===== FILOSOFIA DO ESPÍRITO ===== Sentimo-nos tentados a acrescentar por nossa conta o subtítulo: ou o romance do [[lexico:e:espirito|espírito]]. E com [[lexico:e:efeito|efeito]], aquilo a que assistimos aqui [[lexico:n:nao|não]] é a sua mais prodigiosa aventura? Sabe-se que a manobra habitual da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], desde as [[lexico:o:origens|origens]] e enquanto permanece uma filosofia espiritualista, consiste em transferir, por uma inversão arrojada, a [[lexico:r:realidade|realidade]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] para o mundo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] e em derivar aquele deste [[lexico:u:ultimo|último]]. Só o espírito existe e subsiste na filosofia de [[lexico:h:hegel|Hegel]], mas assume nela um [[lexico:c:carater|caráter]] completamente novo e muito peculiar. Cumpre dizer em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] o que ele não é ou o que deixou de [[lexico:s:ser|ser]]. É tudo e é [[lexico:t:todo|todo]], mas não é nem a [[lexico:i:ideia|ideia]] platônica donde tudo procede por [[lexico:p:participacao|participação]], nem o motor imóvel de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], engendrando tudo que se move, nem o [[lexico:d:deus|Deus]] cristão criador. O que o novo [[lexico:s:sistema|sistema]] censura aos antigos é o [[lexico:f:fato|fato]] de serem estáticos e o que pretende substituir-lhes é um [[lexico:d:dinamismo|dinamismo]]. Destrói também a antiga [[lexico:d:dualidade|dualidade]] espírito-matéria e a dualidade mais recente que completava uma [[lexico:r:razao|razão]] especulativa impotente por uma [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]] demasiado poderosa. Tudo está dentro de um Espírito [[lexico:u:universal|universal]] [[lexico:u:uno|uno]]; tudo se origina do [[lexico:m:movimento|movimento]] desse Espírito em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e sobre si mesmo. "Conhece-te a ti [[lexico:p:proprio|próprio]]", dizia o oráculo de Delfos. Voltamos mais uma vez ao velho adagio, mas é para encontrar nele um [[lexico:s:sentido|sentido]] que se renova, talvez, de [[lexico:e:epoca|época]] em época. Isto já não quer dizer: conhece o teu caráter a [[lexico:f:fim|fim]] de corrigi-lo, conhece e mede as tuas possibilidades, mas sim, consoante uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] que aliás não era nova: Conhece o deus que vive em ti. Para Hegel, este Deus é o Espírito apreendendo-se a si mesmo em seu movimento, que o explica e o cria ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que lhe permite [[lexico:c:criar|criar]] tudo. É também ao pé da letra que se deve entender esta [[lexico:m:maxima|máxima]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]: "Conhecer a sua [[lexico:n:nocao|noção]]", escreve Hegel, "eis [[lexico:o:o-que-e|o que é]] próprio da [[lexico:n:natureza|natureza]] do espírito"; e ainda: "Todo [[lexico:a:ato|ato]] do espírito não é mais que uma [[lexico:p:percepcao|percepção]] de si mesmo. E o fim de toda [[lexico:c:ciencia|ciência]] verdadeira consiste em fazer com que o espírito se descubra a si mesmo em tudo o que enche o [[lexico:c:ceu|céu]] e a [[lexico:t:terra|Terra]]." Chegamos assim ao ser pelo conhecer, ou antes, o ser e o conhecer se confundem. E qual é o [[lexico:p:principio|princípio]] que faculta essa passagem? O movimento: "Pois o espírito é um ser que em sua simplicidade se diferencia de si mesmo... não existe em sua realidade senão pelas formas determinadas de suas manifestações necessárias... é um ser ligado interiormente ao [[lexico:c:corpo|corpo]] pela [[lexico:u:unidade|unidade]] da noção..." E mais adiante (desta vez [[lexico:f:fala|fala]] o comentador): "Existe assim uma noção ou ideia do espírito, e são esta ideia e os diversos momentos desta ideia que constituem a realidade do espíritoir." A filosofia hindu nos havia mostrado Brama, do fundo do [[lexico:a:abismo|abismo]] e do [[lexico:s:silencio|silêncio]], a produzir os [[lexico:m:mundos|mundos]] fenomenais, a recolhê-los em si e a produzi-los novamente, num fluxo perpétuo. Trata-se aqui de uma outra [[lexico:p:potencia|potência]], que é um todo e um total, única realidade, sua própria realidade que, [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, se engendra e se desenvolve. Existe um ser afirmado que é o ser [[lexico:l:logico|lógico]], um ser manifestado que é a natureza e um ser realizado que é o espírito: este ser é um só, apreendido em seus diversos momentos. E a cada etapa sobrevém nova subdivisão: "o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do espírito se processa", diz Hegel, "sob a [[lexico:f:forma|forma]] de urna [[lexico:r:relacao|relação]] consigo mesmo" — espírito [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]; "sob a forma da realidade, enquanto mundo que ele deve produzir e que produziu" — espírito [[lexico:o:objetivo|objetivo]]; "na unidade em si e para si, engendrando-se eternamente a si mesma, da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] do espírito e de sua [[lexico:i:idealidade|idealidade]] ou noção" — espírito [[lexico:a:absoluto|absoluto]] ls. Temos assim uma verdadeira cascata de tríades que descem até o [[lexico:n:numero|número]] de 27. Mas preste-se [[lexico:a:atencao|atenção]]: apesar das aparências, não existe aqui [[lexico:n:nada|nada]] de [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à [[lexico:p:processao|processão]] plotiniana, às emanações sucessivas que partem do Uno primordial. Este Uno — que é o Espírito — está presente em toda [[lexico:p:parte|parte]] e na sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]]; tratar-se-ía antes do seu desdobramento e da sua realização sob a sua forma suprema. Consideremos [[lexico:a:agora|agora]] — sob o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do [[lexico:m:metodo|método]] de [[lexico:i:investigacao|investigação]] — o espírito subjetivo. É primeiramente em si e [[lexico:i:imediato|imediato]], constituindo assim o [[lexico:o:objeto|objeto]] da [[lexico:a:antropologia|antropologia]], depois para si e mediatizado, sendo então objeto da fenomenología, e finalmente em si mesmo e [[lexico:s:sujeito|sujeito]] quanto a si: objeto da [[lexico:p:psicologia|psicologia]]. Haverá, diremos nós, uma [[lexico:a:alma|alma]] [[lexico:n:natural|natural]] ou [[lexico:a:alma-do-mundo|alma do mundo]], uma alma individual ou sensitiva, e uma alma [[lexico:r:real|real]]. Vamos mais longe, e muito mais fundo que por estas divisões e subdivisões, pelo exame da natureza dessa realidade. Esta natureza é espiritual, própria e unicamente espiritual, pois não existe realidade senão fora do espírito. Senão ouçamos o que diz Hegel da [[lexico:m:materia|matéria]] que, em certo sentido, é também espírito: "O espírito faz a [[lexico:v:verdade|verdade]] real da matéria, porque a matéria em si mesma é privada de toda verdade." A grande [[lexico:o:originalidade|originalidade]] de Hegel, porém, está no dinamismo, na [[lexico:e:especie|espécie]] de realidade que ele atribui ao Espírito — realidade, com efeito, de [[lexico:o:ordem|ordem]] puramente [[lexico:d:dinamica|dinâmica]]. Já não é mais o ser estável e [[lexico:t:transcendente|transcendente]], imutável na [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] que ele comunica sem se mover; é um ser que se produz, progride e se realiza pelo seu próprio movimento; é um ser que "se faz". Eis aí a derradeira [[lexico:p:palavra|palavra]] desta filosofia, o seu achado e a sua fraqueza. Deus, dirão depois de Hegel e segundo Hegel, Deus não existe mas "se faz". [[lexico:c:como-se|como se]] Deus, única potência primeira que faz, pudesse fazer-se sem previamente [[lexico:e:existir|existir]]! Todo movimento é [[lexico:n:negacao|negação]] ou comporta a negação, uma vez que é passagem do que é para o que não é. E eis-nos chegados a essa doutrina da negação, que teve ao depois uma [[lexico:s:sorte|sorte]] tão surpreendente. Mas a negação, aqui, não é apenas privativa ou [[lexico:m:mecanica|mecânica]]; é mais do que a mera constatação de um nada ou um [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:i:instrumento|instrumento]] lógico; tem um [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:p:positivo|positivo]] e mesmo criador. É o princípio do movimento, quando não o próprio movimento. Negar é agir: e pode-se agir sem criar algum ser? Negar é passar de um ser a um [[lexico:o:outro|outro]], ou pelo menos deixar algum lugar para outro ser; negar, em [[lexico:s:suma|suma]], é criar. É o que podemos verificar logo pelo seguinte [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: do [[lexico:e:eu|eu]] passamos ao [[lexico:n:nao-eu|não-Eu]], mas para alcançar o Ele do Espírito absoluto; a Ideia pura se nega pela natureza e torna a encontrar-se no Espírito; o Uno se nega pelo [[lexico:m:multiplo|múltiplo]] e se realiza na Unidade. É a [[lexico:t:trindade|trindade]] hegeliana, de que Elegei via um [[lexico:s:simbolo|símbolo]] na Trindade cristã: [[lexico:t:tese|tese]], [[lexico:a:antitese|antítese]], [[lexico:s:sintese|síntese]]; e isto, repetimo-lo, não é uma [[lexico:o:operacao|operação]] [[lexico:l:logica|lógica]], senão uma operação criadora. Não são apenas [[lexico:c:coisas|coisas]] que mudam ou se substituem umas às outras; é o próprio conteúdo que se desenvolve: "Vê-se... que a passagem da natureza ao espírito não é a passagem de um ser a outro ser que lhe seja completamente estranho, mas apenas o [[lexico:r:retorno|retorno]] sobre si mesmo do espírito que existe fora de si mesmo na natureza... ." A [[lexico:f:filosofia-do-espirito|Filosofia do Espírito]], enfim, não é mais que uma vasta reintegração no Espírito. Esta unidade na [[lexico:d:diversidade|diversidade]] e tirada da diversidade, esta [[lexico:i:identidade|identidade]] sob tantas operações ou aparências discriminativas, eis o fundo da poderosa e fantasmagórica doutrina hegeliana. O real é o Espírito, o Espírito é a Ideia ou o sistema de [[lexico:i:ideias|ideias]], essa [[lexico:s:substancia|substância]] sem a qual o [[lexico:u:universo|universo]] não seria mais que [[lexico:a:acidente|acidente]]. [[lexico:a:alem|Além]] disso, a própria Ideia se confunde com a sua noção, e este é o [[lexico:m:motivo|motivo]] por que o ser é [[lexico:i:identico|idêntico]] ao conhecer. Realizar-se em espírito é realizar-se em conhecimento, é instalar-se no próprio seio do Ser uno e universal. Tudo é espírito e tudo é o espírito, não só o mundo [[lexico:e:exterior|exterior]] mas os aspectos e os momentos sucessivos do mundo: temos aqui uma das concepções mais originais e mais perigosamente exploradas do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] hegeliano. O Espírito se inscreve não apenas no seu movimento e nas suas etapas, não apenas nos fenômenos, mas ainda no pensamento dos homens, nas suas instituições e no desenvolvimento da sua [[lexico:h:historia|história]], de [[lexico:m:modo|modo]] que esta história assinala, com a "[[lexico:s:sequencia|sequência]] dos impérios", a sequência do Espírito, e para apreendê-lo basta procurá-lo aí. Nessa sequência estão assinalados, com os seus progressos, os progressos da própria [[lexico:s:sociedade|sociedade]], e a [[lexico:c:cidade|cidade]] [[lexico:i:ideal|ideal]] derivará da sua idealidade última. É assim que se chegará ao "[[lexico:m:materialismo-historico|materialismo histórico]]", tão pouco consoante com o espírito do sistema e do fundador, que teria sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] repudiado tal descendente. Mas depois que se desencadeou o pensamento não se é mais senhor dele. [[lexico:b:bossuet|Bossuet]] via na história a [[lexico:p:providencia|Providência]] divina; Hegel vê nela o próprio Deus sob a forma do Espírito. Do mesmo modo ultrapassa [[lexico:k:kant|Kant]], que limitava a [[lexico:e:especulacao|especulação]] às fronteiras do mundo. Por ele o universal torna a entrar na especulação, se é que não constitui essa própria especulação.