===== FÍSICO E PSÍQUICO ===== Assim como o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] [[lexico:g:grego|grego]] que "anda na confusão do mercado [[lexico:n:nao|não]] para vender ou comprar [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], mas sim para contemplar [[lexico:t:todo|todo]] o vaivém" ou como "ele anda por distantes países e tem [[lexico:r:relacoes|relações]] com povos estrangeiros não para realizar negócios mais ou menos importantes, mas sim com objetivos de [[lexico:e:estudo|estudo]]", da mesma [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:a:avenarius|Avenarius]] procura "fazer com que só as próprias [[lexico:c:coisas|coisas]] falem", assumindo (e [[lexico:e:esse|esse]] é o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] empiriocrítico) que "no [[lexico:e:espaco|espaço]] diante de nós, há sempre, por um lado, um [[lexico:a:ambiente|ambiente]] com múltiplos constituintes e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, indivíduos humanos que fazem múltiplas afirmações" e que "os constituintes do ambiente formam os pressupostos do que se afirma". O ambiente (que Avenarius designa com o [[lexico:s:simbolo|símbolo]] R) determina as expressões humanas (simbolizadas por E) através do [[lexico:s:sistema|sistema]] nervoso ([[lexico:d:designado|designado]] por C) do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] que se expressa e cujo sistema nervoso depende não apenas dos estímulos do ambiente, mas também do alimento que assimila (designado por S). A [[lexico:e:experiencia|experiência]] é [[lexico:r:reacao|reação]] vital contínua do [[lexico:o:organismo|organismo]] ao ambiente. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], observa Avenarius, são experiências autênticas tanto a do louco que diz experienciar que [[lexico:d:deus|Deus]] lhe ordena jogar-se pela janela como a do [[lexico:p:primitivo|primitivo]] que diz experienciar em [[lexico:s:sonho|sonho]] a visita a países distantes. Desse [[lexico:m:modo|modo]], a [[lexico:c:critica|crítica]] não se exerce sobre os dados do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:e:externo|externo]], e sim muito mais sobre os dados do [[lexico:c:comportamento|comportamento]] linguístico dos indivíduos. Escreve Avenarius: "Nós nos colocamos diante dos filósofos, de seus partidos e de suas controvérsias não diferentemente do que nos colocamos diante dos intercâmbios do mercado ou dos parlamentos". A crítica, portanto, se impõe como uma metafilosofia, onde o crítico da [[lexico:e:experiencia-pura|experiência pura]] (Kritizierendes Individuum) submete a [[lexico:a:analise|análise]] os produtos dos indivíduos que formulam afirmações (Aussagende Individuen). Na experiência pura, portanto, todo [[lexico:h:homem|homem]] se encontra diante de situações de [[lexico:f:fato|fato]], nas quais o que se tem verdadeiramente — e originariamente — é um ambiente e outros indivíduos humanos, ambiente e indivíduos ligados por vínculo "que não pode [[lexico:s:ser|ser]] dissolvido". O indivíduo e o ambiente não são duas realidades opostas: tanto uma como outra pertencem à mesma experiência, pois se tem a experiência do ambiente no mesmo sentido em que se tem a experiência de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e dos outros indivíduos. Assim, quando se diz que um [[lexico:e:eu|eu]] vê uma árvore, o que verdadeiramente se tem é que "o eu e a árvore, em iguais condições, são o conteúdo de um só e mesmo [[lexico:d:dado|dado]]. O eu e o ambiente estão absolutamente na mesma linha no que se refere ao seu ser dado". Essencialmente, o que o crítico descreve é a experiência de inter-ação entre ambiente e sistema nervoso do indivíduo, é [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] biológico cujos constituintes são os [[lexico:e:elementos|elementos]] (designados por expressões como "verde", "azul", "frio", "quente", "duro", "suave", "doce", "azedo" etc.) e as características (expressões de qualificação, como "agradável", "desagradável", "[[lexico:b:belo|belo]]", "feio", "benéfico", "antipático" etc). Podemos dizer que os elementos são descrições de sensações, ao passo que as características expressam as relações entre o eu e o ambiente, relações como o [[lexico:p:prazer|prazer]] e a [[lexico:d:dor|dor]], a mesmice e a [[lexico:a:alteridade|alteridade]], o familiar e o não-familiar, a segurança e a insegurança, o ser conhecido e o não ser conhecido, e assim por diante. E [[lexico:n:nada|nada]] mais existe para [[lexico:a:alem|além]] dos elementos e das características. Essa é a [[lexico:r:razao|razão]] por que Avenarius elimina a [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] entre o [[lexico:f:fisico|físico]] e o [[lexico:p:psiquico|psíquico]], que é contraposição derivada da dependência biológica do indivíduo ao ambiente, mas que não indica [[lexico:d:dualidade|dualidade]] [[lexico:r:real|real]] na experiência. Da mesma forma, não há [[lexico:d:distincao|distinção]] entre [[lexico:c:coisa|coisa]] e [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ou entre [[lexico:m:materia|matéria]] e [[lexico:e:espirito|espírito]]. E nem se dá a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de distinguir [[lexico:a:a-priori|a priori]], como faz [[lexico:k:kant|Kant]], um eu dotado de estruturas categoriais. Tudo o que a análise fisiológica nos permite [[lexico:v:ver|ver]] é um conjunto de estados, sempre mais complexos, do sistema nervoso central, que é tipificado pela [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] ao ambiente. Daí o [[lexico:p:principio|princípio]] da "[[lexico:e:economia|economia]] do pensamento" que, em Avenarius, parece assumir dupla acepção: por um lado, o pensamento é visto como fruto da adaptação progressiva dos indivíduos ao ambiente, fruto que tende a obter o máximo resultado com o mínimo [[lexico:e:esforco|esforço]]; por outro lado, a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] entendida como crítica da experiência pura assume o [[lexico:o:onus|ônus]] de purificar o ambiente cultural daqueles produtos do cérebro que são as diversas Weltanschauungen (cosmovisões, como a espiritualista e a materialista), fontes perenes de estéreis contraposições e disputas sem conclusão.