===== EXPERTO ===== VIDE gr. [[lexico:a:aisthesis|aisthesis]] Ora é neste prolongamento e nas diversas tentativas para dar resposta à [[lexico:q:questao|questão]] emergente «[[lexico:o:o-que-e|o que é]] então a [[lexico:j:justica|justiça]]» (ou a [[lexico:c:coragem|coragem]], ou a [[lexico:t:temperanca|temperança]], etc.) que o [[lexico:p:problema|problema]] simultaneamente se adensa e se complica. É que, na [[lexico:v:verdade|verdade]], tal prolongamento permitirá mostrar que a [[lexico:f:facticidade|facticidade]] da [[lexico:e:excelencia|excelência]] é uma facticidade assaz paradoxal: paradoxal, por um lado, porque, dando-se muito embora como um facto, [[lexico:n:nao|não]] parece justamente muito fácil indicar «fatos» de excelência, uma vez que dela não se disponibilizam instâncias perfeitas e acabadas. Mas mais paradoxal ainda, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, porque não se disponibiliza sequer aquela [[lexico:i:instancia|instância]] muito [[lexico:p:particular|particular]] de excelência em que ela se esclarece, qual é o [[lexico:e:enunciado|enunciado]] que a própria questão «o que é» procura . E é aqui que propriamente se coloca o problema e a [[lexico:a:aporia|aporia]] do [[lexico:s:saber|saber]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], se é [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] do saber a sua [[lexico:e:expressao|expressão]] discursiva, estranha--se que aqueles que sabem a excelência, pelo menos como um facto, não a saibam dizer; mas, principalmente, se a excelência é na verdade um factum da [[lexico:e:experiencia|experiência]], estranha-se muito mais que em nenhum facto concretamente atestável ela se possa experimentar completamente. É esta evidente insuficiência da experiência comum que conduz [[lexico:s:socrates|Sócrates]] a dirigir-se à experiência de outro [[lexico:m:modo|modo]] e num [[lexico:s:sentido|sentido]] diverso; em [[lexico:c:concreto|concreto]], a dirigir-se à experiência dos experimentados. Tal não radica apenas, no entanto, num [[lexico:s:suposto|suposto]] falhanço prévio de outras pesquisas, mais diretas e ingênuas, de que eventualmente não sobraria [[lexico:t:testemunho|testemunho]]; tal deve-se, pelo contrário, a uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] radical da própria excelência. Com efeito, a excelência tem esta [[lexico:c:caracteristica|característica]] particular, em [[lexico:r:relacao|relação]] a outros possíveis [[lexico:t:topicos|tópicos]] de [[lexico:d:discussao|discussão]], de se instanciar empiricamente não em puros «objetos» de experiência (se se permite o [[lexico:a:anacronismo|anacronismo]]), mas necessariamente em «sujeitos» de experiência . Neste sentido, o [[lexico:c:campo|campo]] de experiência [[lexico:p:possivel|possível]] da excelência coincide necessariamente, pela mesma [[lexico:r:razao|razão]], com o campo dos «experimentados»; e daí que Sócrates recorra imediatamente, nos [[lexico:d:dialogos|diálogos]], à [[lexico:i:investigacao|investigação]] junto destes, procurando saber a coragem junto dos corajosos (Laques e Nícias), a temperança junto do temperante ([[lexico:c:carmides|Cármides]]), a [[lexico:p:piedade|piedade]] junto do piedoso (Êutifron), o saber e a excelência junto dos sábios e mestres da excelência ([[lexico:p:protagoras|Protágoras]], [[lexico:g:gorgias|Górgias]], [[lexico:h:hipias|Hípias]], Eutidemo e Dionosodoro), a [[lexico:a:amizade|amizade]], enfim, junto dos amigos (Lísis e Menexeno), porque é neles que, alegadamente, a excelência se dá a experimentar. Não há nenhuma [[lexico:i:ironia|ironia]], cremos nós, neste recurso: a ironia está toda, ao que parece, nos seus resultados. Ora tal recurso constitui a [[lexico:j:justificacao|justificação]] da segunda exigência fundamental da [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]], i. e., a exigência de que o [[lexico:i:interlocutor|interlocutor]] participe já, de algum modo, do que se busca saber: pois que tal [[lexico:p:participacao|participação]] é desde logo a [[lexico:c:condicao|condição]] prévia de um eventual [[lexico:s:sucesso|sucesso]], qual é a de partir da experiência, i. e., no caso, dos «experimentados». Afigura-se por este [[lexico:m:motivo|motivo]] perfeitamente legítimo, de uma [[lexico:p:parte|parte]], alargar as referências expressas de Sócrates a esta exigência (no Cármides e no Lísis) a todos os diálogos socráticos e, de outra, tomar o contacto privilegiado de Sócrates com alegados corajosos, piedosos ou sábios como um corresponder à mesma exigência: pois que, nas duas situações, se trata de uma idêntica [[lexico:o:obediencia|obediência]] ao [[lexico:p:primado|primado]] da experiência. Mas mais do que isso: as últimas reflexões permitem-nos simultaneamente [[lexico:e:explicar|explicar]] por que razão aquela exigência só surge explicitada precisamente naqueles dois diálogos: porque nos restantes Sócrates lida já com reconhecidos casos das excelências, expressão pela qual devemos entender a [[lexico:c:consciencia|consciência]] que de si mesmos tais sujeitos possuem e o modo pelo qual, merecida ou imerecidamente, ganharam notoriedade pública. [MesquitaPlatão:50-52]