===== FANATISMO ===== (in. Fanaticism; fr. Fanatisme, al. Fanatismus; it. Fanatismo). Esta [[lexico:p:palavra|palavra]] (de fanum = [[lexico:t:templo|templo]]) foi empregada a partir do séc. XVIII com o mesmo [[lexico:v:valor|valor]] de [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]] para indicar o [[lexico:e:estado|Estado]] de exaltação de [[lexico:q:quem|quem]] se crê possuído por [[lexico:d:deus|Deus]] e, portanto, imune ao [[lexico:e:erro|erro]] e ao [[lexico:m:mal|mal]]. No [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:m:moderno|moderno]] e contemporâneo, "fanatismo" acabou prevalecendo sobre "entusiasmo" para indicar a [[lexico:c:certeza|certeza]] de quem [[lexico:f:fala|fala]] em [[lexico:n:nome|nome]] de um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] e, portanto, pretende que suas [[lexico:p:palavras|palavras]] também sejam absolutas. Já Shaftesbury dizia: "E é [[lexico:e:esse|esse]] que dá [[lexico:o:origem|origem]] à [[lexico:d:denominacao|denominação]] fanatismo no [[lexico:s:sentido|sentido]] inicial, usado pelos antigos, de aparição que arrebata o [[lexico:e:espirito|espírito]]" (Letter on Enthusiasm, 7; trad. it., Garin, pp. 78-79)- Na [[lexico:v:verdade|verdade]], Cícero já fala de "filósofos supersticiosos e quase fanáticos" (De divin., 2, 57, 118). [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] chamava de fanática a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que atribui todos os fenômenos a Deus "imediatamente, por [[lexico:m:milagre|milagre]]" (Nouv. ess., Avant-propos, Op., ed. Erdmann, p. 204). Mas certamente a melhor [[lexico:d:definicao|definição]] filosófica do fanatismo foi dada por [[lexico:k:kant|Kant]]. No sentido mais [[lexico:g:geral|geral]], fanatismo "é uma transgressão, em nome de [[lexico:p:principios|princípios]], dos limites da [[lexico:r:razao|razão]] humana". Há, [[lexico:a:alem|além]] disso, o fanatismo [[lexico:m:moral|moral]], que é "o ultrapassar dos limites que a [[lexico:r:razao-pura|razão pura]] e prática impõe à [[lexico:h:humanidade|humanidade]], que impede de atribuir o [[lexico:m:motivo|motivo]] determinante e [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] das [[lexico:a:acoes|ações]] ditadas pelo [[lexico:d:dever|dever]], ou seja, o [[lexico:m:movel|móvel]] moral delas, em qualquer outra [[lexico:c:coisa|coisa]] que [[lexico:n:nao|não]] seja a própria [[lexico:l:lei|lei]]". O fanatismo moral consiste na pretensão de fazer o [[lexico:b:bem|Bem]] por inspiração, por entusiasmo, por um [[lexico:i:impulso|impulso]] benéfico da própria [[lexico:n:natureza|natureza]], portanto em substituir a [[lexico:v:virtude|virtude]], que é "a [[lexico:i:intencao|intenção]] moral em [[lexico:l:luta|luta]]", pela "pretensa [[lexico:s:santidade|santidade]] de quem acredita possuir perfeita pureza de intenções da [[lexico:v:vontade|vontade]]" (Crít. R. Prática, 1,1, 3). O fanatismo, nesse sentido, sempre foi [[lexico:o:objeto|objeto]] de polêmica na [[lexico:o:obra|obra]] de Kant, que identificou e combateu suas principais manifestações no [[lexico:e:esforco|esforço]] de determinar os limites dos poderes humanos e a [[lexico:v:validade|validade]] desses poderes nos seus limites. Num [[lexico:t:texto|texto]] de 1786, O que significa orientar-se no [[lexico:p:pensar|pensar]], Kant advertia contra a pretensão de [[lexico:s:superar|superar]] os limites da razão recorrendo a [[lexico:f:faculdades|faculdades]] ou poderes supostamente "superiores". Sua polêmica referia-se a [[lexico:j:jacobi|Jacobi]] e a [[lexico:m:mendelssohn|Mendelssohn]], mas ele via a mesma pretensão no [[lexico:s:spinozismo|spinozismo]], e, contra este e o fanatismo, reafirmava a exigência de determinar com [[lexico:p:precisao|precisão]] os limites da razão. Essas observações de Kant, para quem as considere hoje, parecem uma [[lexico:c:critica|crítica]] antecipada ao [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], que, nesse [[lexico:a:aspecto|aspecto]], foi o grande [[lexico:r:retorno|retorno]] ao spinozismo. Todavia, o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:h:hegel|Hegel]] falou de fanatismo, restringindo-o, porém, ao [[lexico:c:campo|campo]] [[lexico:p:politico|político]] e [[lexico:r:religioso|religioso]]. No campo político, "o fanatismo quer uma coisa abstrata, não uma organização": seu [[lexico:e:exemplo|exemplo]] é a [[lexico:r:revolucao|Revolução]] Francesa (Fil. do dir, § 5, Zusatz). No campo religioso, o fanatismo consiste em subordinar o Estado à [[lexico:r:religiao|religião]], de tal [[lexico:m:modo|modo]] que seu [[lexico:l:lema|lema]] é: "Aos religiosos não se imponha nenhuma lei" (Ibid., § 270, Zusatz). Mas Hegel não se dá conta de que a [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] do Estado, que ele teorizou, é um fanatismo. A palavra fanatismo conserva hoje o [[lexico:s:significado|significado]] de [[lexico:a:atitude|atitude]], [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista ou doutrina que, em qualquer campo ou domínio, despreze ou ignore as limitações humanas. Nossa [[lexico:e:epoca|época]] conheceu outra [[lexico:f:forma|forma]] de fanatismo mais sinistra: o fanatismo político, que, embora não sendo uma novidade do ponto de vista doutrinal, aboliu os limites humanos em [[lexico:p:politica|política]] e, consequentemente, exaltou ou divinizou certas concepções políticas e os indivíduos que as encarnavam. A própria palavra fanatismo, na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] de alguns movimentos políticos, perdeu a [[lexico:c:conotacao|conotação]] negativa que recebera desde a [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], passando a [[lexico:t:ter|ter]] o valor de [[lexico:f:fidelidade|fidelidade]] a toda [[lexico:p:prova|prova]], que ignora objeções ou limites. A [[lexico:e:experiencia|experiência]] mostrou que essa fidelidade é a mais frágil de todas e, na primeira oportunidade, transforma-se em seu contrário. Como já dizia Kant, a razoabilidade, com o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] dos limites que ela implica, é a única [[lexico:g:garantia|garantia]] de [[lexico:c:compromisso|compromisso]] [[lexico:a:autentico|autêntico]], seja ele [[lexico:t:teorico|teórico]] ou [[lexico:p:pratico|prático]]. A adesão extremada a uma [[lexico:o:opiniao|opinião]], em geral, religiosa ou política. — Foi o fanatismo que conduziu às guerras de Religião, à Inquisição, e que pode ainda hoje conduzir às guerras ideológicas. Seu princípio consiste em não considerar como seres humanos aqueles que são de outra religião, de [[lexico:o:outro|outro]] partido ou de outra [[lexico:i:ideologia|ideologia]]. O fanatismo religioso foi condenado pelo concílio das Igrejas cristãs de 1962, que estabeleceu o princípio da [[lexico:u:unidade|unidade]] do [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:h:humano|humano]]; o fanatismo ideológico foi condenado por Krutchev, que preconizou a [[lexico:c:coexistencia|coexistência]] pacífica entre as duas [[lexico:i:ideologias|ideologias]] (comunista e capitalista) que dividem o [[lexico:m:mundo|mundo]]. O contrário do fanatismo é a [[lexico:t:tolerancia|tolerância]]. O fanatismo, [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] humano [[lexico:u:universal|universal]], é, a grosso modo, inversamente proporcional à competência (fanatismo político), ao [[lexico:s:saber|saber]] e à [[lexico:c:cultura|cultura]] de um [[lexico:i:individuo|indivíduo]] ou de um [[lexico:p:povo|povo]]. Permanece ligado às paixões que podem suscitar, entre os indivíduos e os povos, diferenças de nível de [[lexico:v:vida|vida]], especialmente a miséria e o sub-desenvolvimento.