia ligado ao problema da [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:u:universal|universal]], que se expande e cinde em indivíduos, como a vida de uma árvore expande-se nas folhas votadas a desaparecer em cada estação, desenvolvendo-se [[lexico:a:alem|além]] delas. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] o identificara ao problema da [[lexico:f:finitude|finitude]] do homem, e toda a sua [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] consiste em [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:c:conduta|conduta]] humana a partir de sua historicidade primitiva, do [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de uma existência passageira e votada à [[lexico:m:morte|morte]]. A [[lexico:o:objetivacao|objetivação]] da vida é a primeira característica da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do mundo histórico, devendo-se atentar para o fato de que o [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]] de [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] não é, como para [[lexico:h:hegel|Hegel]], a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de uma [[lexico:r:razao|Razão]] absoluta, mas é o [[lexico:p:produto|produto]] da [[lexico:a:atividade|atividade]] de homens históricos. Tudo saiu da atividade espiritual dos homens e, portanto, diz Dilthey, tudo é histórico. "Da [[lexico:d:distribuicao|distribuição]] das árvores em um parque à [[lexico:o:ordem|ordem]] das casas em uma rua, do [[lexico:i:instrumento|instrumento]] do trabalhador manual à [[lexico:s:sentenca|sentença]] em tribunal, tudo em torno de nós, a [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:m:momento|momento]], ocorre historicamente: aquilo que o espírito emite hoje da sua característica na própria manifestação de vida, amanhã, quando estiver adiante, será [[lexico:h:historia|história]]. Enquanto o [[lexico:t:tempo|tempo]] passa, nós estamos cercados pelas ruínas de Roma, por catedrais, por castelos. A história não é [[lexico:n:nada|nada]] de separado da vida, nada de distinto do presente por sua distância [[lexico:t:temporal|temporal]]". A segunda característica fundamental do mundo [[lexico:h:humano|humano]] é a que Diltley chama de "conexão [[lexico:d:dinamica|dinâmica]]", que se distingue da conexão causal da [[lexico:n:natureza|natureza]] enquanto produz valores e realiza objetivos. O [[lexico:i:individuo|indivíduo]], as instituições, as civilizações e as épocas históricas são conexões dinâmicas. E, como o indivíduo, da mesma [[lexico:f:forma|forma]] todo [[lexico:s:sistema|sistema]] de [[lexico:c:cultura|cultura]] e toda [[lexico:c:comunidade|comunidade]] tem o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] centro em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. E essa "[[lexico:a:autocentralidade|autocentralidade]]", intrínseca a toda [[lexico:u:unidade|unidade]] histórica, faz com que essas unidades históricas (os sistemas de cultura, os sistemas de organização [[lexico:s:social|social]], as épocas históricas) se caracterizam por [[lexico:h:horizonte|horizonte]] fechado, que torna as diversas histórias irredutíveis, tornando-as singularmente compreensíveis só sob a [[lexico:c:condicao|condição]] de que possamos compreender os valores e os objetivos particulares que as tipificam. O homem, conclui Dilthey, é um ser histórico. E históricos são todos os seus produtos culturais, inclusive a filosofia. É [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:v:verdade|verdade]] que, na história do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], Dilthey distingue três formas típicas de [[lexico:i:intuicao-do-mundo|intuição do mundo]] ou filosofias: 1) o primeiro [[lexico:t:tipo|tipo]] é o [[lexico:n:naturalismo|naturalismo]] materialista, que se baseia no [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:c:causa|causa]] ([[lexico:d:democrito|Demócrito]], Lucrécio, [[lexico:e:epicuro|Epicuro]], [[lexico:h:hobbes|Hobbes]], os [[lexico:e:enciclopedistas|enciclopedistas]], [[lexico:c:comte|Comte]]); 2) o segundo tipo é o [[lexico:i:idealismo-objetivo|idealismo objetivo]], para o qual toda a realidade é dominada por [[lexico:p:principio|princípio]] interior ([[lexico:h:heraclito|Heráclito]], os estoicos, [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], Shaftesbury, [[lexico:g:goethe|Goethe]], [[lexico:s:schelling|Schelling]], [[lexico:s:schleiermacher|Schleiermacher]], Hegel); 3) o [[lexico:t:terceiro|terceiro]] tipo é o [[lexico:i:idealismo-da-liberdade|idealismo da liberdade]], que distingue o espírito da natureza ([[lexico:p:platao|Platão]], a filosofia helenístico-romana, Cícero, a [[lexico:f:filosofia-crista|filosofia cristã]], [[lexico:k:kant|Kant]], [[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]]). Entretanto, segundo Dilthey, é ilegítima a pretensão da [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de apresentar [[lexico:e:explicacao|explicação]] absoluta e global da realidade. As metafísicas também são produtos históricos. E uma [[lexico:f:funcao|função]] do [[lexico:f:filosofo|filósofo]] [[lexico:c:consciente|consciente]] é a de dar vida a uma "filosofia da filosofia", entendida como exame crítico das possibilidades e dos limites da filosofia. E é assim que a razão histórica se transforma em [[lexico:c:critica|crítica]] "histórica" da razão. Não existem filosofias que valham sub specie aeternitatis: "não há valores que valham em todas as nações" e "sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] a [[lexico:r:relatividade|relatividade]] de todo [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] histórico está ligada ao fato de que ele é [[lexico:f:finito|finito]]". Mas, afirma Dilthey, o importante é que "a [[lexico:c:consciencia|consciência]] histórica da finitude de todo fenômeno histórico, de toda [[lexico:s:situacao|situação]] humana ou social, a consciência da relatividade de toda forma de [[lexico:f:fe|fé]], é o [[lexico:u:ultimo|último]] passo no sentido da [[lexico:l:libertacao|libertação]] do homem. Através dele, o homem alcança a [[lexico:s:soberania|soberania]] de atribuir a cada [[lexico:e:erlebnis|Erlebnis]] o seu conteúdo e de entregar-se a ele completamente, com franqueza, sem vínculo de nenhum [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]] ou [[lexico:r:religioso|religioso]]. A vida se liberta do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] conceituai e o espírito torna-se soberano diante das teias de aranha do pensamento dogmático". "Toda [[lexico:b:beleza|beleza]], toda [[lexico:s:santidade|santidade]], todo [[lexico:s:sacrificio|sacrifício]], revividos e interpretados, descerram perspectivas que revelam uma realidade. E, da mesma forma, atribuímos a tudo o que existe de mau, de temível e de feio em nós um [[lexico:l:lugar|lugar]] no mundo, urna realidade própria, que deve ser justificada na conexão do mundo: é algo sobre o qual não podemos nos iludir. E, diante da relatividade, faz-se valer a continuidade da [[lexico:f:forca-criadora|força criadora]] como o [[lexico:e:elemento|elemento]] histórico [[lexico:e:essencial|essencial]] (...). Como as letras de uma [[lexico:p:palavra|palavra]], a vida e a história têm sentido. E, como uma partícula ou uma conjugação, na vida e na história há momentos sintáticos que possuem [[lexico:s:significado|significado]] (...). Nós não atribuímos à vida nenhum sentido do mundo. Nós estamos abertos à [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de que o sentido e o significado surjam somente no homem e na história. Mas não no homem individual e sim no homem histórico. Porque o homem é um ser histórico (...)". Que significa então a [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]] da consciência? Retomamos a [[lexico:d:descricao|descrição]] das" [[lexico:c:coisas|coisas]] em si mesmas", isto é, a consciência do tempo. [[lexico:e:eu|eu]] me acho preso num [[lexico:c:campo|campo]] de presenças (este papel, esta mesa, esta manhã); este campo se prolonga em horizonte de retenções (tenha ainda "em [[lexico:m:maos|mãos]]" o início desta manhã) e se projeta em horizonte de protenções (esta manhã termina por uma refeição). Ora, estes horizontes são móveis: este momento que era presente e por conseguinte que não era colocado como tal, começa a perfilar-se no horizonte de meu campo de presenças; eu o apreendo como passado recente, eu não estou separado dele pois o reconheço. Depois ele se distancia ainda mais, eu não o apreendo imediatamente, necessito para tomá-lo em minhas mãos de uma nova espessura. [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] ([[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] da [[lexico:p:percepcao|Percepção]], A77) se inspira em [[lexico:h:husserl|Husserl]] (Zeibewuszfsein, 23) para o essencial do [[lexico:e:esquema|esquema]] abaixo, em que a linha horizontal exprime a [[lexico:s:serie|série]] dos [[lexico:a:agora|agora]], as linhas oblíquas os esboços desses mesmos agora vistos de um agora ulterior, as linhas verticais os esboços sucessivos de um agora. "O tempo não é uma linha, mas uma rede de intencionalidades." Quando de A passo para B, tenho nas mãos A através de A e assim por diante. Dir-se-á que o problema foi apenas afastado: tratava-se de [[lexico:e:explicar|explicar]] a unidade do fluxo das vivências; é preciso portanto estabelecer aqui a unidade vertical de A’ com A, depois de A" com A’ e A etc. Substitui-se a [[lexico:q:questao|questão]] da unidade de B com A pelo problema da unidade de A’ com A. É neste [[lexico:p:ponto|ponto]] que Merleau-Ponty, posteriormente a Husserl e Heidegger, estabelece uma [[lexico:d:distincao|distinção]] fundamental para nosso problema da consciência histórica: na lembrança propositada e na [[lexico:e:evocacao|evocação]] voluntária de um passado longínquo, verificam-se efetivamente sínteses de identificação que me permitem, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], dependurar esfa [[lexico:a:alegria|alegria]] em seu tempo de proveniência, isto é, localizá-la. Mas mesmo essa [[lexico:o:operacao|operação]] intelectual, que é a do historiador, pressupõe uma unidade [[lexico:n:natural|natural]] e primordial pela qual é o próprio A que atinjo em A’. Dir-se-á que A é alterado por A" e que a [[lexico:m:memoria|memória]] transforma aquilo de que ela é memória, [[lexico:p:proposicao|proposição]] banal em [[lexico:p:psicologia|psicologia]]. A isto Husserl responde que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]], básico no [[lexico:h:historicismo|historicismo]], nega-se a si mesmo como ceticismo, pois o sentido da [[lexico:a:alteracao|alteração]] implica que se sabe de alguma maneira o que íoi alterado, isto é, A em pessoa. Há, portanto, como que uma [[lexico:s:sintese-passiva|síntese passiva]] de A com seus esquemas, supondo-se que esse [[lexico:t:termo|termo]] não explica a unidade temporal, mas permite colocar o problema corretamente. É preciso ainda notar que quando B se torna C, B se torna também B’ e que simultaneamente A já caído em A’ cai em A". Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], todo o meu tempo se move. O isto vindouro, que eu só podia [[lexico:a:apreender|apreender]] através dos esquemas opacos, acaba vindo a mim em pessoa, C2 "desce" em C1, depois dá-se em C no meu campo de [[lexico:p:presenca|presença]] e como eu medito sobre tal presença C já se esboça para mim como "não mais" na [[lexico:m:medida|medida]] em que já minha presença está em D. Ora, se a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] é dada de uma vez, isto significa que não existe problema [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] de unificação posterior à série das vivências. Heidegger mostra que essa forma de colocar o problema ([[lexico:s:sintese|síntese]] [[lexico:a:a-posteriori|a posteriori]] de uma [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] de. estados) caracteriza a existência, que é existência "perdida no Se". A realidade humana ([[lexico:d:dasein|Dasein]]), diz ele, não se perde de maneira a [[lexico:d:dever|dever]] recolher-se de algum modo posteriormente, fora da [[lexico:d:distracao|distração]], nem de maneira a dever inventar de cada peça uma unidade que forme [[lexico:c:coerencia|coerência]] e que abranja" (Sein und Zeit, loa cif., 198). "A temporalidade, escreve adiante, se temporaliza como [[lexico:f:futuro|futuro]] que vai ao passado vindo para o presente" (citado por Merleau-Ponty, 481). Não há [[lexico:n:necessidade|necessidade]] pois de explicar a unidade do tempo interior; cada agora retoma a presença de um "não mais" que ele impele para o passado e antecipa a presença de um "ainda não" que para lá o impelirá; o presente não é fechado, ele se transcende em direção a um futuro e em direção a um passado, meu agora não é nunca, como diz Heidegger, uma in-sistência, um ser contido num mundo, mas uma ex-sistência ou ainda uma [[lexico:e:ek-stase|ek-stase]] e é finalmente pelo fato de eu não ser uma [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] aberta que eu sou uma temporalidade. Antes de passar para o problema da [[lexico:c:ciencia-historica|ciência histórica]], impõe-se uma [[lexico:o:observacao|observação]] sobre essa proposição: significaria que o tempo é [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]], e que não há tempo objetivo? Pode-se responder sim e não simultaneamente a essa [[lexico:i:indagacao|indagação]]: sim o tempo é subjetivo, porque o tempo tem um sentido e se o tem é porque nós somos tempo, assim como o mundo só tem sentido para nós porque somos mundo por nosso [[lexico:c:corpo|corpo]] etc.; e esta é exatamente uma das principais lições da fenomenologia. Mas, simultaneamente, o tempo é objetivo já que nós o constituímos apenas pelo [[lexico:a:ato|ato]] de um pensamento que, por sua vez, seria isento dele; o tempo, assim como o mundo, é sempre um já para a consciência, [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual o tempo, tal como o mundo, não é transparente para nós; como precisamos explorá-lo, temos de "percorrer" o tempo, isto é, desenvolver nossa temporalidade desenvolvendo-nos a nós mesmos: não somos subjetividades fechadas sobre si mesmas, cuja [[lexico:e:essencia|essência]] seria definida ou definível [[lexico:a:a-priori|a priori]], em [[lexico:s:suma|suma]], [[lexico:m:monadas|mônadas]] para as quais o futuro seria um [[lexico:a:acidente|acidente]] monstruoso e inexplicável; mas tornamo-nos aquilo que somos e somos aquilo em que nos tornamos, não possuímos [[lexico:s:significacao|significação]] atribuída uma vez por todas, mas a significação em curso, e é por isso que nosso futuro é relativamente [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]], por isso que nosso [[lexico:c:comportamento|comportamento]] é relativamente imprevisível para o psicólogo, por isso que somos livres.