===== FAMÍLIA ===== (in. Family; fr. Famille, al. Familie; it. Famiglia) O pai, a mãe, os filhos. — Os primeiros teóricos da família, os estoicos, representam-na como a célula [[lexico:n:natural|natural]] da [[lexico:s:sociedade|sociedade]]. Os laços serão tanto mais fortes quanto forem biologicamente próximos, e, quanto mais numerosos forem, mais terão [[lexico:t:tendencia|tendência]] [[lexico:a:a-se|a se]] afrouxar. A [[lexico:p:psicologia|psicologia]] [[lexico:m:moderna|moderna]] confirmou esta [[lexico:v:visao|visão]] teórica: observou-se, pois, que, havendo mais de seis crianças numa família, a mãe [[lexico:n:nao|não]] pode mais dedicar-se a cada um de seus filhos, sentindo-se esses então, "frustrados" e [[lexico:m:mal|mal]] amados. Por conseguinte, denomina-se família, o conjunto de pessoas provenientes do mesmo [[lexico:s:sangue|sangue]] e da mesma [[lexico:r:raca|raça]]: [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:p:principio|princípio]] da família rege toda a sociedade de "clãs" tal como existia no [[lexico:t:tempo|tempo]] da família romana agnatícia e existindo ainda hoje em muitos países — notadamente na [[lexico:a:africa|África]] e nos Balcãs. A clã ou família grande compreende um conjunto de indivíduos consanguíneos que moram num determinado [[lexico:e:espaco|espaço]], sob a [[lexico:a:autoridade|autoridade]] de um patriarca. [[lexico:i:independente|independente]] de sua [[lexico:e:extensao|extensão]], a família constitui o núcleo de qualquer sociedade. A família, disse [[lexico:h:hegel|Hegel]], não é somente uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] natural [[lexico:v:vivente|vivente]]. Ela é uma [[lexico:e:essencia|essência]] espiritual. Mas cujo [[lexico:e:espirito|espírito]] é inteiramente constituído e constituinte assim como aquela da [[lexico:c:cidade|cidade]]. É o [[lexico:h:homem|homem]] que deu leis às cidades. A família é de essência religiosa e sua [[lexico:l:lei|lei]] é divina. Ela religa a [[lexico:n:natureza|natureza]], em [[lexico:p:particular|particular]] o [[lexico:e:elemento|elemento]] natural do homem, sua [[lexico:s:singularidade|singularidade]] [[lexico:c:contingente|contingente]], à universalidade de uma essência oculta. Esta universalidade é aquela do [[lexico:m:mundo|mundo]] daqui de baixo, onde o sangue e a raça têm seu [[lexico:a:arche|arche]], seu [[lexico:c:comeco|começo]] primordial que atualizam a cada vez os ritos (aqui aqueles da sepultura). A [[lexico:o:oposicao|oposição]] do [[lexico:h:humano|humano]] e do [[lexico:d:divino|divino]] é aquela de dois [[lexico:e:espiritos|espíritos]] divididos sobre o espírito, quer dizer tanto sobre o [[lexico:s:sentido|sentido]] do [[lexico:u:universal|universal]] e do [[lexico:s:singular|singular]] quanto sobre o [[lexico:m:movimento|movimento]] que os une. Coulanges (A cidade antiga, Anchor, 1956) afirma: “O [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:s:significado|significado]] de familia é [[lexico:p:propriedade|propriedade]]: designa o [[lexico:c:campo|campo]], a casa, dinheiro e [[lexico:e:escravos|escravos]]” (p. 107). Mas essa “propriedade” não é vista como vinculada à família; pelo contrário, “a família é vinculada ao [[lexico:l:lar|lar]], o lar é ligado ao solo” (p. 62). O importante é que “a [[lexico:f:fortuna|fortuna]] é imóvel como o lar e o túmulo aos quais está vinculada. O homem é que se vai” (p. 74). [ArendtCH, 8, Nota] Coulanges menciona uma [[lexico:o:observacao|observação]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] de que, nos tempos antigos, o [[lexico:f:filho|filho]] não podia [[lexico:s:ser|ser]] cidadão enquanto o pai estivesse vivo; quando este morria, somente o filho mais velho gozava de direitos políticos (A cidade antiga, Anchor, 1956, p. 228). Coulanges afirma que a plebs romana consistia originalmente de pessoas sem lar e que, portanto, era claramente distinta do populus Romanus (p. 229 ss.). [ArendtCH, 8, Nota] A [[lexico:e:expressao|expressão]] “o [[lexico:u:uso|uso]] dos corpos” (he tou somatos chresis) aparece no início de [[lexico:p:politica|Política]] (1254b 18) de Aristóteles, na [[lexico:p:parte|parte]] em que se define a natureza do [[lexico:e:escravo|escravo]]. Aristóteles acabara de afirmar que a cidade é composta de famílias ou casas (oikiai) e que a família, em sua [[lexico:f:forma|forma]] perfeita, é composta de escravos e homens livres (ek doulon kai eleutheron; os escravos são mencionados antes dos homens livres — 1253b 3-5). Três espécies de [[lexico:r:relacoes|relações]] definem a família: a [[lexico:r:relacao|relação]] despótica (despotike), entre o senhor (despotes) e os escravos; a relação matrimonial (gamike), entre marido e mulher; e a relação parental (technopoietike), entre o pai e os filhos (7-11). Aquela entre senhor e escravo, se não for a mais importante, pelo menos é a mais evidente, e isso é sugerido — [[lexico:a:alem|além]] de [[lexico:t:ter|ter]] sido a primeira a ser mencionada — pelo [[lexico:f:fato|fato]] de Aristóteles esclarecer que as duas últimas relações são “anônimas”, carecem de [[lexico:n:nome|nome]] [[lexico:p:proprio|próprio]] (o que parece implicar que os adjetivos gamike e technopoietike sejam apenas uma [[lexico:d:denominacao|denominação]] imprópria forjada por Aristóteles, enquanto todos sabem [[lexico:o:o-que-e|o que é]] uma relação “despótica”). [Agamben; AgambenUC:21] Aqui só nos interessa registrar o uso [[lexico:l:logico|lógico]] e metodológico desse [[lexico:c:conceito|conceito]], que é recentíssimo. Uma "família de [[lexico:c:conceitos|conceitos]]" é um conjunto de conceitos entre os quais se estabelecem relações diversas que não sejam redutíveis a um só conceito ou princípio. É precisamente o que ocorre entre os membros de uma família humana, os quais nem sempre têm uma única propriedade comum, e, mesmo quando têm, ela não resume nem esgota toda a [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] familiar. O uso dessa [[lexico:n:nocao|noção]] implica, portanto, o [[lexico:e:esforco|esforço]] de procurar sempre novas relações entre os conceitos, sem que seja [[lexico:n:necessario|necessário]] reduzir essas relações a um só [[lexico:t:tipo|tipo]]. O primeiro a propor e a empregar essa noção foi [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]] (Philosophical Investigations, § 110). Essa [[lexico:o:obra|obra]] foi publicada em 1953, mas alguns anos antes seus conceitos fundamentais já eram conhecidos; o conceito de família foi utilizado por Weismann em Introdução ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]] matemático (Einführung in das mathematische Denken, 1936; trad. it., 1939). Cf. sobre o mesmo conceito: [[lexico:a:abbagnano|Abbagnano]], Possibilita e liberta, 1956, passim.