===== HÁBITO ===== gr. [[lexico:e:ethos|ethos]]; lat. consuetudo Maneira de [[lexico:s:ser|ser]] adquirida. — Insiste-se frequentemente no [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:p:passivo|passivo]] do hábito, que resulta simplesmente da [[lexico:r:repeticao|repetição]] de certos atos que se tornam pouco a pouco inconscientes e mecânicos. Na [[lexico:v:verdade|verdade]], é [[lexico:n:necessario|necessário]] uma cooperação do [[lexico:i:individuo|indivíduo]]: ninguém se habitua jamais completamente a uma [[lexico:c:coisa|coisa]] desagradável; em compensação, habituamo-nos em uma ou duas vezes a uma coisa agradável. Os efeitos do hábito são positivos: cria em nós o [[lexico:a:automatismo|automatismo]] dos atos, isto é, uma [[lexico:d:disposicao|disposição]] a fazer determinado [[lexico:t:trabalho|trabalho]] com menos [[lexico:e:esforco|esforço]] e mais [[lexico:s:sucesso|sucesso]]. Assimila-se com frequência, após [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], os hábitos a tudo que é [[lexico:a:adquirido|adquirido]] através da [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:s:social|social]] (tradições, [[lexico:c:costumes|costumes]], instituições), que se opõe então à [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] ("o hábito é uma segunda [[lexico:n:natureza|natureza]]"), que se superpõe à primeira seja para constrangê-la ([[lexico:r:rigorismo|rigorismo]] [[lexico:m:moral|moral]], que leva os hábitos sociais a dominar nossos desejos naturais), seja para permitir sua expansão (a [[lexico:c:cultura|cultura]] é um hábito que fecunda as [[lexico:s:sementes|sementes]] naturais de nosso [[lexico:e:espirito|espírito]]). O [[lexico:p:principio|princípio]] de uma vida social sadia é formar hábitos em [[lexico:h:harmonia|harmonia]] com as tendências da natureza humana. (gr. exis; lat. consuetudo; in. Habit, Custom; fr. Habitude, al. Gewohnheit; it. Abitudiné). O mesmo que [[lexico:c:costume|costume]]. Em [[lexico:g:geral|geral]], a repetição constante de um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] ou de um [[lexico:c:comportamento|comportamento]], devido a um [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] de qualquer [[lexico:g:genero|gênero]] ([[lexico:f:fisico|físico]], fisiológico, biológico, social, etc.) Na [[lexico:m:maioria-das-vezes|maioria das vezes]], [[lexico:e:esse|esse]] mecanismo se [[lexico:f:forma|forma]] por [[lexico:m:meio|meio]] da repetição dos atos ou dos comportamentos e, portanto, no caso de acontecimentos humanos, por meio do exercício. Diz-se que "as [[lexico:c:coisas|coisas]] habitualmente acontecem assim" para indicar qualquer uniformidade nos acontecimentos, mesmo [[lexico:n:nao|não]] humanos, conquanto não seja uma uniformidade rigorosa e absoluta, mas apenas aproximada e relativa, contudo capaz de permitir uma [[lexico:p:previsao|previsão]] [[lexico:p:provavel|provável]]. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] Aristóteles disse (Ret., I, 10, 1369b 6): "Faz-se por hábito aquilo que se faz por se [[lexico:t:ter|ter]] feito muitas vezes", e acrescenta que "O hábito é, de certa forma, muito [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à natureza, já que ‘frequentemente’ e ‘sempre’ são próximos: a natureza é daquilo que é sempre; o hábito é daquilo que é frequentemente" (Ibid., I, 11, 1 370a 7). Com isso Aristóteles viu no hábito uma [[lexico:e:especie|espécie]] de mecanismo [[lexico:a:analogo|análogo]] aos mecanismos naturais, que garante, de certa forma, a repetição [[lexico:u:uniforme|uniforme]] dos fatos, atos ou comportamentos, eliminando ou reduzindo nestes últimos o esforço e o trabalho, tornando-os, assim, agradáveis. Com esse [[lexico:s:significado|significado]] esse [[lexico:t:termo|termo]] foi e é constantemente usado em várias disciplinas ([[lexico:b:biologia|biologia]], [[lexico:p:psicologia|psicologia]], [[lexico:s:sociologia|sociologia]]) e, em [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], tem sido tomado frequentemente como princípio de [[lexico:e:explicacao|explicação]] de problemas gnosiológicos ou metafísicos. O primeiro a usar esse [[lexico:c:conceito|conceito]] com essa [[lexico:f:finalidade|finalidade]] foi [[lexico:p:pascal|Pascal]], que insistiu na [[lexico:i:influencia|influência]] do hábito na [[lexico:c:crenca|crença]]: "É o costume que torna as nossas provas mais sólidas e dignas de crédito: ele redobra o automatismo, que arrasta o [[lexico:i:intelecto|intelecto]] sem que este se aperceba. É preciso conquistar uma crença mais fácil, que é a do hábito (habitude) e que, sem [[lexico:v:violencia|violência]], sem [[lexico:a:arte|arte]], sem provas, faz-nos crer nas coisas e inclina todas as nossas forças para essa crença, de tal forma que nossa [[lexico:a:alma|alma]] nela incide naturalmente" (Pensées, nQ 252). Foi esse o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista que, um século depois, serviu de base à [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de [[lexico:h:hume|Hume]]. Ele definiu o costume como a disposição, produzida pela repetição de um [[lexico:a:ato|ato]], a renovar o mesmo ato, sem a intervenção do [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] (Inq. Cone. Underst., V, 1). E valeu-se desse conceito de hábito (costume) para [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:f:funcao|função]] das [[lexico:i:ideias|ideias]] abstratas, que ele considerou como ideias particulares assumidas como signos de outras ideias particulares semelhantes. O costume de considerar interligadas ideias designadas por um [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:n:nome|nome]] faz que o nome desperte em nós nem uma nem todas dessas ideias, mas sim o costume de considerá-las juntas, portanto uma ou outra, delas de [[lexico:a:acordo|acordo]] com as ocasiões. (Treatise, I, 1, 7). Hume recorre ao hábito para explicar a conexão causai: por termos visto várias vezes juntos dois fatos ou objetos, como p. ex. a chama e o calor, o [[lexico:p:peso|peso]] e a solidez, somos levados pelo costume a prever um quando o [[lexico:o:outro|outro]] se apresenta. O conjunto de nossa vida diária funda-se no hábito. "Sem o hábito" — diz Hume (Inquiry, cit., V, I) — "ignoraríamos inteiramente quaisquer questões de [[lexico:f:fato|fato]], [[lexico:a:alem|além]] daquelas que se nos apresentam imediatamente à [[lexico:m:memoria|memória]] ou aos sentidos. Não saberíamos adaptar os meios aos fins, nem empregar nossos poderes naturais para produzir qualquer [[lexico:e:efeito|efeito]]. As [[lexico:a:acoes|ações]] terminariam, terminando também a [[lexico:p:parte|parte]] principal da [[lexico:e:especulacao|especulação]]". De [[lexico:m:modo|modo]] análogo, mas em [[lexico:c:campo|campo]] diferente, [[lexico:b:bergson|Bergson]] (talvez retomando uma [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:r:renouvier|Renouvier]], Nouvelle monadologie, p. 298) utilizou a [[lexico:n:nocao|noção]] de hábito/costume para explicar as obrigações morais, que não seriam exigências da [[lexico:r:razao|razão]], mas costumes sociais que garantem a vida e a solidez do [[lexico:c:corpo|corpo]] social (Deux sources, p. 21). A [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do hábito como [[lexico:a:acao|ação]] originariamente espontânea ou livre que depois se fixa com o exercício, de tal forma que pode ser repetida sem a intervenção do raciocínio e da [[lexico:c:consciencia|consciência]], portanto mecanicamente, possibilitou o «50 metafísico dessa noção: [[lexico:u:uso|uso]] que aparece com bastante frequência na filosofia [[lexico:m:moderna|moderna]] e contemporânea, especialmente no [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] e no [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]]. O primeiro a tirar proveito desse uso para a construção de uma [[lexico:m:metafisica|metafísica]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]] interior foi [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]], em sua [[lexico:o:obra|obra]] Influência do hábito sobre a [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de [[lexico:p:pensar|pensar]] (1803) . Enquanto os hábitos passivos, que dizem [[lexico:r:respeito|respeito]] às sensações, reduzem a consciência, os hábitos ativos, que dizem respeito às operações, facilitam e aperfeiçoam a consciência, constituindo, por isso, um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] para que o espírito se liberte dos mecanismos que tendem a formar-se mediante a repetição dos seus esforços. Essa noção de hábito/costume, que, mesmo sendo expressa nos termos da denominada "experiência interior" ou "sentido interior", já tem alcance metafísico (pois Maine de Biran acredita que os dados dessa experiência revelam a própria [[lexico:r:realidade|realidade]]) e encontra [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] na doutrina de [[lexico:h:hegel|Hegel]], que lhe dedicou alguns parágrafos da sua seção sobre o espírito [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]], na parte dedicada à alma senciente (Ene, §§ 409-10). Hegel diz que, graças ao hábito, a alma "toma [[lexico:p:posse|posse]] do seu conteúdo e conserva-o de tal forma que, nessas determinações, ela não está como sensitiva, não está em [[lexico:r:relacao|relação]] com elas, mas distingue-se delas, nem está nelas imersa, mas as possui sem [[lexico:s:sensacao|sensação]] e sem consciência, movendo-se dentro delas. A alma, portanto, está livre delas, porquanto por elas não se [[lexico:i:interesse|interesse]] e com elas não se preocupe; e existindo nestas formas como em poder de si, está concomitantemente aberta a qualquer outra [[lexico:a:atividade|atividade]] e ocupação (tanto da sensação quanto de consciência espiritual em geral)". Por esta função do hábito, de oferecer à alma a posse de certo conteúdo, de tal forma que ela possa utilizar esse conteúdo "sem sensação e sem consciência" (de modo que sensação e consciência tornam-se livres novamente disponíveis para outras operações), Hegel ressaltou a importância do hábito para a vida espiritual. "O hábito" — disse ele — "é mais [[lexico:e:essencial|essencial]] para a [[lexico:e:existencia|existência]] do que qualquer espiritualidade no indivíduo, para que o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] exista como sujeito [[lexico:c:concreto|concreto]], como [[lexico:i:idealidade|idealidade]] da alma; para que o conteúdo [[lexico:r:religioso|religioso]], moral, etc, pertença a ele como ele mesmo, a ele como a essa alma; para que não esteja nele apenas em si (como disposição), nem como sensação e como [[lexico:r:representacao|representação]] transitória, nem como [[lexico:i:interioridade|interioridade]] abstrata separada do fazer e da realidade. mas no seu ser". Isto quer dizer que o hábito incorpora certo conteúdo no [[lexico:p:proprio|próprio]] ser da alma individual, como uma posse efetiva, que se traduz em ação [[lexico:r:real|real]]. Na esteira de Maine de Biran, Ravaisson propôs uma metafísica do hábito, que expõe num famoso trabalho (Sobre o hábito, 1838). No hábito, Ravaisson viu uma ideia [[lexico:s:substancial|substancial]], ou seja, uma ideia que se transformou em [[lexico:s:substancia|substância]], em realidade, e que age como tal. O hábito não é um mecanismo [[lexico:p:puro|puro]], mas uma "[[lexico:l:lei|lei]] de [[lexico:g:graca|graça]]", porquanto indica o predomínio da [[lexico:c:causa|causa]] final sobre a causa eficiente. Permite. pois, que se entenda a própria natureza como espírito e como atividade espiritual, uma vez que demonstra que o espírito pode tornar-se natureza e a natureza, espírito. Permite organizar todos os seres numa [[lexico:s:serie|série]] cujos limites extremos são representados pela natureza e pelo espírito. "O [[lexico:l:limite|limite]] inferior é a [[lexico:n:necessidade|necessidade]], o [[lexico:d:destino|destino]], se quisermos, mas na [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] da natureza; o limite [[lexico:s:superior|superior]] é a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] do intelecto. O hábito desce de um para outro, reaproxima esses contrários e, reaproximando-os, revela sua [[lexico:e:essencia|essência]] íntima e sua conexão necessária." A partir de Bergson, esses [[lexico:c:conceitos|conceitos]] foram retomados com frequência no espiritualismo contemporâneo, para explicar de certa forma o "mecanismo da [[lexico:m:materia|matéria]]" e reintegrá-lo na espontaneidade espiritual. (gr. ethos; lat. habitus; in. Habit; fr. Disposition; al. Fertigkeit; it. Abito). É preciso distinguir o significado deste termo do significado de costume, com o qual é frequentemente confundido. Significa uma disposição constante ou relativamente constante para ser ou agir de certo modo. P. ex., o "hábito de dizer a verdade" é a disposição deliberada, neste caso um [[lexico:c:compromisso|compromisso]] moral de dizer a verdade. É coisa [[lexico:b:bem|Bem]] diferente do "costume de dizer a verdade", que implicaria o mecanismo de repetir frequentemente essa ação. Assim, "o hábito de levantar-se cedo pela manhã" é uma espécie de compromisso que pode [[lexico:r:representar|representar]] esforço e [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]]; "o costume de levantar-se cedo pela manhã" não representa esforço algum, porque é um mecanismo rotineiro. Essa [[lexico:p:palavra|palavra]] foi introduzida na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] filosófica por Aristóteles (Met., V, 20, 1022b, 10), que a definiu como "uma disposição para [[lexico:e:estar|estar]] bem ou [[lexico:m:mal|mal]] disposto em relação a [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], tanto em relação a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] quanto a outra coisa; p. ex., a saúde é um hábito, porque é uma dessas disposições". Nesse sentido, Aristóteles julga que a [[lexico:v:virtude|virtude]] é um hábito, por não ser "[[lexico:e:emocao|emoção]]" (como a cupidez, a ira, o medo, etc), nem "[[lexico:p:potencia|potência]]", como seria a [[lexico:t:tendencia|tendência]] à ira, do sofrimento, à [[lexico:p:piedade|piedade]], etc. A virtude é, antes, a disposição para enfrentar, bem ou mal, emoções e potências; p. ex., dobrar-se aos impulsos da ira ou moderá-los (Et. Nic, II, 5). O mesmo significado é retomado por [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], que o expõe da seguinte maneira (Contra Gent, IV, 77): "O hábito difere da potência porque não nos capacita a fazer alguma coisa, mas torna-nos hábeis ou inábeis para agir bem ou mal". Esse conceito manteve-se praticamente inalterado até nossos dias. [[lexico:d:dewey|Dewey]] assim o expõe: "A espécie de atividade humana que é influenciada pela atividade precedente e, neste sentido, é adquirida; que contém em si certa [[lexico:o:ordem|ordem]] ou certa sistematização dos menores [[lexico:e:elementos|elementos]] da ação; que é projetante, [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] em [[lexico:q:qualidade|qualidade]], pronta para a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] aberta; e que é [[lexico:a:atuante|atuante]] em qualquer forma subordinada e oculta, mesmo quando não é atividade obviamente dominante. Hábito, mesmo em seu emprego ordinário, é o termo que denota mais esses fatos do que qualquer outra palavra" (Human Nature and Conduct, 1921, pp. 40-41). Dewey achava que os termos "[[lexico:a:atitude|atitude]]" e "disposição" também eram apropriados a esse conceito; na verdade, estes dois últimos termos são usados com mais frequência que hábito e com significados muito semelhantes. Chama-se hábito uma disposição de uma potência da alma tendo em vista o [[lexico:f:fim|fim]] intencionado pelo sujeito, in ordine ad finem. Dessa relação essencial ao fim, segue-se que o hábito é necessariamente uma modificação boa ou má: uma disposição orientando para o fim [[lexico:a:autentico|autêntico]] é boa, no caso contrário, é má. Isto posto, ser-nos-á [[lexico:p:possivel|possível]] perceber o sentido da [[lexico:d:definicao|definição]] clássica do hábito: dispositio secundum quam aliquis disponitur bene vel male. Sob o ponto de vista predicamental, o hábito pertence à [[lexico:c:categoria|categoria]] qualidade, da qual ele é a primeira das [[lexico:q:quatro|Quatro]] espécies (habitus, potentia, passibiles qualitates, [[lexico:f:figura|figura]]). - Observemos ainda que os hábitos podem encontrar-se em diversas [[lexico:p:potencias-da-alma|potências da alma]]: [[lexico:a:apetite-sensivel|apetite sensível]], [[lexico:v:vontade|vontade]], [[lexico:i:inteligencia|inteligência]]. Evidentemente, aqui nos interessam os hábitos que têm como sujeito a inteligência, os hábitos intelectuais. Aristóteles enumerou cinco deles, três especulativos, (inteligência, [[lexico:c:ciencia|ciência]], [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]]) e dois práticos ([[lexico:p:prudencia|prudência]] e arte). Estes dois grupos de hábitos distinguem-se pelo fim intencionado: os hábitos especulativos têm como fim o puro [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], enquanto que os hábitos práticos são ordenados para a ação. Falemos, de início, dos segundos. Hábitos práticos. - A prudência se distingue da arte por ter como matéria a atividade [[lexico:i:imanente|imanente]] ou moral, os [[lexico:a:atos-humanos|atos humanos]]: ela é a [[lexico:r:regra|regra]] desses atos (recta [[lexico:r:ratio|ratio]] agibilium); a arte é o conhecimento [[lexico:r:racional|racional]] como regra da atividade [[lexico:e:exterior|exterior]] ou prática (recta ratio factibilium). Hábitos especulativos. - A inteligência é a [[lexico:p:percepcao|percepção]] imediata dos [[lexico:p:principios|princípios]]. Como já o sabemos, ela não é o resultado da ciência, mas se encontra em seu próprio princípio. A ciência e a sabedoria são igualmente hábitos que nos dispõem ao conhecimento pela causa; porém, enquanto a ciência demonstra pela causa própria e imediata, a sabedoria vai até às [[lexico:c:causas|causas]] primeiras. Todas estas distinções são bem analisadas neste [[lexico:t:texto|texto]] de Tomás de Aquino (I-II. q. 57, a. 2): "A virtude intelectual especulativa é a que aperfeiçoa o intelecto especulativo na consideração do [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], que é sua melhor obra. Ora, o verdadeiro pode ser atingido de duas maneiras: ou enquanto conhecido [[lexico:p:por-si|por si]] próprio, ou enquanto conhecido por intermédio de um outro. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] conhecido por si tem papel de princípio e é percebido imediatamente pela inteligência. É devido a isto que o hábito que aperfeiçoa a inteligência com relação a tal percepção é [[lexico:c:chamado|chamado]] "inteligência", no sentido de hábito dos princípios. Quanto ao verdadeiro que é conhecido por um outro, ele não é imediatamente percebido pela inteligência, mas por uma [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] da razão, e tem um papel de termo final. E isto pode-se produzir de duas maneiras diferentes: de uma parte, de tal maneira que ele seja [[lexico:u:ultimo|último]] em seu gênero [[lexico:p:particular|particular]] (de conhecimento); de outra parte, de maneira que ele seja termo último de [[lexico:t:todo|todo]] o conhecimento [[lexico:h:humano|humano]]... Neste último caso, tem-se a "sabedoria" que considera as causas mais elevadas... Com relação ao que é o último em tal ou tal gênero das coisas conhecíveis, tem-se a "ciência" que desse modo aperfeiçoa a inteligência." Vê-se que a ciência é tomada, nesta [[lexico:c:classificacao|classificação]], segundo sua [[lexico:s:significacao|significação]] mais restrita, como a [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] pelas causas inferiores e próximas; neste sentido, as matemáticas e a [[lexico:f:fisica|física]] são ciências. A sabedoria filosófica superior, a metafísica, é tomada, neste texto, como algo à parte, relativamente à ciência. Relembremos que Aristóteles dá muitas vezes a esse termo de "ciência" uma [[lexico:e:extensao|extensão]] bem maior, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que a metafísica, que é também um conhecimento pelas causas (pelas causas supremas), pode reivindicar o qualificativo de ciência. Distinguiremos entre vários sentidos de hábito: 1) Chama-se às vezes hábito a uma das [[lexico:c:categorias|categorias]]: a categoria que Aristóteles chama ter, quer dizer, ter qualquer coisa (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], uma arma), de modo que um exemplo de tal hábito ou ter é armado (está armado). 2) Chama-se também hábito ao pós-predicamento que Aristóteles chama também ter; neste caso o hábito é um [[lexico:e:estado|Estado]] ou disposição. O hábito designa então uma qualidade como o mostra um dos exemplos aristotélicos quando diz que “alguém tem uma ciência ou uma virtude, quer dizer, possui o hábito da ciência ou da virtude em [[lexico:q:questao|questão]]. O mais comum é distinguir o hábito como [[lexico:p:predicamento|predicamento]] ou categoria e o hábito como uma das quatro espécies de qualidade que falou Aristóteles (as outras espécies são: as [[lexico:f:faculdades|faculdades]] ou potências ativas, as receptividades ou potências passivas e a forma enquanto configuração externa). Como categoria, o hábito é uma disposição do [[lexico:e:ente|ente]]. Como qualidade, é o modo como alguém tem uma coisa ou caraterística. O sentido do hábito como qualidade tem sido o que os filósofos dilucidaram mais amiúde. A este respeito, distingue-se entre o hábito e a disposição, pois o primeiro é de maior [[lexico:d:duracao|duração]] que a segunda. O hábito aparece como uma possessão permanente, ao passo que a disposição é uma possessão acidental e transitória. Os escolásticos ocuparam-se especialmente da noção de hábito como qualidade. Tomás de Aquino define-o como “uma qualidade, pois por si mesma estável e difícil de remover, que tem por fim assistir à [[lexico:o:operacao|operação]] de uma faculdade a facilitar tal operação” ([[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]]). O hábito supõe a faculdade que possui, além disso, a operação ou operações desta faculdade; Por si mesmo, não executa operações. O hábito adquire-se por meio de um treino ou repetida execução de certos atos. Costuma-se distinguir entre um hábito intelectual e um moral. Por meio do primeiro facilitam-se ao espírito as operações conceptuais básicas. É o hábito dos princípios superiores. O hábito moral é o hábito dos princípios práticos superiores. Mas embora os escolásticos tenham examinado a noção sobretudo em relação com os “hábitos humanos”, consideram sempre que os hábitos humanos são uma espécie dos hábitos em geral. Na [[lexico:e:epoca|época]] moderna tem-se tendido para dar à noção de hábito um sentido ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]] e biológico. Isto sucede por exemplo em [[lexico:l:locke|Locke]] e em Hume. O sentido psicológico predomina em Locke, que escreve que “quando esse poder ou habilidade no [[lexico:h:homem|homem]] de fazer qualquer coisa foi adquirido mediante frequente execução da mesma coisa, é a ideia que chamamos hábito, a qual quando vai para diante e está disposta em qualquer [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] a converter-se em ação chama-se disposição” (Ensaio). Em Hume, em compensação, há certo predomínio do gnoseológico. Para ele, o costume ou o hábito é “o grande guia da vida humana” e “todas as inferências da experiência... são efeitos do costume, não do raciocínio”. O hábito é único princípio que torna a experiência [[lexico:u:util|útil]] e nos permite esperar para o [[lexico:f:futuro|futuro]] um curso de acontecimentos semelhante ao que se verificou no passado. Por meio do costume ou hábito torna-se possível a predição e fundamenta-se o conhecimento dos fatos.