===== GEWISSEN ===== Opto pela [[lexico:t:traducao|tradução]] do [[lexico:t:termo|termo]] Gewissen pelo [[lexico:s:sintagma|sintagma]] [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]], e [[lexico:n:nao|não]] por [[lexico:c:consciencia|consciência]] unicamente, como também costuma [[lexico:s:ser|ser]] traduzido em português. O substantivo Gewissen é derivada do antigo alto alemão (Hochdeutsch): gewizzani, gewizzenique, idioma para o qual verte - com apoio no termo latino ‘[[lexico:c:conscientia|conscientia]]’ - o equivalente [[lexico:g:grego|grego]] συνείδησις . De [[lexico:a:acordo|acordo]] com o Dicionário [[lexico:h:historico|Histórico]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], editado por Joachim Ritter, o termo extrai seu [[lexico:s:significado|significado]] originário de um [[lexico:t:tipo|tipo]] especial de [[lexico:s:saber|saber]] inscrito no [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:m:moralidade|moralidade]], e a [[lexico:p:palavra|palavra]] parece [[lexico:t:ter|ter]] sido introduzida no léxico alemão pelo erudito beneditino Notker Labeo ou Notker Teutonicus (950-1022), por [[lexico:m:meio|meio]] de uma glosa do Salmo 68, 20: “Tu conheces o meu insulto, minha vergonha e minha confusão. Meus opressores estão todos à tua frente”. Nesse contexto, o significado de ‘Tu conheces’ foi essencialmente determinado pelo termo grego συνείδησις, denotando um ‘saber juntamente comigo’, a [[lexico:m:modo|modo]] de uma testemunha (ou uma [[lexico:d:dimensao|dimensão]] da consciência), que acompanha o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] do [[lexico:a:agente|agente]]. Entre os gregos, a [[lexico:r:raiz|raiz]] [[lexico:l:linguistica|linguística]] de συνείδησις (συ) encontra-se em συνειδέναί τινί, e significa, então, ‘saber com’ (em alemão: «mitwissen»), um compartilhamento de saber acerca da própria [[lexico:a:acao|ação]], ou da ação de outrem, mas principalmente da própria, que nasce de uma [[lexico:v:vivencia|vivência]] compartilhada, de que se conhece com [[lexico:c:certeza|certeza]] (gewiss: certo, mas com decisivo apoio em wissen: saber) o seu [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:m:moral|moral]] - um valor predominantemente [[lexico:n:negativo|negativo]]. É desse modo que o termo [[lexico:f:figura|figura]], “já na mais antiga [[lexico:o:ocorrencia|ocorrência]] de συνείδησις em [[lexico:g:geral|geral]], em [[lexico:d:democrito|Demócrito]], que [[lexico:f:fala|fala]] de consciência, por algumas pessoas, de seu mau modo de [[lexico:v:vida|vida]]. Pelo que elas, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], são afligidas, angustiadas e oprimidas por isso. (έν ταραχαΐς καί φόβοις ταλαιπωρέουσι) [Cf. Historisches Wörterbuch der Philosophie. HWPh. Verbete Gewissen. Vol. 3, p. 574-576.]. (Cf. Ritter; s.d., Vol. 3, p. 574-576). Gewissen (consciência moral) designa, pois, a [[lexico:i:instancia|instância]] psíquica da consciência ético-religiosa, o fulcro da moralidade humana. Stricto sensu, o termo denota o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] da auto-censura, o constrangedor [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]] moral, brotado em seguida à prática de uma ação contrária ao [[lexico:d:dever|dever]] - e manifesta-se no célebre morsus conscientiae, a mordida da consciência ([[lexico:r:remorso|remorso]]) ou [[lexico:m:ma-consciencia|má consciência]] (schlechtes Gewissen), que em português tem o [[lexico:s:sentido|sentido]] de consciência pesada, [[lexico:p:peso|peso]] de consciência. Na Europa, [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:conceito|conceito]] de consciência moral foi primeiramente desenvolvido entre os gregos, como mencionado anteriormente, com apoio na [[lexico:r:representacao|representação]], segundo a qual para [[lexico:t:todo|todo]] e qualquer mau comportamento, em [[lexico:r:relacao|relação]] aos [[lexico:d:deuses|deuses]] ou aos homens, há sempre uma testemunha, uma dimensão interna de saber e certeza acerca do censurável e do louvável, do certo e do errado, do [[lexico:b:bem|Bem]] e do [[lexico:m:mal|mal]]. O conceito de consciência moral adquiriu, daí em diante, uma profundidade e [[lexico:s:significacao|significação]] muito mais ampla e aprofundada na [[lexico:e:etica|ética]] cristã, mormente no seio da [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]], em que se consolida o matiz de sentido que aproxima estreitamente consciência moral, pela via do remorsus e [[lexico:a:arrependimento|arrependimento]], à consciência do [[lexico:p:pecado|pecado]], à aflitiva [[lexico:c:conviccao|convicção]] de ter transgredido um mandamento. Nessa acepção, a consciência moral está relacionada ao [[lexico:j:julgamento|julgamento]] (moral) das próprias [[lexico:a:acoes|ações]], ao [[lexico:s:sentimento|sentimento]] que daí resulta, à consciência da [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de uma incondicional [[lexico:o:obediencia|obediência]] ao dever, indicando ser louvável toda ação que se deseja empreender em cumprimento deste comando. Na filosofia contemporânea, este é o sentido predominante do termo, que recebe tratamento conceitual paradigmático na [[lexico:f:filosofia-pratica|filosofia prática]] de Immanuel [[lexico:k:kant|Kant]]; para Kant, dever é a necessidade de uma ação a ser praticada mediante a representação da [[lexico:l:lei-moral|lei moral]], sendo essa um comando que tem a [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:i:imperativo-categorico|imperativo categórico]]. GIACOIA JR., Oswaldo. [[lexico:r:ressentimento|ressentimento]] e [[lexico:v:vontade|vontade]]. Para uma Fisio-Psicologia do Ressentimento em [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]]. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021, p. 9-10]