===== GÊNIO ===== (do lat. ingenium, disposições naturais), [[lexico:n:natureza:start|natureza]] própria do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]]. — O [[lexico:g:genero:start|gênero]] designa mais particularmente qualidades excepcionais da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] (lat. genius, divindade que presidia o nascimento). Mais precisamente ainda, o gênio é a [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] para inventar. Um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] verdadeiramente criador parece tirar sua pujança de uma [[lexico:f:forca:start|força]] que ultrapassa o [[lexico:h:homem:start|homem]]: [[lexico:k:kant:start|Kant]] definiu o gênio como uma "força da natureza, exprimindo assim essa comunhão com o [[lexico:u:universo:start|universo]], ou a [[lexico:p:participacao:start|participação]] na [[lexico:v:vida:start|vida]], ou com [[lexico:d:deus:start|Deus]], onde o gênio deve encontrar o [[lexico:p:principio:start|princípio]] de seu super poder. Efetivamente, em quase todos os domínios da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] humana, salvo talvez as matemáticas (Evaristo Galois é o fundador da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] dos grupos com dezenove anos), "o gênio é uma longa paciência", o resultado da maturação e do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] em uma especialidade. — O gênio mau designa em [[lexico:g:geral:start|geral]] a má [[lexico:s:sorte:start|sorte]]: aquele que deseja obter um [[lexico:e:efeito:start|efeito]] determinado e obtém o efeito contrário (por ex., [[lexico:q:quem:start|quem]] estende o braço para se servir de beber e quebra a garrafa; quem dá um conselho de [[lexico:m:moral:start|moral]] que, contra suas previsões, conduz o indivíduo ao [[lexico:s:suicidio:start|suicídio]] etc.) pode se considerar possuído por um mau gênio. [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] empregou o [[lexico:t:termo:start|termo]], na primeira [[lexico:m:meditacao:start|Meditação]], para evocar a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um Deus enganador (tudo o que nos parece [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], as mais vivas percepções do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], seriam apenas [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]) e para justificar uma [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] radical ou "[[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]" (distinta da mera dúvida "[[lexico:n:natural:start|natural]]"). (v. [[lexico:g:genio-maligno:start|gênio malígno]]) (in. Genius; fr. Génie; al. Genie; it. Genió). A partir da segunda metade do séc. XVII passou-se a indicar com [[lexico:e:esse:start|esse]] termo (que, segundo Varrão, na [[lexico:o:origem:start|origem]] indicava "a divindade que é preposta a cada uma das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] geradas e que tem a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de gerá-las", S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], De civ. Dei, VII, 13) o [[lexico:t:talento:start|talento]] inventivo ou criativo nas suas manifestações superiores. [[lexico:p:pascal:start|Pascal]] já usa essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] com esse [[lexico:s:sentido:start|sentido]]: "Os grandes gênios têm seu império, seu esplendor, sua [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]], suas vitórias e [[lexico:n:nao:start|não]] precisam das grandezas carnais, que não têm [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o que eles procuram" (Pensées, 793). E La Bruyère dizia: "E menos difícil para os grandes gênios topar com coisas grandes e sublimes do que evitar qualquer [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:e:erro:start|erro]]" ([[lexico:c:caracteres:start|caracteres]], 1687, cap. 1). A [[lexico:e:estetica:start|estética]] do séc. XVIII reduziu a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de gênio ao domínio da [[lexico:a:arte:start|arte]]. Kant (provavelmente inspirado numa [[lexico:o:obra:start|obra]] inglesa de Gerard, Essay on Genius, 1774) defende este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista: "O talento de descobrir chama-se gênio. Mas esse [[lexico:n:nome:start|nome]] só se dá ao [[lexico:a:artista:start|artista]], àquele que sabe fazer [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]], não àquele que conhece e sabe muito; e não se dá ao artista que imita apenas, mas àquele que é capaz de produzir sua obra com [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]]; enfim, só se dá quando seu [[lexico:p:produto:start|produto]] é magistral, quando, por [[lexico:m:merito:start|mérito]], merece [[lexico:s:ser:start|ser]] imitado" (Antr., § 57). Esse é o sentido da [[lexico:d:definicao:start|definição]] de gênio que Kant dá na [[lexico:c:critica:start|Crítica]] do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]] como de "talento ([[lexico:d:dom:start|dom]] natural) que dita regras à arte". Gomo talento, o gênio foge a qualquer [[lexico:r:regra:start|regra]]; mas como criador de exemplares distingue-se de qualquer extravagância. É natureza porque não age racionalmente; e é natureza que dita regras à arte. Kant observa que, justamente devido a estas últimas características, "a palavra gênio derivou de genius, que significa o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] espírito do homem, o que lhe foi [[lexico:d:dado:start|dado]] ao nascer, que o protege e o dirige, dé cuja sugestões provêm as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] originais" (Crítica do Juízo, § 46). Esse ponto de vista era aceito por [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], que, considerando a arte como a [[lexico:v:visao:start|visão]] das ideias platônicas, que são a primeira "[[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]]" da [[lexico:v:vontade-de-viver:start|vontade de viver]], vê na arte a "[[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] pura" e, por isso, a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do gênio na preponderante aptidão para tal contemplação. "Visto que esta", diz ele, "requer [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]] total de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e de suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]], decorre daí que a genialidade é a mais completa [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], ou seja, a direção objetiva do espírito, que se opõe à direção subjetiva tendente à própria pessoa, à [[lexico:v:vontade:start|vontade]]." Por conseguinte, enquanto para o homem comum o patrimônio cognoscitivo é "a lanterna que ilumina o [[lexico:c:caminho:start|caminho]]", para o gênio ele é "o [[lexico:s:sol:start|sol]] que revela o mundo" (Die Welt, I, § 36). Essas observações de Schopenhauer constituem uma contribuição para aquilo que poderíamos chamar de [[lexico:c:culto:start|culto]] romântico do gênio. Obviamente, esse culto não se limita ao gênio [[lexico:a:artistico:start|artístico]]. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] mostrava já a conexão do gênio com a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. A inventividade do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] requer "um [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]] [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]]" e esse sentimento é exatamente o gênio. Para Fichte, mesmo que um dia a filosofia progredisse a ponto de conter uma "teoria da [[lexico:i:invencao:start|invenção]], não seria [[lexico:p:possivel:start|possível]] chegar a isso a não ser por [[lexico:m:meio:start|meio]] do gênio" (Werke, ed. Medicus, I, p. 203). Fichte reconheceu no gênio as mesmas características que Kant lhe atribuíra: inventividade e naturalidade. O gênio "é um favor especial da natureza, que não se pode [[lexico:e:explicar:start|explicar]] ulteriormente" (Ibid., ed. Medicus, III, p. 92; cf. Pareyson, A estética do [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], I, pp. 333 ss.). O obscuro sentimento da verdade, que Fichte atribui ao gênio, transforma-o naquilo que Schlegel chamava de "[[lexico:m:mediador:start|mediador]] entre o [[lexico:i:infinito:start|infinito]] e o [[lexico:f:finito:start|finito]]", aquele que "percebe em si o [[lexico:d:divino:start|divino]] e, anulando-se, dedica-se a anunciar esse divino a todos os homens, a participar dele e a representá-lo nos [[lexico:c:costumes:start|costumes]] e nas [[lexico:a:acoes:start|ações]], nas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] e nas obras" (Ideen, 1800, § 44). É verdade que, assim como Kant, [[lexico:s:schelling:start|Schelling]] afirmava que o gênio é sempre e somente estético, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] considerava a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] estética o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] da filosofia e, em geral, da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]. O gênio é, pois, o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] que se revela no homem e não pertence só a uma [[lexico:p:parte:start|parte]] do homem (Werke, I, III, pp. 618 ss.). [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], por sua vez, dizia que a palavra gênio era empregada para designar não só os artistas, mas também os grandes líderes e os heróis da ciência (Vorlesungen über die Ästhetik, ed. Glockner, I, p. 378), mas pessoalmente reservava esse vocábulo para os artistas, definindo o gênio como "a capacidade geral de produzir autênticas obras de arte, acompanhada pela [[lexico:e:energia:start|energia]] necessária à sua realização" (Ibid., p. 381). Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], aqueles que Fichte chamava de "doutos" ou de "videntes" (cf. Vorlesungen über die Bestimmung des Gelehrten, 1794), Hegel de "indivíduos da [[lexico:h:historia:start|história]] cósmica" e outros de heróis são simplesmente expressões diferentes do mesmo [[lexico:c:conceito:start|conceito]] que, no domínio da arte, o [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] designou com o termo gênio, ou seja, [[lexico:e:encarnacao:start|encarnação]] do Infinito no mundo, mediadores entre o finito e o Infinito (como dizia Schlegel), instrumentos da realização ou da [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] do Absoluto. O próprio [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], que por muitos aspectos pode ser considerado antagonista do Romantismo, partilhou esse conceito de gênio Disse: "O gênio é um An-sich onipotente que, como tal, gostaria de sacudir o mundo inteiro. Por isso, para salvar a [[lexico:o:ordem:start|ordem]], nasce com ele outra [[lexico:f:figura:start|figura]]: o [[lexico:d:destino:start|destino]]. Mas o destino é nulo, porque é ele mesmo que o descobre, e quanto mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] for o gênio, mais profundamente o descobre; porque o destino [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que a [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] da [[lexico:p:providencia:start|providência]]" (Der Begriff der Angst, III, § 2; trad. Fabro, p. 123). Na [[lexico:c:cultura:start|cultura]] contemporânea, o conceito do gênio se manteve com essas características românticas, que não desapareceram nem com a aproximação entre gênio e [[lexico:l:loucura:start|loucura]], tentada por alguns antropólogos, particularmente por Cesare Lombroso. Essa aproximação baseava-se na consideração dos chamados "fenômenos regressivos da [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]", em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] dos quais os grandes avanços em uma certa direção são acompanhados, na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]], por uma parada nas outras direções. Por isso, Lombroso julgava encontrar formas mais ou menos atenuadas de loucura ou perversão nos indivíduos geniais (gênio e degeneração, 1897), mas com isso não punha em dúvida a realidade do conceito, sem dúvida pressuposta. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, quando, no [[lexico:f:fim:start|fim]] de Duas fontes da moral e da [[lexico:r:religiao:start|religião]] (1932), [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] auspicia o advento de um "gênio [[lexico:m:mistico:start|místico]]", que possa "arrastar atrás de si uma [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] imensamente encorpada", vê nesse gênio a encarnação ou a realização do [[lexico:e:ela-vital:start|elã vital]] que é o princípio do mundo (Deux sources, IV; trad. it., pp. 343 ss.). Como [[lexico:t:todo:start|todo]] gênio romântico, o gênio preconizado por Bergson também é a encarnação do Absoluto e destina-se a realizar o Absoluto no mundo. Todavia, Kant já havia advertido para o perigo inerente ao [[lexico:u:uso:start|uso]] desse conceito, que parece dispensar alguns homens da [[lexico:a:aprendizagem:start|aprendizagem]], da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] e dos deveres comuns, e propusera a [[lexico:q:questao:start|questão]] sobre quem contribui mais para o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]] do homem: os grandes gênios ou "os cérebros mecânicos" que se apoiam na bengala da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] (Antr., § 58). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}