===== GENESIS ===== génesis.- nascimento, passagem ao [[lexico:s:ser|ser]], tornar-se (oposto a ser), [[lexico:p:processo|processo]], passagem a um contrário, [[lexico:m:mudanca|mudança]] [[lexico:s:substancial|substancial]] 1. Mesmo no seu [[lexico:u:uso|uso]] mais antigo (II. xiv, 201, 246) a genesis é algo mais do que um processo biológico e os dois significados de «nascimento» e «início no ser» estão interligados nos textos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]]. A [[lexico:p:presenca|presença]] da [[lexico:p:palavra|palavra]] no fragmento existente de [[lexico:a:anaximandro|Anaximandro]] tem sido atribuída pela maioria à [[lexico:l:linguagem|linguagem]] do sumariador peripatético do [[lexico:t:texto|texto]] ([[lexico:t:teofrasto|Teofrasto]] via Simplício, [[lexico:p:physica|Physica]] 24, 17), mas quer a [[lexico:e:expressao|expressão]] quer a [[lexico:i:ideia|ideia]] são inequívocas em [[lexico:x:xenofanes|Xenófanes]] (frgs. 29, 30) e [[lexico:h:heraclito|Heráclito]] (frgs. 3, 36) ao falarem do «nascimento» e «[[lexico:m:morte|morte]]» dos corpos físicos. 2. Os pré-socráticos estavam profundamente interessados na mudança. Tendo-se decidido por um ou uma [[lexico:s:serie|série]] de [[lexico:p:principios|princípios]] elementares ([[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:a:arche|arche]]), ambos corpos naturais, como a água ou o [[lexico:a:ar|ar]], ou versões substantivadas daquilo que se julgava serem «poderes» mas deviam ser mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] considerados qualidades (ver [[lexico:d:dynamis|dynamis]], [[lexico:p:pathos|pathos]], [[lexico:p:poion|poion]]), v. g. o quente, o seco, etc, discutiram o [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] através do qual um podia tornar-se o [[lexico:o:outro|outro]]. Isto é o que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] havia de chamar mais tarde «[[lexico:d:devir|devir]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]]» (genesis [[lexico:h:haphe|haphe]]), mudança na [[lexico:c:categoria|categoria]] da [[lexico:s:substancia|substância]] oposta às várias mudanças (metabolai) nas [[lexico:c:categorias|categorias]] do [[lexico:a:acidente|acidente]] (De gen. et corr. I, 319b-320a). Assim, em [[lexico:a:anaximenes|Anaxímenes]] que postulou o [[lexico:a:aer|aer]] como a sua arche, os corpos [[lexico:s:simples|simples]] nascem da condensação e rarefação do aer (Simplício, Physica 24-26), enquanto que para Anaximandro, cuja arche é uma substância indefinida ([[lexico:a:apeiron|apeiron]]), a genesis dos perceptíveis envolve um certo processo de [[lexico:s:separacao|separação]] (Aristóteles, Physica I, 187a). 3. Em todos estes pensadores, para [[lexico:q:quem|quem]] a [[lexico:v:vida|vida]] e o [[lexico:m:movimento|movimento]] são inerentes às [[lexico:c:coisas|coisas]], há uma insistência na mudança — Heráclito é apenas a [[lexico:v:voz|voz]] mais sonora de um coro — e no [[lexico:f:fato|fato]] nitidamente perceptível de que um [[lexico:c:corpo|corpo]] se transforma noutro. A [[lexico:p:prova|prova]] mais eloquente disto é o fato de que para negar a mudança [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] teve de negar a [[lexico:p:percepcao|percepção]]. 4. Mas Parmênides [[lexico:n:nao|não]] hesitou em negar as duas e, a partir daí a genesis, que tinha sido um [[lexico:d:dado|dado]] dos sentidos, torna-se um [[lexico:p:problema|problema]]. Parmênides nega explicitamente a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de qualquer [[lexico:t:tipo|tipo]] de mudança dado que [[lexico:v:vir-a-ser|vir-a-ser]] em qualquer dos seus modos implica a [[lexico:p:proposicao|proposição]], logicamente indefensável, da passagem do [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] ao ser e [[lexico:n:nada|nada]] pode vir do não-ser (frg. 8, versos 19-21; confrontar versos 38-41 que pareceriam implicar o uso técnico pré-parmenidiano da genesis; ver on). 5. Daí a «Via da [[lexico:v:verdade|verdade]]» de Parmênides; os seus sucessores, contudo, parecem [[lexico:t:ter|ter]] recebido a [[lexico:s:sugestao|sugestão]] da «Via da [[lexico:a:aparencia|Aparência]]». Ao abandonarem o estreito [[lexico:m:monismo|monismo]] de Parmênides e ao voltarem-se para a doutrina mais antiga dos «opostos» ([[lexico:e:enantia|enantia]]), tanto [[lexico:e:empedocles|Empédocles]] como [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]] foram capazes de restaurar pelo menos uma genesis secundária em termos da [[lexico:i:interacao|interação]] destas qualidades ou [[lexico:e:elementos|elementos]] (stoicheia) opostos. O simples passar-a-ser (i. é, a partir do não-ser) ainda é impensável, mas recorrendo a vários graus de [[lexico:m:mistura|mistura]] ([[lexico:k:krasis|krasis]]) e [[lexico:a:associacao|associação]] ([[lexico:s:synkrisis|synkrisis]]) os corpos compostos podiam passar a ser (Empédocles, frg. 9; Anaxágoras, frg. 17; ver o resumo aristotélico na Physica I, 187a; ver [[lexico:s:stoicheion|stoicheion]]). 6. O caso de Anaxágoras é bastante [[lexico:c:complexo|complexo]]. A [[lexico:p:principio|princípio]] está interessado em observar a proibição de Parmênides contra a genesis absoluta. Nada pode proceder do nada e, assim, tudo o que parece tornar-se algo mais tem de ter sido [[lexico:e:esse|esse]] algo mais para começar, ou, como o [[lexico:p:proprio|próprio]] Anaxágoras põe a [[lexico:q:questao|questão]], «todas as coisas têm uma [[lexico:p:parte|parte]] de tudo» (frg. 12; in frg. 11 ele exclui o [[lexico:n:nous|noûs]] que é [[lexico:e:externo|externo]] ao [[lexico:s:sistema|sistema]]; para as razões, ver [[lexico:k:kinesis|kinesis]], [[lexico:k:kinoun|kinoun]]); e daí se segue (frg. 17) que não há coisas tais como genesis ou [[lexico:p:phthora|phthora]] mas apenas agregação (synkrisis) e separação (apokrisis), i. e., pela configuração da [[lexico:m:materia|matéria]] preexistente. A genesis, compreendida como Anaxágoras a compreendeu, começa então a partir de uma mistura (meigma) primordial, cujos ingredientes são imperceptíveis (excepto talvez o ar e o [[lexico:f:fogo|fogo]], que já começaram a predominar nesta [[lexico:m:massa|massa]] não homogênea) e são infinitos em [[lexico:n:numero|número]] (frg. 1). Nela estavam as várias dynameis dos Milésios, como o quente e o frio, o úmido e o seco, etc, [[lexico:b:bem|Bem]] como os stoicheia de Empédocles e os corpos naturais compósitos, e o que Anaxágoras chama «[[lexico:s:sementes|sementes]]» (spermata) (frg. 4). 7. Estas últimas são os verdadeiros stoicheia de Anaxágoras (Aristóteles, De coelo III, 302a; ver stoicheion) e, tal como a própria meigma original, contêm porções de tudo. A mistura original existia sem movimento, firmemente paralisada num abraço de morte parmenidiano. Como em Empédocles a kinesis vem do [[lexico:e:exterior|exterior]], fornecida pelo noûs que faz com que a mistura rode. A velocidade da rotação efetua a separação (apokrisis) das «sementes» (frg. 12) que são qualitativamente diferentes (ver frg. 4 e pathos). Pela agregação (synkrisis) estas são incluídas nos corpos compostos nos quais predominam um ou outro dos tipos de «semente» (ver frg. 12 e Aristóteles, Physica I, 187a). 8. Os [[lexico:a:atomistas|atomistas]], ao eliminarem as dynameis, simplificaram consideravelmente a [[lexico:o:operacao|operação]] (embora eles tivessem assinalado dificuldades em «poupar os fenômenos»; ver pathos, stoicheion). Os atoma entram em colisão pelo seu movimento interno (ver kinesis) e é por este contato (haphe) que são formados os corpos compósitos superiores. Alguns atoma saltam de [[lexico:r:regresso|regresso]] ao [[lexico:v:vazio|vazio]]; outros, porque são «apanhados» ou atraídos, reúnem-se e, como resultam colisões ulteriores, são produzidos os corpos perceptíveis (Simplício, De coelo 295, 11). Esta é a versão que os atomistas dão da composição dos corpos por associação (synkrisis) e ela reaparece numa [[lexico:f:forma|forma]] mais sofisticada, no [[lexico:e:epicurismo|epicurismo]] (D. L. X, 43; Lucrécio II, 85-111). Há aqui uma tentativa de [[lexico:e:explicar|explicar]] os três estados da matéria em termos de densidade expressa na distância entre os átomos na «associação», com o aperfeiçoamento adicional de que certos corpos (v. g. líquidos) resultam da inclusão de um tipo de [[lexico:a:atomo|átomo]] dentro de um invólucro (stegazon) [[lexico:c:composto|composto]] por outro tipo, [[lexico:e:explicacao|explicação]] que também se aplica ao encerramento da [[lexico:a:alma|alma]] dentro do corpo (D. L. X, 65, 66; ver [[lexico:h:holon|holon]] 9). 9. Que a genesis se tornara o problema central da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] pós-parmenidiana é evidente pelas observações de [[lexico:s:socrates|Sócrates]] no [[lexico:f:fedon|Fédon]] 9óa, problema que, como o mesmo passo indica, estava a ser tratado em termos de uma procura pelas [[lexico:c:causas|causas]] ([[lexico:a:aitia|aitia]]) e intrigara o jovem Sócrates. Para o próprio [[lexico:p:platao|Platão]] a genesis é um problema um tanto secundário à [[lexico:l:luz|luz]] da [[lexico:d:distincao|distinção]] que ele faz entre os eide; o [[lexico:r:reino|reino]] do [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] ser (ontos on), e este [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] que é caracterizado pelo devir ([[lexico:t:timeu|Timeu]] 27d-28a). Assim o ser é o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:s:sujeito|sujeito]] para o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] verdadeiro ([[lexico:e:episteme|episteme]]), enquanto a genesis não pode fornecer nada melhor do que a [[lexico:o:opiniao|opinião]] ([[lexico:d:doxa|doxa]]), o «[[lexico:r:relato|relato]] [[lexico:p:provavel|provável]]» do Timeu. 10. Mas tendo deste [[lexico:m:modo|modo]] liquidado a sua dívida para com Parmênides, Platão desvia, de vez em quando, a sua [[lexico:a:atencao|atenção]] para a genesis: uma vez no contexto da tentativa de elucidar a sua [[lexico:t:teoria|teoria]] da [[lexico:p:participacao|participação]] ([[lexico:m:methexis|methexis]]) no Fédon, e, outra, no seu relato do [[lexico:k:kosmos|kosmos]] aisthetos no Timeu. A primeira, no Fédon 102b-105b, que é imensamente [[lexico:i:interessante|interessante]] por ser a precursora da própria teoria aristotélica da genesis, assenta numa [[lexico:p:premissa|premissa]] que não e geralmente destacada por Platão, i. e., a [[lexico:i:imanencia|imanência]], numa ou noutra forma, dos eide (ver [[lexico:e:eidos|eidos]]); o passo está cheio de expressões como «a pequenez em nós». Há, [[lexico:a:alem|além]] disso, a insistência em que os eide imanentes não estão eles próprios sujeitos à genesis. A genesis tem que ver com coisas e não é mais do que a [[lexico:s:substituicao|substituição]], num sujeito (Fédon 103e), de uma forma pelo seu oposto (enantion). 11. O mesmo [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista aparece com bastante mais pormenor quando Platão passa a [[lexico:f:falar|falar]] do Receptáculo ([[lexico:h:hypodoche|hypodoche]]) no Timeu (49a ss.), que é descrito como a «Ama do Devir». Platão começa por salientar que as [[lexico:q:quatro|Quatro]] «raízes» de Empédocles não são elementos irredutíveis; uma vez que estão constantemente a mudar são realmente qualidades (ibid. 49d), se bem que, no [[lexico:p:plano|plano]] noético, sejam os eide destes quatro corpos principais. Por isso ele rejeita todas as teorias pós-parmenidianas da mistura e da associação, baseadas que são na irredutibilidade dos stoicheia. A [[lexico:c:coisa|coisa]] permanente no processo é o Receptáculo, o quase-ser no qual a genesis se realiza (ibid. 49e). A [[lexico:a:analise|análise]] platônica da genesis revela então as Formas transcendentes eternas, versões miméticas imanentes delas que passam dentro e fora do Receptáculo (ibid. 50c; Platão, loc. cit., promete descrever a difícil [[lexico:r:relacao|relação]] entre as qualidades imanentes e os eide transcendentes, promessa, ao que parece, não cumprida) e, finalmente, o próprio Receptáculo que, como o [[lexico:h:hypokeimenon|hypokeimenon]] aristotélico, não tem características próprias (ibid. 51a-b). 12. Tudo isto é, .porém, a genesis pré-cósmica, a [[lexico:s:situacao|situação]] «antes que ouremos se formasse» (ibid. 52d). As qualidades, juntamente com os seus «poderes» associados (dynameis; ver pathos, [[lexico:p:paschein|paschein]]), andam à deriva no Receptáculo de maneira caótica (ibid. 52d-53a). Mas então o nons começa a sua [[lexico:a:acao|ação]] e põe [[lexico:o:ordem|ordem]] no [[lexico:c:caos|caos]] ao transformar as qualidades primárias da [[lexico:t:terra|Terra]], ar, fogo e água nos quatro corpos primários do mundo sensível (ibid. 53c), pela identificação de cada um dos «elementos» com um dos sólidos geométricos primários susceptível de ser inscrito numa [[lexico:e:esfera|esfera]] (ver stoicheion). Esta parece-se com uma versão pitagórica do [[lexico:a:atomismo|atomismo]]. Aristóteles detectou os paralelismos atomistas (De gen. et. corr. I, 325b; ver aistheisis), mas o [[lexico:p:pitagorismo|pitagorismo]] é igualmente claro quando vemos que os sólidos geométricos são, por sua vez, reduzíveis a planos, com a diferente sugestão de que o processo de [[lexico:r:reducao|redução]] remete para linhas, pontes (Tini. 53d; ver Leis X, 894a), e mesmo para além disso, para os reinos sombrios das archai pitagóricas (ver arche, [[lexico:a:arithmos|arithmos]], e as referências relacionadas). 13. Aristóteles tem pouco apreço pelas archai pitagóricas quer na sua forma geométrica do Timeu quer nas suas variedades mais aritméticas, e critica a versão platônica (De gen. et corr. I, 315a-316b); mas é obviamente mais atraído pela genesis pré-cósmica de Platão e a sua própria análise reflete isso. É [[lexico:c:conviccao|convicção]] de Aristóteles que as teses de Parmênides sobre o não-ser tinham afastado os seus sucessores do problema da verdadeira genesis pela redução de [[lexico:t:todo|todo]] o devir tanto à mudança qualitativa ([[lexico:a:alloiosis|alloiosis]]) como à mera variação em torno dos componentes (Physica I, 187a; De gen. et corr. I, 1-2). A sua própria [[lexico:a:argumentacao|argumentação]] é reafirmar com firmeza o papel dos stoicheia como os supremos corpos irredutíveis dos quais todas as coisas são feitas e insistia, pela prova dos sentidos, que os sioicheia se transformam uns nos outros num ciclo interminável (De gen. et. corr. II, 331a, 337a; ver [[lexico:e:energeia|energeia]]). Isto é, em resumo, a genesis, O nó parmenidiano é cortado por uma explicação da [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:p:particular|particular]] do não-ser envolvido na genesis; não é o não-ser absoluto mas um tipo [[lexico:r:relativo|relativo]] que Aristóteles identifica como «[[lexico:p:privacao|privação]]» ([[lexico:s:steresis|steresis]]). Isto fornece a pedra final no «puzzle» do devir. A genesis é [[lexico:p:possivel|possível]] porque os stoicheia têm as suas próprias archai, a [[lexico:s:saber|saber]], um [[lexico:s:substrato|substrato]] (hypokeimenon) material, [[lexico:i:indefinido|indefinido]], comum a todas elas, conjuntos de qualidades imanentes e perceptíveis, e a steresis das qualidades opostas (enantion). A genesis é assim definida como «passagem ao enantion» (Physica I, 190a-192a; De gen. et corr. 324a, 328b-331a). 14. Aristóteles refuta a associação pós-parmenidiana (synkrisis) como a genuína genesis (De gen. et corr. I, 317a) e, embora conceda que a [[lexico:m:mixis|mixis]] desempenha um papel, este não está na genesis, num stoicheion tornando-se outro, mas na [[lexico:f:formacao|formação]] da [[lexico:g:geracao|geração]] seguinte de corpos, os syntheta ou corpos compósitos (ibid. II, 334b-335a). 15. A genesis é pois afirmada, definida e destacada das várias outras mudanças (metabolai) que ocorrem nas substâncias-no-ser: locomoção, [[lexico:a:alteracao|alteração]], crescimento. Mas entre todos estes tipos de mudança a kinesis (mais propriamente, [[lexico:p:phora|phora]]) tem precedência até mesmo em relação à genesis (Physica VIII, 260b-261a; confrontar o agrupamento de Platão nas Leis X, 894b-c e ver kinesis), assim deve haver uma kinesis contínua para assegurar o ciclo [[lexico:e:eterno|eterno]] da genesis: este é o movimento do [[lexico:s:sol|sol]] em torno da eclíptica (De gen. et corr. II, 336a-b; confrontar Republica 509; o Sol é, evidentemente, um motor movido; o [[lexico:a:argumento|argumento]] conduzirá eventualmente à [[lexico:c:causa|causa]] primária, o motor imóvel; ver kinoun, noûs). A genesis está, por seu turno, encerrada em conjuntos de qualidades opostas que são ativas (poien) e passivas (paschein). 16. [[lexico:e:epicuro|Epicuro]], como [[lexico:p:produto|produto]] fiel dos atomistas, não tem genesis genuína (ver kinesis), mas os estoicos parecem seguir mais de perto o padrão aristotélico. Eles ampliam, é bem verdade, a ação e a [[lexico:p:paixao|paixão]], que em Aristóteles são características das qualidades inerentes aos stoicheia, aprofundando-as até à natureza das coisas ao associarem a primeira com o [[lexico:l:logos|Logos]] e a última com a [[lexico:h:hyle|hyle]], os dois co-príncípios estoicos da [[lexico:r:realidade|realidade]] (SVF, I, 84, 493), mas prosseguem de uma maneira um tanto ou quanto mais tradicional ao afirmarem os quatro corpos físicos básicos ou stoicheia, dois dos quais são activos (ar e fogo), e dois passivos (terra e água) (SVF II, 418). 17. Mas também houve alterações. O fogo é [[lexico:a:agora|agora]] o quente (D. L. VII, 136), não, como em Aristóteles, um conjunto de qualidades, a saber, quente e seco (De gen. et corr. II, 331a). Além disso, desde que os estoicos deram primazia ao fogo (ver [[lexico:p:pyr|pyr]]), este é o primeiro [[lexico:e:elemento|elemento]] e, em certa [[lexico:m:medida|medida]], uma [[lexico:e:especie|espécie]] de Urstoff; os outros derivam dele por um processo não diferente da condensação/rarefação de Anaxímenes (D. L. VII, 142) e regressam a ele na conflagração ([[lexico:e:ekpyrosis|ekpyrosis]]) periódica. 18. Surgem outras dificuldades. A despeito dos arrebiques aristotélicos, os estoicos são compelidos, pela redução de tudo, incluindo as qualidades perceptíveis, ao corpo (ver poion), a explicar a mudança de uma maneira não radicalmente diferente dos atomistas. Contudo eles afastaram-se dos «laços» dos átomos, e voltaram-se para uma teoria da interpenetrabilidade dos corpos que assenta na distinção dos vários tipos de misturas e particularmente as variedades chamadas mixis (para corpos secos) e krasis (para os úmidos) onde os dois ingredientes da mistura se interpenetram completamente sem, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], perderem as suas características próprias, teoria essa usada para explicar também a relação da alma e do corpo (SVF II, 467, 471), e fortemente atacada tanto pelos peripatéticos posteriores como por [[lexico:p:plotino|Plotino]] (ver [[lexico:e:eneadas|Eneadas]] II, 7, 1, e SVF II, 473). Para a [[lexico:n:nocao|noção]] complementar de passar-para-fora-do-ser, ver phthora; para a genesis como processo e o seu gerar uma teoria [[lexico:e:etica|ética]], [[lexico:h:hedone|hedone]].