===== FUTUROLOGIA ===== A futurologia é uma [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] que surgiu da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] operacional e da [[lexico:c:cibernetica:start|cibernética]] . As técnicas utilizadas na [[lexico:o:obra:start|obra]] que trouxe a futurologia a [[lexico:p:publico:start|público]] são técnicas desenvolvidas por aquelas duas disciplinas. Numa [[lexico:v:visao:start|visão]] rápida, o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] da futurologia é o seguinte: parte-se da [[lexico:p:premissa:start|premissa]] que existem, no presente, certos "processos notáveis" que deverão continuar, por algum [[lexico:t:tempo:start|tempo]], a influenciar as nossas vidas (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a [[lexico:g:guerra:start|guerra]] do Vietnam, a corrida armamentista, um [[lexico:m:movimento:start|movimento]] neo-nacionalista nas nações do [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]]). Supõe-se, ainda que a inter-conjugação destes processos notáveis pode conduzir a uma [[lexico:s:serie:start|série]] de alternativas que constituiriam o mundo em [[lexico:f:futuro:start|futuro]] [[lexico:p:proximo:start|próximo]] (por exemplo, seriam alternativas um mundo constituído pela guerra do Vietnam ganha pelos americanos, a corrida armamentista estancada e a cessação do [[lexico:n:nacionalismo:start|nacionalismo]] no Terceiro Mundo, ou então, um mundo com a guerra do Vietnam ganha pelos vietcongs, o [[lexico:f:fim:start|fim]] do nacionalismo no Terceiro Mundo, mas ainda com a corrida armamentista estancada). A futurologia, baseando-se nestas premissas, pretende duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Primeiramente, seu [[lexico:i:interesse:start|interesse]] é descobrir a quais alternativas os "fatos notáveis" do presente levarão. Em seguida, estando descobertas estas alternativas, a futurologia deseja — com o auxílio de grandes organizações (tais como governos, associações internacionais, ou mesmo entidades [[lexico:m:meio:start|meio]] mitológicas, do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] do "[[lexico:c:complexo:start|complexo]] industrial-militar") — escolher o futuro mais conveniente. Esta [[lexico:e:escolha:start|escolha]] é feita através de um [[lexico:p:processo:start|processo]] de feedforward : constrói-se o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] do presente, e manipulando-se este modelo tanto por técnicas matemáticas (como a [[lexico:t:teoria-dos-jogos:start|teoria dos jogos]] , ou as técnicas econométricas de [[lexico:p:projecao:start|projeção]]) quanto por técnicas "subjetivas" de avaliação, determinam-se as alternativas "futuras". Encontradas as alternativas, e escolhida a mais conveniente, procura-se descobrir que movimentos poderão levar à sua realização (isto é, que guerras devem [[lexico:s:ser:start|ser]] ganhas, ou que governos devem — e podem — ser mudados, para que se chegue ao futuro desejado) . Este resumo, que explica o que foi feito no livro de Kahn e Wiener, mostra como a futurologia [[lexico:n:nao:start|não]] "prevê" o futuro, limitando-se a avaliá-lo como o conjunto dos muitos "possíveis" em face do [[lexico:a:atual:start|atual]] presente, e procurando atingir, dos "possíveis", o mais conveniente. Ao mesmo tempo, quando a consideramos em sua produção, a futurologia talvez se mostre mais incapaz de previsões que outras tentativas menos "científicas" (e uma das análises notáveis de [[lexico:s:spengler:start|Spengler]] — cuja [[lexico:i:influencia:start|influência]] sobre os autores do Ano 2000 é óbvia, por [[lexico:s:sinal:start|sinal]] — está no [[lexico:u:ultimo:start|último]] capítulo da [[lexico:d:decadencia-do-ocidente:start|Decadência do Ocidente]], onde é visto o surgimento da "nova" [[lexico:f:figura:start|figura]] de [[lexico:h:homem:start|homem]], o engenheiro, "o [[lexico:s:sabio:start|sábio]] sacerdote da [[lexico:m:maquina:start|máquina]]" — ou seja, o tecnocrata! Spengler nos surpreende muitas vezes; no seu livro sobre a [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] ocidental, Spengler não só levanta os problemas de [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] ambiental — de poluição — que a [[lexico:t:tecnologia:start|tecnologia]] desenfreada provoca, como também prevê o [[lexico:u:uso:start|uso]] contra o Ocidente da tecnologia nas [[lexico:m:maos:start|mãos]] dos povos do Terceiro Mundo, que nela hão de descobrir horizontes muito mais amplos de aplicação que o Ocidente. Façamos [[lexico:a:agora:start|agora]] uma [[lexico:a:analise:start|análise]] das premissas nas quais se funda a futurologia. Os "processos notáveis" que ela pretende [[lexico:i:isolar:start|isolar]] são, essencialmente, ideologemas , ou seja — pelo menos, fatos que o "[[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]]" considera como "notáveis" — ou, mais radicalmente, consequências aparentes de processos "em profundidade". Exemplificando-se, ao estudar a guerra do Vietnam, o futurólogo, não se preocupa com suas [[lexico:o:origens:start|origens]] e [[lexico:m:motivos:start|motivos]], mas sim com o desenrolar-se do inter-jôgo de forças que se manifestam na guerra. Para o futurólogo, portanto, esta guerra será apenas a [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de operações que o exército americano, o vietnamita do sul, e o vietcong e os norte-vietnamitas executam; a guerra é vista, rigorosamente, como um [[lexico:j:jogo:start|jogo]] no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] dos jogos. Ora, embora esta [[lexico:v:visada:start|visada]] do processo possua eficácia a curto prazo, numa [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] mais distante ela, necessariamente, se mostrará falha. A guerra do Vietnam, enquanto [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] "profunda", pode ser encarada (a) como uma [[lexico:l:luta:start|luta]] de um [[lexico:p:povo:start|povo]] colonizado contra o colonizador; (b) como um conflito entre duas grandes potências visando ao domínio estratégico de certa [[lexico:a:area:start|área]], ou (c) como um choque entre duas [[lexico:i:ideologias:start|ideologias]] irreconciliáveis, o Ocidente e o Leste por exemplo. A [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do processo em profundidade, que o futurólogo não pretende atingir, tem a [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] de nos revelar o solo, a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do espírito do tempo dentro do qual vivemos. E pode, eventualmente, esclarecer os processos futuros que a futurologia classificará como o "imponderável" ou o "imprevisível". A futurologia, portanto, pretende ser eficaz. Mas [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] a eficácia? Um [[lexico:p:problema:start|problema]] pode ser solucionado eficazmente, stm ser efetivamente solucionado. Assim, a [[lexico:e:economia:start|economia]] se propôs a resolver o problema da escassez de recursos, e a solução "eficaz" proposta foi a tecnologia. Mas técnicas podem produzir alimentos mais baratos e roupa em maior [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] até um certo [[lexico:l:limite:start|limite]] — pois a [[lexico:t:terra:start|Terra]] é finita, e seus recursos são limitados. E, ao mesmo tempo, o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] incontrolado da tecnologia conduz inevitavelmente ao problema da poluição. A resposta "eficaz" se revela assim uma resposta fundamentalmente inadequada. Como a tecnologia — que é mais um [[lexico:o:outro:start|outro]] "notável processo" contemporâneo — é uma [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de fenômenos bastante complexos, a futurologia ao considerá-la, e não aos fenômenos que a geraram, passa por cima de problemas de radical importância. Esclareçamos. O que se costuma chamar "grandes conquistas científicas do século XX" — a conquista da Lua, foguetes e aviões, o laser, a pílula anticoncepcional, os alimentos sintéticos, as fibras artificiais como o tergal e o nycron —i são na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] conquistas meramente tecnológicas. A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] que funda estas conquistas ou ainda está se iniciando — como a química dos polímeros, que conduziu (?) ao tergal, ou a bioquímica homonal, que levou (?) à pilula —i ou é, decididamente, uma ciência de há dois séculos — como a [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] de Newton, que nos ajuda a mandar foguetes à Lua; [[lexico:e:einstein:start|Einstein]] [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com isso. Muito pelo contrário, em nosso século a ciência só tem passado por crises. Considerando-se a [[lexico:f:fisica:start|física]] e a [[lexico:m:matematica:start|matemática]] como ciências "já estabelecidas", pode-se facilmente observar como desde fins do século já se delineavam das grandes dificuldades que a física e a matemática de hoje em dia enfrentam. Especificamente, tratam-se de dificuldades "fundamentais": a matemática deseja se ver "livre de contradições internas" — mas teoremas como o de Gödel restringem radicalmente tais pretensões. A física deseja [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da "[[lexico:m:materia:start|matéria]]", do "[[lexico:e:espaco:start|espaço]]" e do "tempo", mas nossa compreensão dos três só faz se tornar mais complexa e misteriosa sempre. Esta crise foi pressentida, curiosamente, por pensadores que observavam a ciência e a tecnologia a alguma distância, Spengler, [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], [[lexico:h:husserl:start|Husserl]]; e ela talvez se mostre o [[lexico:r:real:start|real]] espírito de nosso tempo. Mas a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] dela nada nos diz a futurologia. Há mais problemas, ainda, em torno da futurologia. Tais problemas envolvem as técnicas matemáticas das quais ela se serve. Por exemplo, projeções econométricas de índices envolvem, estruturalmente, uma faixa finita de imprevisibilidade mesmo que o [[lexico:e:erro:start|erro]] estatístico seja nulo. E técnicas como a teoria dos jogos possuem muitas restrições internas drásticas. A este respeito, remetemos o leitor às referências e aos verbetes relacionados. (Francisco Doria - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]) {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}