===== GÓRGIAS ===== Górgias nasceu em Leontinos, na Sicília, por volta de 485/480 a.C. e viveu em perfeita saúde [[lexico:f:fisica|física]] por mais de um século. Viajou por toda a [[lexico:g:grecia|Grécia]], alcançando amplos consensos em torno de si. A sua [[lexico:o:obra|obra]] filosófica mais importante leva o título Sobre a [[lexico:n:natureza|natureza]] ou sobre o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] (que é uma inversão do título da obra de [[lexico:m:melisso|Melisso]]). Enquanto [[lexico:p:protagoras|Protágoras]] [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:r:relativismo|relativismo]] para implantar o [[lexico:m:metodo|método]] da [[lexico:a:antilogia|antilogia]], Górgias parte do [[lexico:n:niilismo|niilismo]] para construir o edifício de sua [[lexico:r:retorica|retórica]]. O tratado Sobre a natureza ou sobre o não-ser é uma [[lexico:e:especie|espécie]] de manifesto do niilismo ocidental, baseando-se nas três teses seguintes: 1) O [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:n:nao|não]] existe, ou seja, existe o [[lexico:n:nada|nada]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], os filósofos que falaram do ser determinaram-no de tal [[lexico:m:modo|modo]] que chegaram a conclusões que se anulam reciprocamente, de modo que o ser não pode ser "nem [[lexico:u:uno|uno]], nem [[lexico:m:multiplo|múltiplo]]; nem incriado, nem gerado" e, portanto, é nada. 2) Se o ser existisse, ele "não poderia ser cognoscível". Para provar essa [[lexico:a:afirmacao|afirmação]], Górgias procurava se basear no [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] segundo o qual o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] é sempre e só pensamento do ser e que o não-ser é impensável. Há pensados (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], podemos [[lexico:p:pensar|pensar]] em carruagens correndo sobre o mar) que não existem e há não-existentes (Cila, a Quimera etc.) que são pensados. Portanto, há divórcio e [[lexico:r:ruptura|ruptura]] entre ser e pensamento. 3) Mesmo que fosse pensável, o ser permaneceria inexprimível. Com efeito, a [[lexico:p:palavra|palavra]] não pode transmitir verazmente [[lexico:c:coisa|coisa]] nenhuma que não seja elá própria: "Como é que (...) alguém poderia expressar com a palavra aquilo que vê? Ou como é que isso poderia tornar-se manifesto para [[lexico:q:quem|quem]] o escuta sem tê-lo visto? Com efeito, assim como a vista não conhece sons, o ouvido não ouve as cores, mas os sons; e diz o certo quem diz, mas não diz uma cor nem uma [[lexico:e:experiencia|experiência]]." Destruída a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de alcançar uma "[[lexico:v:verdade|verdade]]" absoluta (a [[lexico:a:aletheia|aletheia]]), parece que só restou a Górgias o [[lexico:c:caminho|caminho]] da "[[lexico:o:opiniao|opinião]]" ([[lexico:d:doxa|doxa]]). Ele, porém, negou também a opinião, considerando-a "a mais pérfida das [[lexico:c:coisas|coisas]]". Ele procura então um [[lexico:t:terceiro|terceiro]] caminho, o da [[lexico:r:razao|razão]] que se limita a iluminar, circunstâncias e situações da [[lexico:v:vida|vida]] dos homens e das cidades. E essa "não é uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] que permita, definições ou regras absolutas, nem a vaga opinião individual. E (...) uma [[lexico:a:analise|análise]] da [[lexico:s:situacao|situação]], uma [[lexico:d:descricao|descrição]] daquilo que se deve ou não deve fazer (...). Então, Górgias é um dos primeiros representantes de uma [[lexico:e:etica-da-situacao|ética da situação]]. Os deveres variam segundo o [[lexico:m:momento|momento]], a idade, a [[lexico:c:caracteristica|característica]] [[lexico:s:social|social]]; uma mesma [[lexico:a:acao|ação]] pode ser boa ou má dependendo do seu [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Está claro que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:trabalho|trabalho]] [[lexico:t:teoretico|teorético]], feito sem bases metafísicas e sem [[lexico:p:principios|princípios]] absolutos, comporta uma ampla aceitação de opiniões correntes: e isso explica aquela estranha [[lexico:m:mistura|mistura]] de novo e tradicional que encontramos em Górgias" (M. Migliori). Já a sua [[lexico:p:posicao|posição]] em [[lexico:r:relacao|relação]] à retórica é nova. Se não existe uma verdade absoluta e tudo é [[lexico:f:falso|falso]], a palavra adquire então uma [[lexico:a:autonomia|autonomia]] própria, quase ilimitada, porque desligada dos vínculos do ser. Em sua independência onto-veritativa, torna-se (ou pode se tornar) disponível para tudo. E eis então que Górgias descobre, precisamente ao nível teorético, aquele [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da palavra pelo qual (prescindindo de toda verdade), ela pode ser portadora de [[lexico:p:persuasao|persuasão]], [[lexico:c:crenca|crença]] e [[lexico:s:sugestao|sugestão]]. A retórica é exatamente a [[lexico:a:arte|arte]] que desfruta a fundo esse aspecto da palavra, podendo ser definida como a arte de persuadir. Na Grécia do século V a.C, essa arte era "o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] timão nas [[lexico:m:maos|mãos]] dos homens de [[lexico:e:estado|Estado]]" (W. Jaeger). Na [[lexico:e:epoca|época]], [[lexico:o:o-politico|O Político]] era [[lexico:c:chamado|chamado]] "retor". Para Górgias, portanto, ser retor consiste em "ser capaz de persuadir os juízes nos tribunais, os conselheiros no Conselho, os membros da assembleia popular na Assembleia e, da mesma [[lexico:f:forma|forma]], qualquer outra reunião que se realize entre cidadãos". Ficam evidentes a [[lexico:v:validade|validade]] e a importância [[lexico:p:politica|política]] da retórica e, consequentemente, fica clara também a razão do enorme [[lexico:s:sucesso|sucesso]] de Górgias. Por [[lexico:f:fim|fim]], Górgias foi o primeiro [[lexico:f:filosofo|filósofo]] que procurou teorizar aquilo que hoje chamaríamos de [[lexico:v:valencia|valência]] "[[lexico:e:estetica|estética]]" da palavra e [[lexico:e:essencia|essência]] da [[lexico:p:poesia|poesia]], que ele definiu deste modo:"(...) Em suas varias formas, [[lexico:e:eu|eu]] considero e chamo a poesia de um [[lexico:d:discurso|discurso]] com métrica. E quem a escuta é invadido por um arrepio de estupor, urna [[lexico:c:compaixao|compaixão]] que arranca lágrimas, um ardente [[lexico:d:desejo|desejo]] de [[lexico:d:dor|dor]]—e, por efeito das [[lexico:p:palavras|palavras]], a [[lexico:a:alma|alma]] sofre o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]] ao ouvir a [[lexico:f:fortuna|fortuna]] e a desfortuna de fatos e pessoas estranhas." Assim, como a retórica, a arte lida com sentimentos, mas, ao contrário da retórica, não visa interesses práticos, mas ao engano poético (apáte) enquanto tal (estética apatética). E tal "engano" é, evidentemente, a pura "[[lexico:f:ficcao|ficção]] poética". De modo que Górgias podia muito [[lexico:b:bem|Bem]] dizer que, nessa espécie de engano, "quem engana está agindo melhor do que quem não engana e quem é enganado é mais [[lexico:s:sabio|sábio]] do que quem não é enganado". Quem engana, ou seja, o [[lexico:p:poeta|poeta]], é melhor por sua [[lexico:c:capacidade|capacidade]] criadora de ilusões poéticas e quem é enganado é melhor porque é capaz de captar a [[lexico:m:mensagem|mensagem]] dessa criatividade. Tanto [[lexico:p:platao|Platão]] com [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] tratariam desses [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], o primeiro para negar validade à arte, já o segundo para descobrir o poder catártico e purificador do [[lexico:s:sentimento|sentimento]] poético, como veremos.