===== GNORIMON ===== 1. Embora a [[lexico:n:nocao|noção]] de que a cognoscibilidade das [[lexico:c:coisas|coisas]] é relativa e tenha os seus precedentes platônicos, ela é fundamental para a [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] aristotélica, particularmente porque se aplica aos objetos da [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. A [[lexico:d:distincao|distinção]] é apresentada claramente nos Anal. post. I, 71b-72a; as coisas são cognoscíveis (gnorimon) em dois sentidos diferentes; [[lexico:o:o-que-e|o que é]] por [[lexico:n:natureza|natureza]] (physei) mais cognoscível [[lexico:n:nao|não]] é necessariamente para nós mais [[lexico:b:bem|Bem]] conhecido (prós hemas). A aplicação prática deste [[lexico:p:principio|princípio]] é ambivalente. Na metafísica devia começar-se com as coisas para nós mais inteligíveis e com o nosso [[lexico:m:modo|modo]] de conhecer, e prosseguir depois para aquilo que é intrinsecamente mais [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] (Metafísica 1029b); na [[lexico:e:etica|ética]] os homens deviam [[lexico:s:ser|ser]] educados para [[lexico:v:ver|ver]] que aquilo que é intrinsecamente [[lexico:b:bom|Bom]] é também um bem para eles ([[lexico:e:ethica-nichomacos|Ethica Nichomacos]] V, 1129b; o paralelismo ético é referido na Metafísica, loc. cit). 2. A [[lexico:r:raiz|raiz]] deste princípio deve procurar-se dentro dos quadros mais gerais da [[lexico:t:teoria-aristotelica-do-conhecimento|teoria aristotélica do conhecimento]], visto que a [[lexico:d:diferenca|diferença]] nos graus de [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] não é devida a qualquer defeito no [[lexico:o:objeto|objeto]] mas antes na nossa maneira de conhecer (Metafísica 993b). A base de toda a nossa cognição é a [[lexico:p:percepcao|percepção]] dos sentidos ([[lexico:a:aisthesis|aisthesis]]), e até a [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] [[lexico:s:silogistica|silogística]] ([[lexico:a:apodeixis|apodeixis]]) assenta numa [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:i:inducao|indução]] ([[lexico:e:epagoge|epagoge]]), i. é, num [[lexico:p:processo|processo]] que começa com a percepção dos particulares (Anal. post. II, 100b). O [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] ([[lexico:e:episteme|episteme]]) diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao [[lexico:u:universal|universal]] ([[lexico:k:katholou|katholou]]), e embora as percepções sensoriais concebam imediatamente uma [[lexico:e:especie|espécie]] de «universal [[lexico:c:concreto|concreto]]» (ver [[lexico:p:physica|Physica]] I, 184a), este não é o universal da [[lexico:c:ciencia|ciência]] que é apreendido apenas pela [[lexico:r:razao|razão]] ([[lexico:l:logos|Logos]]). 3. O papel da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] então é partir daquilo que é para nós inteligível, i. é, o vislumbre da inteligibilidade que se tem através dos sensíveis (aistheta), imediatamente percebidos, para aquilo que é de si propriamente inteligível (physei). 4. Os antecedentes platônicos de tudo isto são claros. A [[lexico:l:linguagem|linguagem]] da Metafísica 1029b acima referida é [[lexico:r:reminiscencia|reminiscência]] da distinção platônica entre os inteligíveis realmente existentes (ontos on) e o [[lexico:e:estatuto|estatuto]] quase-real (pos on) do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]]; a [[lexico:d:descricao|descrição]] que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] faz dos defeitos do nosso [[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]] (Metafísica 993b) é um [[lexico:e:eco|Eco]] da imagística da [[lexico:a:alegoria-da-caverna|alegoria da caverna]] na Republica 516a. Para os dois filósofos a verdadeira inteligibilidade é [[lexico:f:funcao|função]] da [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] (ver Meta 1078a), e enquanto concordavam em que o mais alto [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] é o [[lexico:e:estudo|estudo]] do inteligível-em-si (ver episteme, [[lexico:d:dialektike|dialektike]], [[lexico:t:theologia|theologia]]), onde diferem é nas suas atitudes para com o estudo dos sensíveis. O curriculum platônico na [[lexico:r:republica|República]] X é estruturado para afastar do sensível para o inteligível; a [[lexico:i:imanencia|imanência]] do [[lexico:e:eidos|eidos]] aristotélico garante o [[lexico:v:valor|valor]] de um estudo dos aistheta (confrontar a diferença paralela entre a indução platônica ([[lexico:s:synagoge|synagoge]]) e a aristotélica (epagoge)), quer num [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:h:historico|histórico]] como a [[lexico:i:investigacao|investigação]] das opiniões dos outros (ver [[lexico:a:aporia|aporia]], [[lexico:e:endoxon|endoxon]]), quer como a extração do inteligível vaga e discursivamente apreendido a partir do sensível imediatamente percebido.