===== EXISTÊNCIA E REALIDADE ===== Na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] abstrata, o que constitui a dificuldade da [[lexico:e:existencia:start|existência]] e do existente, longe de [[lexico:s:ser:start|ser]] esclarecido, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] jamais se manifesta; justamente porque o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] é sub specie aeterni, realiza-se na [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] do [[lexico:c:concreto:start|concreto]], [[lexico:t:temporal:start|temporal]], do [[lexico:d:devir:start|devir]] da existência, da [[lexico:a:angustia:start|angústia]] do [[lexico:h:homem:start|homem]], situado na existência por um encontro do temporal e do [[lexico:e:eterno:start|eterno]]. Se quisermos [[lexico:a:agora:start|agora]] admitir que o pensamento abstrato é o [[lexico:s:superior:start|superior]], seguir-se-á que a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e os pensadores abandonam orgulhosamente a existência e deixam-nos para nós, homens, apenas o pior de suportar. Ocorre porém algo ao [[lexico:p:proprio:start|próprio]] pensador abstrato, pois sendo no final de tudo ele também um homem existente, [[lexico:n:nao:start|não]] pode deixar de se [[lexico:t:ter:start|ter]] distraído de alguma [[lexico:f:forma:start|forma]]. Interrogar a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] abstratamente (mesmo quando fosse correto proceder assim, porque o [[lexico:p:particular:start|particular]] e [[lexico:f:fortuito:start|fortuito]] formam [[lexico:p:parte:start|parte]] da realidade e são opostos à abstração) e responder abstratamente a tais perguntas, é muito menos difícil que precisar o que significa o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que um certo algo seja uma realidade. O pensamento abstrato, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], faz abstração desse algo, mas a dificuldade consiste precisamente em fazer a [[lexico:s:sintese:start|síntese]] desse algo e da [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] do [[lexico:p:pensar:start|pensar]], em querer pensar essa síntese. O pensamento abstrato não se pode ocupar de tal [[lexico:c:contradicao:start|contradição]], porque justamente ela perturba. O impedimento do pensamento abstrato manifesta-se precisamente nos problemas existenciais, onde a abstração escamoteia a dificuldade e a deixa de lado; a seguir, vangloria-se de tudo [[lexico:e:explicar:start|explicar]]. Explica até a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]], e, atentai para isto, tudo vai muito [[lexico:b:bem:start|Bem]] enquanto a imortalidade se faz idêntica à [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], essa eternidade que é essencialmente a [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] do pensamento. Quanto a [[lexico:s:saber:start|saber]] se um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] existente é imortal, onde justamente está a dificuldade, o pensamento abstrato não se ocupa disso. Ele é desinteressado, mas a dificuldade da existência consiste no [[lexico:i:interesse:start|interesse]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]] que comunica à existência [[lexico:q:quem:start|quem]] existe. O pensar abstrato ajuda-me, pois, a obter a imortalidade enquanto me suprime como indivíduo isolado, e imediatamente me faz imortal. Vem ajudar-me aproximadamente como fazia o Doutor de Holberg, o qual com seus remédios tirava a [[lexico:v:vida:start|vida]] ao paciente — mas também suprimia a febre. Se consideramos, pois, um pensador abstrato que não quer esclarecer-se e confessar-se a si próprio qual é o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] do pensamento abstrato a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do fato de que ele é um homem que existe, não podemos deixar de sentir, seja ele o quanto famoso se queira, uma [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] cômica, porque está prestes a não ser um homem. Enquanto que um [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] homem, síntese de [[lexico:f:finito:start|finito]] e infinito, tem justamente sua realidade na manutenção dessa síntese e tem um interesse infinito na existência, o [[lexico:s:suposto:start|suposto]] pensador abstrato é, pelo contrário, um ser duplo: por um lado um ser [[lexico:f:fantastico:start|fantástico]] que vive na pura abstração, e por [[lexico:o:outro:start|outro]] talvez uma triste [[lexico:f:figura:start|figura]] de docente que deixa a um lado aquele ser abstrato, [[lexico:c:como-se:start|como se]] deixa a bengala a um canto. Quando se lê a biografia de um tal homem (porque seus escritos podem ser dignos de [[lexico:a:atencao:start|atenção]]), sentimos às vezes um calafrio ao pensar o que, no entanto, é ser um homem (1). (...) Pensar abstratamente a existência e sub specie aeterni significa suprimi-la essencialmente, e é [[lexico:a:analogo:start|análogo]] ao [[lexico:m:merito:start|mérito]] proclamado a som de trombeta que consistiu em suprimir o [[lexico:p:principio-de-contradicao:start|princípio de contradição]]. A existência não pode ser pensada sem [[lexico:m:movimento:start|movimento]], e o movimento não pode ser pensado sub specie aeterni. Deixar de lado o movimento não é prcisamente uma saída magistral, e introduzi-lo como passagem na [[lexico:l:logica:start|lógica]], e com ele o [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e o [[lexico:e:espaco:start|espaço]], [[lexico:n:nada:start|nada]] mais faz que produzir uma nova confusão. Evidentemente, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que [[lexico:t:todo:start|todo]] pensamento é eterno, coloca-se uma dificuldade para o existente. Acontece com a existência o mesmo que com o movimento: é muito difícil qualquer trato com ela. Se os penso, já os aboli, e já não os penso. Assim poderia parecer correto dizer que há uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que não se deixa pensar: a existência. Mas então subsiste a dificuldade de que pelo fato de que quem pensa existe, a existência é posta ao mesmo tempo que o pensamento. (...) Na medida em que a existência é movimento, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que haja, no entanto, algo de [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] que unifique o movimento, sem o que, não haveria efetivamente movimento. Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que dizer que tudo é verdadeiro significa que nada o é, dizer que tudo está em movimento significa que não há movimento (2). O imutável pertence ao movimento como seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]] e sua medida (ambos no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de [[lexico:t:telos:start|telos]] e de metron), sem o que afirmar que tudo está em movimento, se se quiser também suprimir o tempo e dizer que tudo está sempre em movimento, equivale eo ipso a afirmar a imobilidade. É por [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:m:motivo:start|motivo]] que [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], que de tantos modos fazia reaparecer o movimento, diz que [[lexico:d:deus:start|Deus]], ele mesmo imutável, faz tudo mover-se. Enquanto o pensamento [[lexico:p:puro:start|puro]] suprime agora, sem mais, o movimento ou o introduz de maneira absurda na lógica, para o homem existente a dificuldade consiste em dar à existência a continuidade sem a qual tudo só pode passar e desaparecer. Uma continuidade abstrata não é continuidade, e a existência do existente perturba essencialmente a continuidade ao passo que a [[lexico:p:paixao:start|paixão]] é a continuidade momentânea que, ao mesmo tempo, retém e provoca a [[lexico:i:impulsao:start|impulsão]] do movimento. Para um homem existente, a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] e a "[[lexico:r:repeticao:start|repetição]]" são o [[lexico:f:fim:start|fim]] do movimento. O eterno é a continuidade do movimento, porém uma eternidade abstrata reside fora do movimento, e uma eternidade concreta no existente é o máximo da paixão. Toda paixão idealizadora (3) é, com efeito, uma [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] do eterno na existência para aquele que realmente existe (4); obtemos a eternidade da abstração quando nos afastamos da existência; um homem existente não pode chegar ao pensamento puro a não ser por um [[lexico:c:comeco:start|começo]] duvidoso, o qual, ademais, vinga-se pelo fato de que a existência desse homem faz-se insignificante e seus discursos um tanto tresloucados. Assim acontece, em nossa [[lexico:e:epoca:start|época]], com a maioria dos homens, entre os quais se ouve tão poucas vezes alguém [[lexico:f:falar:start|falar]] como se fosse [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de ser um homem individual existente. Quase todo o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] vaticina panteísticamente falando de milhões de homens, de [[lexico:e:estado:start|Estado]] e do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] mundial da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]. Para um homem existente, porém, a antecipação apaixonada do eterno não é a continuidade absoluta, mas a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de acercar-se à única verdade que há para um homem existente. Por aí, volta-se de novo a minha [[lexico:t:tese:start|tese]] de que a [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] é a verdade, porque a verdade objetiva equivale para um homem existente à eternidade da abstração. A abstração é desinteressada, mas a existência é o supremo interesse daquele que existe. Porque o homem que existe tem sempre um telos do qual [[lexico:f:fala:start|fala]] Aristóteles quando diz ([[lexico:d:de-anima:start|De anima]], III, 10), que o [[lexico:n:nous:start|noûs]] theoretikos é diferente do noûs praktikos to telei (v. [[lexico:p:praktike:start|praktike]]). (...) (Ausfsluttende uvidenskabelig Efterskrift, parte II, seção II, cap. III, § 1.) (1) E quando pouco depois lemos em seus escritos: o pensar e o ser são [[lexico:u:uno:start|uno]], pensamos ao refletir em sua vida e em sua existência: o ser com o qual o pensamento é [[lexico:i:identico:start|idêntico]], sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] não é o ser [[lexico:h:humano:start|humano]]. (2) É o que evidentemente queria dizer aquele discípulo de [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]], que dizia que não se podia atravessar uma vez o mesmo rio. Johannes de Silentio (em Temor e estremecimento) fez uma alusão à declaração deste discípulo, porém de maneira mais [[lexico:r:retorica:start|retórica]] que verdadeira. (3) A paixão terrena perturba a existência na medida em que a transforma em algo momentâneo. (4) Tem-se qualificado a [[lexico:p:poesia:start|poesia]] e a [[lexico:a:arte:start|arte]] como antecipação do eterno. Se os quisermos [[lexico:n:nomear:start|nomear]] assim, ter-se-á que observar que a poesia e a arte não têm [[lexico:r:relacao:start|relação]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] com um homem existente, porque a [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] da poesia e da arte, "a [[lexico:a:alegria:start|alegria]] do [[lexico:b:belo:start|belo]]", é desinteressada e o contemplador encontra-se [[lexico:e:exterior:start|exterior]] a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] enquanto ser existente. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}