===== FENOMENALIDADE ===== A [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] é a [[lexico:c:ciencia|ciência]] da [[lexico:e:essencia|essência]] dos fenômenos e essa essência é o que os torna possíveis como fenômenos. A [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] interior de um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], seja ele qual for, [[lexico:n:nao|não]] é outra senão sua fenomenalidade, ou seja, seu [[lexico:a:aparecer|aparecer]]. Devemos, portanto, distinguir rigorosamente o que aparece, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a mesa que está à minha frente, do que lhe permite que ela apareça. Esta [[lexico:q:questao|questão]] é estudada na [[lexico:e:estetica-transcendental|Estética Transcendental]] da [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]. [[lexico:k:kant|Kant]] mostra ali que o que permite a esta mesa aparecer para mim tal como me aparece é o [[lexico:e:espaco|espaço]] enquanto [[lexico:r:representacao|representação]] [[lexico:a:a-priori|a priori]], que serve de base para intuições externas. Para que um [[lexico:o:objeto|objeto]] espacial qualquer seja [[lexico:p:possivel|possível]], devo possuir a [[lexico:i:intuicao|intuição]] do espaço. O espaço é, portanto, a [[lexico:c:condicao|condição]] de possibilidade dos fenômenos. Para ampliar a questão, podemos estabelecer este [[lexico:p:principio|princípio]]: a condição de possibilidade de um fenômeno não é senão seu conteúdo [[lexico:p:particular|particular]], ou mais precisamente o que permite que ele se mostre, ou seja, sua [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] ou fenomenalidade. O objeto da fenomenologia não é, portanto, o objeto no [[lexico:s:sentido|sentido]] em que o entendemos de maneira comum, mas a maneira pelo qual ele se dá a nós. Esta [[lexico:d:definicao|definição]] fundamental é formulada nas famosas lições de 1905, dadas por [[lexico:h:husserl|Husserl]] em Göttingen, que renovam completamente a concepção do [[lexico:t:tempo|tempo]] na modernidade. Husserl mostra que o objeto [[lexico:p:proprio|próprio]] da fenomenologia são "os objetos no como", melhor, no como de sua dação para nós. Se considerar precisamente a [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]] da dação, o objeto, por exemplo, esta conferência, poderá [[lexico:s:ser|ser]] dada a mim no presente, aqui e [[lexico:a:agora|agora]], ou no passado, como será o caso daqui a pouco, ou mesmo no [[lexico:f:futuro|futuro]] como antecipais. Como aponta Husserl, "a [[lexico:f:forma|forma]] do como é a [[lexico:o:orientacao|orientação]]: o [[lexico:a:atual|atual]], o passado [[lexico:i:imediato|imediato]], o advindo". Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a dação ao passado, a doação ao presente, a doação ao futuro são temas de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] que devem ser identificados como tal. O que significa, por exemplo, uma dação ao futuro, seja ele qual for, seja a meu trajeto para a estação se [[lexico:e:eu|eu]] tiver que logo pegar o trem ou qualquer [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:p:projeto|projeto]]? Diria, portanto, que a fenomenologia não considera os objetos tanto em sua particularidade quanto no como de sua dação. É abrir um [[lexico:c:campo|campo]] [[lexico:i:infinito|infinito]] de pesquisa porque este objeto, digamos que esta sala de seminários com seus participantes, pode se dar aqui a mim em um como sempre novo: pode na na [[lexico:p:percepcao|percepção]] atual, mas também na [[lexico:i:imaginacao|imaginação]]. Pode mesmo se dar a mim conceitualmente: [[lexico:o:o-que-e|o que é]] um seminário de [[lexico:s:sociologia|sociologia]]? E assim por diante. Esses modos de dação são absolutamente fundamentais, eles são mais importantes do que aquilo que nos é [[lexico:d:dado|dado]] através deles. Levando adiante a [[lexico:a:analise|análise]], direi que o objeto da fenomenologia está localizado [[lexico:a:alem|além]] do objeto no como de sua dação, ou seja, além do [[lexico:m:modo|modo]] como ele se dá a mim, por exemplo, esta mesa aqui apresentada enquanto um objeto de percepção no espaço. Mais radicalmente, o objeto da fenomenologia consiste em não mais se ocupar dos objetos para tomar unicamente em consideração seus modos de dação enquanto eles são modos do que se pode denominar aparecer [[lexico:p:puro|puro]]. Independentemente de tudo o que aparece, há com [[lexico:e:efeito|efeito]] um aparecer puro que disto é a condição. O [[lexico:o:objetivo|objetivo]] da fenomenologia é, portanto, o modo de dação, ou seja, o modo de mostração, de manifestação, de [[lexico:r:revelacao|revelação]] - todos estes termos sendo equivalentes. Podemos dizer mais precisamente que o objeto da fenomenologia é a fenomenalidade enquanto [[lexico:p:processo|processo]], [[lexico:d:dito|dito]] de outro modo, a fenomenalização da fenomenalidade, quer dizer ainda a maneira pela qual a fenomenalidade pura se fenomenaliza, vem [[lexico:a:a-se|a se]] mostrar efetivamente. Mas então, se o objeto da fenomenologia é o modo de fenomenalização dos entes, esta questão permanece [[lexico:f:formal|formal]]. Enquanto só se [[lexico:f:fala|fala]] com efeito do modo de fenomenalização em [[lexico:g:geral|geral]], não se diz ainda em que consiste fenomenologicamente, em um aparecer [[lexico:e:efetivo|efetivo]], esta maneira de se fenomenalizar. E, no entanto, é isso que deve ser dito. Ora, se nos referirmos aos [[lexico:p:principios|princípios]] essenciais da fenomenologia como foram definidos por Husserl, vemos que [[lexico:e:esse|esse]] modo de fenomenalização da fenomenalidade, ou seja, a efetividade de um aparecer, permaneceu em uma total [[lexico:i:indeterminacao|indeterminação]], que atinge no [[lexico:c:coracao|coração]] os princípios e exige que essa fenomenologia seja levada mais adiante. [HENRY, Michel. Auto-donation. Entretiens et conférences. Paris: Prétentaine, 2002, p. 17-19]