===== GUERRA ===== (gr. polemos; lat. bellum; in. War; fr. Guerre; al. Krieg; it. Guerra). Alguns filósofos da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] atribuíram um [[lexico:v:valor|valor]] cósmico à guerra, uma [[lexico:f:funcao|função]] dominante na [[lexico:e:economia|economia]] do [[lexico:u:universo|universo]]. Foi o que fez [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], que chamou a guerra de "mãe e rainha de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]]" (Fr. 53, Diels), afirmando que "a guerra e a [[lexico:j:justica|justiça]] são conflitos e, por [[lexico:m:meio|meio]] do conflito, todas as coisas são geradas e chegam à [[lexico:m:morte|morte]]" (Fr. 80, Diels). Foi o que fez também [[lexico:e:empedocles|Empédocles]], que, ao lado da [[lexico:a:amizade|amizade]] (ou [[lexico:a:amor|amor]]), como [[lexico:f:forca|força]] que une os [[lexico:e:elementos|elementos]] constitutivos do [[lexico:m:mundo|mundo]], pôs o Ódio ou a Discórdia que tende a desuni-los (Fr. 17, Diels). Outros filósofos, como [[lexico:h:hobbes|Hobbes]], afirmaram que o [[lexico:e:estado|Estado]] de guerra é o estado "[[lexico:n:natural|natural]]" da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que é o estado a que ela seria reduzida sem as normas do [[lexico:d:direito|direito]], ou do qual procura sair mediante essas regras (Leviath., I, 13). Mas, [[lexico:n:nao|não]] obstante essas [[lexico:i:ideias|ideias]] ou semelhantes, os filósofos esforçaram-se constantemente por evidenciar e encorajar os esforços dos homens para evitar as guerra ou para diminuir as situações que lhes dão [[lexico:o:origem|origem]]. Por vezes, ocuparam-se em formular projetos nesse sentido (v. [[lexico:p:paz|paz]]). A [[lexico:e:excecao|exceção]] a essa [[lexico:r:regra|regra]] é representada por [[lexico:h:hegel|Hegel]], que considerou a guerra como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de "[[lexico:j:juizo|juízo]] de [[lexico:d:deus|Deus]]", do qual a [[lexico:p:providencia|providência]] histórica se vale para dar a vitória à melhor [[lexico:e:encarnacao|encarnação]] do [[lexico:e:espirito|Espírito]] do mundo. Hegel afirma, por um lado, que, "assim como o [[lexico:m:movimento|movimento]] dos ventos preserva o mar da putrefação à qual o reduziria a [[lexico:q:quietude|quietude]] duradoura, a isso reduziria os povos a paz duradoura ou perpétua" (Fil. do dir., § 324), e por [[lexico:o:outro|outro]] lado julga que, no [[lexico:p:plano|plano]] providencial da [[lexico:h:historia|história]] do mundo, um [[lexico:p:povo|povo]] sucede ao outro no encarnar, realizar ou manifestar o Espírito do mundo, dominando, em [[lexico:n:nome|nome]] e por meio dessa superioridade, todos os outros povos. A guerra pode [[lexico:s:ser|ser]] um episódio dessa alternância, desse juízo de Deus proferido pelo "Espírito do mundo", "Em [[lexico:g:geral|geral]]", diz Hegel, "a isso está ligada uma força externa que destitui com [[lexico:v:violencia|violência]] o povo do domínio e faz que ele deixe de [[lexico:t:ter|ter]] primazia. Essa força [[lexico:e:exterior|exterior]], porém, só pertence ao [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]; nenhuma força externa ou interna pode impor sua eficácia destruidora em face do Espírito do povo, se este já não estiver exânime, extinto" (Philosophie der [[lexico:g:geschichte|Geschichte]], ed. Lasson, p. 47). Essas afirmações de Hegel equivalem a justificar qualquer guerra vitoriosa que, como tal, estaria nos planos providenciais da [[lexico:r:razao|Razão]]. Constituem, portanto, uma monstruosidade filosófica que, entretanto, não deixou de ter defensores e seguidores, dentro e fora do [[lexico:c:circulo|círculo]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] hegeliana. A [[lexico:p:prova|prova]] de força entre povos (guerra nacional) ou entre partidos (guerra civil). — Os moralistas e os filósofos se preocuparam com o [[lexico:p:problema|problema]] da guerra, ou para denunciar os seus crimes ou para procurar as suas [[lexico:c:causas|causas]] e motivações: se é certo que a guerra está ligada às paixões humanas ([[lexico:p:platao|Platão]], [[lexico:a:alain|Alain]]:" Há apenas guerras de [[lexico:r:religiao|religião]]") como o ódio, o [[lexico:o:orgulho|orgulho]] etc. é preciso, contudo, distinguir as paixões individuais e as razões que podem decidir as [[lexico:a:acoes|ações]] do Estado: o estadista não pode agir por [[lexico:p:paixao|paixão]], deve examinar os problemas ao nível da [[lexico:t:totalidade|totalidade]] e com toda a serenidade. Será a guerra, nesse nível, uma [[lexico:n:necessidade|necessidade]] ou um [[lexico:a:acidente|acidente]]? No seu [[lexico:t:tempo|tempo]], Hegel considerava a guerra como uma necessidade biológica: "Somente a guerra pode abalar uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] e fazê-la tomar [[lexico:c:consciencia|consciência]] de si própria"; [[lexico:r:renan|Renan]] comentava que: "A guerra é uma das condições do [[lexico:p:progresso|progresso]], a chicotada que impede uma [[lexico:n:nacao|nação]] de adormecer". E, de [[lexico:f:fato|fato]], as guerras fazem progredir as ciências (a [[lexico:c:ciencia|ciência]] atômica desenvolveu-se febrilmente com a guerra). É fato também, que as sociedades adormecidas (no [[lexico:c:caos|caos]] [[lexico:p:politico|político]], [[lexico:s:social|social]] e a ruína [[lexico:e:economica|econômica]]) nos nossos dias, estão destinadas a desaparecer. Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, a guerra não é [[lexico:p:por-si|por si]] só necessária; basta o [[lexico:r:risco|risco]] de guerra, ou "guerra fria", ou guerra subversiva e psicológica, para estimular a [[lexico:a:atividade|atividade]] das nações e transformar os conflitos em concorrência (econômica, científica, [[lexico:t:tecnica|técnica]] etc.). A necessidade de se manter o risco de guerra pode ser também uma necessidade de [[lexico:p:politica|política]] interna (China comunista), para desviar a [[lexico:o:opiniao|opinião]] pública das dificuldades internas e justificar os rigores particularmente experimentados em um [[lexico:t:trabalho|trabalho]] cotidianamente encarniçado. Em alguns países, a guerra pode assumir o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] de uma necessidade demográfica, realizando uma espécie de "sangria" que põe [[lexico:f:fim|fim]] ao desemprego e à fome (a guerra da Coreia foi uma "[[lexico:l:libertacao|libertação]]" para a China comunista). Finalmente, a guerra pode ser concebida como uma necessidade econômica — a economia capitalista, dizia [[lexico:m:marx|Marx]], só poderá dar vazão à sua produção e evitar a "crise" por meio da guerra ("colonialista", "imperialista"). De fato, todas essas causas da guerra podem ser resumidas em duas: 1) a fome: enquanto houver nações sub-desenvolvidas ao lado de nações ricas, homens passando fome junto a sociedades prósperas, existirá o risco de guerra; 2.° a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] política: a) "A guerra será santa, dizia [[lexico:f:fichte|Fichte]], quando a independência, [[lexico:c:condicao|condição]] da [[lexico:c:cultura|cultura]], fôr ameaçada". Defender sua nação é um [[lexico:d:dever|dever]]; b) entretanto, enquanto [[lexico:e:existir|existir]] regimes tirânicos, esmagando as liberdades individuais (países comunistas) ao lado de nações livres, enquanto um "muro" for [[lexico:n:necessario|necessário]] para impedir que populações prisioneiras escapem para a liberdade e que façam o [[lexico:v:vazio|vazio]] demográfico sob os governos de ditadura, haverá risco de guerra. Era a [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:k:kant|Kant]] no seu [[lexico:p:projeto|projeto]] de paz perpétua: "Somente povos governados democraticamente podem construir entre eles uma paz perpétua". Hoje, pode-se distinguir as guerras limitadas, que podem ser interpretadas como a "continuação da política por outros meios", e as "guerras totais" que não poderiam ter nenhuma [[lexico:s:significacao|significação]] nem [[lexico:j:justificacao|justificação]]. Observamos que os perigos de uma [[lexico:d:destruicao|destruição]] atômica [[lexico:u:universal|universal]] criam uma "nova [[lexico:s:solidariedade|solidariedade]]" entre os povos, e impelem os homens para que compreendam e dominem [[lexico:e:esse|esse]] fenômeno [[lexico:t:tragico|trágico]]. (V. progresso.)